Masterização artística
Ticiano Paludo
Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário, músico, compositor e sound designer. Leciona Áudio Publicitário e Atendimento na FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social (PUC/RS) - e Arranjo e Produção Musical Nível III no IGAP - Instituto Gaúcho de Áudio Profissional.
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Desde a edição de dezembro de 2008 venho falando sobre assuntos que naturalmente se encadeiam no processo produtivo de um álbum: começamos por ARRANJO (dez/08) e depois vimos MIXAGEM (jan/09), PRÉ-PRODUÇÃO (fev/09) e PÓS-PRODUÇÃO (mar/09). Neste mês, escrevo sobre outra etapa importante e tão polêmica quanto a Pós-Produção. Refiro-me à Masterização

O assunto é realmente confuso!

Já vi gente chamando de “Masterilização” (ok, esse aqui era grosso, mesmo!), “Pré-Masterização”, “Pré-Master”, “Master” e por aí vai. Para complicar mais um pouquinho, apresento a minha nomenclatura: “Masterização Artística”. O que é isso? É o que você vai ver a seguir...

Vamos começar entendendo para que se masteriza (ou não) um álbum ou faixa. A masterização pode ser feita em uma única faixa isolada, em um grupo pequeno de faixas ou em um álbum inteiro. Mas o que significa, afinal, masterizar? Na verdade, mesmo as pessoas comuns, simples ouvintes que não possuem conhecimento técnico ou musical, diariamente acabam “remasterizando” seus áudios, sejam eles arquivos de som, vinil ou CD. Quando alguém inocentemente aumenta ou diminui o volume do player e brinca com a equalização, está, ainda que primitivamente, masterizando. Ou seja, tanto o ouvinte comum como o músico ou técnico especializado busca a mesma coisa: moldar a massa sonora para que ela fique mais intensa, agradável, ou ambas as coisas.

A pressão sonora existente nas faixas de um álbum costuma sofrer variações de intensidade. As mais perceptíveis podem ser detectadas comparando-se, por exemplo, uma balada com uma música mais agressiva. Porém, quando você está ouvindo seu álbum querido, não precisa aumentar o volume na balada (para conferir-lhe mais força) ou reduzir o volume na mais agressiva (para atenuar a sua dinâmica). Basta selecionar um volume confortável e ouvir o álbum do início ao fim. Embora as diferenças de pressão/intenção sonora sejam sentidas, o ouvinte notará que existe um equilíbrio coeso entre as faixas. Isso nos faz deduzir que, sim, trata-se de um álbum que foi previamente masterizado. Este é o ponto de partida da masterização: criar-se uma uniformidade sonora que respeite as diferenças de pressão e tensão existentes em cada faixa musical.

Se você ouvir atentamente alguns álbuns das décadas de 70, 80, 90 e do ano 2000, notará que as décadas guardam semelhanças entre si. Por isso é comum dizer coisas como “esse som soa super anos 80!”, ou ainda, “que sonoridade vintage a-lá 70s”. Pensando em termos de rock, nos anos 70, por exemplo, a imagem estéreo é mais bem percebida e a pressão sonora é pequena. Já nos álbuns produzidos atualmente, parece existir uma busca frenética e doentia pelo volume, isto é, uma pressão sonora absurda que impere sobre qualquer outro fator. Esse volume em demasia tem um porquê e um preço (que eu considero alto demais para se pagar): o porquê é resultante de um mito de que as rádios FM do segmento chamado jovem (principalmente aquelas que tocam muito rock) dão prioridade ao binômio canção com “duração pop”, isto é, faixas que girem em torno de três minutos e meio e que tenham “o volume”. Além disso, muitas bandas associam essa pressão sonora estourada à virilidade musical e poder (sabe aquele cara que quer ter um carro com motor possante? É mais ou menos por aí). Ok, seja feita a vossa vontade, pressão máxima em tudo. Mas existe um preço a ser pago: essa pressão toda achata e aniquila as nuances e texturas do som. Consequentemente, o som fica “chapado” (gíria utilizada no meio musical para designar sons comprimidos ao extremo que perdem as suas sutilezas). E vem a pergunta: vale a pena pagar o preço? Vale a pena trocar detalhes por força? A resposta é simples: depende do caso e depende de muita coisa. Se a proposta do artista é realmente ser uma massa sonora ensurdecedora, ok! Mas em muitos casos essa pressão toda acaba deixando o som desconfortável, matando diversas camadas que fazem toda a diferença. Em um caso desses, o melhor seria nunca ter masterizado, ou então, optar por outro caminho na masterização.

