Baixo Elétrico - evolução técnica e seus dispositivos - Parte II
The tapping bass
Jorge Pescara

Jorge Pescara é artista-solo exclusivo da Jazz Station Records e contrabaixista com Ithamara Koorax. É autor do livro Dicionário Brasileiro de Contrabaixo Elétrico.

Nesta edição de março continuaremos a analisar a evolução da técnica de extrair notas golpeando as pontas dos dedos diretamente sobre a escala do instrumento. E assim nascia o tapping

Tapping-on, também chamado de Two Hands, Two HandTap, TouchStyle, Touch System, TapStyle, Finger Tapping, Hammered String, Touched Technique, Chapman Technique, String Percussion, Typewriter Technique, Portato Techniquè, Triplo Domínio, Digitação Dupla, etc, segundo o Dicionário Musical Hal Leonard: literalmente “dar pancadinhas nas cordas da guitarra ou baixo elétrico. Fazer soar uma nota martelando a corda com pancadas dos dedos”.
Vamos direto ao assunto.

 

TAPPING COM DUAS MÃOS

 

O two handed tapping é a versão completa da técnica, explorando todas as possibilidades harmônico-melódicas do instrumento. Podem-se tocar temas polifônicos e monofônicos com até mesmo os 10 dedos de ambas as mãos! Um exemplo disto é a execução das “invenções a duas Partes”, de J.S.Bach, escrita originalmente para clavier, é adaptada à guitarra e baixo com mais de seis cordas, em que se podem tocar as melodias agudas com a mão direita, enquanto os acompanhamentos são tocados com mão esquerda.
Alguns instrumentistas do passado tais como Harry DeArmond, Jimmy Webster e Dave Bunker mantinham a mão direita paralela às cordas do instrumento, sem nenhuma curvatura no pulso. Emmett Chapman foi o primeiro músico a mudar esta concepção, deixando o instrumento com um posicionamento mais vertical e a mão direita diagonal em relação às cordas. Chapman chegou a estas conclusões estudando sua guitarra em Agosto de 1969. Seguem alguns exemplos de estilos diversos de tapping:

•Fraseados Jazzísticos e Chords Comping (Emmett Chapman) executa temas jazzísticos em que explora a melodia acompanhada (chords comping), acordes blocados, melodias na mão direita e walking bass na esquerda, etc.
•Bass Grooves (Tony Levin) explora diversas variantes em álbuns de Peter Gabriel, King Crimson, Tony Levin band, etc.
•Texturas (Trey Gunn) usando baixos Warr touchboard, aplica texturas harmônicas usando patchs synth em seu grupo, com King Crimson ou em duos com o baterista Pat Mastelotto.
•Loops (Guillermo Cides) trabalha com loop recorder e um Chapman Stick. As linhas melódicas e grooves são gravadas e reemitidas via loop sample, criando uma camada sonora em que Cides sola e improvisa em cima. Seus projetos são reconhecidos no meio dos gigantes do progressivo.
•Contraponto (Stuart Hamm) usando um baixo quatro cordas Stu aplica contrapontos em seus discos solos, além de Joe Satriane, Steve Vai e BX3.
•Arpejos (Victor Wooten) trabalha com arpejos em tapping usando três dedos de cada mão.
Tapping Mutante (Michael Manring) tocar tapping em baixos Fretless Piccolo em notas, acordes e melodias perfeitamente afinadas.
Hammered-on (Billy Sheehan) emprega distorção em seu baixo Yamaha para emular solos de guitarra em hammered-on ao estilo Van Halen, antes mesmo do guitarrista gravar o primeiro disco do grupo.
Contraponto Barroco (Garry Goodman) O criador do baixo de 12 cordas subgraves, Garry, demonstra sua técnica em workshops e shows solo tocando peças de J.S.Bach.

TÉCNICAS

A execução de uma música no tapping pode ser dividida nas mãos da seguinte forma:

Em relação ao posicionamento das mãos, ambas as mãos trocam de posição constantemente sem guardar posicionamento fixo.

Interdependência: quando as duas mãos trabalham juntas para formar uma unidade de ritmo distinto (o groove de «Elephant Talk” do disco ‘Discipline’ do King Crimson com Tony Levin no Chapman Stick é o exemplo mais claro).

Independência: quando cada mão é capaz de funcionar ritmicamente por si própria, sem a interferência do ritmo que a outra mão faz.

