Roupa Nova em Abbey Road - Onde os negócios e os sonhos se encontram

Miguel Sá - Fotos: Wilian Aguiar / Divulgação

Os Beatles fizeram com que muita gente quisesse ser artista. Com muito sucesso, os Fab Four criaram canções que chegaram ao coração das pessoas em gravações lendárias nas salas do Abbey Road. Pouquíssimos músicos realizaram o sonho de gravar no mitológico estúdio londrino. O Roupa Nova é um desses grupos privilegiados.

A competência dos músicos do Roupa Nova, com sólida reputação como instrumentistas, e as composições, que sempre conseguem chegar junto ao público, fazem uma química imbatível. Sem isto, a visão empresarial do grupo de nada adiantaria, já que em música, a matéria prima principal é música – apesar de alguns acharem que isto é apenas um detalhe.

 

O fato é que este faro empresarial permitiu que eles sempre negociassem seus contratos com as gravadoras de forma que também saíssem beneficiados. Pode perguntar a qualquer um do ramo o quanto isso é difícil. Este faro fez com que eles pulassem da canoa furada das majors, em 2004, e investissem – sem intermediários – em um patrimônio musical imensurável através da Roupa Nova Music. Quando um grupo de músicos e compositores de primeira junta a vocação musical com um planejamento meticuloso, a imaginação pode ganhar asas e chegar em Londres...

A IDEIA

Desde 1999, quando lançou o CD Agora Sim que o Roupa Nova não tinha um disco com canções inéditas. Isso começou a pesar para o grupo, que ficou em uma sinuca de bico: como fazer um disco só de inéditas sem concorrer com eles mesmos? Afinal de contas, são cerca de 50 sucessos distribuídos pela carreira. Poderiam acontecer comparações equivocadas entre as músicas novas e os antigos hits.

A solução inicial do dilema foi o EP For You. Um CD com quatro músicas inéditas - Toma Conta de Mim, Cantar Faz Bem ao Coração, Chamado de Amor e Quero Você - que dava uma espécie de prévia do que estava por vir. As músicas foram gravadas nos estúdios dos integrantes do grupo e no estúdio Mega, no Rio de Janeiro.

 
  Moogie Canazio na técnica

Mesmo com o CD inédito, a pressão por um álbum novo, com muitas músicas inéditas, continuava. Foi aí que as origens musicais beatlemaníacas do grupo começaram a falar alto. E falaram mais alto no ouvido de Ricardo Feghali, que trouxe a ideia de gravar no Abbey Road para o restante do Roupa Nova. E aí a independência do grupo foi essencial. “Se falássemos isso em uma gravadora, eles iam dizer que estávamos malucos”, conta Feghali. “Em uma época de crise de mercado, aí é que você tem que ser agressivo, porque senão fica pequenininho, junto com a crise”, conclui o músico.

O fato é que a ideia calou fundo. Até porque, além de ser uma realização de um sonho de garoto, a gravação no Abbey Road traria o apelo que faltava para um disco de inéditas. Eles logo perceberam que apenas o som não bastaria para que o disco ficasse completo. Foi assim que decidiram gravar um DVD no estúdio inglês.

A PRÉ PRODUÇÃO

Após o lançamento da idéia, os músicos começaram a especular como poderiam realizá-la. Uma das primeiras soluções apresentadas foi convidar o engenheiro de som e produtor Moogie Canazio para fazer a gravação e ser co-produtor. Ele já tinha trabalhado com o grupo em duas oportunidades. “Se nós pegássemos um técnico de lá teríamos um período de adaptação com ele. Já tínhamos trabalhado com o Moogie, ele não deixa nada a desejar para nenhum técnico do mundo, tem um ouvido que nós gostamos e tirou o maior som”, explica Feghali.

