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Jorge Pescara é artista-solo exclusivo da Jazz Station Records e contrabaixista com Ithamara Koorax. É autor do livro Dicionário Brasileiro de Contrabaixo Elétrico.
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A partir desta edição iniciaremos uma pequena série de matérias que abordarão a evolução das técnicas e dispositivos ou apetrechos usados para se extrair sons do baixo elétrico. Estes ensaios começarão sempre com um posicionamento histórico, bibliografia, discografia e formas de utilização de cada modalidade exposta. Para iniciar, temos a mais amplamente usada técnica de se obterem sons percussivos no baixo elétrico: o slap bass!
Slapping, Slap Technique, Slap Pop, Popping Style, Funk Slap, Snap String ou Pluck Rhythm Technique, o termo slap é usado em música popular para designar tanto uma técnica de pancadas com a palma da mão nas cordas do contrabaixo acústico quanto no baixo elétrico, a utilização do polegar para golpear as cordas obtendo assim, uma sonoridade rítmica próxima ao bumbo da bateria. Como nossa coluna refere-se ao baixo elétrico, é nele que vamos nos concentrar. Porém, a título histórico permitam-me registrar que o slap no contrabaixo acústico consistia em puxar ligeiramente as cordas do baixo soltando-as ‘estaladamente’ contra a escala do instrumento, fato que produzia uma sonoridade encorpada e metalicamente mais pronunciada do que a bass line tradicional do swing jazz. Como os contrabaixistas sempre sofriam com a pouca amplificação de seus instrumentos, esta foi a saída encontrada para serem ouvidos. Os contrabaixistas mais famosos desta era que usaram a técnica foram: Wellman Braud, Pops Foster e Milt Hinton.
A técnica de slap traz alguma semelhança ao ‘tambour’ (também chamada de ‘tambor’ ou ‘tambora’, escreve-se ‘tamb’ na partitura), uma técnica percussiva usada no flamenco e no violão clássico, designada a imitar a sonoridade da caixa clara (caixa de bateria). Na técnica de ‘tambour’ a sonoridade é adquirida usando, principalmente, a lateral do polegar com a rotação do pulso (nisto se assemelha muito ao slap), ou mesmo a lateral da palma da mão, abaixo do dedo mínimo, batendo rapidamente ao lado da ponte do violão. As variações de timbre ocorrem com as pancadas em diferentes distâncias da ponte ou diferentes partes do polegar (diretamente no osso da falange ou na carne mais macia do dedo).
A história conta que o baixista americano Larry Graham na transição das décadas de 1960/1970 desenvolveu esta técnica/estilo obrigatoriamente, pois por ter perdido o baterista de seu grupo, na época, sentiu a necessidade de integrar algum ritmo mais forte nas linhas de baixo. Larry começou então a golpear as cordas graves com seu polegar, para imitar o bumbo da bateria (kick drum) enquanto puxava a corda aguda com o dedo indicador, soltando-a em seguida para obter um som estalado parecido com o da caixa (snare drum). Após esta inicial germinação o estilo foi, lentamente, se alastrando pelo mundo. Originalmente empregado no funk music, esta técnica foi explorada por baixistas de diversos estilos musicais, estando hoje em dia presente na música popular de todos os continentes.
SLAP NO BAIXO ELÉTRICO
No baixo elétrico, o termo ‘slap bass’ refere-se a uma técnica percussiva comumente usada no funk music dos anos 1970, além do pop e da latin music. Sendo mais percussiva do que a técnica tradicional de pizzicato ou palheta, o slap vem da combinação de dois elementos: golpear firmemente a corda com a borda lateral do dedo polegar, e intencionalmente permitir que a corda vibre após bater de encontro aos trastes e à escala do instrumento. A alternância da batida do polegar com a puxada das outras cordas permite que sejam executadas várias notas seguidas, auxiliadas pelo movimento de rotação do pulso para efetuar os golpes. No slap não se deve deixar o polegar tenso, nem permitir que o golpe abafe a corda atingida. Deve-se também evitar golpear cordas adjacentes sem intenção, pois prejudicaria o resultado final. Misturam-se estes movimentos com os dos dedos da mão esquerda, tais como: abafar as cordas, rebater os dedos ritmicamente nas cordas, usar hammerd e pull off nas notas, que enfatizam o caráter percussivo.