ESQUERDA
acordes
acordes
acordes
groove
groove
groove
DIREITA
tema
acordes
solo
acordes
tema
solo

Como os músicos adquirem mais destreza, o nível de independência entre as mãos também aumenta ampliando a habilidade para separar as conexões físicas. Isto não significa que seja fácil desenvolver criatividade espontânea igual em ambas as mãos, com certeza este fator é muito complexo, sendo que o instrumentista pode ter a tendência de focalizar mais em uma mão específica do que a outra. Neste ponto há uma pequena independência de movimentos. Fica claro que sempre há um relacionamento rítmico e/ou harmônico em que as mãos estejam executando as cordas.

EQUIPAMENTO

Tapping em instrumentos com cordas de baixo elétrico

Claro que se faz tapping em qualquer instrumento com qualquer quantidade de cordas, desde as tradicionais quatro cordas até mesmo os baixos de seis cordas da moda, porém, devemos notar que, quanto maior a quantidade de cordas, maior o campo de ação no tapping, proporcionando grooves, acordes, melodias e/ou solos. No tapping, um dos dispositivos mais bem vindo é o compressor, pois como a técnica emite notas com punch muito acentuado e, naturalmente, há desníveis de sinal de corda para corda, o compressor ajusta este fator negativo. O baixista Tony Levin é um dos que usa muito o compressor em seu som no tapping. Levin acopla dois compressores valvulados em série, para ampliar a gama de compressão sonora. Outro fator importante é o abafador das cordas, ou seja, uma borracha, carpete, velcro ou qualquer outro dispositivo que abafe as vibrações das cordas e que pode ser instalado na região entre o capotraste e o primeiro traste ou mesmo na ponte (embaixo das cordas). Os dedos das mãos que não estejam sendo utilizados em determinado momento, também servem para auxiliar o abafamento das cordas.

No mais, o que se tem de mais importante são os ajustes do instrumento.

A seguir passo algumas dicas de Anthony Jackson para setup de contrabaixos com mais de 6 cordas. Este setup foi considerado perfeito para a técnica de tapping pelo site “Tappring”, que aloja uma parcela significativa dos melhores tapping players do mundo.

Além da largura do braço e do espaçamento entre cordas devemos ter atenção sobre:

A NATUREZA DA MADEIRA
“Todos nós (baixistas) tocamos instrumentos de madeira. Por causa de sua estrutura este material nunca para de mexer-se, ou seja, nunca será absolutamente estável.”

VIRTUDES DE UM BRAÇO SEM CURVATURA
“Deve-se primeiro analisar e, se necessário, nivelar os trastes.”

POR TRÁS DO CAPOTRASTE
“Melhoramentos ocorrem com balanceamento entre a altura das cordas no capotraste x altura das cordas na ponte. É possível, desde que o braço já esteja totalmente reto e os trastes nivelados, abaixar as cordas na ponte enquanto eleva-se a altura delas no capotraste, aumentando surpreendentemente a resposta das notas em toda a extensão da escala. Há um limite na altura do capotraste, pois quando se pressiona a corda no primeiro traste ela soará sempre um pouco acima do tom. Tudo isto deve ser feito som um luthier profissional.”

TENSÃO DE CORDAS E COMPRIMENTO DE ESCALA
“Quando você tem uma dada espessura de corda, afinada em um determinado pitch, e prolonga seu comprimento inicial, você necessitará de maior tensão. Quanto maior e mais espessa a corda mais acurada será sua série harmônica e, consequentemente, melhor seu sustain. Por isso, um baixo com escala extra-longa (36” ou mais) soará muito melhor e mais afinado do que um baixo com escala curta com as mesmas cordas.”

ÂNGULO DE DOBRA DA CORDA
“Outro fator importante é o ângulo de dobra da corda na paleta, logo após o capotraste. Isto determina maior tensão. Meus instrumentos possuem headstock (paleta) com ângulo extremo.”

OBSERVAÇÕES GERAIS SOBRE CAPOTRASTE E ÂNGULO
“Quando você colocar uma corda nova, note que particularmente as cordas mais grossas sofrem uma leve curvatura exatamente sobre o capotraste. Ou seja, a distância entre a corda e o traste é maior neste ponto. A lição: force a corda com o polegar (ou o cabo de uma chave de fenda) para causar uma ligeira dobra, acomodando-a melhor no capotraste. Mas, cuidado para não causar uma fissura na alma da corda.”
Na próxima edição veremos a terceira parte desta matéria com as inovações e técnicas. Até lá!

Paz Profunda .:.

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