Atirei no que vi, acertei no que não vi

A igreja a qual pertenço tinha um problema sério de inteligibilidade. Tomamos algumas medidas para melhorar o desempenho acústico da sala, dentre elas a diminuição do volume no palco. Prá isso, a banda passou a usar fones de ouvido e uma bateria eletrônica Roland TD-12 KX.

Logicamente, antes de comprarmos a bateria, passamos um período relativamente grande tentando convencer os quatro bateristas da igreja da necessidade da medida. Templo pequeno, primeira fila muito próxima ao palco, pessoas idosas no salão, volume exagerado etc, foram alguns dos argumentos que usamos. Por fim, eles se convenceram que precisavam abrir mão de algumas coisas em favor das pessoas que freqüentam a congregação.

Com esta nova realidade, passamos a tentar dar aos bateristas o maior conforto possível com o novo instrumento, mas houve algumas dificuldades:

  1. O módulo da TD-12 KX tem apenas as saídas L & R e dois direct outs.
  2. No primeiro momento, usamos apenas as saídas L & R e sentimos (nós, os operadores de som) muita dificuldade para controlar a dinâmica do instrumento. Havia momentos que era necessário aumentar ou diminuir determinada peça da bateria e não tínhamos como fazer isso.
  3. Seguindo a idéia de um dos bateristas, passamos a endereçar as peças da bateria em quatro canais, usando o L & R e os dois direct outs. Fizemos assim: bumbo no L, caixa no R, tons no direct out 1 e pratos no direct out 2. Ficou bem mais fácil de mixar.

Temos trabalhado desta forma há mais de um ano e conseguido um bom resultado. No entanto, sempre queremos mais, não é verdade? Passei a sentir falta de um controle maior da dinâmica do chimbau, que está endereçado juntamente com os outros pratos no direct out 2. Então, tentei o seguinte:

  1. Pedi a um dos bateras, que endereçasse o chimbau para a mesma saída do bumbo (saída L do módulo).
  2. Na entrada da mesa (uma console Roland V-Mixer M-400), enderecei o sinal vindo do L do módulo da TD-12 (bumbo/chimbau) para dois canais. No primeiro, usei um filtro passa-baixa com corte em 1 kHz para o bumbo, e no segundo, usei um filtro passa-alta com corte também em 1 kHz para o chimbau. A idéia era retirar, com os filtros, o chimbau do canal do bumbo e o bumbo do canal do chimbau, mas deu chabú.

Consegui retirar do canal do bumbo o som do chimbau, mas no canal do chimbau, o kick do bumbo vinha com toda a força. Tentei filtrar o sinal usando um EQ paramétrico, mas não tive sucesso. O kick continuava lá. Desisti da idéia e pedi ao batera que voltasse a configuração do módulo à situação anterior, com o chimbau endereçado à mesma saída dos outros pratos.

Eu já vinha sentido outra necessidade em relação ao bumbo, que era conseguir uma definição melhor do instrumento. No nosso sistema, os sinais são direcionados à caixa de subgrave via auxiliar. Configuramos o auxiliar do sub para operação pós-fader e endereçamos o bumbo prá ele. Só que para conseguir uma definição bacana, precisávamos aumentar muito o volume do bumbo no PA para escutar o kick. Mesmo diminuindo o volume do bumbo no subgrave, ainda assim, o instrumento incomodava.

Foi aí que outra idéia me ocorreu meio sem querer. Aproveitei o endereçamento que já havia feito na tentativa de criar um canal independente para o chimbau e fiz um canal exclusivo para o kick. Baixei um pouco o corte do filtro passa-alta para 800 Hz e o kick ficou limpo. Aumentando os dois canais simultaneamente, consegui o peso que todos gostamos de ouvir no bumbo e a definição cristalina do kick.

Certamente vocês vão se perguntar: por que ele não fez isso na equalização? Eu tentei, mas a sonoridade sempre soava um pouco artificial. Montar o setup desta forma, me deu mais liberdade na hora de mixar o bumbo, me permitindo conseguir mais kick ou mais punch, de acordo com a necessidade ou gosto.

