Saint Petersburg Ballet Theater
David Bosboom

 
David Bosboom
É diretor de produção, diretor técnico, diretor de iluminação, designer e consultor de projetos. Possui 23 anos de experiência em espetáculos de teatro na Broadway, além de programas de canais de televisão aberto e a cabo. Especialista em turnês de circuito nacional e internacional.
www.davidhbosboom.com

 

Gostaria de contar, para começar, sobre a inacreditável tournée que estas palavras fizeram ao redor do mundo antes de serem impressas no artigo que vocês irão ler.
Normalmente meus artigos são traduzidos do Inglês para o português em um processo que requer um tempo bem maior do que a própria concepção da idéia. Uma equipe talentosa entre tradutores e revisores leem a versão final para garantir que minhas palavras, assim como minhas ideias, mantenham seu sentido original


Mas na minha opinião,para que este artigo fosse escrito, chegamos ao extremo dos limites da tradução. Aqui vai em poucas palavras, só para ilustrar ao leitor, como isso foi realizado. Primeiro entrei em contato com meu amigo russo Felix Daragan para saber se ele estava interessado em ser entrevistado para um artigo na Revista Backstage. Depois da resposta afirmativa, entrei em contato com um outro amigo de longa data de Nova York que está atualmente vivendo em uma das porções mais frias do centro-oeste dos Estados Unidos: o estado de Minnesota. Alvin Ho é um estudioso com mestrado em Litereatura Russa, tendo também trabalhado comigo por duas décadas no Off Broadway da cidade de Nova York no gerenciamento técnico de teatro. Alvin tornou possível esta entrevista traduzindo para o Russo minhas perguntas ao Felix. Eu enviava as perguntas em Inglês, que eram traduzidas para Russo, e enviadas para Felix. O próximo passo era esperar que as respostas de Felix chegassem na minha caixa de e-mail em Russo. Então eu as enviava para o Alvin que traduzia as respostas de Felix e as mandava de volta para mim em Inglês, para que eu pudesse escrever o presente artigo. Todo esse processo de tradução levou uns quatro meses. Depois disso tudo, ainda tivemos o processo normal de tradução feito pela revista como mencionei no início do artigo. O artigo com a entrevista completa vai a seguir.

Iluminação para dança moderna pode ser uma experiência muito libertadora para um lighting designer. Você pode iluminar o corpo de um dançarino em diversos ângulos e usar as cores que você nunca poderia usar em uma peça tradicional de teatro. Pode também adicionar no seu design de iluminação texturas diversas com padrões de gobos criando efeitos interessantes.

No ballet clássico você ilumina tanto o corpo do bailarino como o cenário para dar ambientação e textura, e se preocupa em não se esquecer de incluir no palco o horário do dia para definir tempo.

 
Giselle  

E, então, há o “tradicional Ballet Russo” como as companhias do Bolshoi e Kirov. Elas requerem autenticidade nas roupas, cenários e luzes passadas de geração para geração de mestres de dança, coreógrafos, lighting designers e artesãos.

Trabalhei com ambas as companhias nos anos 80 e 90. Eram profissionais que trabalhavam duro e que exigiam muito deles mesmos e das pessoas com quem trabalhavam. Então você pode imaginar o quão difícil era levar uma companhia de apaixonados e talentosos dançarinos, diretores e designer através da América do Norte para performances de uma noite, cidade após cidade, por meses, em dois ônibus e um caminhão.

Justamente no ano passado, 15 anos desde que eu fiz a minha última tournée, fui convidado para gerenciar toda a parte técnica de mais uma companhia Russa de Ballet através dos Estados Unidos. O meu primeiro pensamento foi: “Mais uma companhia russa de ballet? Mas é claro que eu posso!”.
Foi assim que conheci o Saint Petersburg Ballet Theatre e Felix Daragan, seu lighting designer e agora meu amigo. Nossa primeira performance foi um ballet bastante conhecido, “Giselle”, e, de maneira típica russa, este ballet tinha poucas variações em lighting. Acredito que ia de um intenso branco a um intenso e brilhante azul, retornando novamente ao intenso branco. Lembro-me de que havia menos de 15 movimentos de luz para o ballet inteiro, isso incluindo as luzes de plateia (houselights) e de intervalo.

Então comecei a me perguntar por que esta companhia de ballet viaja com um lighting designer que opera seu próprio console de iluminação. Geralmente quem opera mesa de iluminação é um técnico do teatro local. As respostas começaram a ficar aparentes alguns dias depois quando afinamos as luzes para uma produção do Saint Petersburg Ballet Theatre de “Carmen”. Isto NÃO era uma adaptação de “Carmen” como conhecia; apesar da história ser quase a mesma. Esta era uma peça de dança moderna. Não havia NADA de tradicional sobre ela. E a única música que reconheci da original foram algumas partes do “Toreador”. Além disso, a música dançada foi, por falta de um melhor termo, barulho musical eletrônico e efeito sonoro. A iluminação foi tão abrupta como os tons e os rápidos movimentos dos bailarinos neste novo estilo coreográfico moderno russo.

