Gravação do DVD Chiclete com Banana
Backstage


Depois de três décadas de muito sucesso, a Banda Chiclete com Banana grava, em Salvador, o seu DVD em um show com muita tecnologia

Mais de 32 mil fãs lotaram o Parque de Exposição da Bahia para assistir e participar do show da gravação do primeiro (oficial) DVD da Banda Chiclete com Banana. Para esta festa, a produção não mediu esforços nem recursos para criar uma megaprodução, que, sob a regência do guitarrista e vocalista Bell Marques, criou o cenário perfeito para a gravação do DVD da banda.

Na realidade, o primeiro DVD da banda já lançado é uma compilação de tomadas de áudio e vídeo no carnaval. Estas captações não foram feitas com a função específica de gerar um novo produto. Este está sendo considerado o primeiro DVD porque toda a estrutura e o planejamento foram feitos em função da captação de áudio e vídeo para o DVD.

O Show

A banda subiu ao palco com mais de duas horas de atraso, devido a uma divergência nas informações do horário do show. Bell, com sua segurança de anos de estrada, instigou o público a cantar e participar do evento histórico para a banda, que foi a gravação do DVD. Ele iniciou o show com a canção “Eu vou voar atrás desse amor” e em seguida agradeceu a presença de todos, depois convidou o público a entrar no “Mundo mágico do Chiclete com Banana, onde toda alegria é permitida”. Após duas horas de show, a maior surpresa ainda estava por vir, os músicos saíram do palco principal e se dirigiram para um outro no meio da plateia onde Bell Marques cantou as canções antigas e os maiores sucessos da banda como “Se me chamar eu vou”, “Meu cabelo duro é assim”, “Tiete do Chiclete”, “Vumbora amar”, “Meu bem quero te amar”, entre outras.

A concepção do evento

Aproveitando o gravador e a ocasião, o Kalunga, o nosso “repórter” do dia, quis saber do Sr.Wilson Marques como nasceu o projeto de gravar o DVD. A seguir temos a íntegra deste papo entre Kalunga e Wilson

Kalunga: Wilson, como apareceu o projeto do DVD? Como é que você teve a visão para desenvolver o projeto?
Wilson Marques:
Primeiro deixei o palco acontecer. Quando o palco foi desenhado no papel e aí colocaram o PA pendurado do lado das placas, eu não gostei e achei feio, porque o principal é o DVD. O show é interessante, mas o fundamento é o final do DVD, então tinha que estar bonito. Comecei a pensar de outra maneira, mandei marcar e medir o palco e decidi voar na coisa, comecei a me sentir... eu estava aqui dentro, no vazio, sentindo o que eu estou ouvindo hoje.

Kalunga: Você se baseou em experiências passadas?
Wilson:
É... são experiências de vidas totais e diversas posições de trabalho...

 
Wilson Marques  

Kalunga: Alguma vivência do Festival de Verão?
Wilson:
O Festival de Verão não me deu base nenhuma porque você não tem condições de trabalhar, as pessoas não respeitam o pessoal do som. Por exemplo, aqui está se gravando o DVD e a House Mix está na frente. Todo mundo queria tirar essa “porra” daí, e eu não tirei. As posições são diferentes. No Festival de Verão, tiram a House Mix do lugar e o operador de som, por exemplo, só ouve um lado do PA... e não tem a soma do que você pode fazer, do que você pode trabalhar. Então, isso me chateia. Eu não gosto muito de fazer o Festival de Verão porque eu gosto de fazer o que eu quero, e não o que os outros querem, a não ser que me provem que estão certos. Eu aceito opiniões, mas não radicalismos. Eu vim para cá com Fernando e João Américo disse o que imaginava e queria e perguntei o que eles precisavam. Eles de saída toparam e fomos adaptando, tecnicamente, as dificuldades, inclusive meu som aqui em cima não era para ser dois, no meu planejamento era para ser um no centro. Mas foram criados tantos problemas de segurança para essas caixas aqui em cima que resolvi colocar cinco de cada lado e acabar com o problema. Eu estava em umanuma situação que era questão de segurança. Não poderia colocar as sete caixas em cima, mas não precisei e gostei... melhor assim, porque ao invés de eu ter um front filt mono eu estou tendo uma soma de estéreos nas laterais. Então ficou legal nessa posição. Fernando e João gostaram da ideia e compraram a briga. Então, Vavá sugeriu uma mudança: tirou os subs da caixa e colocou o sub aí embaixo, o que era uma opção maravilhosa. A frequência de grave do sub se somou com a frequência das outras caixas, fazendo uma soma ambiental. A minha ideia era não direcionar o som, sem ter um PA agredindo.