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slap plectro |
Existem diversas posições para a mão e o polegar tais como: mão paralela às cordas e polegar apontado para cima; mão transversal às cordas e polegar apontado para baixo, mão perpendicular às cordas e polegar apontado para o mesmo sentido das cordas. Alguns baixistas batem com o polegar sobre o captador, para um som mais encorpado, outros preferem a região entre o captador e o final da escala para uma sonoridade mediana, havendo alguns outros tantos que usam a região da escala do instrumento para conseguir uma sonoridade mais metálica. Na questão do polegar, há a opção de bater com a falange (parte mais dura da lateral do dedo polegar) diretamente na corda, ou se preferir, a parte entre a falange e a ponta do dedo para um som mais macio. Dos dedos que puxam as cordas agudas podem ser usados o indicador, médio e também o anelar, sendo o dedo mínimo usado apenas para efeitos com cordas puxadas, porém abafadas pela outra mão.
· Slap no Upright Bass (Milt Hinton)
· Slap Bass (Larry Graham)
· Slap Tonal (Stanley Clarke)
· Slap Melódico (Marcus Miller)
· Slap Cromático (Victor Wooten)
· Slap Rítmico (Bill Dickens)
· Slap Mutante (Michael Manring)
· Slap Múltiplo (Fieldy Korn)
· Slap Atonal (Les Claypol)
· Slap no Fretless (John Giblin)
· Slap com Acordes (Abraham Laboriel)
· Slap com a Palma da mão (Chuck Rainey)
· Slap com as Unhas (Bernard Edwards)
· Slap com Palheta (Carmine Rojas)
· Slap com Plectro (Mark King)
· Slap com Funk Fingers (Tony Levin)
VARIAÇÕES DA TÉCNICA DE SLAP
Existem numerosas variantes para a técnica de slap que estende a base de ações por incluir outras técnicas percussivas tais como strumming (raspar vários dedos nas cordas, que Arthur Maia chama de ‘varrer as notas’, ou vassourada), hammered (notas ligadas por pancadas dos dedos nas cordas), ou mesmos repetidos padrões de slap e pop (puxar a corda, soltando-a contra a escala), produzindo no baixo elétrico o equivalente à técnica de rufo da bateria.
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| Slap polegar para baixo |
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Alguns baixistas usam o polegar para puxar as cordas como é o caso de Abraham Laboriel (Dave Grusin, Steve Wonder, Barbra Streisand, Al Jarreau, Elton John, Ray Charles, Madonna, Paul Simon), que usa os outros dedos da mão para uma espécie de rasgueado slap nas cordas. Jaco Pastorius (Weather Report, Joni Mitchel, Herbie Hancock, Pat Metheny, solo) fazia um efeito no baixo batendo e deslizando a palma da mão direita sobre a corda mi para imitar a sonoridade de um surdão (surdo drum).
Já Bernard Edwards (Chic, Diana Ross, Madonna, Paul Simmon, Mick Jagger, Rod Stewart, Carly Simon) juntava a ponta dos dedos indicador e médio para tocar as cordas raspando as unhas fortemente contra elas, por vezes estalando-as contra a escala, causando assim uma ‘espécie’ peculiar, porém não necessariamente, um slap. Percy Jones (Brand X, Tunnel, Roy Harper, Brian Eno, solo) criou o ‘big bang’, que consiste em tocar uma nota grave e bater a palma da mão sobre os captadores extraindo harmônicos para formar acordes de três ou quatro notas.
O baixista Carmine Rojas (David Bowie, Steve Wonder, Tina Turner, Rod Stewart) fez diversos grooves de slap empunhando uma palheta, sendo que Mark King (Level 42) tornou-se famoso por seus grooves de slap no pop, porém som um plectro de plástico no polegar (dedeira usada para tocar banjo). O baixista Victor Wooten (Bèla Fleck & Flectones, Bass Extremes, solo) desenvolveu uma variação peculiar de slap. Inspirado pelo irmão Regi, Victor Wooten usa a volta da rotação do pulso, assim seu polegar bate na corda (qualquer uma, grave ou aguda) no movimento descendente e na volta usa o mesmo dedo para puxar a corda. Victor também costuma usar o indicador para puxar outra corda, criando assim complexas texturas rítmicas e fraseados rápidos, podendo até mesmo construir fraseados cromáticos e imitando o rufo de caixa de bateria.
