Na postagem anterior, princípios básicos sobre a captação dos resultados sonoros dos instrumentos elétricos, amplificados em intensidade sonora por equipamentos externos às estruturas originais foram inicialmente abordados com base nas características dos baixos elétricos.
Nesta conversa, são abordados alguns princípios relacionados à captação da sonoridade da guitarra elétrica. Pela diversidade de parâmetros, referências, particularidades e especificações técnicas, e com base na evolução desse processo nas últimas décadas, iniciamos com uma contextualização histórica e primordial, para os mais fidedignos conceitos e mais elementares maneiras de reproduzir o som desse instrumento, com o uso de microfones.
Historicamente, nas décadas de 1950 (com os primeiros festivais de Rock’n’Roll realizados nos espaços categorizados como Drive-In) e até a segunda metade da década de 1960 (na qual a maioria dos eventos ocorria em locais fechados – como galpões, espaços comunitários e teatros), o processo de captação de som ocorria com os microfones sendo utilizados para as vozes, bateria, instrumentos não-eletrificados e eventualmente para o baixo elétrico. São raros os registros textuais ou por meio de imagens que descrevam/mostrem como isso ocorria.
Mesmo que empiricamente, a engenharia de som se desenvolvia com esforços e contribuições diversas. Músicos, produtores e técnicos trabalhavam de forma integrada – modificando e aprimorando equipamentos, realizando inúmeros testes, desenvolvendo métodos e formas para a melhor captação de áudio – na busca daquilo que temos hoje como os PAs contemporâneos.
Essencialmente, a amplificação de guitarras ocorria com o uso de amplificadores robustos (mesmo com algumas limitações daquele período) e caixas/gabinetes em arranjos múltiplos; de fato o som que saía das guitarras para os públicos era realizado apenas com essa combinação: guitarras ligadas nos amplificadores e caixas/gabinetes. Não havia qualquer outro recurso/periférico/equipamento nesse processo (com a exceção dos pedais de efeitos).
Apenas para os festivais abertos – e para plateias formadas por milhares de pessoas – havia uma necessidade pontual de captação com o uso de microfones. Interessante que empresas como a Marshall e Fender produziam amplificadores e caixas/gabinetes de forma seriada e com as especificações de “PA System” ou “Super PA”, inclusive com recomendações para vocais e bateria!
Mas, para continuarmos com essa contextualização a partir dos primórdios do Rock’n’Roll, nada como utilizarmos como referência um dos mais importantes e influentes guitarristas de todos os tempos: Charles Edward Anderson Berry, ou simplesmente, Chuck Berry.
Desde sua primeira gravação “Maybellene” (1955), passando por sua mais significativa e conhecida composição, “Johnny B. Goode” (1958) (ambas com Willie Dixon no baixo), Mr. Berry definiu a sonoridade da guitarra elétrica e influenciou gerações, de artistas e músicos contemporâneos, literalmente de A a Z (de AC/DC a ZZ Top, incluindo nessa imensa lista bandas tais como The Beatles, The Beach Boys, The Rolling Stones e The Yardbirds, entre algumas bandas essenciais).
Se Chuck Berry estabeleceu as nuances e atitudes que culminaram no que conhecemos como Rock’n’Roll, a sonoridade faz parte desse “pacote” de referências. Se inicialmente ele chegou a usar uma guitarra Kay Thin Twin, desde a sua primeira gravação, usando uma guitarra Gibson ES-350T com dois captadores “humbucking” P-90), e mais tarde as famosos guitarras Gibson ES-335 e ES-355 com dois captadores “humbucking” do modelo recém desenvolvido chamado de PAF (Patent Applied For). Mr. Berry também criou a mítica dos amplificadores Fender Dual Showman Reverb e caixa com dois alto-falantes JBL D130F de quinze polegadas. Com esse sistema, para Chuck Berry tocar Rock’n’Roll apenas eram necessários dois recursos (do amplificador): ganho e volume.
