O processo de mixagem de uma música é muito particular, tendo cada Engenheiro sua fórmula, seu método. Então vou falar um pouco sobre o meu processo de mixagem.
Ao receber uma música, multitrack, meu primeiro passo é ouvi-lo da mesma forma que meus clientes durante o processo de gravação, para captar as idéias e sensações que tiveram até chegar ali. Durante a gravação,com certeza, muitas idéias foram inseridas na sessão e é fundamental que eu as conheça para entender a linha de raciocínio que meu cliente tem para aquele track.
O próximo passo é discutir com o meu cliente, arranjador, artista ou produtor, o que tenho em mente para aquela mixagem e saber se ele concorda com a linha que vou seguir. Normalmente começo pensando no espaço ou “salas” que aquela canção vai esta inserida, se ela terá uma característica seca, numa pequena sala, num grande galpão ou qualquer outra sensação espacial que eu imagine para atingir a sonoridade esperada para o track. É nesse momento que crio as salas ” reverbs” que usarei na música. Normalmente uso no máximo 2 ou 3 reverbs em cada mixagem.
Se a música tem uma instrumentação pop tradicional, com bateria, baixo, percussão, guitarra, teclados, sopros, vozes e etc.. Gosto de começar minha mix pela bateria. Penso nesse instrumento como um único e não como várias peças separadas. Para isso devemos usar nossa memória auditiva que contém tudo o que já ouvimos daquele instrumento. Nesse primeiro momento estou mais preocupado com os timbres do que com o equilíbrio e já começo a inseri-lo nas salas” reverbs” que criei no inicio da mix.
Sigo para as percussões começando pelos instrumentos mais “graves” como surdos, congas e depois os instrumentos mais “agudos” como shakes e pandeirolas. Trato-os da mesma forma da bateria, timbrando, dando a profundidade desejada com o uso das salas “reverbs” e depois colocando num plano inicial em relação à bateria. Até esse momento, os planos e panoramas dos instrumentos são muito relativos com relação à mix final, pois ainda falta muita informação a ser inserida na mix. Então eu me concentro muito mais nos timbres dos instrumentos.
O baixo é o próximo passo onde, depois de timbrá-lo, tenho como foco a gama de freqüências que correlacionam ele com o bumbo, trabalhando as freqüências dos 2 instrumentos para alcançar definição sonora entre eles.
Sigo para os próximos instrumentos, guitarra, teclados, sopros. A cada instrumento que vou adicionando à mixagem, normalmente volto para instrumentos anteriores, fazendo pequenos ajustes nos timbres e encontrando uma melhor relação deles com a mix. A partir disso, volto a atenção aos planos e panoramas e a mix começa a tomar forma.
A colocação da voz é um dos momentos mais importantes de uma mixagem pop. É nesse momento que realmente decido os planos e panoramas para que tudo esteja claro e a voz
esteja cumprindo seu papel.
Finalmente tenho a musica ” levantada”, como costumo dizer. Mas ela ainda está muito longe de estar finalizada, já que levo em torno de 3hrs para chegar até aqui.
Meu próximo passo é dividir a música em partes: Introdução, parte A, parte B, solo, especial, final, etc… Concentro-me em cada parte individualmente, fazendo as automações, os efeitos, os delays de cada parte. Ao meu ver, aí está a verdadeira arte de mixar, onde posso expressar minhas características, influências e experiências. Levo em média 4hrs nessa etapa e só depois ouço a música inteira, fazendo os ajustes finais na mix por mais 1hr em média.
Meu processo de mixagem dura em torno de 8 a 10 horas, mas já houveram casos de músicas que passei mais de 25hrs mixando e outros casos que em 4hrs eu já estava satisfeito com o resultado. Tudo pode ser muito relativo, o importante é criarmos o nosso processo e amadurecermos sua sistemática.
Boas mixagens a todos
“IN” ou “Out” the Box?
Uma das perguntas mais freqüentes que me fazem é sobre a diferença entre trabalhar com plug-ins ou com equipamentos outboards. É sempre uma resposta muito difícil, pois estou completamente adaptado aos dois mundos e acho que os dois tem suas vantagens e desvantagens. Realmente não importa o que se usa, mas sim a forma como se usa.
