Vida de Artista - Plumas & Pulgas
Luiz Carlos Sá

 

Por força dessas minhas aventurosas – e no mais das vezes privilegiadas – peregrinações por terras d’aquém e d’além mar, acabei chegando a uma conclusão essencial: o que importa mesmo é a hora do sono. Tendo um antes e um depois legal, não há como você fazer uma droga de show. Se você chega lá descansado e sai de lá sabendo que vai para um lugar decente, você fica de bom humor. E como nem os vermes do jardim desconhecem, o bom humor leva um artista a desempenhos acima do esperado, mesmo que ele seja um deprimido profissional e ganhe grana com uma cara de triste capaz de levar um carrasco medieval às lágrimas. Mas aqueles mesmos vermes do jardim também sabem que toda pluma tem seu dia de pulga.

Somos – eu e meus parceiros Rodrix e Guarabyra – animais eminentemente musicais, sempre a fim de tocar. Claro que vivemos disso, mas vivemos também por isso. Então, às vezes, topamos coisas que normalmente não toparíamos se estivéssemos em nosso juízo perfeito. Basta uma simpatia, um não-sei-quê por uma cidade ou pessoa e lá vamos nós no rumo certo de uma fria irreversível, uma vez assinado o contrato. E aí você tem que saber fazer o que o público espera que você faça, apesar dos contratempos.

Assim é que há pouquíssimo tempo eu me vi em uma certa cidade que chamaremos aqui de “Utópia”, eheheh... Nossa viagem para Utópia já foi uma peripécia por si só, daquele tipo avião-ônibus – ônibus-avião, tudo à la longo alcance, tipo, duas horas de avião para três de ônibus. Mas acontece que a viagem de ônibus para Utópia passava por paisagens absolutamente deslumbrantes: longas planícies espremidas entre serras azuis até culminar em cânions estreitos onde paramos, perplexos, para admirar a beleza dos picos. No fim de tudo, a cidade modesta e o hotel indescritível.

A “suíte” reservada para mim, embora espaçosa, dava de frente para a única e movimentada avenida da cidade, ponto de passagem para o que me pareceu a união de todos os caminhoneiros do mundo. Pude sentir isso na pele com mais precisão quando, às quatro da matina, eles ligaram em uníssono seus potentes motores diesel. O problema do diesel é que ele gasta pouco em marcha lenta, o que quer dizer que pode ficar ligado durante uma boa meia hora sem significar um prejuízo apreciável além da poluição. Foi ali que eu, saído de um show em praça pública, terminado depois das duas da manhã, fiquei pensando seriamente se não era melhor ter seguido os subversivos conselhos da minha mãe no sentido de virar um pacato servidor federal, contente com o salário bacana que o cargo diplomático me daria.

Acordei atarantado, abri a janela, dei uma espiada e calculei que a potência daqueles gigantes reunida poderia chegar a mais de 6000cv. Antes que o mau humor me tomasse de golpe, fixei-me na bela figura dos caminhões. De todas as cores, eles vibravam suas máquinas poluentes como se estivessem saindo para um destino predeterminado, sem consciência da própria brutalidade. E de repente, sem aviso, eles começaram a tomar seus rumos. Em menos de dez minutos, a avenida reassumia sua paz interiorana e eu podia voltar ao meu sono naquele quarto simplicíssimo, porém sincero...

Uma semana depois, deitado na cama king size com edredom e travesseiros de pluma de peito de ganso do melhor e mais luxuoso resort paulista eu ainda pensava na minha visão terrífica daquela janela de Utópia, o que fez com que eu me levantasse e chegasse até a ampla varanda da minha vasta suíte de sei lá quantos metros quadrados para descansar os olhos diante da pequena e encantadora baía que refletia, sem o menor remorso, um pôr-do-sol cinematográfico. As palmeiras da praia lutavam em minha cabeça contra os cromados dos caminhões da semana anterior e o carinho do povo na praça, que olhava devoto os esperados artistas lá em cima do palco coberto com uma lona comum. Dali a algumas horas eu me apresentaria diante de bem vestidos, bem formados, bem criados, pessoas distantes daquele outro Brasil onde eu estivera na semana anterior, naquele hotelzinho de beira de rua, de beira de estrada.

Então pensei como minha vida é privilegiada a ponto de me levar em um reduzido espaço de tempo a dois países em um só, tão violentamente antagônicos e tão igualmente prazerosos para mim. Sentir que posso superar a mesmice do popularesco (não confundam com “popular”...), que subestima a inteligência do povo e o seu desejo de progredir e melhorar faz de mim outra pessoa além e após, que aprende com esse povo a esquecer um quarto de hotel barulhento em prol do carinho expresso na primeira fila de rostos surpresos ou sorridentes com alguma revelação que possamos levar até eles, alguma opção diferente daquela que eles estão acostumados a ter que aceitar.

Ao mesmo tempo em que pensei nisso tudo, fiquei hipnotizado pelo último raio de sol que iluminava aquela praia maravilhosa e fui me deitar em meio aos lençóis macios e travesseiros mais ainda, protegido por um dossel de contos de fadas e iludido por aquela momentânea sensação de luxo.

Onde estarei na semana que vem? Nas plumas ou nas pulgas? Em qualquer delas estarei bem, se estiver tocando e cantando como sempre quis. É a vida, a vida de artista.