Kalunga: Notei essa diferença. Bell cantando ali com o som presente como se eu estivesse ali.
Wilson:
Por isso respeito o João Américo, Vavá e Fernando pelo fato deles terem comprado a ideia. Eles também são responsáveis por isso. Você cria a ideia, mas ela tem que ser bem traçada. Infelizmente não conheço nenhum técnico de som que também seja o dono do evento e por isso os técnicos de som sofrem com o produtor, com o dono. São posições diferentes e eu bato nessa tecla para poder valorizar todos os técnicos, não aceito opinião de mais ninguém que não seja técnico. Bell é o artista principal e me dá esse apoio o tempo inteiro. Eu aceito opiniões dele contanto que não sejam radicalismos.

 

Kalunga: Então você chegou para ele (Bell) e disse a forma como iria ser feito?
Wilson:
Não disse. Eu não digo, já entrego pronto. Ele estava preocupado com o som e eu só dizia para ele “se desligue, faça o seu palco e deixe o resto comigo”.

Kalunga: E o resultado ficou muito bom.
Wilson:
Ficou bom porque os músicos se esforçaram para tocar por causa do delay... eles não estão tocando por prazer, é um esforço. Então baseado nesse trabalho todo, tenho a minha liberdade de fazer. Não quero ter que dar satisfações a ninguém de um erro meu. Então tenho que ser um perfeccionista na marra. Graças a Deus posso dizer que durante a minha vida de som fui um vencedor. Tenho 63 anos, doido para me aposentar, mas ainda não estou pronto para o pijama, mas já me considero um vencedor. Estou muito impressionado com o João Américo, Vavá e Fernando, porque eles me fizeram vibrar; eu tinha a ideia e eles fizeram a coisa funcionar. Se ficasse mais ou menos e eles não captassem as coisas que projetei não daria certo. Tenho muito a agradecê-los. Acho que algo muito importante na vida é o prazer de ter um conjunto, de ter coisas juntas. Por exemplo, quando você é operador de som, você vira “eu”. Eu nunca estive na posição de um técnico de empresa, mas nessa posição você tem que acertar as coisas do operador de som, é uma regra que existe. Eu dava as sugestões e Vavá vinha com outras, e Fernando com outras. Ninguém é dono do mundo.

A iluminação para o show e para o vídeo

Como toda a concepção do show foi em função da gravação do DVD (vídeo), a iluminação teve uma atenção muito especial. Segundo o Iluminador da banda desde 1994, Jair Lopes