Quando estou mixando (in the box) tenho exatamente o mesmo raciocínio de quando estou mixando em uma console e trabalho exatamente da mesma forma nas duas situações. Nenhum estudio no mundo, por maior que seja, tem a quantidade de equipamentos que temos disponíveis em plug-ins numa mixagem digital, mas não é porque temos esse leque gigante de opções( plug-ins) que vamos usar tudo ao mesmo tempo.
Regularmente sou contactado por pessoas que pedem para que eu analise suas sessões de mixagem para dar sugestões de como melhorar seus trabalhos. O que vejo, na maioria das vezes, são sessões entupidas de plug-ins em todos os canais de uma maneira absurda. São centenas de Eqs, compressores, excitadores de harmônicos, reverbs, e outras coisas que nunca ouvi falar de milhares de marcas e modelos, as vezes fazendo com que um anule o outro e processe o som ao ponto de perder toda a sua característica, sem falar na dinâmica que já deixa de existir desde a mixagem. O conselho que sempre dou nessas situações é que devemos usar as ferramentas de forma inteligente e consciente para não ” destruirmos” um som que poderia ficar bom e nesse caso não importa se são IN ou Out the box, mas sim como são usados.
Quem sabe, sabe!!!
Nesta ultima semana estive na cidade de Basel na Suíça para mais um show com o artista Carlinhos Brown, o qual acompanho como tecnico de F.O.H desde 2006.
A apresentação aconteceu durante o Avo Festival, um festival de world music patrocinado pela marca de cigarros Avo. Nessa noite, noite da musica Brasileira, apresentaram-se os artistas Carlinhos Brown e Daniela Mercury representando a musica do nosso pais.
Basel fica a aproximadamente 150km de distancia de Zurique, onde desembarcamos e fomos de ônibus para esta pequena cidade com cerca de 170,000 habitantes.
No dia seguinte fomos cedo para o local do show, o Basel Music Hall, uma linda casa de espetáculos para 5000 pessoas com uma super estrutura. Elevadores de acesso ao palco, camarins, tratamento Acustico, área de Backstage e tudo mais que merece uma grande casa de shows. A empresa de som que nos atendeu foi a Clair Brothers com um sistema de som Line array Clair e duas consoles Yamaha PM5D-RH. O sistema de som estava perfeitamente montado e o atendimento da empresa foi simplesmente perfeito, eles sabem exatamente o que fazer e te dão as condições para vc desenvolver o seu melhor trabalho. O show teve inicio pontualmente as 20:00 com duração de exatas 1:15, o local lotado de pessoas ávidas por musica brasileira e uma energia inesquecível fizeram dessa apresentação um momento especial para toda a equipe.
O show foi transmitido pela TV para 3 países e logo após recebemos um DVD com o video da apresentação.
Segue o link do video da 1ª musica do show, algumas fotos e o rider de som do festival.
Quero provocar também a reflexão sobre como ainda precisamos evoluir para chegar ao nível de competência e profissionalismo dos nossos colegas Suíços. Muito mais do que equipamentos, eles tem educação para usa-los.
Rock in Rio, o que você ouviu em casa.
Na última edição do festival de musica Rock in Rio, realizado em setembro de 2011, na cidade do Rock / Rio de Janeiro, fui convidado pela artista Ivete Sangalo para mixar o áudio do seu show para a TV, que aconteceu na sexta-feira 30 de setembro, segunda semana de festival. Fui responsável pelos seus últimos DVDs, inclusive a gravação e mixagem do DVD no Madison Square Garden em Nova York e conheço muito bem seu show e seu estilo de música.
Na primeira semana foram 4 dias de show com 5 bandas por dia, em média, no palco principal. Assisti a todas as apresentações através do canal Multishow, algumas com o áudio excelente, outras com o áudio regular e algumas poucas, infelizmente, com o áudio abaixo da crítica, bem ruim mesmo, o que é espantoso em se tratando de um Rock in Rio. Li também, naquela semana, através da Internet, redes sociais e blogs de áudio profissional, críticas quanto à qualidade da mixagem transmitida para tevê. Preocupante? Não, em parte, principalmente porque eu não conhecia as condições técnicas que os profissionais estavam enfrentando para realizar o seu trabalho.