Gravação com orquestra no Air Lyndhurst Studio
 
  Mesa EMI, usada para gravar os álbuns dos Beatles

Como se não bastassem todas as credenciais, Moogie já havia gravado no Abbey Road, conhecia o estúdio e deu o caminho das pedras para que Nando, o baixista da banda, fizesse o contato com Colette Barber, responsável pela agenda nos estúdios de gravação e mixagem. Após alguns e-mails, o estúdio já estava agendado. Mas isto era só o começo. Durante dois meses os músicos ficaram tocando, compondo, fazendo arranjos e se encontrando todos os dias, construindo um trabalho musical como não faziam há muito tempo. Afinal de contas, em tempos de internet, nem sempre a presença física é necessária para concretizar um trabalho. “Resgatou -se uma coisa de os seis se sentarem para trabalhar juntos. Acho que, mais importante que a parte da Inglaterra, é que este projeto, pela necessidade, resgatou essa coisa de banda”, expõe Moogie Canazio. “O Abbey Road foi o chiclete”, diz Nando, ao explicar que o projeto de tocar no estúdio trouxe um sentido de unidade ainda maior para a banda. O trabalho de pré-produção foi tão meticuloso, em todos os sentidos, que até visto de trabalho foi providenciado para todos os que vieram do Brasil – é bom ressaltar que não é necessário visto para brasileiros entrarem lá. Os instrumentos e equipamentos foram todos levados por uma firma de transporte que pegou os equipamentos na casa dos músicos e os deixou no estúdio. Quando eles chegaram para gravar, todos os instrumentos já estavam disponíveis. Os músicos só não trouxeram o órgão Hammond (foi usado o do estúdio) e os amplificadores.

 

Além da escolha do técnico e produtor Moogie, eles teriam que decidir quem iria fazer a parte de imagem do DVD. Foi aí que decidiram pela produtora Polar Filmes. A direção das gravações ficou a cargo de Joana Mazzuchelli, que dirigiu DVDs como o de Ivete Sangalo. Joana trouxe do Brasil três cameraman e o assistente de direção, entre outros profissionais. Quase todo o equipamento foi transportado do Brasil. A equipe teve, no total, 23 pessoas.

Apenas a equipe de iluminação foi contratada na Inglaterra. Os clipes do DVD, que foram gravados em locais públicos de Londres, tiveram autorização já pedida quando o Roupa Nova ainda estava no Brasil.

GRAVANDO EM LONDRES

Moogie Canazio costuma levar um set próprio de equipamentos – do Pro Tools aos microfones – aonde quer que vá. O Abbey Road tem uma coleção grande de microfones. Por isto, Moogie não se preocupou tanto em levar os seus.

 

Mas levou pré-amplificadores Neve próprios, que ele prefere que aos modelos VR do Abbey Road.

Para ele, o grande diferencial de gravar no Abbey Road foi mesmo a característica acústica do local. “A variante mais preponderante do estúdio é a sala em que ficam os instrumentos para gravar”. Moogie também ressalta a “vibe” do estúdio, que teve papel importante no despertar musical dele e dos componentes do Roupa Nova. O produtor destaca que todas as decisões tomadas durante a gravação tiveram a música como foco. No dia 13 de outubro, a banda começou a gravar as bases, com todos tocando os instrumentos juntos. Ficaram valendo o baixo, a bateria e os takes com o órgão Hammond B3. A gravação das bases acabou em cinco dias, já que todos estavam com as músicas “embaixo dos dedos”.

 

O posicionamento dos instrumentos foi feito a partir da bateria, que ficou na mesma posição em que ficava a de Ringo Star. O Hammond B3 com Leslie ficou dentro de uma “casinha” feita com dispositivos acústicos do estúdio. O piano, um Steinway Gran Concert, foi gravado junto com a base com a tampa fechada, Depois foi feito overdub dele com a tampa aberta.

Moogie exalta a coleção de microfones do Abbey Road, o que permitiu a ele usar microfonações bastante variadas. “Costumo gravar com três pares de overhead na bateria, às vezes quatro”. Moogie gosta de ter opções sonoras diferentes para optar na mixagem. Ele ressalta que não combina o som dos overheads, apenas opta por uma ou outra dependendo da sonoridade que quer obter.

Moogie tirou do armário do Abbey Road uma mesa EMI da época dos Beatles. Ele usou a compressão dela para alguns ambientes de bateria e para violões. “Os ajustes da compressão dela são fixos. A sonoridade da sala com os Neumann M50, passando pelos pré-amplificadores e o compressor dessa mesa é uma coisa mágica”, exalta Moogie. Para os solos de guitarra de Kiko, Moogie também montou várias opções. Nos alto falantes dos amplificadores, usou microfones SM-57, Royer 121 (microfone de fita) e Cole 4038. Um pouco mais distante, usou o RCA e para o ambiente os Neumann M50. “Em certas situações pegava o Royer ou o RCA e passava-os pela mesa EMI”. Este foi o caso da música Coração da Terra, na introdução feita com a guitarra Fender Telecaster de Kiko. Moogie ainda usou pré-amplificadores Telefunken V-72 para as guitarras, que foram todas gravadas em amplificadores Marshall e Mesa Boogie.