Vou tentar fazer a mesma coisa com o baixo e ver como fica. Depois comento com vocês o resultado.

[]’s

Quem gosta de mixar levanta a mão!!!

Eu também gosto, mas será que as pessoas gostam do som que nós mixamos? Será que a banda para quem mixamos também gosta do som que fazemos? Estas são perguntas válidas, porque, a despeito do que muitos pensam, os músicos são a razão da nossa existência. Se não houvesse música nos cultos, não haveria necessidade de operadores de som, concordam?

Então, preparem-se para a primeira lição de uma boa mixagem: respeitem os músicos com quem vocês estão trabalhando, ouçam suas opiniões e, se puderem, sigam-nas. Caso não seja possível segui-las, digam a eles educadamente o porquê da impossibilidade.

A segunda coisa a se compreender é que mixagem ao vivo difere da mixagem em estúdio. É preciso entender (e aceitar), que o som de uma mixagem ao vivo, por melhor que seja, nunca será igual ao som de um CD/DVD. Numa mixagem em estúdio, você trabalha com os sons já captados, aplicando os processamentos necessários individualmente, depois juntando tudo e corrigindo o que for necessário com todo o tempo do mundo à sua disposição. Já a mixagem ao vivo é viva, dinâmica, a gig está acontecendo, você não pode errar. Então, você precisa ir se adaptando a tudo em real time.

A terceira coisa necessária para que sua mixagem seja boa é entender o que os músicos estão fazendo. Para isso você precisará conhecer os instrumentos que estão sendo utilizados, a faixa de freqüência em que atuam, como soam em função do estilo de música, como se harmonizam uns com os outros. É preciso conhecer a “pegada” do músico, a forma como ele toca, como se expressa.

Se você não é músico, e quer entender o que a banda está fazendo, comece ouvindo diversos estilos de música. Dependendo do estilo, a captação e equalização dos instrumentos serão feitas de forma diferente. Ouça como cada instrumento soa, fique atento à dinâmica, observe os estilos, preste atenção nos detalhes, sinta as nuances.

Conhecer os equipamentos com os quais você vai trabalhar é o quarto princípio para a boa mixagem. Saiba exatamente o que cada componente do seu sistema pode fazer, por mais simples que ele seja. Habitue-se a ler os manuais, a participar de listas de discussão na internet, a ler material técnico, a estudar, a participar de congressos e workshops, a trocar idéias com outros técnicos e operadores. Não pense que você já sabe tudo, pois sempre haverá alguém com mais conhecimento que você.

Não sou o dono da verdade, mas o que compartilhei aqui foi o que aprendi ao longo dos anos observando pessoas muito melhores que eu fazendo o trabalho, e fazendo muito bem.

Então?! Ainda estão com a mão levantada?

[]‘s

 

A vida (do Áudio nas igrejas) como ela é… não… como eu gostaria que fosse.

É sempre uma tarefa fácil trabalhar com Áudio nas igrejas.

As lideranças, em geral, são compreensivas e entendem a importância de um sistema de acústica e áudio que realmente funcione e facilite a comunicação.

Entendem perfeitamente, que o camarada sentado lá no último banco, é o que precisa do melhor som.

Entendem, que o sistema de áudio adequado facilita o trabalho de música, que atrai pessoas… afinal, o trabalho de uma igreja é atrair pessoas.

Entendem também, que o “menino do som” precisa ser valorizado, capacitado e, por vezes, até remunerado.

Entendem, que não vivem sozinhos no mundo e que não perturbar os vizinhos da igreja com som alto é exemplo de cidadania, que não burlar as leis de controle de ruído é sua obrigação.

Entendem, que providenciar condições acústicas adequadas aos templos é demonstrar preocupação com o bem-estar daqueles que freqüentam os serviços religiosos.

Entendem, que estes assuntos são complexos e não podem ser tratados com simplismo.

Entendem, que entender é fundamental.