“Para este evento foram contratadas quatro empresas para tocar todas as etapas do projeto da luz e algumas nunca tinham trabalhado com a banda. Eu tive que passar tudo que sabia e ensaiar muito com elas. A ideia da iluminação era fazermos algo realmente diferente que ninguém tivesse visto antes e para isso foi contratada a LSD Light Sistem Designer, empresa do Mazão Marino, para a montagem dos 300 tubos de LED na fachada do palco e para a sustentação dos tubos de LEDs, o arquiteto Giuseppi Mazzone desenvolveu toda uma estrutura em alumínio; assim criamos um imenso e incrível painel. O projeto interno do palco eu criei usando o SunLite e o Magic 3D, em que monto e programo no meu próprio computador. Usei também 120 placas de baixa resolução, mais 40 metros de painel de alta resolução da CriaLed Produções Visuais e quatro lasers da Kinos Laser. A equipe do Mazão tinha o Leandrinho, o Leonardo e o Maicon que montaram programaram e operaram todos os efeitos visuais usando uma mesa MA com três servidores de vídeo para os três painéis, a CriaLed tinha três no painel de alta e três no de baixa na montagem, o laser Peterson operou os três do palco, eu operei o laser da frente usando uma mesa pulsar e um computador e operei os moving lights, a luz do palco e a luz de plateia em duas mesas Avolites Pearl. Eram quatro operadores de canhão da LuzBel, dois no contra e dois na frente, mais uma equipe de onze profissionais.

No total eram 26 pessoas na iluminação e ainda tivemos que ensaiar muito as músicas. Foi um trabalho difícil e complicado, mas muito prazeroso porque no dia da gravação deu tudo certo; a banda maravilhosamente inspirada, o som espetacular, um público fantástico, toda a luz funcionou como programamos, foi uma união de todos os fatores necessários para realização desse evento que com certeza se tornou único e vai ficar em nossas memórias por muito tempo”.

LuzBel é uma empresa de iluminação baiana com mais de 15 anos de experiência no mercado de iluminação e foi a responsável pela locação dos equipamentos.

 

Gravação do áudio

A WR Bahia é uma empresa que tem mais de 38 anos de vivência com a música baiana. Começou e continua a trabalhar com os grandes nomes do axé. Toda esta experiência mais os resultados dos trabalhos passados com a Banda Chiclete com Banana abalizaram a empresa para este projeto da gravação do DVD

 
Console Five  

A gravação do DVD foi feita com quatro unidades Pro-Tools (2 HDS), com três interfaces 192, duas Digi 888 com 64 canais cada e dois TDMs com quatro interfaces DIGI 888 para captação das músicas que foram executadas no palco. Foi utilizada uma mesa Soundcraf série FIVE com 60 canais; três pres de microfones Digimax com oito canais cada; um Pré Audiente com oito canais e seis pres 9098 Amek.

Para captação da ambiência utilizamos 12 microfones shot-gan; sendo dois nas laterais do palco, dois em cada extremidade a oito metros do palco, dois no avançado do palco, onde Bell cantou duas músicas e animou o público, além de quatro na house mix para captação da ambiência posterior a house, além de dois instalados na parte frontal do palco para captação do público do “gargarejo” com maior definição das letras das músicas. Para o palco principal, utilizamos multicabo com 64 vias “splitado” diretamente na bandeja principal, captando o som direto dos microfones sem interferência da mesa (mixagem) do PA.

O conceito aplicado na mixagem foi para tornar a gravação mais próxima a do show, pois nossa maior preocupação é manter a identidade do Chiclete com Banana conquistada pelo engenheiro Wilson Marques na longa trajetória dessa banda baiana que conquistou o Brasil e um grande público no exterior.

 
  Equipamentos de gravação em cima da House Mix

Mixamos em 2.0 para o CD e em 5.1 para o DVD. Ainda não foi decidido com quem vamos fazer a masterização.

Segundo o Wesley Rangel, “gravar o Chiclete com Banana é sempre um prazer renovado a cada ano”. Essa parceria com Bell e sua banda já dura mais de 20 anos. Desde o disco Sementes estamos trabalhando juntos. Nossa admiração pelo trabalho do Chiclete deve-se muito à coerência desse grupo, que mantém os pés firmes no universo do axé, valorizando essa vertente musical que cresce a cada dia, inundando o Brasil de alegria nos carnavais e micaretas que proliferam em todos os Estados da Federação”.

