Latin Grammy 2008
Victpr Barroco

Shows inusitados marcam a primeira edição do Grammy co-produzido no país

Nada de salsa, merengue ou qualquer outro ritmo portenho. O Grammy Latino 2008 teve um tempero bastante diferente este ano: muito samba, rock, pop. E tudo Made in Brazil. O evento, que costumava ser realizado tradicionalmente nos Estados Unidos junto com nossos irmãos latinos, desta vez teve sua primeira edição no auditório do Ibirapuera, em São Paulo. “O Grammy Latino não é uma premiação nacional, ele visa se tornar uma plataforma de exposição internacional do melhor da música. No entanto, música brasileira está sempre três passos à frente do resto do mundo. É justo dar ao Brasil uma plataforma adicional”, disse Gabriel Albaroa Júnior, presidente há três anos da LARAS – Latin Academy of Recording Arts & Sciences – entidade que mantém o Grammy. Enfim, o país pôde mostrar a cara na premiação e apostar na diversidade da sua música com shows pra lá de inusitados. A curadoria foi do jornalista Nelson Motta, que infelizmente não acompanhou a premiação. “Estava em Belém, nem sei quem ganhou”, disse à Backstage.


 

Duetos inusitados
A abertura da festa ficou por conta de Andreas Kisser que, juntamente com os Meninos do Morumbi, tocou a trilha musical de apresentação da Companhia de Balé de Débora Colker. Em seguida foi a vez do guitarrista Robertinho do Recife tocar com Zé Ramalho “Tá tudo mudando” (versão de Zé para “Things have changed”, de Bob Dylan), misturando raízes da música nordestina com acordes de guitarra elétrica. Outro dueto que reuniu sambistas de duas gerações foi o de Marcelo D2, de 41 anos, com Nelson Sargento, de 84 anos, em “Dor de verdade” (Marcelo D2/Arlindo Cruz/Zeca Pagodinho). A roqueira Pitty se apresentou com o guitarrista Edgar Scandurra em “Não pare na pista”, de Raul Seixas. O ponto alto da noite foi o show da dupla sertaneja Chitãozinho e Xororó com o acordeonista gaúcho Renato Borghetti, que cantaram com uma roupagem nova o clássico “Brincar de ser feliz” (Maria Dapaz e Nino), emocionando a platéia. A bela Marina de la Riva e Pepeu Gomes interpretaram “Tin tin deo – o xote das meninas” (Zé Dantas/ Luiz Gonzaga /Chano Pozo), faixa do novo disco da cantora. De carona nos cinqüenta anos da Bossa Nova, o grupo de heavy-metal Sepultura tocou a seu gosto “Garota de Ipanema”, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes. Para encerrar, uma homenagem ao centenário de Carmem Miranda a ser comemorado em 2009: Sandy e Paula Toller cantaram “E o mundo não se acabou” (Assis Valente) e Daniela Mercury junto com Os Mutantes interpretou um clássico de Dorival Caymmi imortalizado pela pequena notável: “O que é que a baiana tem”. Outra grande homenageada da noite foi a cantora Astrud Gilberto, que recebeu prêmio especial por excelência musical.

Premiação surpresa

E quem pensa que o Grammy inovou só nas apresentações está enganado. O espaço reservado aos prêmios também teve suas surpresas. Umas delas foi o anúncio de uma música gospel como Melhor Canção Brasileira. Quem levou o gramofone foi a dupla Marco e Soraya Moraes com “Som da chuva”. “O prêmio é inquestionável, pois é ganho pelo voto de artistas, produtores e profissionais de música. Ele trouxe à tona também a música cristã, que hoje é uma das maiores forças culturais do Brasil, equivalendo ao samba, ao axé”, disse Soraya por e-mail. Outras surpresas foram algumas gafes cometidas pela troca dos envelopes com os nomes dos premiados. Beth Carvalho, por exemplo, foi anunciada como vencedora de Melhor Álbum de Pagode/Samba no lugar de Paulinho da Viola e Maria Rita, que empataram na categoria. Já Seu Jorge, que faturou prêmio de Melhor álbum de Música Popular Brasileira com “América Brasil – O Disco”, foi anunciado como vencedor de Melhor Álbum de Música Tradicional Regional ou de Raízes Brasileiras. O cantor nem concorria na categoria e quem, na verdade, tinha levado o prêmio foi a dupla Chitãozinho e Xororó (Confira todos os premiados no quadro). O mais estranho, na verdade, foi o fato de nenhum dos vencedores estar autorizado a subir ao palco para receber o prêmio. Especula-se que devido ao curto prazo em que as negociações ocorreram, a Band– emissora detentora dos direitos de transmissão e produção do evento - teria tido problemas em relação ao uso do símbolo da festa – o pequeno gramofone dourado. Os troféus acabaram não ficando prontos a tempo e tiveram de ser enviados para a casa dos ganhadores via correio pela própria Academia. Lia-se apenas o nome e uma pequena homenagem a eles. Os únicos a comemorar nos bastidores foram os grupos CPM22 e a dupla Chitãozinho e Xororó.

 
 

Patrocínio milionário
O evento teve investimento de cerca de U$1 milhão por parte da Band, que já veiculava a festa há pelo menos dois anos. Mas desta vez, a emissora resolveu trazê-la para o Brasil. Segundo o presidente do Grammy Latino, Gabriel Albaroa, os acordos foram muito delicados e detalhados. “Tivemos um processo de negociação dinâmico para começarmos em novembro e não esperar até o ano que vem. Poucas pessoas estiveram envolvidas e isto inclui representantes tanto do Brasil quanto dos Estados Unidos”, lembra Gabriel. A festa teve apresentação do jornalista Marcelo Tas (do programa CQC) e da modelo Daniela Cicarelli, com direção geral de Rogério Gallo. Ao mesmo tempo, o braço “portenho” da nona edição do Grammy Latino ocorria em Houston, nos Estados Unidos. As duas premiações foram transmitidas simultaneamente. O link com o Texas era transmitido através da apresentadora da Band Patrícia Maldonado, que fazia entradas pré-gravadas e não “ao vivo” como anunciado. A cerimônia teve início às 22h e contou com a presença de cerca de 800 convidados. A parceria entre a Band e a Academia Latina deve durar pelos próximos cinco anos.