Por estas razões eu digo: é sempre uma tarefa fácil trabalhar com Áudio nas igrejas… ou não…

[]‘s

Ah… a mulher…

Tenho um grande amigo que é pastor de uma igreja. Quando assumiu o pastorado, a igreja já havia iniciado a construção de um novo templo. As paredes já estavam levantadas, o telhado de alumínio e o rebaixamento em PVC colocados, o piso de porcelanato assentado e as janelas de blindex instaladas. Lá pelas tantas, lembraram que a igreja precisaria de som e o meu amigo lembrou de mim:

- David, venha me fazer uma visita aqui na igreja porque tenho um abacaxi que você precisa me ajudar a descascar.

Fui até lá para ver o tamanho do abacaxi. Era uma jaca! Superfícies muito lisas, paredes pintadas de branco… pensei com meus botões: “bom, ainda dá prá fazer algum tipo de tratamento nas paredes laterais e no fundo…”.

Perguntei ao meu amigo pastor:

- Onde podemos mexer?

Ele:

- Já sei o que você está pensando! Não podemos mexer no piso nem no rebaixamento. Só nas paredes.

“Ok”, respondi. Marquei nova visita para dali a um mês. Passei este tempo pensando no que fazer, como poderia melhorar o rendimento acústico do lugar, que tipo de equipamento responderia bem ali…

Voltando ao templo no mês seguinte, o choque: haviam colocado azulejos em toda a volta do templo, com uma altura de um metro e meio. Perguntei ao “mui” amigo:

- Pastor! Porque vocês fizeram isso? Não havíamos combinado que faríamos o trabalho acústico nessas paredes? E agora?

Resposta:

- David, o que você vai fazer eu não sei. Só sei que eu não agüentava mais minha mulher dizendo que as crianças estavam colocando os pés nas paredes e sujando tudo. Ela deu a idéia de colocar os azulejos e eu coloquei.

Argh! Que mulher!

Sonoros abraços.

E aí, David? O som vai ficar bom?

Once upon a time… os responsáveis por uma Igreja me chamaram para ajudar com a resolução de problemas com a Acústica, pois estavam construindo o templo e precisavam de uma solução para o rebaixamento do teto. Olhei para cima e vi um telhado de alumínio reluzente.

Perguntei inocentemente:

- O que vocês pensam em fazer com relação ao rebaixamento do teto?

O responsável alegremente respondeu:

- Já contratamos a empresa que vai colocar o rebaixamento em gesso. Vai ficar muito bonito!

Sem entrar muito em detalhes, mandei outra:

- A empresa vai colocar algum tipo de revestimento sobre o gesso? Sabe… é que quando chover forte, vai fazer muito barulho aqui embaixo e vocês vão ter dificuldades em continuar o culto.

Preocupado, o responsável devolveu:

- Não pensamos nisso! Vamos providenciar já o orçamento.

Com o dia ganho por ter salvo uma igreja de problemas futuros, voltei prá casa tranqüilo e com a sensação do dever cumprido.

Dois meses depois recebo uma ligação do responsável pela igreja:

- David, venha até aqui ver como ficou o rebaixamento. Ficou muito bonito!

Chegando à igreja, vi aquele rebaixamento imponente, cheio de cúpulas, cantoneiras e de gesso bem lisinho… fiquei boquiaberto…

O responsável esperava ansiosamente meus comentários… então, perguntei:

- Vocês colocaram o material isolante que sugeri?

Um silêncio… dois silêncios…

… três silêncios depois, perguntei novamente:

- Colocaram?

A resposta veio num jorro de palavras rápido, que quase não compreendi:

- Ia endouf frehge teihgtwo 2 porihefto, ai nosie hfiamos?

Eu:

- Como? Pode repetir? Devagar?

Ele, num sussuro, disparou:

- Ia encarecer a obra em 2%, aí não fizemos.

Fiz um silêncio respeitoso. Depois de um longo minuto de silêncio gritante, não resistindo à curiosidade e querendo saber o que eu havia achado do rebaixamento, perguntou cheio de esperança:

- Bonito, né? E aí, David? O som vai ficar bom?

Respondi:

- Neoih, theigep eihgepaohgirindpwsj.

Sonoros abraços.