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Se você leu esta coluna na edição anterior, pode pular a introdução e ir direto ao texto. Caso não tenha lido, nos meses passados, falei sobre a “crise” cultural e educacional em nosso estado. Como já disse, os culpados são absolutamente todos os envolvidos com a produção cultural. Eu incluído... Vamos continuar a dissecar a culpa de cada uma das partes, sem rancores ou partidarismos...
Vou pedir praticamente o impossível: ao invés de se defender, ficar chateada ou ofendida, cada parte deveria analisar a sua parcela de culpa e ver se realmente está dando a sua contribuição para o desenvolvimento da cultura ou apenas vê a cultura como mais um mercado a ser explorado. O que tento fazer não é acusação e sim uma proposição à reflexão.
Como foi dito nos artigos anteriores, os culpados, sem ordem de importância e em ordem alfabética, são: os comerciantes de música, os contratantes, o Estado, a imprensa escrita, os músicos, o público, as rádios e a televisão. Se não esqueci ninguém, absolutamente todo mundo envolvido de alguma maneira com a música, incluindo eu.
Continuo vivo... Nos mês passado falamos como funciona o sistema do couvert artístico e o que podemos fazer para aumentar os ganhos (ou minimizar perdas). Em alguns casos, por mais que nos cerquemos de cuidados, podemos vir a nos deparar com má fé ou então extrema incompetência por parte do estabelecimento. Se realmente for um desses casos, por mais que você controle e fiscalize, sempre vai haver uma diferença significativa nas contas no final da noite. E isso significará uma dose de estresse muito alta que normalmente não vale a pena. Neste caso é melhor negociar um cachê fixo e deixar toda a renda da bilheteria ou couvert para a casa.
Esta forma também não é injusta, pois nesse caso a banda “aplica em renda fixa”, menos exposta a riscos, porém com uma rentabilidade menor. Já a casa passa a “apostar na bolsa”. Ela abre mão da “apólice de seguro” representada pelo couvert para obter um ganho maior. Dia ruim, prejuízo maior para a casa. Dia bom, lucro maior para a casa. Para o artista não muda nada, em termos financeiros, se o dia é ruim ou bom.
Ainda assim pode ser problemático. Seres humanos são especialistas em falar que não disseram o que disseram e vice-versa. Pode ser que uma casa comece com couvert e se estiver dando muito certo ela passe a querer pagar um fixo, pois vê que “a bolsa” está dando lucro. Se “a bolsa” cai, ela passa a querer pagar couvert de novo. O ser humano assumiu no século XXI o que sempre praticou, mas sempre negou: o capitalismo socialista. Os lucros são privados, mas o prejuízo socializado. Exatamente como aconteceu com os bancos nos EUA. Passaram décadas especulando e ganhando rios de dinheiro, e não dividiram com ninguém, mas uma hora a bolha estourou e o contribuinte americano pagou uma conta de 700 bilhões de dólares... Não achem que assuntos financeiros ou economia não dizem respeito a nós artistas, pois os mesmos raciocínios são usados em menor escala no dia a dia. Compreendê-los é uma maneira de melhor cuidar do nosso patrimônio, especialmente nós que não temos salário fixo, férias, 13º, nem nada...
Um dos grandes pecados que o músico comete é acreditar que a parte financeira não lhe diz respeito. Diz sim. Se você não quiser lidar com dinheiro ou não tiver jeito para isso, arrume alguém de confiança que faça isso para você. Caso contrário você será freqüentemente lesado por má fé ou má administração.
