Mixagem - distribuindo os elementos musicais
Ticiano Paludo

Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário, músico, compositor e sound designer. Leciona Áudio Publicitário e Atendimento na FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social (PUC/RS) - e Arranjo e Produção Musical Nível III no IGAP - Instituto Gaúcho de Áudio Profissional.
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Existem basicamente três etapas na elaboração de um álbum: pré-produção, produção e pós-produção. A produção já foi (e continuará sendo) amplamente comentada por mim e por meus colegas aqui da Backstage. Portanto, quero agora me deter nas fases de pré-produção e pós-produção. Neste mês, falaremos sobre a pré e no mês seguinte sobre a pós.
Vamos lá...

Como eu não faço idéia (e não tenho como saber, mesmo) em que horário você está lendo essa coluna, vamos pensar no dia de ontem na sua vida. Procure refletir sobre tudo o que você fez, com quem conversou, aonde foi, o que comeu, ouviu, etc... Pensou? Ok. Possivelmente muitas das coisas que você fez ontem aconteceram de forma inesperada: a ligação telefônica de alguém com quem você não falava havia muito tempo, a chegada de um e-mail inusitado, a visita de um parente, ...; mas outras coisas que aconteceram, você já havia planejado de véspera ou quem sabe há bastante tempo. Nem tudo na vida é planejado. No entanto, em muitos casos, um bom planejamento evita fortes dores de cabeça e faz toda a diferença na hora de alcançar um resultado plenamente satisfatório. Com a música acontece a mesma coisa.

Pré significa aquilo que vem antes de. Pré-produção, então, é aquilo que vem antes da produção. A fase de pré-produção de um álbum ou faixa avulsa deve ser encarada com seriedade e entendida como planejamento de ação elaborado para maximizar resultados, minimizar custos e facilitar o processo produtivo. Normalmente, começo meu planejamento (isto é, minha pré-produção) pensando no A&R do artista. Para quem não lembra ou não sabe, A&R significa Artista e Repertório. O trabalho de um A&R envolve diversas atividades: pensar o figurino do artista, sua postura (tanto de palco quanto no que diz respeito a como se comportar perante a mídia), definição de foco da carreira artística, posicionamento dentro do mercado e, como o próprio nome já sugere, escolha adequada de repertório para esse artista (seja em termos de covers, releituras, versões, remixes ou composições próprias). Nesse momento, é prudente conversar bastante com o artista para identificar como ele se vê, como o mercado e a concorrência o percebem e refletir se essa equação está equilibrada. Como já disse antes em outras colunas, trabalhar com referências ajuda muito, seja em termos de sonoridade ou de proposta artística. Em resumo, o A&R é um bom ponto de partida para iniciar o planejamento ou etapa de pré-produção.

Uma vez elaborado o plano de A&R, deve-se pensar nas melhores alternativas para se chegar aos resultados esperados que foram previamente definidos. É hora de pensar onde o material será gravado. Eu trabalho como muitos produtores americanos e canadenses, ou seja, não possuo estúdio para captação e sim para pré e pós-produção. Isso evita que meus trabalhos soem muito iguais, afinal, cada estúdio tem seu “som particular”. Portanto, é de vital importância conhecer um número considerável de estúdios de gravação para poder sugerir ao artista onde gravar o seu trabalho. Existe um falso mito de que estúdios que cobram caro são bons e de que os que cobram valores menores apresentam resultados inferiores. A experiência de anos me mostrou que isso é bobagem. Conhecer os estúdios envolve uma série de fatores que devem ser analisados. Esta análise vai do mais trivial até elementos bem subjetivos (e de igual importância). Trivial, para mim, seriam os equipamentos de que o estúdio dispõe. Já vi estúdios que possuem equipamentos maravilhosos tirarem um som medonho e outros que possuem equipamentos mais modestos chegarem a resultados muito interessantes e sonoridades ricas, pois dominam muito bem as ferramentas que têm em mãos. Tenho um grande amigo que é um excelente fotógrafo (Ricardo Lage) que sempre diz que a câmera fotográfica representa apenas 10% da foto. Concordo com ele. O mesmo vale para o nosso caso. Devemos lembrar que por mais que o artista esteja acostumado a gravar, a gravação é sempre um momento de tensão e expectativa. Estamos representando para uma máquina que eternizará a nossa representação. Seremos lembrados ou esquecidos em função desse processo. Por isso, artista e produtor precisam se sentir totalmente confortáveis no estúdio. Caso contrário, a gravação possivelmente sairá comprometida e o resultado final idem. Se sentir bem envolve questões totalmente subjetivas que vão desde a empatia entre a equipe técnica e o artista até a temperatura ambiente do estúdio e sua decoração. Pode parecer tolo, mas já refiz gravações inteiras porque o artista se sentiu desconfortável no estúdio e preferiu refazer tudo em outro para render mais (o que de fato ocorreu). Fazer um tour com o artista visitando alguns estúdios e ouvindo o resultado do que foi gravado lá contribui para uma escolha adequada.

