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Todos aqueles que já participaram alguma vez de um programa de televisão sabem que a espera nos bastidores enche o saco... Embora, de uns tempos para cá, tudo tenha melhorado bastante com a profissionalização crescente das equipes de produção, há coisas impossíveis de eliminar. Por exemplo: o que fazer naquelas horas que decorrem entre a passagem de som e o começo da gravação (ou do programa ao vivo)? Voltar para o hotel (ou para casa) costuma ser arriscado por causa do trânsito. Então você fica limitado a passar esse tempo ali mesmo na TV. E há TVs e TVs...
Nos melhores casos (nos melhores programas das melhores emissoras) você vai ter um camarim confortável, com lanchinho, banho, TV a cabo, frigobar e um solícito assistente de produção que vai enrolando você educadamente enquanto a prometida meia hora de espera vai se transformando em duas, três ou mais horas, dependendo da casa que caiu lá fora. É uma situação muito semelhante à espera nos aeroportos: assim como ninguém vai abrir para você que aquela companhia escolhida pelo precinho da passagem só tem dois aviões - e em pane – o assistente de produção não pode colocar a cabeça dele a prêmio contando que o apresentador do programa esqueceu a cueca da sorte em casa e mandou o motorista voltar lá para buscar. Só que ele mora em outra cidade e o motorista, na pressa, não levou a chave da casa e só percebeu isso quando já estava quase lá...
Em alguns programas de emissoras menores, mais “inchados” de atrações, a situação pode ficar crítica. Você está ali em um camarim modesto – mas se achando um sortudo por estar sozinho – calmamente recostado na única poltrona confortável quando de repente, sem aviso, a aflita assistente de produção invade o recinto com 18 crianças fantasiadas de índio que vieram dos confins do Pará de ônibus, comboiadas por uma solitária, idosa e exausta professora, para apresentar sua Dança da Prosperidade que – dizem – fez com que a tribo achasse gás natural na reserva, enriquecendo da noite para o dia. Claro que você cede sua poltrona para a professora, que adormece quase que imediatamente, deixando você à mercê dos indiozinhos que começam a agitar seus tacapes na sua direção. Você corre para refugiar-se na cantina e lá encontra o palhaço Bubu, desempregado há vários meses, que pega dez dos seus reais “emprestados” e devora com uma velocidade impressionante dois cheeseburgers e uma empada, fazendo com que você fique deprimido e com vontade de doar seu carro para ser leiloado em prol da Casa dos Artistas. A essa altura, depois do palhaço Bubu – que já teria tomado umas antes do cheeseburger – desfiar, aos berros, a triste biografia na sua orelha, o que deprime você ainda mais, chega a esbaforida assistente de produção, dizendo que “depois de tê-lo procurado inutilmente pelo prédio inteiro, teve que adiar sua entrada para o quinto bloco”, o que significa que você está inapelavelmente fadado a só sair dali depois das dez da noite. Embora o chão molhado de chuva 15 andares abaixo pareça ser a melhor solução para o seu problema, você persiste na firme decisão de fazer o programa, e aí sente um repuxar na sua camisa, olha para baixo e vê um daqueles indiozinhos sorrindo com uma pena de ararinha azul na mão, que ele quer entregar para você como prova de sua amizade. Enternecido por aquela carinha inocente, você pega a pena da ararinha-azul (“que bonito!”- comenta, com o melhor sorriso que consegue pôr na cara) e brinca com o indiozinho. Nisso chega a professora idosa, com cara de poucos amigos, perguntando o que você está fazendo ali com aquela pena de uma ave quase extinta na mão. Antes que você possa explicar-se, ela solta uma bronca terrível sobre alguma coisa referente à “equivalência cultural”, pega o indiozinho pelo braço e sai batendo pé e falando alto sobre o quão desinformado pode ser um artista. Vencido, você cai sentado em uma cadeira da cantina, sem apetite, sem esperança e sem perspectiva, quando a assistente de produção reaparece do nada dizendo que dá para encaixar você...”agora!!!” – grita ela – puxando você pelo braço e saindo em uma correria desesperada por intermináveis corredores. A correria termina em uma porta fechada de estúdio, por cujo vidro de vigia vocês mal conseguem enxergar um contrarregra mal humorado que faz sinais enérgicos de ”ninguém entra mais aqui”. A assistente de produção, com um sorrisinho amarelo na boca, pronuncia as últimas palavras que você ouve antes de desmaiar:
- Ih, agora só depois das dez e meia, no oitavo bloco...
Bom, extrapolações à parte, o real mesmo é que é muito chato ficar esperando. Aí entra também o trabalho do seu empresário ou assistente pessoal que se esforçará ao máximo para manter você em casa ou no hotel até a hora H, surdo às lamentações dos agonizantes assistentes de produção. Às vezes, por diversas razões, isso é impossível. Experimente então levar um bom livro. Ou tenha um celular de última geração e fique acessando a internet. Ou leve a (o) namorada (o) e fique namorando. Ou fique lendo o manual daquele programa de áudio que você nunca destrinchou direito. Ou fique estudando o seu instrumento. Ou – se você achou tudo isso entediante (!) – arrume outra profissão. Porque televisão é parte importantíssima da vida de artista e esperar na TV faz parte do métier.
Então me vêm à cabeça as sábias palavras que ouvi anos atrás de um veterano cantor, no democrático e duro banco da coxia do Cassino do Chacrinha onde nos acotovelávamos, impacientes estrelinhas e estrelonas, à espera da hora de entrar:
- Se segura aí, meu filho.
- Sem bunda quadrada não tem sucesso.