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Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário, músico, compositor e sound designer. Leciona Áudio Publicitário e Atendimento na FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social (PUC/RS) - e Arranjo e Produção Musical Nível III no IGAP - Instituto Gaúcho de Áudio Profissional.
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É março e a vida começa a voltar ao normal no Brasil. No mês passado falamos sobre a pré-produção e suas etapas. Na coluna desse mês a nossa atenção se voltará para a fase de pós-produção
Acredito ser esta uma das fases mais polêmicas e discutidas, principalmente pelos puristas que a veem seguidamente como elemento destruidor da integridade artística. Eu respeito essa ótica, porém não comungo da mesma. Sou, na verdade, de opinião bem oposta. Vamos começar pensando uma coisa bem simples. Inicio com a seguinte questão: por que um artista grava um álbum? Qual o objetivo disso?
Alguns de vocês sabem que estou neste momento fazendo meu mestrado na PUC-RS analisando o impacto das novas tecnologias na produção e circulação no mercado musical. Durante minha pesquisa, fui reler um texto de 1936 do pensador alemão Walter Benjamin intitulado “A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica”. Neste brilhante texto, Benjamin me fez enxergar uma coisa simples que eu com meus mais de 20 anos de praia musical ainda não havia percebido: quando o artista está no palco, ele representa para o público. Você dirá “grande coisa!”. Ok, agora vem a parte interessante: e quando ele está gravando, representa para quem? Em um momento posterior, lógico que será para o público, mas de saída ele está representando para a máquina! Sim, para a máquina. Em tempos passados, para a fita de rolo, e atualmente, para o HD.
Já que o artista não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas como dizia Milton Nascimento “o artista deve ir onde o povo está”, o álbum supera essa limitação física através de um recurso tecnológico (que é o da gravação, edição, impressão e circulação da obra). Possibilita que a gente escute quando e como quiser, independente do artista estar vivo ou morto. Já disse aqui na Backstage que para mim álbum é álbum e show é show. Desde que os Beatles sugeriram isso com Sgt. Peppers segui por esse caminho. Show mais visceral e cru; álbum mais elaborado.
Nestas férias de verão, assisti a um documentário sobre o ALIVE, do Kiss (para mim, que não sou chegado em discos ao vivo, este é um dos mais primorosos existentes no mercado), e descobri através de relatos do próprio Gene Simmons que o álbum era em parte ao vivo. Esse tipo de declaração é prato feito para os puristas caírem em cima e declamarem seus inflamados discursos repreensivos, dizendo que não se trata de um álbum, mas de um simulacro, uma falsidade ideológica.
Analisando e refletindo sobre esse caso do Kiss, começamos a compreender o quanto uma pós-produção pode alterar o resultado final de um álbum. Só para início de conversa, Xuxa, Chorão, Herbert Vianna e uma penca de gente “cantam bem” graças à pós-produção. Voltando ao caso do Kiss, os shows foram captados em multipista. Isso permitiu, inclusive, dosar a quantidade e euforia de público em cada faixa. Não só isso, como possibilitou, ainda que se refizessem takes que não ficaram 100%. Nesse roll podem ser incluídas correções em semitonadas de voz, erros de acordes de guitarra e até pratadas fora da cabeça do tempo. Isso tiraria a verdade absoluta do trabalho? É nesse ponto que a discussão incendeia.
Retomando a questão inicial que propus sobre o porquê de se gravar um álbum, fazemos isso para eternizar a obra do artista. O grau de pós-produção vai depender de diversos fatores que veremos no decorrer dessa coluna. Você, meu estimado leitor, já deve ter escutado a frase “não existe mulher feia, existe mulher pobre”. Vários ditos populares (e esse é um excelente exemplo ilustrativo) nos ajudam a compreender os segredos da boa e eficiente produção musical. Entenda-se “mulher pobre” como aquela não apenas sem dinheiro, mas incapaz de saber valorizar suas qualidades e ocultar seus lados menos favorecidos. O mesmo pode (e em muitos casos deve) ocorrer com uma faixa. Quem assistiu aos filmes The Doors e La Bamba (e se não assistiu, vá correndo assistir) sabe do que estou falando. Vários takes são necessários até que se chegue ao resultado quase perfeito (afinal, a perfeição absoluta é sabidamente uma ilusão humana). Na hora de gravar, enfrentamos diversos obstáculos: estamos representando para uma máquina (fria) dentro de um ambiente de certa tensão (estúdio, prazos, verba, contratos) e temos o desafio de tornar uma representação “a representação”.
É muito comum ler artigos que falam que o álbum de fulano é inferior as suas apresentações ao vivo e vice-versa. Fazer com que álbum e show sejam um grande espetáculo exige dedicação constante. Não só isso. Muitos artistas têm mais talento para gravar do que para se apresentar. Existem, inclusive, excelentes músicos que são exclusivamente músicos contratados de estúdio, ou seja, não possuem banda nem carreira solo e não fazem apresentações ao vivo, mas desempenham muito bem o seu papel na hora de representar para a máquina.