 

 

O nosso “repórter

Quando a Backstage foi informada do evento e da sua dimensão, surgiu a ideia de uma entrevista feita por um técnico. Convidamos o Kalunga para ser o nosso “repórter” e no bate papo entre o Vavá Furquim e o Carlos “Kalunga” Branco, muitas preciosidades surgiram

Kalunga: Ontem quem me ligou foi Nelson (da revista), que está interessado nessa história. Quem escolheu o equipamento que será usado no evento, ele (Sr. Wilson Marques) ou você?
Vavá:
Wilson escolheu o equipamento e determinou a localização, a região em que ele achava que deveria ter a origem dos sons. Teve um que foi um pouco difícil, desde o início, por causa da estrutura do palco. Era uma fonte em line única no palco, ao invés de dois PA’s no palco, era uma única fonte que vinha de trás da banda, mas a estrutura da banda não tinha condição de aguentar aquele peso naquele ponto, um ponto único. Então foi dividido em dois, de uma forma muito acertada, porque somos um ser estéreo, temos duas orelhas e nada mais natural que a gente tenha...

Kalunga: E ficou quanto de distância?
Vavá:
O PA principal ficou dentro do palco, e esse daqui ficou com uns 23, 24 metros, eram as caixas mais próximas que tínhamos.

Kalunga: E qual foi a proximidade maior que você já usou?
Vavá:
Não sei... Esse foi o show que a gente fez em que as distâncias envolvidas eram maiores. Um PA principal do outro estava com uma distância de 43 metros, muito distante um do outro, mas nem por isso deixou de funcionar muito bem. Acho que se você levar em conta a primeira experiência que o Gabi fez no Rock in Rio, ele tinha distâncias muito maiores que essa. A vantagem de você estar trabalhando com o Line é que você tem uma dispersão horizontal muito boa, uma cobertura horizontal muito boa, ele é feito para isso.

 

Kalunga: Demorou muito para você fazer com o Smart?
Vavá:
Você precisa ter muita calma com o Smart, e também ter boas ideias. Você precisa de um pessoal te assessorando, como o Zé Carlos que me assessorou, que é uma pessoa muito paciente e gosta de ver bons resultados. Você precisa de uma pessoa que seja criativa, que tenha paciência e que experimente, porque você não tem que ver apenas os tempos, tem que ver a soma do resultado daquilo ali, então às vezes você tem que corrigir com fases, tem que extrapolar um pouco aquele tempo, tem que ir experimentando. O design de áudio é isso, você vai construindo paulatinamente e guardando os resultados.

Kalunga: Mas para isso você tem que ter um background da produção, porque tem que ter o horário, o gerador...
Vavá:
Você tem que ter tempo. O que acontece é que a gente não tem tempo.

Kalunga: Mas nesse evento você teve tempo...
Vavá:
Nesse evento eu tive tempo, Wilson me proporcionou isso. Eu acho que o evento conseguiu ter um grande resultado porque Wilson partiu da ideia de que o áudio faz parte do evento dele. Quando as pessoas partem para fazer um evento hoje em dia, se embriagam com a luz, com a aparência do palco e com o camarote dos convidados.

Kalunga: Exatamente...
Vavá:
O som não é notado de forma nenhuma. Primeiro, eles não querem ver caixa de som, querem esconder o som, e se possível que o som não exista no pedaço.

Kalunga: Mas, na hora do show, se o som estiver baixo...
Vavá:
Na hora do show, se ele estiver baixo eles vão reclamar. Aliás, o som só é notado a partir do momento em que ele tenha defeito, porque os efeitos visuais são tão grandes que a pessoa fica totalmente embriagada, sai dali e não sabe nem que o som existiu, se ele estiver ótimo, ele cumpriu a sua função e não é notado.

