SWU – Sonorização ao vivo (a partir de um “mero detalhe”) – Parte 1

Este ano de 2011 pode ser considerado um marco na realização de produções únicas e diferenciadas, considerados os shows e festivais internacionais de música realizados no Brasil.

Como destaques: a “360º World Tour” do U2 (com shows de abertura realizados pela banda inglesa Muse); “Up and Coming Tour” do Sir Paul McCartney no Engenhão (Rio de Janeiro); o Rock In Rio ~2011 (na Cidade do Rock)(IMPERDÍVEL a cobertura completa e detalhada sobre o evento na Revista Backstage de dezembro!); e por último, o SWU realizado em Paulínia (SP).

Pois é justamente sobre este último que abordarei nas próximas postagens sobre sonorização ao vivo, pela repercussão que ainda causa, e por contemplar shows tão diversificados e complexos, pelas estruturas e detalhes técnicos necessários à captação de elementos acústicos (Chris Cornell), orquestrados (Peter Gabriel) ou realizados por bandas de Rock’n’Roll, mas com sonoridades bem “vintage” (especificamente o Lynyrd Skynyrd e BRMC).

Tive o privilégio de assistir aos shows dos dias 13 e 14 de novembro (citados no parágrafo anterior, além de outros inseridos no lineup do evento), os quais me permitem uma análise da produção e do resultado percebido pelo público, mas com o olhar do produtor (que no evento observa tudo – desde a posição das lixeiras, layout das estruturas até a dinâmica das filas para a compra de produtos diversos, entre outras dezenas de elementos).

Em shows, essa percepção do público para as qualidades e mesmo para os talentos dos músicos decorre de um processo visual e principalmente sonoro, que se inicia na captação dos instrumentos, voz e outros recursos (eletrônicos, inclusive) desde a sua fonte, no palco, até a transformação disso em sinais sonoros, trabalhados e amplificados. Quanto melhor for o dispositivo de captação do sinal original, mais fidedigno será o resultado percebido pelo público.

Destacarei um dos “detalhes” mais cruciais para a captação da sonoridade das bandas e dos artistas: o microfone.

Microfone

A escolha do tipo de microfone (em função das necessidades) pode parecer óbvia, mas as características construtivas e variáveis fazem com que o conhecimento dos microfones seja um processo contínuo de pesquisas, testes, avaliações e ajustes. Afinal, este conversor de sons em sinais elétricos (de fato, um transdutor) tem mais de 130 anos (criado pelo inventor alemão Emil Berliner em 1877 – o mesmo do gramofone – e aperfeiçoado pela Bell Telephone Company assim como pelo inventor britânico David Hughes).

Para a captação da voz para shows, de forma a reproduzir os timbres com o mínimo de ruídos a melhor opção é a utilização de microfones direcionais, com padrão de captação do tipo cardióides. O próprio nome já revela um aspecto desse microfone: o formato do padrão de captação (polaridade) é similar ao de um coração.

Para esses tipos de microfone – também conhecidos como unidirecionais – a principal característica está associada à sensibilidade de captação da fonte sonora com melhores resultados para o posicionamento frontal em relação à cápsula. À medida que a fonte sonora se afasta, ou muda de posição em relação à cápsula, ocorre a diminuição dessa sensibilidade a partir do eixo central. Como subtipos, existem ainda os microfones supercardióides – a sensibilidade diminuirá mais ainda com o afastamento da fonte sonora – e os hipercardióides – com sensibilidade ainda menor para o mesmo afastamento. É esta forma de captação que deve ser considerada no posicionamento de um microfone para a mais fidedigna reprodução do sinal original (de preferência, com ângulo próximo de 45º em relação à fonte sonora) quanto para evitar a microfonia pelo posicionamento das caixas de retorno (quando utilizadas).

Provavelmente, o mais conhecido microfone do tipo cardióide seja o SM57, lançado em 1965 pela empresa estadunidense Shure.

Particularmente para a captação da voz do Chris Cornell no show do SWU (no dia 13 de novembro), nota-se a utilização dos microfones cardióides da empresa japonesa Audio-Technica.

