Ithamara Koorax

Miguel Sá

Não importa se é para uma plateia de 15 mil pessoas em um balneário ou nas melhores casas de jazz, Ithamara leva o melhor do jazz e da música brasileira para o mundo todo. A qualidade do trabalho a faz ser uma das três maiores cantoras de jazz de 2008 segundo os leitores das revistas DownBeat, Swing Journal e Jazz People

O passaporte de Ithamara tem o carimbo dos mais diversos países do mundo: EUA, Coreia, Japão, França... E ela também não escolhe palco. Também, não precisa. Os melhores palcos já a escolhem . São festivais de jazz, clubs e teatros com público de todo o mundo querendo ouvir a música de Ithamara. Essa música sem fronteiras iniciou já na sua formação dela. A futura cantora começou estudando música clássica aos cinco anos de idade com a professora Helda Pinheiro dos Santos. Não dá para dizer o que a cantora aprendeu a ler antes: se palavras ou música. O fato é que aos 12 anos de idade ela já tinha se formado em solfejo, harmonia e teoria musical em aulas com Ísis Machado.

 
Jorge Pescara e Ithamara  

Paralelamente aos estudos formais de música, ela crescia com fortes doses de Bach e Mozart. Da mãe, cantora lírica, herdou o gosto por ópera, gênero que também ouviu muito durante a sua formação musical. Por causa dos amigos, rádios, discos e do mundo, conheceu também o melhor da música popular de todo tipo: Elizeth Cardoso, Elis Regina, Barbara Streisand, Tony Bennett, Frank Sinatra, Chico Buarque, Stellinha Egg, Vanja Orico, Dilú Mello, João Gilberto, Chet Baker, Paulinho da Viola,Edu Lobo e muito mais.

A relação com o jazz cantado começou com Sarah Vaughan e Ella Fitzgerald, mas elas não foram a maior influência de Ithamara. “Aquele negócio de scat-singing era muito fora do meu universo, mas eu adorava os songbooks e os discos de baladas. Eu me identificava muito mais com os discos da Flora Purim e da Urszula Dudziak, que eu descobri quando uma música dela, Papaya, estourou na Rádio Mundial e virou vinheta da TV Globo”, comenta Ithamara.

Mas a vontade de seguir na música como profissão veio um pouco depois. Durante a adolescência, ela entra para o coral do Centro Educacional de Niterói, regido pelo Professor Ermano Soares de Sá. “Foi uma época maravilhosa, viajamos pelo Brasil e pela Europa, ganhamos vários festivais, e foi aí que surgiu a vontade de, um dia, adotar a música como carreira”, lembra a musicista.

MÚSICA E PROFISSÃO

O contato com a música profissional começou aos poucos. Na década de 1980 Ithamara Koorax era mais dona de casa que cantora. Mas o casamento não a impediu de atuar em boa parte dos jingles gravados no Rio de Janeiro, na época (quando ainda havia mercado publicitário no Rio). A voz dela pôde ser ouvida em comerciais das Lojas Americanas, do Guaraná Antarctica e muitas outras mais, tanto cantando solo como em coro. Ithamara não ficava só no jingle. Ela ainda fez backing vocal para Tim Maia e Bebeto. Nesta fase inicial da carreira, ela também participou de shows de Tito Madi e Paulo Cesar Pinheiro, mas a carreira-solo ainda ia esperar mais um pouco. E começou em grande estilo.

 
Com Tom Jobim  

Em 1990, a dupla Guinga e Aldir Blanc se tomou de amores pela voz de Ithamara. Aldir chegava a se referir a ela como “terceira parceira” da dupla, tamanha a afinidade musical. Guinga passava as músicas em primeira mão, saídas do forno, para a cantora que, entusiasmada, já chegava com elas decoradas para os ensaios. O trio se desmanchou, mas agora a carreira-solo estava lançada, apesar de ainda não assumida. Com o fim do trabalho com Guinga e Aldir, Ithamara acabou fazendo a sua estreia no “mainstream” da música comercial. Era dela a voz que os espectadores da minissérie Riacho Doce ouviram no tema da abertura, a música Iluminada. Ela fez a gravação a convite do diretor musical da Globo, Mariozinho Rocha. Depois, choveram convites para tocar com o primeiro time da música brasileira. Mauricio Carrilho e pelo Pedro Amorim a convidaram para excursionar com eles pelo Japão e ela ainda ganhou o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como cantora-revelação de 1990. Foi quando Ithamara viu que, definitivamente, tinha o seu lugar no sol da música brasileira. E estava lançada a carreira-solo.

