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Reza a Wikipédia: um guru é alguém de grande sabedoria, conhecimento e autoridade em uma certa área, que por essas qualidades torna-se uma espécie de guia para outras. Em sânscrito, Gu significa escuridão, densidade, obscuridade, e Ru quer dizer “Luz”, “Brilho”, “Claridade”. Um guru é, portanto, a luz na escuridão, o preceptor que abre seu caminho rumo à consciência. Aquele, enfim, que leva à boa viagem.
Qualquer carreira artística fica infinitamente mais fácil com a desinteressada colaboração de um ou muitos gurus. Eu disse “desinteressada”. Então não se incluem aí empresários gananciosos, sanguessugas disfarçados ou parasitas de qualquer espécie travestidos de conselheiros de ocasião. Gurus são pessoas que simpatizam com você, que acreditam em você, que veem em você uma centelha de talento que merece ser cultivada. O fato de você ser digno de ter sucesso e esse sucesso acontecer traz aos gurus a legítima satisfação do dever cumprido e a certeza da existência de algum tipo de justiça no mundo das artes, que é aquele do qual falamos aqui.
Seu guru não vai aparecer apenas porque você o procura: ele é quem vai achá-lo em algum pedaço de sua vida, quando você estiver receptivo a este tipo de acontecimento. Sua própria necessidade de escolha diante de uma encruzilhada – temperada pela indispensável humildade – vai atrair esse ser aparentemente superior, que parece farejar dúvidas. Mesmo inseguro diante das próprias opções, ele terá a isenção necessária para mostrar o caminho aos escolhidos. Não porque ele “se ache”, pelo contrário, mas porque a atenção que ele dedica a você é consequência direta da capacidade que você tem de criar aquilo que ele acredita ser o certo, o bom, o belo. Sua arte encanta o guru. E o guru encanta você pela direção que ele sabe dar a ela, de uma maneira que a princípio é imperceptível a ambos.
Sou um sujeito de sorte: tive muitos e excelentes gurus na vida. Não conto aí pais, amigos, e toda a gente que me ensinou as “paradas”, como tão bem diz ao filho o Acerola, da “Cidade dos Homens”. Meus gurus me ensinaram a difícil arte de conviver com meu meio profissional, de manter a cabeça erguida nos ocasionais mares de lama (mesmo na passagem do pêndulo...), de executar os movimentos necessários nas situações delicadas que aparecem frequentemente nesta nossa profissão-estrada, que junta paisagens de cartão postal a curvas e buracos mal sinalizados... E até hoje, quando eu erro – e minha impulsividade natural ainda me faz errar mais do que acho desejável - posso quase ouvi-los, ansiosos, como que me dizendo: “ei, por aí não, calma, calma!”
Esta noite de estranho verão invernal na sonolenta e belorizontina capital das Minas Gerais me parece ser a ocasião certa de lembrar meus inesquecíveis gurus. Vou começar por Milton Miranda, diretor artístico da Odeon na ocasião do começo de minha carreira de compositor - depois - cantor. Milton tratava reis, damas, torres, bispos, cavalos e peões com a mesma consideração e carinho. Suas lições perpassadas de profundo conhecimento de causa eram expostas de maneira clara, sincera e carinhosa. Milton deixava fluir, sabia liberar nossos excessos criativos com a mesma varinha de condão que os tolhia quando a fria mão do capitalismo assim mandava. Um sábio que sabia ter ascendência sobre quem quer que a repelisse. Emendo com Durval Ferreira, que me ensinou a lidar com o complicado universo do direito autoral, puxando-me pelos cabelos na exata hora em que eu me afogava em sucessos e dizendo “faz assim, diz isso, pede aquilo”... E o que dizer de Nelson Lins de Barros, poeta e intelectual interessado em novas linguagens, que tomou sob suas largas asas três inexperientes “cantautores” (como muito propriamente lo dicen em España) e jogou-nos, a mim, Guarabyra e Sidney Miller no piscinão da música? Entrando em cena, revejo-me no palco do Teatro Casa Grande em minhas primeiras apresentações profissionais patrocinadas com entusiasmo e gentileza por Sérgio Cabral, e logo depois no show “Samba Pede Passagem”, em plena efervescência política do final dos anos sessenta, dirigido por Armando Costa, Paulo Pontes e Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, mestres rigorosos no comportamento em cena, sentindo-me parte daquele revolucionário Grupo Opinião. Mudando de praia, encaro Reynaldo Jardim e Martha Alencar que me expuseram ao SOL nas bancas de revista e fizeram com que eu reinventasse minha escrita e me apaixonasse pelo jornalismo quase tanto quanto pela música. E depois, já cobra criada, caio no colo de Rogério Duprat, meu sócio em um sonho afinal realizado - nosso estúdio Vice Versa - e gênio da raça, que tinha a suprema humildade de sempre me perguntar se o arranjo que ele fizera para uma determinada música minha obedecia às misteriosas invenções harmônicas e rítmicas que me passavam pela cabeça, às quais ele dava uma importância que nem eu mesmo dava, não descansando enquanto não conseguisse a forma que melhor expressasse meu pensamento, mesmo com a abissal distância entre nosso saber de música. Assim era o maestro, protótipo ideal de guru, tentando a cada minuto desmitificar e desmitificar-se, sem o menor sucesso, já que era, mesmo a contragosto, um mito autossustentável, por seu comportamento diante das opções artísticas que a ele se apresentavam: com o mesmo desembaraço e competência fazia de jingles a peças sinfônicas.
Ungido por tamanho patrimônio de gurus sinto-me com autoridade suficiente para declarar que a vida sem eles é um acaso problemático: pode dar certo ou não. Mas quem não tem gurus como eu tive ou não tem amigos como eu tenho, precisa certamente de sorte dobrada.
Preste atenção, você aí: não deixe jamais que o guru certo escape por entre os seus dedos...
...Cole nele!
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