Bill ‘Budha’ Dickens (Aretha Franklin, Barry Manilow, Chaka Kahn) possui uma arrasadora e impressionante técnica de rebote do polegar, pois sua rítmica se assemelha a uma metralhadora de semicolcheias (diferente de Wooten que cuja sonoridade está mais na puxada da corda, do que na batida do polegar). Embora não seja slap ‘per si’, o ‘funk fingers’ inventado por Tony Levin (Yes, Pink Floyd, Dire Straits, King Crimson, Peter Gabriel, solo) cria uma sonoridade similar por usar uma superfície rígida para atacar as cordas causando, intencionalmente, contato da corda com o fretboard (escala). Este artefato é composto por um par de finas e leves baquetas de percussão para ser usado com o contrabaixo elétrico. O Funk Fingers original foi preso aos dedos com elásticos, fita adesiva e outras experimentações, mas Levin decidiu que o design mais confortável era uma capa de borracha no final dos dedos, porém o modelo atual do Funk Fingers possui um corte longitudinal para o encaixe do velcro que é usado para prender nos dedos. Um acabamento emborrachado foi adicionado nas pontas das baquetas para amenizar o timbre muito agudo do Funk Fingers original. Com 15cm de comprimento (a peça maior para ser usada no dedo indicador que já é mais curto do que o dedo médio, enquanto a baqueta menor possui 14,5cm para ser usada no dedo médio), as baquetas são presas aos dedos indicador e médio da mão direita e usadas batendo-as contra as cordas de forma ritmada, enquanto a mão esquerda digita as notas normalmente.
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Slap polegar para cordas |
O resultado é altamente potente e rivaliza com o timbre do slap somente sem as puxadas. Este dispositivo foi criado em 1985, quando a banda de Peter Gabriel estava gravando o disco “So”, no famoso complexo de quatro estúdios dentro da fazenda chamada “Real World”, propriedade de Peter Gabriel, localizado na área rural de Box, Wiltshire, Inglaterra. Durante a faixa “Big Time” o baixista Tony Levin, com a intenção de obter um timbre pouco comum, teve a feliz ideia de pedir ao então baterista da gig, Jerry Marotta, para bater com as duas baquetas nas cordas do baixo (sobre os captadores), enquanto o próprio Tony digitava as notas de seu Music Man Stingray 4 cordas, posicionado estrategicamente sobre uma mesa. O ‘funk fingers’ pode ter um paralelo na técnica de contrabaixo acústico chamada: ‘col legno’ (escrito na partitura como ‘col legno battuto’, que significa literalmente: bater com a madeira), que consiste em bater com a haste de madeira do arco (costas do arco) nas cordas do contrabaixo, proporcionando um resultado similar.
Outra variação do slap envolve o chamado Slapring. Inventado pelo alemão Gerald Reese (solo) em 1996 o apetrecho consiste em tubo metálico com 4 cm de extensão. Tal tubo não é inteiramente fechado, pois contém um rasgo para se adaptar em qualquer polegar. Com o slapring no polegar é possível conseguir ataques mais fortes na corda, extrair harmônicos no slap, ruídos e efeitos de raspar o tubo nas cordas, além de double stops e acordes.
EQUIPAMENTO
A princípio, qualquer baixo elétrico pode ser usado para o slap, porém os mais amplamente aceitos são os modelos com captadores Jazz Bass (Fender Jazz Bass, etc) por suas características sonoras de transientes que ajudam a clareza do som de slap. Outros tipos de baixos usados são os modelos precision (Fender Precision, etc), humbcking (Music Man, G&L, Yamaha BB Series, etc), soapbars (Ibanez SDGR, etc) e até mesmo com sonoridades mais exóticas (Alembic, etc). Devem-se observar alguns ajustes iniciais: as cordas, que devem ser mantidas novas por questões de melhor timbre para slap, devem estar bem tencionadas e ajustadas para um perfeito controle motor. Capotrastes feitos de materiais mais rígidos são melhores transmissores de vibração das cordas para o braço do instrumento, então prefira capotrastes de osso ou de metal. Pontes com massa e peso são melhores do que as de chapa dobrada. Lembre-se, quanto mais massa na ponte, melhores as condições de vibração das cordas. Ajuste o braço do baixo para que tenha uma leve curvatura em relação às cordas, evitando assim, o trastejamento. Compressores são bem-vindos, sendo que os ajustes dos equalizadores no preamp/amp devem enfatizar as frequências médio graves e médio agudas. Chorus, phaser, flanger e até mesmo delay já foram usados no slap. Com mais arrojo pode-se tentar distorção, filtros tipo Wah ou envelopes e bass synth filters.