Outro ponto em que nós cometemos erro é na avaliação de quanto vale o nosso cachê. Eu freqüentemente vejo opostos e extremos. Vejo pessoas tocarem por uma ninharia como R$ 30,00 por uma noite inteira e vejo pessoas ficando sentadas no sofá de casa dizendo que seu cachê vale R$ 5.000,00... O artista que mais toca e conseqüentemente consegue mais renda é aquele que, além da sensibilidade artística, é claro, também tem a sensibilidade comercial para saber que o cachê pode ser variável de acordo com a situação. A princípio o seu cachê vale tanto quanto as pessoas estão dispostas a pagar, mas mesmo assim a situação pode determinar uma variação muito grande. Conheço artistas que tocam por RS 200,00 até R$ 5.000,00. É claro que para cada situação o artista tem que se adequar. Se forem “duzentinhos” no barzinho na terça-feira de noite, vai só com o violão. Se for uma festa um pouco maior por um “barãozinho” leva um trio. Se for um festão de parar a cidade por “5 paus” leva naipe de metais e tudo que tem direito.
Outro ponto interessante é investir na sua própria sonorização. Se você toca em lugares pequenos, é uma ótima idéia ter um pequeno sistema de som com duas caixas, uma pequena mesa de som, uns três ou quatro microfones e talvez mais duas caixas de retorno (ou sistema in-ear). Nesse caso, você tem um valor agregado ao seu trabalho e também abre a possibilidade de tocar em espaços que não possuam sonorização própria. No entanto, muita atenção: o equipamento de som não está incluído no seu cachê. Se você for levar o seu equipamento coloque um valor a mais pela locação do mesmo. Lembre-se de que equipamento de som e sua manutenção custam dinheiro. Se você usar o seu equipamento sem cobrar a mais por isso para competir com quem não tem equipamento, você estará criando deflação no mercado, prejudicando quem não tem o dinheiro para ter seu próprio equipamento, desvalorizando seu trabalho, e pior, usando o cachê do show para pagar a manutenção do equipamento que você não cobrou por ele... Ou seja, mais cedo ou mais tarde você também quebra. Quando for vender seu show, dê o preço do show separado do preço do equipamento. O dono do estabelecimento tem a opção de escolher.
Mais uma vez puxo a responsabilidade para o músico: em vez de ficar reclamando que o som da casa é ruim, guarde algum dinheiro, invista no seu próprio equipamento e lucre com isso. Só não “abra as pernas” oferecendo seu show de graça com equipamento incluído, pois aí tudo o que eu falei até agora vai por água abaixo, assim como a sua conta bancária também.
Estas são duas das formas mais comuns de remuneração dos artistas. É extremamente importante que se tenha uma consciência deste processo e se perceba como as concessões que fazemos para divulgar nosso trabalho podem nos trazer prejuízos e também prejuízos a um colega de trabalho. Aceitar qualquer coisa em nome do sucesso é equivalente a jogar na loteria ou na mega-sena. Pode até dar certo para um, mas milhões terão apostado e perdido. A busca do sucesso a qualquer preço, sem um planejamento estratégico e um trabalho duro, especialmente de divulgação direcionada, é equivalente a um projeto de vida baseado na idéia de que a gente vai ganhar na loteria.
Milhões de brasileiros jogam na loteria todas as semanas e só um ou dois ganham. Às vezes ninguém ganha e fica acumulado... Esses brasileiros em sua grande maioria permanecem em seus empregos para pagar as contas enquanto a mega-sena acumulada não vem. Nós músicos podemos apostar na mega-sena do sucesso em grande escala, mas enquanto isso não vem, o nosso emprego é tocar no boteco, gravar disco independente, dar aula, ficar na internet buscando contatos, divulgando a banda, chamando pessoas para o show e por aí vai.
O trabalho na música não é somente glamour e aparecer na MTV. Existe sim um lado racional, braçal e cansativo, se quisermos viver da música. Se você não vive de música, estas preocupações não dizem respeito a você, mas mesmo assim seria bom refletir que você, sendo um bom músico amador, e topando tocar em estabelecimentos sem cobrar, só por diversão, estaria prejudicando profissionais. Neste caso acho que o músico amador (que não vive exclusivamente de música) que toca em um ambiente profissional deveria cobrar também. Assim ele não criaria uma competição desleal e de quebra ainda fazia um reforço no orçamento no final do mês...
Mês que vem continua... Abraços.