 

Figuras 1-3: Imagens do show do Chris Cornell (destaque para o microfone – tipo e posicionamento)

No portifolio da Audio-Technica destaca-se a linha Artist Elite (da qual faz parte o microfone destacado), sendo os microfones AE3300 e o AE5400 como os principais cardióides, com tecnologia de construção anti-vibração e baixo nível de ruído no manuseio, entre outros aspectos e detalhes técnicos (mais informações nas referências, abaixo).

 Figuras 4-7: Características e aspectos – AE3300 e AE5400

Outra característica construtiva do microfone está relacionada, além da diretividade, ao princípio de transdução. Vários são os tipos de microfones desenvolvidos com essas especificações. No caso dos microfones da Audio-Technica (AE 3300 e o AE 5400), são transdutores condensadores.

A principal característica desses microfones condensadores está relacionada à forma de alimentação desses dispositivos. Eles utilizam uma fonte de corrente contínua externa para “energizar” a cápsula de captação (em geral com 48V de tensão), conhecida como “corrente fantasma” (Phantom Power), proveniente de uma mesa de som através do próprio cabo de ligação (padrão XLR – ou balanceado). Como os diafragmas condensadores têm menos massa, o que exige menos energia para movê-los, os microfones condensadores são mais sensíveis do que os microfones dinâmicos e tem uma resposta muito boa a altas frequências. Para os vocalistas, isto significa um som mais natural, com melhor clareza e inteligibilidade.

Os microfones condensadores são recomendáveis também pelos resultados de resposta uniforme para diversas gamas de frequências e a capacidade para responder com clareza e inteligibilidade.

Cuidados e dicas

A preservação e conservação dos microfones passam por alguns cuidados básicos, necessários ao desempenho e durabilidade esperados (ainda mais para o investimento em produtos qualificados). Para testar a captação de um microfone (se ele “está ligado”), deve-se passar o dedo suavemente na parte superior, sem bater, assobiar ou soprar (afinal, a cápsula é muito sensível).

Também, é fundamental o conhecimento das especificações e orientações dos fabricantes. Com isso, pode-se inclusive identificar dispositivos substitutos ou similares que podem perfeitamente atender às necessidades do evento.

Naturalmente, a escolha de um microfone pode também ser uma exigência ou determinação especificada no Technical Rider (ou guia técnico de produção de um evento), documento fornecido pelas produtoras ou assessorias dos artistas para o atendimento de necessidades, requisitos e “solicitações” (das mais simples às mais extravagantes…).

Mais detalhes

Além do zelo na escolha do microfone, outro detalhe significativo está relacionado à escolha dos instrumentos musicais (que mereceriam uma série de tópicos…).

Na apresentação da “Songbook Solo Acoustic Tour” no SWU, Chris Cornell optou pela utilização de violões da fabricante estadunidense Martin (C. F. Martin & Company).

Mas o que chamou a atenção no SWU, não foi “apenas” a escolha de um Martin, mas uma edição especial, alinhada aos objetivos do evento. Como principal instrumento, um Martin OMC GTE Cherry: um instrumento construído a partir de madeiras sustentáveis – colhidas de florestas manejadas de forma sustentável e ecologicamente responsável. O fundo e as laterais são feitas de cerejeira sustentável e acabamento em verniz acetinado, e escala produzida em katalox (ou cumbeira). A captação utiliza um sistema de pré-amplificação da empresa estadunidense Fishman (modelo Presys Blend com afinador). Com esses aspectos, em nenhum momento o violão deixou de “soar como um Martin”!

 Figuras 8-10: Aspectos e detalhes do violão Martin OMC GTE Cherry

Show

Com esses atributos, o que dizer sobre o show? Mesmo com os atrasos provocados pela chuva, e alguns problemas na sonorização para o público – o “PA” (principalmente no início do show), Chris Cornell realizou uma apresentação memorável, com ótimas participações do guitarrista e produtor Alain Johannes, e um repertório impecável, com 12 músicas dos repertórios de bandas como Temple Of The Dog, Soundgarden e Audioslave, além de uma cover do Michael Jackson (“Billie Jean”), para a duração de aproximadamente uma hora de show com performance impressionante e energia contagiante – mesmo para um show “acústico”.

