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Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário, músico, compositor e sound designer. Leciona Áudio Publicitário e Atendimento na FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social (PUC/RS) - e Arranjo e Produção Musical Nível III no IGAP - Instituto Gaúcho de Áudio Profissional.
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Feliz 2009! Que este ano traga plenas realizações para todos nós!
Na coluna anterior, falei sobre arranjo. Nesse mês, sigo em um tema complementar: mixagem. Todos os elementos que envolvem o mercado musical são igualmente importantes. No entanto, creio que a mixagem seja um dos pontos mais delicados e muitas vezes esquecidos, principalmente por artistas iniciantes
Começo descrevendo uma cena a que já assisti inúmeras vezes e que, igualmente, me é relatada à exaustão por donos e técnicos de estúdio. Imaginemos (e embora estejamos imaginando, as semelhanças com a realidade não são meras coincidências) uma banda de rock iniciante. Os integrantes dessa banda juntam algum dinheiro e resolvem gravar (logicamente, sem contratar um produtor musical, pois na ótica desse tipo de artista, isso é dinheiro posto fora). Pois bem... Somando as economias, a banda descobre que pode pagar por dez horas de gravação (e, claro, isso vai incluir tudo, inclusive mixagem e finalização). Como o trabalho certamente não foi planejado (e nem venha pensar em pré-produção em um caso desses), vai tudo correr aos trancos e barrancos. O relógio vai igualmente avançando, de forma voraz e implacável. De repente o que aconteceu? Falta só meia hora para terminar a seção de dez horas. Precisamos concluir o trabalho, certo? O que a banda faz, então? Mixa, ou melhor, acha que mixa. Nesse momento, todos os integrantes ficam em pé, como papagaios de pirata, colados no ombro do pobre técnico de gravação (e é isso que ele é, um técnico, não desmerecendo em hipótese alguma esta importante atividade, mas é técnico, não produtor musical) e começam a reclamar e ordenar repetidamente o seguinte: “não ouço minha guitarra, aumenta”; “agora a bateria ficou baixa, aumenta”; “ih, agora o baixo ficou apagado, mexe nele, aumenta, aumenta, dá mais punch aê!!!”. Os integrantes não pensam no resultado do todo, mas apenas em suas individualidades narcisistas. Todos querem estar no plano principal. Resultado? Um resultado desastroso, confuso e equivocado. Acabaram definitivamente de jogar no lixo o valor de dez horas de estúdio. A maioria dos técnicos com os quais trabalho levanta as mãos para o céu cada vez que chego ao estúdio e dizem sempre a mesma coisa: “Como é gostoso e tranqüilo de se gravar com um produtor musical junto”. Claro, isso se o produtor não for surtado, não é? Mas aí já é outra história.
Enfim, a cena apresentada anteriormente ilustra uma realidade sólida e recorrente. Mixar é uma arte, uma arte oriental: exige paciência, dedicação, disposição e alto grau de sensibilidade. O que significa mixar? Significa distribuir adequadamente todos os elementos sonoros que foram gravados dentro da imagem estéreo do som (e isso inclui tudo, desde instrumentos orgânicos até sons sintetizados, instrumentos virtuais e efeitos sonoros). Pensando de forma bem simples, existem inicialmente três variáveis básicas que devem ser controladas em cada elemento musical na hora da mixagem: VOLUME, PAN e EQ. Para entender essa ciranda, é preciso abstrair. Para ilustrar e auxiliar a compreensão, sempre utilizo a seguinte analogia quando ministro cursos de produção musical: imagine que a música é um palco de uma peça teatral e que cada elemento musical é um ator. Se todos falarem ao mesmo tempo, nada será entendido. Se todos estiverem posicionados de forma muito próxima, os detalhes tendem a morrer e um lado do palco ficará vazio.
O VOLUME é o mais básico dos três elementos. Se eu aumento o volume, conseqüentemente trago o elemento mixado para o plano principal, coloco-o mais à frente, dou maior destaque e força. Se eu reduzo o volume, ocorre o oposto, eu enterro, mascaro, reduzo a um plano secundário, terciário e assim sucessivamente. Resumindo: mais alto, mais destacado; mais baixo, mais velado.
No caso PAN (também conhecido como PANORAMA ou BALANÇO), definimos o posicionamento estéreo do elemento mixado, variando da extrema esquerda à extrema direita, tendo ainda a possibilidade de permanecer precisamente centralizado.
Se pararmos por aqui, já caminhamos um bom pedaço. Apenas utilizando VOLUME e PAN, podemos espacializar tridimensionalmente cada elemento sonoro a ser mixado. Isso é possível, pois o nosso cérebro nos “prega uma peça”: dispomos de dois ouvidos (esquerdo e direito), porém conseguimos perceber o som em três dimensões; o mesmo ocorre com a visão, afinal temos um par de olhos e enxergamos as coisas em três dimensões. Devemos imaginar o fonograma como detentor de inúmeras camadas sonoras. Essas camadas são acessadas justamente através de variadas combinações entre VOLUMEs e PANs diferentes. Isso permite que operemos uma rica distribuição de elementos. Se em um gráfico tridimensional temos os eixos cartesianos X, Y e Z, no caso da música, como dispomos de duas variáveis (VOLUME e PAN), podemos imaginá-las como sendo X e Y. Dessa forma, ao alterarmos as coordenadas, espacializamos tridimensionalmente os sons. Trabalhamos em XY para obter um resultado virtualizado em XYZ.