 
  Felix e David Bosboom

Semanas se passaram, meu russo e o inglês do Felix melhoraram, descobri então que a iluminação para “Carmen” NÃO era somente dele. Na verdade, nem eu nem ele gostávamos da iluminação, mas o coreógrafo insistia que esta forma súbita era necessária para o ballet. O meu trabalho assim como o de Felix se completavam,ou seja, precisávamos trabalhar juntos para preparar o palco tecnicamente e deixar a iluminação pronta para as apresentações da noite. Esta tournée era um desafio todo à parte, pois carregávamos em um único caminhão os cenários de seis diferentes ballets; Giselle, Romeu e Julieta, O Lago dos Cisnes, Bolero ou Carmem. Felix não é somente um lighting designer para o Saint Petersburg Ballet Theatre mas um ótimo técnico de uma forma geral. E como também foi músico e ex-dançarino de dança folclórica tradicional russa pôde, atraves dessa experiência pessoal, desenvolver seu senso de timing em sua carreira como designer.

Felix precisava estar pronto para fazer mudanças na iluminação de uma hora para outra. Por quê? Porque de maneira imprevisível e em muitos teatros, o coreógrafo removia movimentos de luz, mudava a intensidade e algumas vezes chegava até a retirar cenários. Solicitava com frequência momentos novos de iluminação para sua coreografia que não estavam presentes na última performance. Isto não é fácil quando você está em uma tournée a cada dia em um teatro diferente. Mas Felix era capaz de fazê-lo mesmo quando o tempo não estava a seu favor.
Levar uma companhia de ballet através da América do Norte em dois ônibus e um caminhão é um trabalhão, um dos mais difícieis que se pode imaginar. São horas intermináveis de viagem para se chegar de uma cidade a outra. Trabalhava-se dentro de um esquema de horário tão apertado que em 125 dias de tornée fizemos apresentações em 115 diferentes teatros.

Um dia típico para um diretor de iluminação começa às 10:00 da manhã com o mínimo de três a quatro horas de viagem, seguido de uma tarde programando a mesa de iluminação até a perfomance. Terminada a apresentação Felix tem apenas algumas horas para juntar todo o cenário (mais uma de suas tarefas), comer rapidamente, e dirigir para o próximo hotel chegando para dormir às 03:00 da madrugada. Fazendo tudo isso novamente no dia seguinte, por duas semanas antes de receber um único dia de folga.

Nesta tournée o meu trabalho foi de “advanceman”, o que significa “homem que vai adiante”, aqui seria um Diretor Geral contratado pelo produtor para servir de “liason” entre a companhia russa de ballet e os teatros e apresentadores locais. O meu trabalho é o de resolver qualquer problema técnico que se apresente antes da chegada da companhia russa ao teatro. É um trabalho de supervisionar por exemplo a instalação da pista de dança (linólio), cenário, som, afinação de todas as luzes antes que o Felix chegasse para programar a mesa. Trabalhei com as várias equipes em cada teatro, gente diferente todos os dias, cada equipe em sua área e especialidade. O meu dia começava às 08:00 da manhã e cinco horas depois eu terminava. E tinha que terminar em cinco horas para não custar hora extra e multas, pois as equipes locais eram na maioria compostas de profissionais sindicalizados. Pagávamos extra apenas para o carpinteiro-chefe, eletricista-mestre e operador de mesa que permaneciam no teatro. Assim que Felix chegava e revisava as condições de palco, eu estava livre. Livre para viajar durante as próximas quatro ou cinco horas em um carro para o meu próximo hotel. Eu comia, enviava um ou dois e-mails, lavava roupa e ia dormir. Então fazia a mesma coisa no dia seguinte; e no próximo.

No decorrer da semana, me tornei amigo de Felix. E descobri a paixão que ele tinha pela sua arte. Abaixo estão perguntas que geralmente faço para os lighting designers, seguidas das respostas de Felix.

1. Qual sua principal área de especialização em Iluminação? É em Teatro-Dança-Concertos-Eventos?
Felix:
Trabalho mais como lighting designer em ballet e como técnico de luz em concertos. Gasto a maior parte de meu tempo profissional em tournées usando qualquer refletor que consigo colocar as mãos em cada teatro. Os teatros são variados e cada um tem algo novo a me oferecer. Seja na forma ou tamanho do palco ou na condição às vezes antiga dos equipamentos de luz. Nossa companhia está constantemente viajando, e por necessidade financeira, assume diversos compromissos durante o ano.

