Iluminação cênica: enfim, a eletricidade!!!

Nas postagens anteriores, recursos de iluminação artificial foram abordados, com base naqueles utilizados mais intensamente no Renascimento Italiano, a partir do século XVI, e mesmo até o fim do século XIX e início do século XX, utilizando-se de elementos comburentes para a sua consolidação.

Entretanto, além dos acidentes, riscos e perigos que provocavam, limitavam-se na capacidade de controle, tanto para a intensidade como para as dinâmicas requeridas aos espetáculos teatrais.

Mesmo com os desenvolvimentos tecnológicos proporcionados pela iluminação à gás, a invenção da “Limelight” (luz de ribalta) e até a evolução conceitual da iluminação como recurso cênico, proporcionada pelo arquiteto veneziano Gian Battista Piranesi , ainda predominava uma limitação de recursos, em sua maioria estáticos, perigosos e visualmente restritos. A busca de alternativas menos perigosas e mais eficientes continuava.

Foi Sir Humphry Davy, renomado químico inglês, quem desenvolveu a primeira lâmpada totalmente elétrica em 1802. Sir Davy conectou uma bateria (inventada por Alessandro Volta, nove anos antes) a dois bastões de carvão (carbono) – sendo um deles com uma extremidade pontiaguda e o outro com uma cavidade na ponta -, que, uma vez eletricamente carregados, eram aproximados para uma distância que permitia a passagem de corrente elétrica gerando um ponto luminoso com alta intensidade, por efeito Joule (térmico). Mas esse dispositivo somente seria testado 35 anos mais tarde para a criação de um efeito de “nascer do sol” no espetáculo “Le Prophete” do compositor alemão Giacomo Meyerbeer no “Opéra National de Paris”, mas sem o mesmo impacto que as luzes da ribalta.

Figuras 1-2: Dispositivo similar ao criado por Sir Humphry Davy e o efeito de arco gerado.

A partir da metade do século XIX, Thomas Alva Edison – que já havia criado a primeira lâmpada incandescente em 1841, mas sem muitos resultados realmente eficazes – desenvolve ainda mais suas pesquisas para a produção de lâmpadas mais práticas do que as lâmpadas de arco, que eram ofuscantes, duravam pouco e produziam muito calor. Foi somente em 1879 que, a partir de vários experimentos, produziu uma lâmpada elétrica incandescente com filamento de fio de algodão carbonizado, alimentada por corrente contínua, que se tornaria a primeira a ser comercializável com resultados promissores, pois a maior durabilidade (mais de 42 horas ininterruptas), melhor intensidade e praticidade eram incomparáveis.

Figuras 3-4: Lâmpada elétrica incandescente e reprodução do experimento definitivo.

Entre 1878 e 1989 Henry Irving (Inglaterra) iniciou os prováveis primeiros ensaios de iluminação, com tecidos semitransparentes coloridos para luzes laterais e ribaltas e uso de lâmpadas incandescentes, além de recursos de sombras e penumbras com precários sistemas de dimerização.

Figura 5: Ilustração da produção de Henry Irving para Romeo e Julieta, Lyceum Theatre (Londres, 1882). Fonte: Société Française Shakespeare

Ainda em 1878, por ocasião da Exposição Universal de Paris (a terceira da História) lâmpadas de arco criadas pelo engenheiro elétrico russo Pavel Nikolayevich Yablochkov – sendo as “velas” fechadas em globos de vidro esmaltado, com quatro a doze velas em cada conectados em série – foram utilizadas pela primeira vez na iluminação pública para o acesso ao evento.

Figuras 6-7: Exposição Universal de Paris e lâmpada similar àquela de Yablochkov.

No ano seguinte, este mesmo dispositivo foi usado pela primeira vez com bulbo no Paris Hippodrome e dois anos depois o Savoy Theatre, na Inglaterra, sendo este o primeiro teatro totalmente iluminado com lâmpadas elétricas.

Figura 8: Ilustração do Interior do “Savoy Theatre” na encenação de “The Graphic” (1881). Fonte: Boise State University

Como a tecnologia se desenvolvia e avançava a um ritmo cada mais rápido, assim como desenvolvimento de equipamentos de iluminação mais eficazes, a evolução da iluminação cênica teve uma nova página com o desenvolvimento de outros dois recursos essenciais: dimmer e refletores, assuntos esse que serão abordados na próxima postagem.

 Abraços!!!

Referências e sugestões para mais informações:

ABOUT INVENTORS. Humphry Davy 1778-1829. Disponível em: http://inventors.about.com/od/dstartinventors/a/Humphry_Davy.htm

ANCIENT TECHNOLOGY & RARE HISTORY. Arc Furnaces: Ancient Electric Arc Furnace History and Photographs. Disponível em: http://einhornpress.com/default.aspx

BLOG DISNEY SHAWN. The Liberty Arcade. Disponível em: http://disneyshawn.blogspot.com/2011/06/liberty-arcade.html

BLOG MODERN MECHANIX. Electric Lamp Nearly Fifty Years Old (Jan, 1929). Disponível em: http://blog.modernmechanix.com/2010/01/13/electric-lamp-nearly-fifty-years-old/

BOISE STATE UNIVERSITY. The Savoy Theatre. Disponível em: http://math.boisestate.edu/gas/carte/savoy/index.html

Changeover to electricity. Disponível em: http://www.compulite.com/stagelight/html/history-5/19-elect.html

ELECTRICALFUN.COM. Lighting with Plasma. Disponível em: http://www.electricalfun.com/default.aspx

HISTOIRE-FR. La statue de la Liberté. Disponível em: http://www.histoire-fr.com/dossier_statue_liberte.htm

LIGHT ADVICE, DESIGN & REALIZATION. History of Light (Bulbs). Disponível em: http://www.ladr.nl/cmsms/index.php?page=history-of-light-bulbs

SOCIETE FRANÇAISE SHAKESPEARE. L’excès dans la représentation scénographique. Disponível em: http://www.societefrancaiseshakespeare.org/document.php?id=1060

SUPERINTERESSANTE. Thomas Edison, o gênio da lâmpada. Disponível em: http://super.abril.com.br/superarquivo/1988/conteudo_111446.shtml

WILD, Larry. A Brief Outline of the History of Stage Lighting. Disponível em: http://www3.northern.edu/wild/LiteDes/ldhist.htm