Na semana seguinte embarquei para o Rio de Janeiro e fui direto para a cidade do Rock, onde fui recebido pelo produtor artístico da Ivete, Alexandre Lins. Fomos direto para a unidade móvel de áudio onde estavam sendo feitas as mixagens para a TV. Lá fomos recebidos pelos profissionais da Rede Globo, Carlos Ronconi (diretor de áudio da emissora) e Manuel Tavares (técnico de mixagem da emissora) que foram muitos receptivos e nos mostraram como estava sendo feita a transmissão. Todos os artistas do Rock in Rio tiveram a permissão de levar um técnico independente para mixar seu show e, praticamente, a única exigência é que isso fosse feito a quatro mãos com um técnico de áudio da emissora. No meu caso, era o Manuel que conheço de longa data. Considero essa atitude de extrema importância, pois é esse profissional que tem o Know-how das transmissões da emissora, enquanto que o técnico da banda conhece as nuances musicais do show e outros detalhes não menos importantes. Para mim, nesse caso, foi um duplo prazer: poder trabalhar com profissionais que admiro, diretamente envolvidos com a emissora de TV e com artistas onde o nível de entrosamento do show em si, versus a técnica de Áudio, é perfeito desde longa data.
A Unidade Móvel de áudio era de propriedade da Rede Globo: um caminhão muito bem montado e confortável que tem como console de mixagem uma Digidesign D-Show com 96 inputs, Monitoração Genelec e Protools HD3 para Gravação em Multitrack.
Todo o áudio do palco Mundo era mixado nesse caminhão, que gerava um sinal em estéreo e outro em 5.1, ambos enviados para outras unidades de transmissão, como a do Multishow, a do Youtube, e o da própria Globo. A partir daí, as emissoras mixavam esse áudio ao sinal de áudio dos seus apresentadores e o que mais fosse necessário, para finalmente, os programas irem ao ar.
Durante a passagem de som, em conversa com o Manuel, ele me explicou que muitas bandas não estavam levando seus técnicos para a mixagem da transmissão e, muito pior, muitas bandas não autorizavam a mixagem em Multitrack para transmissão, enviando apenas um sinal estéreo da mixagem da mesa de FOH, o que explicava (eis aí um dos motivos, provavelmente, o principal…) por que o áudio de alguns shows que eu assisti na semana anterior estavam muito aquém da qualidade esperada.
A passagem de som teve duração de 1h:30min, suficientes para equalizar os instrumentos e preparar as salas (reverbs) em parceria com Manuel.
O primeiro show da noite foi da banda Jota Quest, que também levou seu técnico de mixagem. Eu fique no camarim assistindo ao show pela televisão e logo após o termino fui para a U.M de áudio. O show da Ivete teve inicio as 9h:40min e transcorreu sem problemas, recebi muitas mensagens de amigos elogiando o áudio e até dando sugestões para mixagem que estavam assistindo de casa, isso foi muito legal.
Legal também foi trabalhar ao lado do Manuel que demostrou uma grande experiência na mixagem de áudio para TV e me deu uma grande aula sobre o assunto, vou levar seus ensinamentos para o resto da vida.
Quero agradecer a toda a equipe da Globo pelo respeito e profissionalismo dedicados a mim. Vemo-nos no próximo.
Eu e o homem da maçã.
Eu tinha 12 anos de idade quando meu pai comprou o primeiro computador na minha casa. Era ele um Apple II que tinha a incrível memória de 64kb. Essa máquina foi posteriormente trocado por um Apple IIc que já vinha com o monitor de fósforo verde acoplado, alem do Drive de disket de 5 1/4 com capacidade para incríveis 180kb de memória. Desde então todos os meus computadores foram da Apple pois seguíamos atualizando suas versões.
Com a chegada dos PCs na minha adolescência, todos meus amigos tinha seus computadores rodando Windows mas eu continuava seguindo os produtos da Apple e nunca conseguia entender porque eles passavam tantas horas em frente ao computador formatando, configurando, resolvendo problemas, perdendo arquivos por vírus e tantas outras coisas que eu nunca tinha feito pois os meus Macintosh nunca haviam dado nenhum daqueles problemas. Era incrível como a cada 2 anos eu trocava minha máquina, ligava e usava sem me preocupar com defeitos ou invasões de vírus.