2. Quais são alguns dos desafios mais comuns que você enfrenta como um lighting designer?
Felix:
Há um equilíbrio delicado entre a criação artística de um design, os efeitos psicológicos causados pela suas luzes à plateia e os pedidos do coreógrafo. Parece que sempre há alguém que gosta de julgar o trabalho de um artista sem saber o que é preciso, tanto de momento a momento na cena, quanto na intenção do coreógrafo (na Rússia chamado de Ballet Master). As maiores dificuldades que um designer pode encontrar são com os não-profissionais que estão no comando, julgando e decidindo sem entender o trabalho de design.

3. Qual o mais útil desenvolvimento que você já presenciou no quesito tecnológico e que é aplicável a lighting design?
Felix:
O avanço mais importante no teatro e dança russa, se falarmos em relação ao profissional,é a boa-vontade de todos os departamentos para trabalharem juntos em um projeto. Se estamos falando de tecnologia, seriam as mudanças no design de palco, tecnologias de halogênio, e consoles de controle mais sofisticados.

4. Que ferramentas de decisão você usa para criar seus designs: conceito, gráfico, imagem, POV (ponto de vista)?
Felix:
A maioria do meu trabalho na Rússia consiste em obter o efeito máximo do equipamento disponível, que encontro em cada teatro, para cada ballet que iremos apresentar. Sempre tento criar o melhor “look” no palco que eu possa, mas não tenho o tempo nem os instrumentos de iluminação para criar a iluminação única para cada ballet.

5. Qual o equipamento na produção é seu principal objeto de trabalho, “ganha-pão”, ultimamente?
Felix:
Atualmente, minhas luzes favoritas são a PC, Par-64 e qualquer Clay Packy que eu possa encontrar.

6. Qual o projeto mais desafiador que você já criou e por quê?
Felix:
O ballet de dois atos “Esenin” é sobre o poeta russo, Sergey Esenin, que foi um dos vários maridos da dançarina americana, Isadora Duncan. O ballet possuía um cenário muito complexo que se tornou difícil de iluminar. E o diretor queria que a plateia entendesse o quão importante o poeta era para o povo russo através do uso da iluminação. As luzes têm o papel de atrair a atenção da plateia assim como um mestre de ballet faria com os dançarinos no palco.

7. Você já teve alguma ideia que lhe parecia boa no papel, mas não tão boa na realidade?
Felix:
Isso ainda não aconteceu comigo. Não posso nem pensar em termos grandiosos, pois não estaria conectado à realidade da vida como ela é na Rússia.
Mas sempre tento criar meus designs de um ponto de vista artístico.

8. Como seus designs evoluíram através dos anos independentemente das mudanças na tecnologia?
Felix:
Ballet e teatros russos são uma disputa humana complicada. Para mim, iluminação é mais do que ligado ou desligado. E não deveria apenas iluminar. Deve ajudar a expressar sentimentos e evocar emoções na plateia. Esta é a forma como a iluminação deveria explicar completamente uma dança ou um personagem no palco . Mas até agora, apenas uma vez na minha vida, em um festival de dança na Turquia, fui capaz de ver meu design executado da forma como desenhei no papel e como registrei na minha mente.

9. O que te inspira?
Felix:
Apenas uma palvra; “Amor”.

10. Que conselho você daria para lighting designers iniciantes?
Felix:
Saiba quem você é. Aprenda tudo que puder para que possa se tornar o melhor no que faz. E experimente a vida em tudo que você fizer deste momento até o próximo.

Felix e o Saint Petersburg Ballet Theatre sofrem contínuas faltas de recursos, inadequação de equipamentos e antigos teatros.
Há muitas companhias de dança e teatro ao redor do mundo que enfrentam essa mesma realidade. Mas Felix assim como a companhia de Saint Petersburg Ballet Theatre não possuem falta de paixão, criatividade e disciplina. Estas são apenas algumas das muitas razões pelas quais eu sempre gosto muito de trabalhar com artistas russos.

O Saint Petersburg Ballet Theatre se apresenta ao redor do mundo no decorrer do ano. Por exemplo, em 2008, eles viajaram para os E.U.A., México, Alemanha e para o Brasil se apresentando no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Quando retornarem ao Brasil, espero que fiquem mais tempo e se apresentem em mais cidades. Desta forma talvez eu possa rever meu bom amigo Felix, e passar alguns dias tranquilos sem aquela correria que experimentamos em turnê pelos Estados Unidos.

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