Recordando o que vimos anteriormente aqui na Backstage, quando se trabalha com a mixagem de uma faixa, temos controle sobre cada som, cada canal de áudio de forma independente: alteramos seu volume, PAN e EQ. No caso da masterização, não existe a possibilidade de se moldar um único som: trabalhamos com o som mixado (em mix fechada), o que se pode chamar de áudio-sólido. Trabalhamos com fatias sólidas de som, e não com confeitos sonoros peneirados. Como é feita a masterização? Normalmente é uma combinação de EQs, pré-amps e compressores que são aplicados nas faixas. Como em quase tudo que se refere à produção musical, salve as referências. O masterizador costuma escolher uma faixa inicial (normalmente a considerada mais delicada, complexa ou problemática) e masteriza-a. O cliente ouve e se concordar, a partir desse ponto, não só a referência inicial é utilizada como linha guia, mas a própria faixa #1 já masterizada também desempenhará esse papel de iluminar e conduzir as demais. No caso de faixas isoladas, o parâmetro de medida será única e exclusivamente a referência. Dificilmente se cria um preset básico e aplica-o em todas as faixas de forma igual. O que deve ser levado como guia é a sonoridade e para atingir-se esse equilíbrio, pequenos ajustes se fazem necessários de faixa para faixa. A ordem dos fatores interfere no resultado: passar primeiro pelo EQ, depois pelo pré-amp e por fim pelo compressor irá produzir um resultado diferente do que passar, por exemplo, por compressor-pré-EQ.

Já produzi diversas faixas e álbuns em que meus clientes são contra masterizações (principalmente as do tipo bloco sonoro, chapadas e ultra punch). Mas, por outro lado, foram a favor do que chamo de “Masterização Artística”. Essa técnica – que honestamente não é invenção minha, pois me inspirei nos DJs para desenvolvê-la – tem se mostrado eficiente e satisfatória. Além de utilizar moderadamente e eventualmente prés, EQs e compressores (e não necessariamente tudo de uma vez, aplicando em muitos casos apenas um desses recursos), acabo me valendo de outros recursos (sejam de hardware ou software) e aplicando-os sob a camada sólida do áudio. Como exemplos, acrescento phaser, flanger, wah-wah, deelay e até overdrive em determinados trechos da música, sempre cuidando para que esteja mais dry do que wet, ou seja, o efeito é aplicado quase como um auxiliar, uma pequena sobrecamada dentro do bloco. Os resultados soam bastante inventivos e interessantes.

Conclusão: a masterização não se torna única e exclusivamente um reforço e equilíbrio, mas passa para um plano de criação artística que interfere no resultado da obra, contribuindo para estimular o ouvinte e construir a mensagem musical. Reforçando, não custa lembrar que o ouvido e o bom senso devem ser a voz da consciência e isso se adquire com o tempo, estudo e muita audição analítica.

Para finalizar o assunto, me detenho em dois pontos até aqui não discutidos: o primeiro se refere à comparação entre masterizar utilizando-se plug-ins versus hardware. Quem acompanha as minhas colunas, quem me conhece e quem trabalha comigo sabe que sou um entusiasta das novas tecnologias e, principalmente, da computer music. Porém, ainda acredito piamente que o resultado orgânico alcançado com hardware é infinitamente mais feliz e eficaz do que a manipulação exclusivamente digital via software. Por mais que os fabricantes de plug-ins estudem exaustivamente o funcionamento das “coisas reais” para produzir uma simulação bem satisfatória no “mundo virtual”, um Avalon nunca perderá para um plug-in! Ou seja, se puder escolher entre analógico e digital, escolha o analógico (principalmente para quem deseja acrescentar um verdadeiro volume ao som). A outra questão se refere a quem masteriza: exceto por masterizações artísticas que eu mesmo acabo fazendo, prefiro contar com bons masterizadores. Quem são eles? Normalmente gente que se especializou nisso, de preferência que só faça isso. Assim como produtor musical bom é aquele que se dedica diariamente ao ofício da produção, masterizador competente é aquele que estudou a fundo o assunto. Digo isso, pois já cansei de ver “masterizadores” que simplesmente atiram meia dúzia de factory presets em cima de uma faixa e dizem que a mesma foi masterizada. Masterizar vai muito além de usar um bom (porém simples) normalize. Abraços e até a próxima.

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