Falando em trocar a máquina, lembro da incrível sensação de tirar aqueles produtos da caixa, sempre tão bem feitas e perfeitas, embalados como se fossem uma Joia.
E foi assim que aprendi a admirar essa empresa e seu criador, Steve Jobs, que sempre me proporcionou muita alegria, inovação, confiança e respeito nos seus produtos.
Ontem, quando soube da sua morte, tive a sensação que havia perdido um amigo mesmo sem nunca o ter conhecido. Mas na verdade eu o conheci profundamente, conheci seus sonhos transformados em realidade através das suas criações que fizeram e fazem parte da minha vida. Meu respeito e admiração a um dos homens mais incríveis do meu tempo, que seu legado sirva de inspiração para a humanidade
Olá a todos.
Foi com muita honra que recebi o convite da revista Backstage para fazer parte do seu time de colaboradores no site.
Sempre acompanhei as edições desta que é a pioneira revista em Audio profissional no Brasil, sua edição digital e seu novo site com certeza trarão mais agilidade nas informações aos seus leitores.
Então, resolvi postar meu primeiro texto no blog apresentando-me aos leitores e me colocando à disposição para trocar informações através deste veículo único de comunicação.
Sou paulista, radicado na Bahia, tenho 37 anos e venho de uma família com total ligação com a música – Meu pai é pianista clássico. Meu interesse pela música veio desde criança, me levando a estudar diversos instrumentos e a cursar Composição e Regência e piano na Universidade Católica de Salvador – Bahia.
Paralelo à música, o áudio sempre esteve presente. Aos 14 anos comprei meu primeiro gravador, um Akai de 4 pistas em tape de 1/4 e dois anos depois um Tascam 8 pistas em tape de ½, que guardo até hoje com carinho. A partir daí não parei mais.
Fui para a Alemanha aos 20 anos, em 1994, a fim de estudar alemão e áudio e ingressei na SAE Audio Institute em Hamburgo, no curso de Gravação e mixagem. De volta ao Brasil, com mais alguns equipamentos que comprei por lá, comecei a fazer gravações, na sua maioria, para bandas de Rock e pop.
Sou viciado em equipamentos Vintage e ao longo dos anos, adquiri uma bela coleção de equipamentos como Prés API 512 serie b (raríssimos e incomparáveis), EQ API 550b, compressor 1176 Urei black 1972, um kit de prés, compressores, equalizadores Daking fabricados à mão pelo próprio Geoff Daking, um par de Avalon 737 customizados pela própria Avalon, além de vários gravadores de Tape de 1/4, 1/2 e 2 polegadas, microfones raros e muitos outros “brinquedinhos”.
Desde então, gravei e mixei grandes artistas como Ivete Sangalo, Carlinhos Brown, Claudia Leite, Netinho, Gilberto Gil, Rumpilezz, Timbalada, Harmonia do samba, Bebel Gilberto, Banda Eva, Tony Garrido e muitos outros.
Em 2011 tive a grande honra de receber 2 prêmios pelo “Prêmio de Áudio Brasileiro” nas categorias (melhor gravação do ano) com a gravação do DVD “Ivete Sangalo no Madon Square Garden” e (Melhor tecnico de mixagem), prêmio organizado por Otavio Brito e entregue durante o encontro da AES 2011, em São Paulo.
Nesse mesmo ano também tive a grande alegria de ser indicado ao Grammy na categoria “melhor engenharia de gravação” pelo trabalho no cd “Diminuto” do artista Carlinhos Brown. Apesar de já ter tido dezenas de trabalhos que participei indicados ao Grammy, essa categoria diz respeito direto ao trabalho do engenheiro de som e por isso valorizo essa indicação.
Paralelo ao estúdio, sempre trabalhei na estrada fazendo P.As e viajando com artistas pelo Brasil. Desde 2005 acompanho o artista Carlinhos Brown em suas turnês internacionais, experiência maravilhosa que me deu a oportunidade de trabalhar com grandes sistemas de som e garimpar equipamentos de áudio nos 6 continentes.
Bom, agora que já me apresentei, coloco-me à disposição de todos para discutirmos sobre este apaixonante assunto – O áudio!
Muito obrigado à Nelson pelo convite.