 

ITHAMARA E O JAZZ

 
  Ao lado de Ron Carter

Ithamara Koorax é conhecida como cantora de jazz, até por causa da grande projeção que conseguiu no exterior sob as asas do gênero, mas ela não se prende a isto. “Aprendi com Hermeto Pascoal, com quem eu tive a honra de atuar em shows e gravações, que a música é universal. Sigo esta crença com absoluta fé e devoção. No Brasil, algumas pessoas dizem que eu me auto-proclamei ‘cantora de jazz’, mas isso nunca aconteceu. Eu canto todos os tipos de música, inclusive jazz. Quando eu gravo trilhas sonoras para cinema ou para novelas, não estou cantando jazz. Meu maior sucesso na Ásia é Dio Come Ti Amo, uma canção italiana do Domenico Modugno. Na Europa, Un Homme et Une Femme. Nenhuma delas tem a ver com jazz, foram estouros na parada pop. Quando eu faço concertos ou gravo com orquestras sinfônicas, canto Villa-Lobos e Heckel Tavares. Tenho uma carreira sólida também na área de dance-music, já trabalhei com alguns dos DJs mais importantes do mundo, emplaquei vários hits em Ibiza nas paradas de techno e house-music. Se eu fosse uma cantora estritamente jazzística, não teria esta elasticidade estilística. Por que eu deveria me restringir a um único estilo, se gosto de vários? Eu não quero me limitar”.

Ela pode não ser exclusiva do jazz, mas a ligação com o gênero é mesmo forte. E já se estreitou logo no início da carreira-solo. Em março de 1991 ela foi convidada pelo produtor Creed Taylor, da CTI Records, para participar, em Nova Iorque, de um disco do trompetista Art Farmer. Neste disco ela atuou com Eddie Gomez, Jack DeJohnette e Gil Goldstein. “Nas noites de folga eu fui a shows de Phil Woods, Nancy Wilson, Louie Bellson, Joe Beck, Ronnie Cuber e Lew Soloff, ex-membro do Blood, Sweat & Tears, um grupo que eu amava. Claro que eu também fui assistir Liza Minelli no Radio City Music Hall, mas passei a maior parte do tempo ouvindo jazz por quase dois meses”, relembra Ithamara.

Na discografia própria da cantora, o jazz ganhou mais força a partir do segundo disco, Rio Vermelho, em 1994. “Convidei o Arnaldo DeSouteiro (atual marido da cantora) para produzir. Ele adicionou elementos jazzísticos, improvisos e chamou músicos como Bonfá, Ron Carter, José Roberto Bertrami e Sadao Watanabe. Ficou um disco de MPB, mas muito sofisticado. Ainda teve o Tom Jobim, que se ofereceu para participar porque tinha gostado das gravações das músicas dele no disco anterior. E quando você trabalha com músicos desse nível, você aprende muito. Embora tivesse apenas uma música americana (Cry Me A River), o disco foi rotulado como jazz no exterior, chegou ao Top 10 no Japão e levou minha carreira a tomar um rumo internacional”.

GRAVAÇÕES, ESTÚDIOS, ENGENHEIROS E REVERB. MUITO REVERB

 
Ithamara e seu trio  

Em geral, Ithamara gosta de gravar com todo mundo tocando junto no estúdio. Muitas vezes as vozes-guia que ela faz acabam se tornando as definitivas. Ela gosta de usar microfones dinâmicos, tanto em gravações como nos shows, principalmente os modelos Beta 58. A cantora gosta de usar bastante reverb na voz. “Algumas pessoas não conseguem entender isso, mas o reverb faz parte do meu som, da minha estética vocal, assim como era fundamental para a Flora (Purim) e para Urszula nos anos 70. A voz fica mais macia, mais acolchoada, mais sexy. Eu adoro fusion, então me acostumei a ouvir teclados, baixos e trompetes com efeitos. Herbie Hancock, Chick Corea, Miles Davis, Stanley Clarke, Randy Brecker, todos esses craques usaram mil efeitos, delays, revers, phasers. No Brasil o Marcio Montarroyos também usava muito bem o reverb e soube criar uma sonoridade pessoal”, define a cantora.