Chuck Berry também usou outros modelos, tais como o Fender Deluxe Reverb (cubo com alto-falantes Jenson de doze polegadas), Twin Reverb/Custom, Super Reverb and Dual Showman, Fender Bassman 135, Fender Band-Master Reverb, entre outros modelos de amplificadores/caixas da empresa estadunidense Fender, além de raras apresentações com amplificadores da empresa inglesa Marshall.
A partir de 1967, com a realização de uma temporada no Fillmore Auditorium (de junho a setembro, em São Francisco, Califórnia, EUA), registrada em imagens, é possível a identificação do uso de microfones para a captação dos sinais sonoros das guitarras de Chuck Berry.
São notórias as escolhas para os microfones dinâmicos – pela capacidade de suportar pressões sonoras – e particularmente para Mr. Chuck Berry, diferentes posicionamentos dos microfones; próximo ao centro do alto-falante, para um resultado mais forte e repleto de agudos, mas na maioria das imagens, mais próximo da borda e próximo à “porção central” do cone (entre a borda e o centro do alto-falante). Com isso, a sonoridade resulta em um som mais suave e com graves bem definidos.
Atualmente, Chuck Berry continua em plena atividade, participando de festivais e shows isolados, mas recentemente passou pelo Brasil – e em Curitiba – para aquela que foi intitulada a turnê de despedida dos palcos internacionais (de fato, ele anunciou em 2012 que não faria mais turnês internacionais). De forma a comprovar tudo isso que foi abordado neste texto, assisti ao show realizado no Teatro Positivo, no dia 12 de abril de 2013.
Sim, todos esses ingredientes estavam lá: a guitarra Gibson ES-335 “Cherry”; os amplificadores Fender Dual Showman Reverb (com uma caixa Fender Machete 412 – com quatro alto-falantes Celestion de doze polegadas) e Fender Bassman 135 (Silverface) ligado em uma caixa Fender Band Master – com dois alto-falantes JBL D130F, sinais captados por dois microfones Sennheiser e906 (já analisados aqui).
SHOW
Um ensaio de luxo… É assim que poderia ser classificado o espetáculo, tamanha a descontração e desenvoltura de Chuck Berry e a calorosa participação do público.
Numa produção simples, mas muito funcional, Chuck Berry e banda (formada por ele com seus filhos Ingrid Berry Clay nas harmônicas e vocais e Charles Berry Jr. na guitarra; Jim Marsala no baixo; Jean Michel Biger na bateria e Bob Lohr nos teclados) conduziram a apresentação com tranquilidade. Alguns pequenos problemas no início, principalmente na equalização dos vocais, foram rapidamente resolvidos.
Improvisos e brincadeiras mescladas a um repertório curto – apenas oito canções – mas com uma disposição para contagiar a maioria do público, que emocionada, aplaudia todos os momentos de um ícone, uma referência incomparável na História do Rock’n’Roll.
O que ainda dizer? Um privilégio único ter participado desse evento e aplaudido em pé, em todas as canções (não poderia ser diferente), como uma forma singela de agradecimento às contribuições de Mr. Chuck Berry à história de vida de muitas pessoas – músicos, musicistas ou apreciadores do Rock’n’Roll. Muito Obrigado, Chuck Berry!
Referências e sugestões para mais informações:
FENDER® GUITAR: ELECTRIC, ACOUSTIC AND BASS GUITARS, AMPLIFIERS AND PRO AUDIO. Amps (View All). Disponível em: <http://www.fender.com/amps>. Acesso em 31.ma1 2013.
HISTORY.COM. This Day in History: Chuck Berry records ‘Maybellene’. Disponível em: <http://www.history.com/this-day-in-history/chuck-berry-records-quotmaybellenequot>. Acesso em 31.mai 2013.
SENNHEISER USA. Evolution 900 Series- e 906. Disponível em: http://www.sennheiserusa.com/professional_wired-microphones_instrument-guitar-percussion_evolution-900_500202. Acesso em 31.mai 2013.






