 

Kalunga: Mas não foi o que aconteceu no evento, porque esse evento ecoou bastante, muita gente me falou, inclusive leigos de som, que “o som que Wilson fez foi muito bom”...
Vavá:
Wilson tem uma vantagem sobre todos nós, porque ele é dono e diz como ele quer. Ele tem a origem dele, e não foi uma origem como artista - e ele é artista, ele é integrante da banda - seja como for, a característica da sonorização e da mixagem do Chiclete nasceu na mão dele. E assim cresceu, e é assim que todo mundo ouviu e sempre vai ouvir, quer você goste ou não, aquela característica é dele e você tem que respeitar. Por que a gente aceita certas mixagens que vêm do exterior, que em determinado ponto são altas, determinado ponto são baixas, mas tem aquela característica que você engole... e aqui você tem que dar palpite? Então você tem que respeitar. A origem dele é como técnico e como dono, então ele se dá ao luxo de dizer “eu quero que tenha som aqui”, e se é necessário ter som ali ele coloca, o que aconteceu foi isso. Então a gente participa de alguns eventos, em que você pensa que o ideal é ter uma caixa de som aqui, e o cara diz “não”, e no final, quando você coloca a caixa de som, o cara vem com uma tela na frente, uma árvore, um adereço, ou mesmo uma alegoria para botar na frente da sua caixa de som. Então ele não aceita e acabou. O som é uma atração. Se o festival é de música, o som é uma atração, e você não pode se libertar disso, e você não deve. O som é um compromisso e uma necessidade. Então você não pode esconder, mostre com bom gosto e competência. Comprei a ideia no primeiro momento. João e Fernando ficaram um pouco reticentes se iria ficar bom. Quando ouvi os dois falarem porque eu não participei das primeiras reuniões - eu fiquei calado e deixei... E depois, no final, eu disse que achei que daria certo, e depois, na primeira reunião que eu tive lá no parque, as pessoas que estavam envolvidas na construção vieram me perguntar o que eu achava, por uma questão apenas de respeito, porque eu já participei de diversos eventos com eles, mas estava todo mundo desacreditando que pudesse dar certo. Comprei a ideia logo de início e achei que iria ficar muito bom. Tive apenas alguns cuidados de fazer os elos de ligação entre as ideias que ele queria. Só fiz isso. E cuidar para que o resultado fosse único, como ele queria. Você olha e não sabe bem de onde vem o som... ele vem da banda, ele nasce no palco. Esse foi o cuidado que a gente teve, de somar isso. Agradeço a Wilson por ter o respeito pela gente, ter todo o cuidado de colocar as estruturas prontas a tempo, de colocar os geradores a disposição quanto tempo fosse, porque em geral as festas não querem pagar uma ou duas horas a mais de gerador para você fazer um trabalho que é importantíssimo, de design do áudio. É muito fácil mixar com som bom, agora é péssimo você mixar com som desalinhado, e para alinhar tantas peças sonoras distintas e fazer isso funcionar como uma só é muito difícil. Se você desarrumar e zerar o trabalho do áudio, você vai dizer “é impossível fazer som assim”, uma vez que você o ouve todo alinhado.

Kalunga: Como era feito antigamente isso, sem atraso, sem delay?
Vavá:
O DSP veio para dar nó em pingo d’água. Hoje em dia temos ferramentas, como o laptop, em que antes era preciso um caminhão para reunir tantas ferramentas poderosas... basta saber usar. Antigamente também a localização era muito importante, então se partia do ponto de que a localização dos equipamentos era ideal. E ainda hoje deveria ser assim. Mas hoje em dia você pode ousar mais um pouco, e distribuir isso de acordo com a sua vontade. Então o posicionamento dos equipamentos é muito importante. Ali, por força do local, tivemos alguns PA’s que foram colocados de maneira não muito correta, por conta de uma árvore, uma saída de emergência. Então essa localização ficou um pouco difícil para quem estava trabalhando no palco, para quem era banda.