O equipamento é importante para Ithamara Koorax, só que o material humano ainda é o que mais influencia na qualidade final do trabalho. “Depois de 20 anos de carreira, posso garantir que a qualificação do engenheiro de som é tão ou mais importante do que o equipamento. Há casos excepcionais, como o do Rudy Van Gelder, considerado o melhor engenheiro da história do jazz. É um caso raríssimo de um gênio, de grande sensibilidade e conhecimento musical, operando um equipamento espetacular em um ambiente construído por ele mesmo que oferece uma profundidade sonora incomparável. Sempre que gravo lá fico tão emocionada que desando a chorar. Eu sei que estou em um templo por onde passaram Miles, Coltrane, Bill Evans, todos os mestres da Blue Note, da Prestige e da CTI. Para completar, o Rudy é um gentleman”.

Ela ainda destaca o nível dos profissionais brasileiros e cita vários com quem gosta de gravar, como Geraldo Brandão, Marcelo Sabóia, Marcos Sabóia, Carlos Fuchs, Rodrigo de Castro Lopes e Toninho Barbosa. “Me dou muito bem com todos eles. Já gravei em estúdios no mundo inteiro: Suíça, Alemanha, Inglaterra, Japão, Coreia, e o único diferencial é em relação ao tamanho das salas. Certos trabalhos pedem uma ambiência acústica impossível de ser conseguida em uma sala pequena”, diz ela.

OS MÚSICOS E A MUSICISTA

Discografia
• 2008 - Obrigado Dom Um Romão - TCB
• 2008 - Tributo a Stellinha Egg - CEDEM
• 2007 - Brazilian Butterfly - IRMA
• 2006 - The Best of Ithamara Koorax - EMI
• 2006 - Love Dance [Enhanced] - Concord
• 2006 - Serenade in Blue [Enhanced] - Concord
• 2005 - Autumn in New York - EMI
• 2004 - Cry me a River - Huks
• 2003 - Love Dance: The Ballad Album Milestone/Som Livre
• 2003 - Love Dance/As Time Goes By [Japan Bonus Tracks] - JVC
• 2002 - Someday - Huks

  • 2001 - Amor Sem Adeus - Huks
• 2000 - Serenade in Blue - Milestone/Universal
• 1999 - Bossa Nova 21st Century [DVD-A] - Sanyo
• 1998 - Bossa Nova Meets Drum ‘N’ Bass” Paddle Wheel
• 1997 - Wave 2001 - Sanyo
• 1996 - Almost in Love - Imagem
• 1996 - Ithamara Koorax Sings The Luiz Bonfá Songbook - Sanyo
• 1995 - Red River - Sanyo
• 1995 - Rio Vermelho - Imagem
• 1994 - Ao Vivo - Imagem
• 1993 - Luíza - JVC

Às vezes Ithamara não consegue levar o seu grupo brasileiro para viajar com ela pelo mundo. Nem sempre os contratantes estão dispostos a pagar passagens para todos e ela, então, tem de usar músicos locais. “Já fiz turnês pela Ásia com meu grupo, e outras vezes somente com músicos japoneses ou coreanos. O mesmo acontece em relação à Europa. Mas nada muda no meu jeito de cantar. A ‘grife Ithamara Koorax’ está sempre presente”, diz ela. Sua experiência com músicos de todo o mundo a permite endossar o que sempre se fala do músico brasileiro, um dos melhores do mundo. Ainda que, segundo ela, os músicos estrangeiros sejam um pouco melhores na leitura de partituras. “Mas é só isso”, ressalta a musicista.

O fato de ter uma formação musical sólida também a ajuda no diálogo com seus músicos. A cantora toca, no Brasil, com um trio formado pelo baterista Haroldo Jobim, o pianista José Roberto Berttrami (que também toca no Azimuth) e o baixista e diretor musical de palco Jorge Pescara. O baixista já trabalha com ela há alguns anos e destaca a divisão rítmica da cantora, que elimina a sensação de “playback” que se tem no show de cantoras menos iniciadas nos segredos musicais. “Ela é mais um instrumento tocando”, reflete Pescara. Ele destaca que se o músico ficar muito preocupado em “acompanhar” Ithamara e não fizer o seu som, pode até se perder dela na música. Ele se lembra de um diálogo da cantora com um técnico de som no qual ela pedia mais “pegada” da parte dele e definia o próprio som como um “punkfusion”. “Com ela eu uso muito mais baixo elétrico no show”, diz Pescara.