Mas nada seria possível sem a aplicação das tecnologias, por meio de conhecimento, técnica e recursos tecnológicos adequados e compatíveis com a necessidade empregada por esse tipo de show!

P.S.: Aproveito o momento para desejar um Feliz Natal a todos os leitores, com muita Paz, União e Luz e que 2012 seja próspero em oportunidades e realizações!!!

Abraços!!!

Referências e sugestões para mais informações

AUDIO-TECHNICA. Artist Elite®. Disponível em: http://www.audio-technica.com/cgi-bin/product_search/wired_mics/mics_by_line.pl?product_line=Microphones%3A+Artist+Elite.

C. F. MARTIN & COMPANY. OMCGTE Cherry. Disponível em: http://www.martinguitar.com/guitars/choosing/guitars.php?p=z&g=l&m=OMCGTE%20Cherry.

MACHADO, Renato Muchon. Som ao vivo – conceitos e aplicações básicas em sonorização. Rio de Janeiro: Editora H.Sheldon, 2001.

SHURE ®. Microphone Techniques (em inglês)(PDF). Disponível em: http://www.shure.com/idc/groups/public/documents/webcontent/us_pro_mics_for_music_sound_ea.pdf.

Faça-se a luz … nos eventos!!!

Cabe a nós, produtores e profissionais atuantes no fornecimento de serviços e soluções para eventos, a incessante pesquisa e busca de alternativas, com criatividade, otimização, coerência e sustentabilidade.

A evolução tecnológica e o desenvolvimento de diversas aplicabilidades para os recursos de iluminação que temos hoje tiveram sua gênese há mais de 500 anos, e muitas daquelas soluções ainda se aplicam aos nossos dias, com a manutenção do conceito original, mas com uma releitura contemporânea e contextualizada.

Nada como iniciar este blog com a abordagem de recursos elementares de iluminação cênica, com inspiração nos primórdios desta técnica (por que não, técnica artística?).

Atualmente, pesquisas históricas revelam que as primeiras “nuanças” de iluminação como recursos cênicos tiveram origem no Renascimento Italiano (século XVI). O arquiteto Sebastiano Serlio e o dramaturgo Leone Di Somi Portaleone publicaram os primeiros registros sobre a iluminação cênica, ainda que com a utilização de recursos precários (naquele período, já haviam experimentado lamparinas de cerâmica ou metal como recursos de iluminação).

Tochas ou velas (confeccionadas com sebo e gordura) fixadas em jarros, garrafas, garrafões e outros recipientes de vidro, com vinho ou água tingida, eram utilizados para provocarem efeitos, funcionando como prismas, difusores ou filtros para coloração da luz utilizada nas encenações teatrais. Como exemplo, Serlio ainda indicava os materiais a serem utilizados para as cores: vinho para o vermelho, açafrão (diluído em água) para o amarelo e cloreto de cobre (diluído em água) para o azul.

A dinâmica provocada pelo desenho de iluminação, primordialmente roteirizado naquele momento, já considerava o uso de candelabros para a plateia e para o palco. Ainda, considerava a interação dos atores com recursos de iluminação de forma isolada, na qual ocorria, quase que naturalmente, pela ação de acendimento das velas com a incursão nos cenários, o que também provocava diversos acidentes (queimaduras e incêndios).

Outros recursos, tais como espelhos, objetos e utensílios metálicos, para reflexão e dispersão, ou mesmo tecidos – como seda – também foram utilizados para a criação de texturas e a provocações de intenções com a iluminação.

Figuras 1-3: Recursos utilizados no Renascimento Italiano

No contexto atual, várias são as possibilidades e soluções para o uso de recursos translúcidos diversos (vidro, acrílico) ou decorativos (tecelagem com sisal ou barbantes, esteiras de bambus, entre outros), aliados às fontes de iluminação com variadas intensidades luminosas, de forma a valorizar elementos, cenários ou aspectos em determinados ambientes.