Entenda-se imagem estéreo como essa paleta tridimensional a ser preenchida. Bom senso estético é fundamental na hora de definir onde cada ator musical (elemento) vai atuar, quanto tempo ficará em cena e quando estará ou não em destaque. Os elementos não precisam ser cimentados, isto é, ocupar posições fixas durante o decorrer do fonograma. No entanto, alterações excessivas de posição dentro da imagem estéreo acabam gerando caos e confusão desnecessários.
A automação presente nos softwares modernos de mixagem facilitou muito a vida de quem produz e mixa. Por meio desse recurso, podemos alterar os parâmetros de VOLUME e PAN de forma precisa. Não é só isso. Podemos alterar o posicionamento de muitos elementos sonoros de forma simultânea. Antigamente isto não era impossível, mas era impreciso e trabalhoso. Atualmente, quando vamos finalizar uma mixagem, exportamos o áudio em estéreo por meio de comandos como bounce ou mixdown (a nomenclatura varia dependendo do software que se utiliza). Ao fazermos isso, o software obedecerá rigorosamente a todas as automações que foram programadas. No passado recente (e me refiro ao início dos anos 90), lembro de gravar em estúdio, em fitas de rolo, e o bounce consistia em mandar um sinal geral estéreo para um DAT (Digital Audio Tape, uma fita pequena que possuía boa qualidade sonora, uma fita de gravação digital). As mixagens às vezes eram realizadas a oito mãos. Então, enquanto alguém com a mão esquerda aumentava o VOLUME de uma guitarra, com a mão direta trazia o teclado mais para a esquerda, mexendo no PAN. Simultaneamente, outra pessoa abria um canal de voz com a mão direita e fechava um de pandeiro com a mão esquerda. Assim ocorria sucessivamente com os demais elementos em processo de mixagem. A mixagem, embora não tão precisa, corria bem até que alguém esquecia um passo e pronto: tudo de volta à estaca zero. Uma mixagem refeita nunca saía exatamente igual à anterior (afinal apenas máquinas possuem tal precisão).
E o EQ? EQ (equalização) é um recurso utilizado para atenuar ou acentuar determinadas freqüências. Quanto mais bandas possuir um EQ, maior sua capacidade de atuação e detalhamento. É muito comum a utilização desse recurso na mixagem para realçar ou obscurecer alguns elementos e para evitar um problema grave: o choque de freqüências. Desse modo, podemos definir o som de um baixo que está “embolado”, suavizar o som estridente de uma nota tocada por uma guitarra ou gerar efeitos na voz (como o efeito de “som de telefone” que é obtido realizando cortes bruscos de graves e agudos e ressaltando as freqüências médias). Assim, manipulando EQ, VOLUME e PAN temos um controle satisfatório.
A descrição apresentada pressupõe elementos musicais que não serão alterados, ou seja, serão apenas alinhados e distribuídos. No entanto, existem outros recursos que podem ser utilizados para manipulação do som na mix. Estes recursos são bem variados. Tomando dois exemplos simples, podemos acrescentar reverb (efeito de reverberação) para aumentar a profundidade de um som ou, ainda, utilizar um compressor para comprimir e tonificar um kick (bumbo) ou snare (caixa) da bateria.
Confesso que, de um modo geral, acho as mixagens atuais chapadas demais. Isso significa que a distribuição prima pela pressão sonora e não pela espacialização. Em tempos passados, essa sensação tridimensional era mais bem explorada e percebida. Tenho procurado oferecer essa velha e eficiente forma de se pensar a mixagem para meus clientes. A seguir, faço uma breve descrição de dois exemplos excelentes que ilustram bem casos de mixagens eficientes nas quais o lado tridimensional é extremamente valorizado e facilmente percebido. Recomendo a audição como exemplo didático e ilustrativo. Aliás, existem vários álbuns ótimos lançados entre 1966 e 1968 que têm mixagens inacreditáveis. Sugiro que você corra atrás e pesquise ouvindo.
CASO 1
Artista – Cream (para quem não lembra, excepcional banda de Eric Clapton)
Álbum – Disraeli Gears
Ano de Gravação – 1967
Faixa – Sunshine of Your Love
A bateria está claramente posicionada à direita. A guitarra à esquerda. A voz, centralizada e levemente rebaixada. O baixo, bem rebaixado e centralizado. Os elementos não competem entre si e são complementares, fornecendo um colorido muito interessante. A guitarra solo está centralizada, em plano levemente mais à frente do que o vocal.
CASO 2
Artista – Beatles
Álbum – Revolver
Ano de Gravação – 1966
Faixa – Taxman
Aqui a bateria está no canal esquerdo. A voz principal está centralizada e os backings estão mais à direita. A percussão está bem à direita. A guitarra base está bem à esquerda e o solo e a guitarra riff-auxiliar bem à direita, em contraponto. O baixo está centralizado e levemente rebaixado.
Lembre-se: uma mixagem bem feita pode representar a grande diferença entre uma vitória e uma derrota. Abraços e até a próxima coluna.
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