Nos meses passados, falei sobre a “crise” cultural e educacional. Como já disse os culpados são absolutamente todos os envolvidos com a produção cultural. Eu incluído... Vamos continuar a dissecar a culpa de cada uma das partes, sem rancores ou partidarismos
Vou pedir praticamente o impossível: ao invés de se defender, ficar chateada ou ofendida, cada parte deveria analisar a sua parcela de culpa e ver se realmente está dando a sua contribuição para o desenvolvimento da cultura ou apenas vê a cultura como mais um mercado a ser explorado. O que tento fazer não é acusação e sim uma proposição à reflexão.
Como foi dito nos artigos anteriores, os culpados, sem ordem de importância e em ordem alfabética: os comerciantes de música, os contratantes, o estado, a imprensa escrita, os músicos, o público, as rádios e a televisão. Se não esqueci ninguém, absolutamente todo mundo envolvido de alguma maneira com a música, incluindo eu. Hoje é a vez das:
Rádios:
Ainda bem que as minhas bandas não tocam nas rádios...
Todo mundo quer tocar na rádio, mas e se a rádio não toca a música que você quer ouvir? Raul Seixas já reclamou que a rádio só tocava Gilberto Gil com “Não Chores Mais”... Ele era feliz e não sabia...
Não gosto de fazer previsões, mas vou arriscar uma: as rádios vão quebrar assim como as gravadoras e as lojas de CDs também. Pelo mesmo motivo: as rádios exploram predatoriamente o produto que vendem; no caso a música.
Falando de física básica, ou metafísica avançada, tudo no universo tem uma ação e reação, mas parece que nossos doutos radialistas acreditam, como acreditavam os diretores de gravadoras e donos de lojas de CDs, que estão acima deste preceito básico que rege todo o cosmos.
Existe uma distorção generalizada no processo de rádio-difusão, e antes de puxar o gatilho da metralhadora giratória, vamos tentar entender um pouco melhor sobre o que estamos falando.
Um ponto básico para se compreender: qualquer um com recursos pode ser dono de todo um maquinário necessário para uma estação de rádio, pode ser dono do prédio onde este equipamento está instalado, pode ser patrão de não sei quantos funcionários, pode ser dono da marca com o nome da estação, etc. No entanto, não pode ser dono da frequência no dial, através da qual a programação será transmitida. Todas as frequências pertencem ao governo, e são reguladas pela ANATEL.
Quando alguém quer fazer uma rádio, desde que não seja pirata, esta pessoa precisa obter uma concessão do governo para poder operar em determinada frequência.
Outra coisa que também é desconhecida da maioria das pessoas é a razão social de uma empresa de rádio. A razão social de uma empresa de transportes (aviões, ônibus, etc) é transportar passageiros em segurança e permitir uma maior mobilidade e integração nacional, em troca disso as empresas recebem o direito, através de concessão de linhas e rotas, de explorar essas atividades e obter lucro.
O processo com as rádios é quase idêntico. O que muda é apenas a razão social. Neste caso a razão social da rádio é difundir cultura. Em troca disso, ela recebe a concessão de uma frequência para operar e também a permissão para veicular propaganda em parte da sua programação e assim obter lucros.
A rádio mais lucrativa do mundo seria aquela que só tivesse propaganda 24 horas por dia, mas o problema é que uma rádio assim não teria audiência. As pessoas não querem ouvir propaganda, e sim música, entrevistas, etc.
Neste caso é estabelecido um equilíbrio justo: a rádio oferece uma programação que atraia o ouvinte, e tendo um número maior de ouvintes, poderá cobrar mais caro pelo tempo de propaganda nos intervalos da programação. No entanto vivemos na era de resultados, e resultado hoje significa números. Quanto maior o número, melhor o resultado. O problema é que este equilíbrio justo cria um dilema: se a minha rádio já tem um bom público, e eu já estou com a minha grade de intervalos comerciais preenchida, como posso aumentar meu lucro? A primeira resposta seria: diminuir a programação e aumentar a grade de comerciais. Mas se eu fizer isso, a audiência cai, e junto com ela o valor do minuto de propaganda...
Da mesma maneira com que o homem tem a capacidade de destruir as fontes de recursos das quais depende para sobreviver, as rádios, conjuntamente com as já moribundas gravadoras, tiveram uma genial ideia: por que não lotear a parte de contrapartida social também? Se eu puder vender a parte da programação que é voltada para a difusão de cultura, sem que seja propaganda, eu conseguirei aumentar meus lucros sem perder a audiência... E no outro canto do ringue, aliada ao invés de adversária, a gravadora: se eu puder comprar a programação da rádio, só irão tocar os meus produtos e eu terei um maior controle sobre o mercado, aumentando assim a minha margem de lucro. O acordo é perfeito para ambos. O problema é que tudo que é perfeito costuma dar errado. As gravadoras estão praticamente falidas. Há anos a novela das oito tem músicas antigas ou então temas instrumentais para abertura, porque nem mais as gravadoras têm dinheiro para pagar o jabá de uma abertura de novela em horário nobre.
E o resultado deste acordo foi um câncer chamado jabá.
Este câncer entrou em processo de metástase e já afetou várias partes distintas... A primeira foi a qualidade artística. Se as músicas fossem tocadas livremente, de acordo com o gosto musical dos programadores, haveria uma seleção natural, tanto pela formação cultural dos programadores, quanto pelos pedidos dos ouvintes. Neste caso a programação tomaria um sentido, tanto do formador de opinião levando ao público o que ele acredita ser bom, e também interagindo com a resposta do público, através de pedidos, ao que é veiculado.
As pessoas escutam música no trânsito, em casa lavando louça, trabalhando, ou fazendo outras atividades. Por isso elas não trocam de estação na hora da propaganda ou caso toque uma música de que elas não gostam. É por este fato que as rádios são segmentadas também. E se o radialista sabe disso, sabe que tem uma boa margem de tempo para “empurrar” um jabá sem que a pessoa troque de estação. O jabá é um “estelionato cultural”, que explora o hábito das pessoas escutarem sempre a mesma rádio.
Lobão já tentou transformar o jabá em crime no congresso, mas não conseguiu. Se alguém acha isto radical demais, eu sinceramente não acho. Chamo de “estelionato” porque a cultura, que deveria ser difundida por critérios estéticos, educacionais ou apelo popular, é transformada em “produto”, e todo produto tem que pagar para ser “anunciado”.
Da mesma maneira que o mp3 acabou com as gravadoras que insistiam em vender CDs a R$ 50,00, a internet, com seus Myspaces, irá acabar com as rádios.
Na verdade o raciocínio é inverso: as distorções como CDs a 50 pratas e rádios cobrando para tocar música é que criam as reações do universo e elas se materializam bem debaixo dos nossos narizes, ou melhor, debaixo dos narizes de quem sempre quer matar a galinha dos ovos de ouro.
Mês que vem vamos falar do outro lado escuro da lua do jabá...