Figuras 4-6: Recursos contemporâneos

O uso de lâmpadas halógenas dicróicas de baixa tensão, ou ainda lâmpadas fluorescentes e lâmpadas LED, em substituição às lâmpadas incandescentes alimentadas com tensão de rede CA 110V/220V (por apresentarem baixa eficiência), também se configura em uma alternativa interessante, otimizada e sustentável.

Para estes recursos, algumas dicas importantes:

Iluminação com refletores e lâmpadas halógenas do tipo PAR 20 – transparentes – As lâmpadas do tipo PAR (Parabolic Alumized Reflector) apresentam foco definido e brilhante, utilizadas para iluminação dirigida e de destaque. A abertura do feixe de luz depende também dos tipos de bulbos e formato das lentes frontais (além das especificações das marcas). São encontradas em diversas potências que variam de 20W a 60W, e vida útil entre 2000 e 4000 horas. Também conhecidas como lâmpadas Halopar. Alimentadas em 110V/220V (base E27 – encaixe da lâmpada em forma de rosca) consomem menos que as incandescentes, mas economizam menos que as lâmpadas fluorescentes ou LED.

Iluminação com refletores e lâmpadas dicróicas Energy Saver (ES) - Potência de 35W (mas com intensidade similar à de uma lâmpada com 50W), intensidade luminosa constante durante toda a sua vida útil, que pode chegar a 5000 horas, Preferência para angulação de 10 graus (para uma menor abertura) ou até 60 graus (para maior espalhamento de luz). Este tipo de lâmpada é alimentada com 12V (e base do tipo GU5.3 – com pinos); sendo assim, requer o uso de transformador. Além da economia de energia elétrica (e consequentemente, potência), produz menos calor que uma dicróica comum.

- Iluminação com refletores e lâmpadas LED PAR 20 – As lâmpadas LEDs (abreviação do inglês Light-Emitting Diodes – ou Diodos Emissores de Luz) possuem potência de 2,2W a 3W, intensidade luminosa constante, vida útil que pode chegar a 30000 horas, e estão alinhadas às soluções sustentáveis, pelo baixo consumo de energia elétrica. São alimentadas em 110V/220V (base E27 – encaixe da lâmpada em forma de rosca).

Figuras 7-9: Tipos de lâmpadas

Alguns cuidados que devem ser considerados:

- Maximizar o uso dos pontos de alimentação de energia elétrica (tomadas), mas minimizar o uso de adaptadores e conectores (benjamins, “Ts”).

- Verificar as condições de isolamento e segurança para as ligações elétricas.

- Evitar a exposição de cabos e outras ligações aparentes, por questões estéticas, mas também para prevenir contra possíveis acidentes.

OBS.: É altamente recomendável evitar o contato com o bulbo das lâmpadas sem utilização de luvas, pois as impurezas e gordura da pele podem ocasionar diminuição da vida útil das lâmpadas. Caso isso ocorra, sugiro a limpeza e remoção desses elementos indesejados com um pano umedecido em álcool.

Este assunto não se encerra nesta postagem, assim como a evolução da iluminação cênica, que será explorada em outras postagens de forma a também contemplar outros elementos e recursos para a melhor familiarização dos conceitos e soluções em iluminação cênica.

Abraços!!!

Referências:

DORFMAN, Jeff. Theater_Lighting_Before_Electricity (PDF). Disponível em: http://www.iar.unicamp.br/lab/luz/ld/C%eanica/Hist%f3ria/

FELÍSSIMO, Adriana. Lâmpadas Halógenas. Disponível em: http://www.lumearquitetura.com.br/pdf/ed04/ed_04_Aula.pdf

GUERRINI, Délio Pereira. Iluminação – Teoria e Projeto. São Paulo: Editora Érica, 2007.

Italian Ranaissance Theatre Lighting Practice. Disponível em: http://www.compulite.com/stagelight/html/history-1/it-ren.html

VISINHESKI, Juliana. Tipo de Lâmpada: halógenas (Blog Chandelier). Disponível em http://chandelierlux.wordpress.com/2010/01/18/tipo-de-lampada-halogenas/