 
Antônio, operador de monitor

Kalunga: Então você quer dizer que, antigamente, as construções dos palcos favoreciam mais o som?
Vavá:
Favoreciam, porque o som veio paulatinamente sendo relegado para um segundo plano. Veja que, hoje em dia, você vai para um show em que existe um festival de LED, e o LED é maior que o artista, é um festival de luz... não é que não seja necessário, é porque a coisa tem que ser usada com bom senso e com bom gosto. Então às vezes o artista some naquele festival de LED... Com o Pinkfloyd, acho que o aparato tecnológico em volta da luz era tão grande que chegava a ser brega. Acho fantástico o festival de imagens que eles fizeram, mas ao mesmo tempo eu quero que a música me leve aos lugares, para mim o grande lance da música é a música pela música...
Então, na colocação dos equipamentos, Wilson determinou as fontes sonoras principais que ele queria os 2 PA’s dentro do palco, os 2 PA’s abertos, que seriam os principais, que vão fazer o som de todo o espaço - os PA’s do palco seriam o preenchimento central, e ele queria as torres de delay não tão avançadas, mas que funcionassem como um PA a partir do povão, ou seja, o público real do chiclete, que não é o convidado, é o povão que o acompanha desde sempre. Então esses PA’s como torre de delay eram PA’s um pouco avançados que estavam ali na altura da housemix. Então ele determinou as fontes sonoras que ele queria - ele queria um front poderoso também - e eu fiz o elo de ligação entre esses equipamentos - então coloquei mais sub’s nessas áreas para fechar, para que não tivessem aqueles lobos nem aqueles comb- filters entre os sub’s.

Kalunga: Mas para chegar até ali é difícil.
Vavá:
Os tempos envolvidos foram inacreditáveis.

Kalunga: Você viu o tempo no computador e também viu o tempo no ouvido, não foi isso mesmo?
Vavá:
É! Alguns ajustes foram um pouco além, um pouco antes... Acho que a melhor coisa que você tem é uma resposta de fase e uma curva de transferência - isso lhe dá toda a parte de tempo de que você precisa. E eu agradeci a ele antes de começar o evento, porque eu sabia que não estaria presente durante o evento. Eu cuidei para que ficasse nota 10, pela confiança que foi depositada na gente, ele não merecia outra coisa, só ser feliz naquele momento... Parabéns, Wilson.