A pós-produção deve ser encarada, enfim, como o que chamo de “Maquiagem Sonora”. Este recurso foi ficando diretamente mais sofisticado com o constante avanço da tecnologia (principalmente depois que a informática passou a ocupar um espaço quase indispensável nos processos produtivos dentro da cadeia musical). A maquiagem (vale para a feminina e para a musical) não tem objetivo de enganar ninguém. Ela serve apenas como instrumento catalisador de emoções. Ela deve ser encarada como amiga, aliada da produção musical. Se você deseja produzir um álbum ao vivo que capte de forma crua tudo o que ocorre, ok. Ele não será mais verdadeiro, será somente mais cru. Nada de limpar erros (e errar em muitos destes casos não é falta de talento, é algo que faz parte de todo ser humano). Porém, em grande parte, as pessoas querem ver o Superman, o Batman, o Spiderman e não os homens comuns que existem por trás destes heróis. A pós-produção ajuda a criar uma ilusão de que a perfeição suprema e mítica é possível de ser atingida. Isso não é demérito, é romantismo puro e verdadeiro. E como funciona! (Hollywood que o diga). Mas alguns cuidados devem ser tomados: a Xuxa e o Chorão não devem pensar que são cantores por utilizarem corretamente a pós-produção; devem cultivar bons espelhos em casa e fazer uso dos mesmos.
Uma ilusão recorrente (e esta sim deve ser encarada como problema) é a de que a pós-produção resolve qualquer problema. Ela se baseia na crença tecnológica de que qualquer coisa gravada, por mais tosca que seja, poderá ser remoldada e manipulada ad infinitum até que se transforme em algo perfeito. Por isso mesmo a pós-produção deve ser utilizada com cautela e bom senso. A pós-produção começa já na mixagem e distribuição da imagem estéreo da faixa. Retimbragem (como acrescentar reverb ou mais drive), recorte de ruídos, respirações e sujeiras fazem parte deste processo, assim como a escolha de quais takes serão utilizados (entendeu agora de onde saem os álbuns chamados de alternates ou sobras de estúdio?).
Sou conservador em alguns pontos. Por exemplo, jamais, em hipótese alguma, utilizo plug-ins ou hardware para afinar um instrumento, principalmente a voz. Ou a criatura canta e toca bem ou então não deve gravar (pelo menos não com pretensões profissionais). Isso vale inclusive para vocais auxiliares e backing vocals. Uma vez tive um atrito com uma banda que estava produzindo, pois em determinada faixa o baterista acabou tocando de forma insegura. Não foi babada minha. Ele realmente estava dando o máximo de si, sendo verdadeiro e seus “erros” não estavam comprometendo o resultado final. Aquela era a sua verdade. No entanto, na hora da pós-produção, os integrantes da banda sugeriram insistentemente que eu recortasse todos os kicks, onde estava o problema maior, e os colocassem em alinhamento perfeito no grid. A minha resposta foi simples e direta: eu já havia dito no início que esse tipo de saída não me agradava em nada. Se era para produzir desse modo, então por que perdemos tempo e dinheiro no estúdio e não programamos de saída todas as baterias via midi utilizando amostras reais de um kick Sonor, por exemplo? A banda acabou se dando conta de tudo e me pediu desculpas. Porém, em outro caso, fui produzir uma banda na qual o baterista era bom, mas seus pratos eram medonhos. O que fiz? Gravei os pratos e na pós-produção mixei-os em um plano mais rebaixado e coloquei, manualmente, por cima de cada um deles, pratos equivalentes (ou seja, nada de colocar um crash no lugar de um splash) de boas amostras de Sabian que eu tinha. Resultado? O baterista ficou encantado com o som que “tirei” da sua execução e achou inacreditável.
Quando contei o segredo, ele riu, achou mais genial ainda e foi embora satisfeito da vida. Isso mostra que na música, como sempre, cada caso é um caso, e existem diversas maneiras de se conduzir uma produção e enxergar a pós-produção como vilã ou aliada. Digo isso porque os puritanos a veem com maus olhos, como se a sua utilização equivalesse a enganar constantemente o ouvinte, uma atitude de má fé.
E no caso do ALIVE, do Kiss, a pós-produção tirou a verdade artística do grupo? Sabemos que artistas que se movimentam freneticamente no palco tendem a comprometer a execução de seus instrumentos. Lá no show, durante aquela euforia, isso passa batido, o público na maioria das vezes não percebe nada.
Mas, no momento em que se entra em estúdio para ouvir o que foi gravado, o bicho pega, o pente fino acaba revelando de forma muitas vezes assustadora o que de fato foi tocado. Acredito que gravar um álbum inteiro em estúdio, acrescentar público fake (utilizando arquivos de som) – e pode apostar que existem discos assim – realmente é partir para a ignorância, apelar e enganar o público. Nesse caso, concordo com os puristas. Já no caso de ALIVE e de tantos outros casos de álbuns ao vivo ou de estúdio, em que o recurso da pós-produção foi utilizado de forma coerente, este recurso só tende a contribuir para que se produzam obras memoráveis e inesquecíveis como o exemplo citado do Kiss. E você, o que acha?
Abraços e até abril!
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