EXPERIÊNCIAS MUSICAIS

 
João Donato e Koorax  

Em 20 anos de carreira, Ithamara passou por momentos bastante especiais e conheceu músicos importantíssimos, como o saxofonista David Brubeck, padrinho da carreira da cantora nos EUA. De Tom Jobim, conquistou uma participação especialíssima no CD Rio vermelho (a música É preciso dizer adeus). “Jobim foi um grande incentivador no meu início de carreira. Gravei várias músicas dele no Ithamara Ao Vivo, (que ganhou o Prêmio Sharp em 1994, na categoria revelação) e um dia recebi um telefonema dele elogiando as gravações. Por causa disso ele aceitou participar do meu segundo CD. Ele precisava ir para Nova Iorque no dia seguinte e disse que regravaríamos as outras duas ‘com mais calma’ quando ele voltasse. Eu não sabia que ele estava doente. E ele infelizmente nunca voltou da viagem. As outras gravações permanecem inéditas, mas uma daquelas músicas, Absolut Lee, eu acabei regravando em 2003 para a trilha da novela ‘Celebridade’, explica Ithamara.

Ela também destaca os dois anos (1993 e 1994) nos quais excursionou com Marcos Valle. “Ele estava desde 1988 sem fazer shows, tinha se aposentado precocemente dos palcos. Por admirar muito a obra dele, o convidei para dividir comigo uma temporada no Teatro João Caetano, para a qual eu tinha sido convidada pelo Albino Pinheiro. A química deu certo e levamos o show para o Rival, para o People e saímos em turnê pelo Brasil”.

A lista da cantora não para por aí. Ela também gravou e fez shows com Mario Castro-Neves, Gaudencio Thiago de Mello, João Donato, Hermeto Pascoal e Dom Um Romão. “Mas a maior convivência foi com o Luiz Bonfá, de quem fui amiga e vizinha na Barra da Tijuca entre 1990 e 2001. Gravamos juntos o CD Almost in Love (um songbook da obra dele) e ele participou de outros discos meus. Era um sábio e um gentleman, o ser humano mais generoso e low-profile que já conheci”, relembra Ithamara.

MÚSICA UNIVERSAL

 
Com Dave Brubeck  

Hoje, Ithamara Koorax faz cerca de 100 shows por ano, entre apresentações no Brasil e no exterior. Uma conquista feita a partir de muito trabalho e apesar das dificuldades em um mercado sempre deixado em segundo plano, principalmente em tempos de crise econômica. Só em janeiro, ela já fez shows no Mistura Fina, no Rio, oficina de música em Curitiba, gravações em Los Angeles, dois concertos em São Paulo, quatro na Ásia com orquestras sinfônicas, mais dois shows em março, no Teatro SESC-Ginástico no Rio, com toda a banda (além do trio com José Roberto Bertrami, Jorge Pescara e Haroldo Jobim, tocam também os músicos Wilson Chaplin, Rodrigo Lima, Paulo Marcondes Ferraz e Marcos Ozzellin). Logo depois ela parte para a Europa para 26 shows com o Peter Scharli Trio.

 

É deste entusiasmo que se alimenta a carreira universal de Ithamara Koorax. Talvez seja por isto que seu mais recente disco, Brazilian Butterfly, tenha sido considerado um dos melhores CDs de jazz de 2007. Em 2008, ela foi eleita uma das três melhores cantoras de jazz do mundo pelos leitores das revistas DownBeat, Swing Journal e Jazz People em 2008 - ao lado de Diana Krall e Cassandra Wilson. Mas isto não é tudo para ela. “Claro que eu ainda tenho muitos sonhos, entre eles cantar em Israel e na Polônia. Mas posso dizer que já me sinto plenamente realizada. Caso eu decidisse me aposentar precocemente, me aposentaria feliz demais! Toquei e gravei com meus maiores ídolos: Tom Jobim, Luiz Bonfá, Ron Carter, Larry Coryell, John McLaughlin, Dom Um Romão, Dave Brubeck, Raul de Souza, Gonzalo Rubalcaba, Mario Castro-Neves, João Palma. Não existe prêmio maior do que este!”