 
  Console PM5D RH

Eu (Kalunga)passei no parque no primeiro dia para ver o evento, porque Vavá tinha me falado que havia sido montado diferente, a gente estava acostumado com o Festival de Verão no mesmo lugar, e eu fui lá ver a montagem, porque tinha uma quantidade de equipamento muito grande. Quando eu cheguei, o Sr. Wilson estava passando a voz dele - a voz é muito parecida com a de Bell, eles são irmãos - então é como se isso fosse uma ajuda para ele. Então ele estava passando a voz do microfone dele e ajustando todos os PA. Daí, mais tarde, Bell chegou para passar o som e começou a achar que o tempo o atrasava, tinha diferença com o tempo do delay, e começou aquela coisa de “será que vai dar certo?” Porque, além disso, tinha um palco em cima da house que era impressionante, foi uma das coisas que me impressionou. Quando a banda foi toda para lá e Antônio começou a passar o monitor, o PA começou a atrapalhar um pouco, porque era um palco montado em cima da house e tinha os delays todos. Na linha da house, havia dois PA’s grandes com sub’s inclusive - mas esses PA’s foram alinhados por Vavá, e ele havia me falado que tinha conseguido fazer um trabalho muito bom, e ficou aquela coisa de “e agora, vai dar certo?”. Daí eu até perguntei ao Sr. Wilson se ele queria que eu tirasse os delays, e ele me disse para deixar nos tempos certos. Todo mundo estava apreensivo se iria funcionar ou não, se iria dar certo... Quando a banda começou a tocar, todo mundo - os músicos e Bell - estava pedindo para aumentar o monitor, porque era a forma segura que eles tinham de tocar todos em um tempo só, sem que o som que vinha do PA atrapalhasse. Quando a banda começou a tocar, foi inacreditável, ninguém conseguia acreditar no que estava rolando, foi um som que até hoje me impressiona. Isso foi uma característica desse evento, porque Sr. Wilson, além de ser sócio e dono, ele é técnico de som. Então a autoridade dele de querer que o som realmente funcione é de espantar a gente que é técnico de som, porque todo dia enfrentamos várias adversidades: teleortofônicas, PA pequeno, não tem delay, porque o contratante é caro... Então, se todos os técnicos de som tivessem a autoridade e autonomia que ele tem, para o som seria uma maravilha, porque quando ele se envolveu com aquele DVD... Eu já vi outros shows ali... não querendo comparar com o Festival de Verão, mas é muito diferente. A prioridade que ele dá ao som é impressionante. Não é inveja, é bacana... faz bem ao ego do técnico de som ver como o Sr. Wilson trata o áudio. Ele diz que quer de determinado jeito, com certa autoridade, mas é isso mesmo. É assim que tem que ser, porque com o passar do tempo, o áudio está se acabando. A prioridade hoje é o palco, é a beleza, é o LED, é a luz, o camarote, o open bar... mas na hora H, se o som estiver baixo - nem digo ruim, porque é difícil ter som ruim hoje em dia, o que acontece é o volume do som que não é adequado para a área de show. E nesse evento, o que me impressionou foi isso: a quantidade de som foi muito boa... o público que paga tem que ter esse tratamento, que é o tratamento certo, é isso que o público merece: paga caro, e tem que ter isso. Então eu quero também parabenizar o Sr. Wilson pela forma como ele tratou o áudio desse evento. Estou relatando isso porque me impressionei com a forma como ele sonorizou a festa, foi algo de impressionar. Só quero mandar meu recado para todos os produtores, para que prestassem mais atenção nisso, dessem mais condições de trabalho, que o gerador pudesse trabalhar mais horas, que tivesse antecedência para trabalhar... O técnico de som está sempre brigando por um som melhor, por uma equipe melhor, por um tempo melhor... Então eu quero que esse evento sirva de exemplo para muitos produtores, que estiveram lá ou não, e que possam ler esse meu depoimento.

Considerações sobre a gravação do DVD

Quando o Wilson Marques teve a ideia de gravar o DVD do Chiclete com Banana, ele convidou a empresa JAS (João Américo Sonorização) para executar toda a parte da concepção de PA e Monitor. Após várias reuniões entre o Sr. Wilson e a equipe da JAS, o projeto ficou pronto para o início das montagens

Na verdade algumas mudanças foram necessárias (sem descaracterizar o projeto concebido pelo Wilson) para atender às necessidades estruturais no que diz respeito à segurança, pois pendurar várias caixas acústicas sobre a cabeça das pessoas, tem que se fazer com muita responsabilidade.

Outras alterações técnicas foram necessárias, como por exemplo, Bell queria que a banda tocasse bem no meio do público e o local escolhido foi em cima da house mix. Criamos uma passarela para ligar o palco à house mix e lá foi instalado um elevador para os músicos terem acesso a este palco. Esta solução se mostrou muito interessante. Acho que foi o momento mágico do show.

A concepção de Wilson ao criar o seu projeto, segundo me falou era que em qualquer lugar da arena se tivesse a mesma intensidade sonora e ao mesmo tempo a plateia se sentisse envolvida pelo som. Para se ter uma ideia da complexidade do projeto eram ao todo seis PA´s, cinco paredes de SUB e mais Delay.

O show e a gravação começaram já à noite e como eu não havia escutado o som na plateia, fui, com o Fernando, para o meio da multidão a fim de verificar o que se comentava. A primeira música que começou baixinha e de repente senti todo o peso do som em uma “bumbada” na barriga. Daí fomos circular na sequência por lugares mais distantes e passar informações para house mix, tipo aumentar mais o som dos PA´s do fundo da arena. Só a partir do momento que começou o show, foi que senti a satisfação de um trabalho bem executado e o orgulho de estar participando de um grande evento, que não tenho dúvida de que foi um divisor de águas, na história da nossa empresa, e por que não dizer no áudio da Bahia?