Segue uma pequena lista dos mais notáveis baixistas que usam o slap:
· Larry Graham (Sly and the Family Stone, Graham Central Station, Prince)
· Louis Johnson (The Brothers Johnson, Quincy Jones, Michael Jackson)
· Bootsy Collins (solo, Bootsy’s Rubber Band, Funkadelic, Parliament, Praxis)
· Stanley Clarke (solo, Return to Forever, Chick Corea)
· Marcus Miller (solo, Miles Davis, David Sanborn, Luther Vandross)
· Doug Wimbish (Sugarhill Gang, Grandmaster Flash, Living Colour, Mick Jagger)
· Stu Hamm (solo, Steve Vai, Joe Satriani)
· Tony Oppenheim (autor, slap bass teacher)
· Mark King (Level 42)
· Robert Trujillo (Suicidal Tendencies, Infectious Grooves, Ozzy Osbourne, Metallica)
· Flea (Red Hot Chili Peppers)
· Les Claypool (solo, Primus)
· Victor Wooten (solo, Béla Fleck and the Flecktones)
· Tony Kanal (No Doubt)
· Fieldy (Korn)
· P-Nut (311)
Segue uma lista de algumas das músicas mais conhecidas usando a técnica de slap:
· Graham Central Station - Hair (Larry Graham no disco ‘Graham Central Station’ 1973)
· Stanley Clarke - Silly Putty (Stanley Clarke no disco ‘Journey to Love’ album 1975)
· Michael Jackson - Get On The Floor (Louis Johnson no disco ‘Off the Wall’ 1979)
· The Brothers Johnson - Stomp! (Louis Johnson no disco ‘Light Up the Night’ 1980)
· Level 42 - Love Games (Mark King no disco ‘Level 42’ 1981)
· David Sanborn - Run for Cover (Marcus Miller no disco ‘Voyeur’ 1981)
· King Crimson - Sleepless (Tony Levin no disco ‘Three of a Perfect Pair’ 1984)
· Red Hot Chili Peppers - Get Up and Jump (Flea no disco ‘Mother’s Milk’ 1989)
· Primus - Tommy The Cat (Les Claypool no disco ‘Sailing The Seas Of Cheese’ 1991)
· No Doubt - BND (Tony Kanal no disco ‘No Doubt’ 1992)
· Incubus - Speak Free (Dirk Lance no disco ‘Fungus Amongus’ 1995)
· 311 - What Was I Thinking (P-Nut no disco ‘Transistor’ 1997)
· Korn - Got The Life (Fieldy no disco ‘Follow The Leader’ 1998)
No Brasil temos Paulo César Barros (Raul Seixas, Marcos Valle, Gal Costa, Renato e seus Bluecaps) o contrabaixista que primeiro trouxe a técnica ao país, por volta de 1970, e Celso Pixinga (Eduardo e Silvia Araújo, Jessé, Gal Costa, solo) como o maior expoente por sua destreza e velocidade. Nico Assumpção (João Bosco, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Edu Lôbo, Pat Metheny, Larry Coryell, solo), Arthur Maia (Cama de Gato, Milton Nascimento, Djavan, Ney Matogrosso, Gilberto Gil, Lulu Santos, solo), Sizão Machado (Djavan, Joyce, Rosa Passos, Dave Liebman, Randy Brecker, solo), Alex Malheiros (Azymuth, Stelinha Egg, Mark Murphy, Ithamara Koorax, solo), André Gomes (Fernanda Abreu, Gabriel O Pensador, Adriana Calcanhoto, João Bosco, Pepeu Gomes), Adriano Giffoni (Leila Pinheiro, Antônio Adolfo, Edu Lôbo, Lisa Ono, Nana Caymmi, João Donato, Roberto Menescal, solo), Zuzo Moussawer (solo) e André Vasconcellos (Djavan, Jorge Vercillo, Dulce Quental, Hamilton de Holanda, solo) são outros grandes baixistas brasileiros que se destacam da grande massa na utilização do slap.
Como uma técnica muito difundida, incontáveis são os músicos que se utilizam dela como artifício, porém poucos a usam de forma claramente estilística, sendo comum os casos de uma sobreexposição da sonoridade de slap o que acaba por tornar-se um pouco cansativo ouvi-lo em situações desnecessárias.
Auf Wiedersehen!