Quem mais sabe de mim é o espelho do meu camarim
Ele tem o estranho poder de me ver
De me conhecer, de me refletir, de me envolver
De me tomar como sua quando estou perdida
De me deixar sempre nua, mesmo quando vestida
De me tomar de assalto mesmo que eu resista
De me empurrar para o palco, me mandar ser artista
Tem o estranho poder de verter água tão cristalina
Onde sempre me molho, onde sempre me molho
Tem o estranho poder de me ver quase sempre menina
Com os meus próprios olhos
(“Espelho de Camarim” – Ivan Lins & Vitor Martins)
Sábias palavras, meu querido Vitor, que fez com o Ivan esta bela música para ser cantada por Lucinha Lins. O camarim do artista é responsável por boa parte do seu bom ou mau desempenho durante o show. Imagine-se entrando para a glória de um palco saindo de um muquifo imundo. Estranho, não é? Mas rola...
Todos nós, artistas, merecemos um bom camarim. Claro que existem os exageros, as centenas de toalhas brancas monogramadas, os desperdícios de comida e bebida que seriam suficientes para sustentar vinte e quatro horas de uma comunidade carente, etc.. Mas como nós – pelo menos nós, artistas brasileiros – sabemos, é preciso às vezes pedir cem por cento para ganhar cinquenta. É espantosa a cara-de-pau de certos contratantes que prometem mundos e fundos e depois tentam enrolar o produtor do show com desculpas esfarrapadas para nos atirar a uma tenda de fundo de quintal, com um copo d’água, um palito e um guardanapo, rezando para não chover senão inunda tudo. Eu, particularmente, prezo a honestidade do contratante que, depois de ler as exigências do contrato, liga e diz ao produtor o que pode dar e o que não pode. É difícil encontrar a bebida estrangeira, o chá não existe lá de tal marca, o banheiro tem que ser químico, como é mesmo o nome desse queijo?! Tudo pode ser resolvido com sinceridade e conversa. Não raro, ao fazer shows em cidades distantes de grandes centros, levamos nós mesmos nossas pequenas e importantes frescuras (que não o são) depois que o contratante confessa a impossibilidade de obtê-las. O artista tem que ir onde o povo está, mas embora eu não seja a Madonna também tenho aquele estranho e humano vício de gostar de conforto. Quando necessário, dou-me então ao luxo de carregar comigo meu vinho preferido em embalagem própria e outros pequenos detalhes que não vêm ao caso aqui. Mas que conforto me dá ver-me cercado de produtos de qualidade e boas opções de alimentação antes e depois do show. Por exemplo: a falta de boas frutas pode obrigar o cantor a ficar com aquela fomezinha chata, porque comer presunto ou coxinha fria antes de cantar é péssimo, para dizer uma palavra conveniente. A ausência de toalhas é imperdoável. Toalha é elementar. Não precisa ter meu nome bordado, basta enxugar e não estar puída, porque aí é relaxamento e desrespeito. Sentar em uma cadeirinha de armar em cima de um chão de terra batida só é desculpável lá no final do Brasil. Aqui por perto é má produção ou ganância. E por aí vai a coisa...
Mas esses detalhes fazem parte de uma história recente do show business nacional. Nos heroicos anos 70 – e se você puder assistir a um vídeo de Woodstock vai saber que as maiores estrelas mundiais da época também passaram por isso – valia tudo: camarins ao ar livre (!), hotéis pulguentos, palcos balançantes com spots de luz despencando em cima da gente... Lembro-me de um festival desses aí no interior de São Paulo em que chegamos ao palco em uma carroça rebocada por um trator. Nosso show terminou sob uma tempestade tipo final dos tempos, e quando desci ao ...ahn... “camarim”, com água até a cintura, encontrei meu filho de seis anos no colo gentil da esposa de Dominguinhos, que subira em uma mesa com ele. Eu o havia deixado a cargo de uma das produtoras do “festival”, que jurara tomar conta do garoto, mas se mandara aos primeiros raios. Lição: criança em camarim só em ocasiões especiais e com a mãe junto! Fora que naqueles tempos, no Brasil, o banheiro químico era ainda um sonho. O xixi amigo, nesses shows coletivos, era compartilhado por famosos e estreantes naqueles cavernosos buracos embaixo dos palcos, entre ripas vacilantes e fios de alta voltagem. Pergunte para Rita Lee como as meninas se viravam!
O contraponto são os camarins construídos por quem pensa no artista. Não precisam ser enormes, não precisam ser luxuosos: basta o conforto, o calor humano, a visível impressão do agrado, a preocupação com o bem estar das pessoas. Espelhos e luzes caem bem, mesmo que as luzes sejam para serem apagadas e deixarem os espelhos invisíveis; um sofá grande, limpo e confortável, um ar condicionado silencioso, uma TV a cabo para espantar o tédio e a tensão do pré-show, uma bancada larga com uma bela barca de sushis e sashimis, um espumante decente em um balde de gelo que não vaze água na bancada, uma farta cesta de frutas maduras, um frigobar com as coisas certas lá dentro, flores na mesa de centro, tudo muito claro, sem odores artificiais que provoquem alergias inesperadas e indesejáveis, um banheiro limpo com chuveiro de aquecimento central sem aquela torneira de chuveiro elétrico que sempre dá choque, um armário que dê para pendurar as roupas e escolher com calma aquela que vai fazer você se sentir melhor no show... Ei, Sá, acorda aí, cara! Viajou! Os tempos de dureza não estão de todo apagados!
De fato, até hoje existe muita improvisação do gênero, já que o Brasil é esse país enorme e muitas vezes o contratante não tem condições de proporcionar um mínimo de conforto ao artista. Mas aí, como já falei, trata-se de uma opção pessoal que vai da disposição do artista em enfrentar condições adversas para apresentar-se a um público que no mais das vezes dá em carinho o que não tem em luxo. E aí, desmentindo tudo o que eu falei, você cai no famoso Dura Lex Sed Lex: o camarim é rústico, a coxinha é fria, o som é marromeno, a luz é pífia, mas o público vibra, vibra, vibra e leva você a fazer um show inesquecível, com uma produção que se excede em carinhos e atenções acima das possibilidades naturais da região. Então, perguntarão vocês, onde ficaram as toalhas, o espumante no balde, os dois banheiros, o hotel cinco estrelas, o aeroporto, a infraestrutura?! Esqueça, meu bom. O público era incrível, a cidade hospitaleira e o show foi um arraso!
Mas o camarim...
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