Nós ficamos muito orgulhosos e lisonjeados com o convite que nos foi feito pelo Chiclete com Banana para sonorizar o seu importante evento. Não posso deixar de falar de uma coisa que foi muito importante para a indústria do entretenimento da Bahia, que foi privilegiar as empresas daqui da nossa terra que no dia-a-dia atendem ao nosso mercado. Provando com isso que temos competência para tal e que também estas empresas geram emprego e renda no mercado local. Uma outra coisa fundamental foi a condição que Wilson nos deu para podermos executar o serviço. Foi tudo muito trabalhoso como qualquer evento de seu porte, mas o que foi muito gratificante foi não ter nenhum stress. Qualquer dificuldade era resolvida com uma palavra do Wilson.

É impossível não fazer comparações com outros eventos em que somos contratados para realizar a sonorização e aí a ironia: precisamos “brigar” e nos indispor com um monte de gente para tentar fazer bem feito o nosso serviço. As condições que nos são dadas nem sempre são as melhores, imagine que são eventos musicais e o som é tratado como coisa de última categoria.

Para concluir, dificilmente vamos ver por estas bandas um espetáculo tão grandioso, tão bem executado como este. Quero ressaltar que não estou subestimando a capacidade de outros grupos e outras empresas de som; temos músicos, empresas e profissionais de áudio fantásticos, mas devo dar os meus parabéns e admiração ao Wilson e à banda Chiclete com Banana por acreditar na competência baiana.
João Américo Bezerra

Relação básica de áudio e iluminação
PA
56 caixas JAS VLA line array
52 caixas JAS 218 subwoofer
12 caixas JAS 212 (3way)
10 amplificadores Ciclotron TIP 5000 / 3000 / 2000
05 gerenciadores de sistemas (XTA)
01 console digital Yamaha PM5D RH
01 console analógico Midas XL 200
01 Lexicon 480 E 02 Lexicon PCM 80

Monitor
12 caixas JAS VLA II – line array compacto
06 caixas JAS 218 subwoofer
06 amplificadores Ciclotron JAS Custon

 

01 console digital PM5D
20 monitores JAS 2112 SM
O sistema Line Array JAS foi desenvolvido e montado em uma parceria da João Américo Soniorização com a Selenium.

Iluminação
Palco : 03 consoles Avolites Pearl 2008 - 40 Giotto 400 - 12 dts XM 1200 - 12 dts WASH 575 - 08 Idea Wash 575 - 06 placo SWGM - 12 atomic 3000 - 30 Mini Bruts - 144 Par 64 - 32 Acl - 02 canhões seguidores de 4000w - 20 calhas Dicroyca.

Plateia: 16 dts Spot 575 e 180 par 64.

Ficha Técnica

Coordenação Geral
Wilson Marques

Equipe de áudio
José Carlos – PA
Caetano Bezerra – Monitor
Paulo Lima – Patch
Julio Brás – Monitores
Rodrigo Madeira – Microfones e AC
Lucas Vale- Assistência

Equipe de gravação do áudio
Wesley Rangel - Produtor
Robson Nonato - Coordenador
Marcelo Oliveira - Técnico
Marcelo Cunha - Técnico
Carlos Eduardo-Duda - Técnico
Pedro Rangel - Assistente
Rafael Lima - Assistente
Antônio São José - Assistente
Maurílio Araújo - Assistente
Edmar Jr. Carioca - Técnico do sistema 2. Guma Ogborn - Técnico do sistema 2.





 

 

 

 

 






Equipe de reportagem
Colaboram nesta matéria:
Nelson Cardoso, Carlos “Kalunga” Branco, João Américo Bezerra, Wesley Rangel e Jair A. Lopes.
Fotos: Studio Nelson Noslen, Fernando Lima e Divulgação