No piano com a caixa fechada, Moogie Canazio usou um par de AKG 414 TL2. Quando a caixa estava aberta, Usava também os AKG C-12 e mais um par de Neumann M50. A caixa Leslie do Hammond foi microfonada com um par de AKG C-414 e um par de AKG 452, ambos em cima, nos agudos, para Moogie ter opções na mixagem. Nos graves da Leslie, Moogie usou um Neumann U-47. O baixo foi gravado em linha passando por um pré-amplificador Neve 1084 e um compressor dbx 160. Em algumas músicas, durante a mixagem, no estúdio Mega do Rio, Moogie passou o som do baixo por um Gallien Krueger. As vozes foram gravadas com AKG C-12 (Sérgio Herval), e para Nando o Neumann U-67 e um M-49 e o U-67 também para Paulinho.

Após a base ser gravada para o áudio, eles voltavam a tocar para que pudessem ser filmados. O barulho dos moving lights algumas poucas vezes não permitiam que as gravações de áudio e vídeo fossem feitas ao mesmo tempo. Nos dez dias restantes, foram feitos overdubs para piano, guitarras e voz. A gravação no Abbey Road durou um total de 12 dias.

 
 

A música She’s Leaving Home foi gravada no Air Lyndhurst Studio, apenas com vozes e cordas. O Roupa Nova estava acostumado a gravar o coro com todos em um microfone. Mas Moogie pediu que cada um usasse um para que ele tivesse mais controle sobre a dinâmica das vozes. Moogie ainda aproveitou o pé direito de oito metros para pegar bem a influência da ambiência do estúdio nas vozes com um Sennheiser MH800 e um par de Neumann M-50. Na mixagem, no estúdio Mega do Rio, o trabalho foi mais simples. Como a acústica dos estúdios em que a banda gravou é privilegiada, e havia muitas opções de microfone,Moogie usou poucas máquinas de efeitos – Apenas a Lexicon 480 e o TC Electronics 5000, além de uma Yamaha REV-5 e o SPX 1000. Na voz ele usa a Lexicon 480. Os vocais gravados no AIR tem apenas o ambiente da sala

EMOÇÕES

As emoções foram fortes. Os integrantes do Roupa Nova tiveram até uma visita relâmpago de Sean Lennon, o filho de John Lennon, que visitava o estúdio pela primeira vez. Feghali lembrou de quando foi barrado ao tentar visitar o Abbey Road em uma viagem de passeio que fez à Londres e se emociona ao lembrar de quando gravou lá. Paulinho falou que “estar lá dentro do estúdio dos caras foi maravilhoso, um sonho realizado depois de muitos anos. Coisa que nunca imaginei, coisa do Ricardo Feghali”, brinca o cantor, agradecido.

“Pode parecer uma bobagem”, diz o baterista Sérgio Herval, “mas para quem cresceu ouvindo o Ringo (Ringo Star, baterista dos Beatles), a primeira informação que eu tive de baterista na minha vida. Foi o Ringo Star e o Charlie Watts (baterista dos Rolling Stones). Como me identifiquei mais com os Beatles por causa da parte vocal, o Ringo foi o batera que escutei a minha vida inteira”, diz Sérgio Herval. Cleberson Horsth, tecladista da banda, lembrou-se muito do amigo Paulo, que foi quem emprestou uma guitarra para ele. Foram os Beatles que incentivaram o então acordeonista a tocar guitarra, antes de partir para o piano.

“Quantas vezes o Paul ou o John não subiram aquelas escadas?” conclui o baixista, se referindo à escada que leva da sala de gravação à técnica. “Já ouvimos bobagem de crítico, já ouvimos bobagem de músico, já ouvimos muita bobagem e espero, francamente que, depois de 28 anos que se faça justiça e que quando houver um ranking em uma matéria incluam o Roupa Nova e não é no número 100. Que seja lá em cima. Eu estou cansado de ver a minha banda ter que se provar todos os anos”, desabafa Nando.

O guitarrista Kiko. “ chorava a cada cinco minutos,era muito forte dentro de mim. Eu fui pobre pra caramba e eu vi que a coisa que eu mais quis na minha vida toda, que eu briguei com a família, com meu pai, minha tia, e eu ali dentro às nossas custas, às custas de 28 anos de carreira nesse país maluco prá caramba que é o Brasil. Hoje, depois de gravarmos no estúdio dos caras que vimos com guitarras nos ombros e que deram o play em nossas cabeças musicais, sentimos que vai demorar muito para ser dado um stop em nossas carreiras”.

AKG D19, usado por Paul McCartney em “Yesterday” Cole STC 4038 Neumann KM 54 e AKG 452 E
Neumann M50 RCA 44 Neumann U47
Neumann U67 Neumann M49 AKG C12 e Neumann M49