Claro, não podemos nos esquecer dos fatores dinheiro versus prazos. Música sempre envolve matemática e na etapa de pré-produção ocorre o mesmo. Desse modo, devemos equacionar a verba disponível para realização do trabalho com os resultados que desejamos alcançar e colocar tudo isso dentro de prazos que fiquem bons para todos os lados envolvidos. Sabemos bem que cada caso é um caso, mas apenas para citar, normalmente levo, no mínimo, 10 horas para gravar uma faixa e mais 10 horas para editar e finalizá-la. Se estivermos produzindo um álbum com 10 faixas, precisaremos então de 100 horas de gravação e 100 horas de edição, totalizando 200 horas de trabalho direto em estúdio (seja de pré ou pós-produção). Uma ferramenta fácil de usar, mas de grande poder, é o cronograma. Procure elaborar um bom cronograma colocando ali todas as datas em que o trabalho será desenvolvido, o que ocorre em cada etapa, o tempo dedicado e verba necessária. Isso ajuda muito a que todos visualizem o processo de produção. E, lógico, cronograma não é “para ser bonito” e sim para ser cumprido!

A próxima etapa é o ensaio para gravação. Sempre ensaio meus artistas e os deixo em ponto de bala para gravar. Isso vai evitar perdas de tempo desnecessárias durante o processo de gravação. Gravar tudo em uma mesma sessão de gravação ou várias horas seguidas também se mostra ineficiente. Procuro dividir as sessões de gravação por instrumentos ou grupos de instrumentos, normalmente começando pela cozinha (bateria, percussão e baixo) seguidas de cordas (guitarras, violões, cavaquinhos), teclados, madeiras e metais, vocal principal, vocais auxiliares e backing vocals. Uma boa sessão não deve ultrapassar 6 horas corridas. Pode-se até gravar 12 horas em um mesmo dia, desde que exista um intervalo de pelo menos 2 horas entre a primeira e a segunda sessão de 6 horas. Parar para comer ou dar uma volta reanima os ânimos e descansa o ouvido. É importante não ouvir música nenhuma nesse intervalo para “limpar” o ouvido que acaba ficando viciado com tanta informação sonora.

Uma vez ensaiado, precisamos escolher com quais instrumentos gravaremos. Às vezes, por exemplo, é legal gravar com um encordamento novinho na guitarra, em outras não. Isso varia de trabalho para trabalho. Se for o caso de trocar o encordamento, isso deve ser feito com pelo menos três dias de antecedência, pois as cordas precisam “se acomodar” ao instrumento. É comum o aluguel de instrumentos, AMPs e periféricos para a gravina (isso quando o próprio estúdio não disponibiliza de tais recursos).

Recapitulando o que vimos até aqui, sistematizei a nossa pré-produção em 5 passos. São eles:
1-Definição do Plano de A&R;
2-Escolha de Estúdio adequado para captação/gravação;
3-Elaboração de Cronograma envolvendo objetivos e metas, prazos e verba;
4-Ensaio para a gravação;
5-Escolha de instrumentos e preparação de periféricos.
Pronto! Agora é só seguir o planejamento e gravar tudo. Boa gravação!!! No mês que vem falaremos sobre a pós-produção. Abraços e bom verão a todos.

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