Na novela “Os Mutantes”, da Rede Record, diante das cenas inimagináveis, entre lobisomens e extraterrestres, não imagina o grande trabalho na trilha sonora feito por trás das câmeras. E isso é um bom sinal
A trilha sonora não pode se destacar da trama, mas sim compor harmoniosamente os movimentos, ações, expressões, dando vida e preenchendo cada espaço. Na novela em questão, há um diferencial bem curioso: a trilha sonora se faz presente em quase 100% da trama, que tem muito mais ação do que a tradicional conversa.
Quem assina a produção musical da novela é o igualmente mutante, Daniel Figueiredo, que também atua em todos os segmentos possíveis em que a música está presente. “Os Mutantes” já é a sua quinta novela na Record, mas ele também já se consagrou como produtor no mercado fonográfico, participou de trilhas sonoras de filmes e ainda criou um reality show de música e, junto com o músico Frank Colón, está produzindo o Musical Nation Project (www.musicalnationproject.com), que visa misturar música, músicos e instrumentos do mundo inteiro .
Em seus diversos workshops e cursos pelo país, Daniel Figueiredo pôde perceber que a maioria dos usuários de Mac (Apple) e PC (Windows) quase se odeiam. “É praticamente o Fla x Flu da informática. As pessoas defendem fervorosamente um ou outro. Eu vejo o lado bom de ambos e não abro mão de nenhum dos dois. No meu estúdio, eles convivem pacificamente, uma tela ao lado da outra há mais de 8 anos e não pretendo mudar tão cedo”, afirma. Em uma conversa com a Backstage, Daniel conta um pouco da sua carreira, seu trabalho na novela, suas inovações e como está o mercado de trabalho para quem quer iniciar uma carreira como produtor musical.
| |
 |
| |
Music Solution |
Revista Backstage – Como e por que começou a usar a combinação do Mac e PC?
Daniel Figueiredo – Na verdade, eu comecei a usar PC há muito tempo, quando eu ainda morava em Cataguases, no interior de Minas Gerais. Naquela realidade, comprar um Macintosh era sinônimo de comprar um Rolls-Royce para andar no brejo, pois não havia ninguém que ao menos tivesse ouvido falar dele; conseguir algum técnico para me ajudar com o PC já era difícil porque eu utilizava placas de som que eles nem faziam ideia do que era. Então, diante da dificuldade de serviços técnicos e muita vontade de me aperfeiçoar, acabei eu mesmo montando, aprendendo tudo quase sozinho e por isso adquiri o conhecimento que tenho hoje em informática. Quando a Digidesign lançou a Digi001, que possibilitava que você tivesse o Pro Tools, com uma versão mais limitada, por “apenas” 3 mil dólares (na ocasião, só os maiores estúdios do país utilizavam Pro Tools pois custava algo em torno de 50 mil dólares), essa primeira versão do software que vinha com a placa (Pro Tools LE) só funcionava no Mac, então fui “forçado” a comprar um. Depois de um tempo de uso peguei a confiança no Mac principalmente em termos de estabilidade, pois pude perceber que, além de praticamente não ter vírus, é uma plataforma mais enxuta, tudo funciona bem sólido e, contrariando toda a minha natureza vanguardista, ainda utilizo a versão 5.2 do Pro Tools (TDM) (a mais nova versão é a 7.4) rodando ainda no OS 9 – e o Mac ainda é um G4 400 –, mas está tudo funcionando tão bem, há tanto tempo e com tudo que preciso que não compensa gastar tempo e dinheiro em uma atualização.
O PC, por sua vez, disponibiliza centenas de softwares e muitos deles nem são lançados para Mac. Por isso, utilizo PC para todos os samplers sintetizadores, ele trabalha como se fosse um módulo de som. No Mac eu gravo o áudio de vozes, guitarras, baixos, violões, etc, e as pistas MIDI, que por sua vez vão até o PC por meio de uma interface (MTP AV da Motu) para que o som seja gerado e volte para o Mac em forma de áudio por meio de outra interface (Delta 1010 M-audio). Fora os instrumentos virtuais, eu uso no PC também o software Guitar Rig (com o Pedal Rig Kontrol) que tem praticamente todos os efeitos de guitarra criados até hoje. Uso, inclusive, o PC para a Internet, Outlook, Word, essas coisas comuns do dia a dia. O Mac fica mesmo só para o Pro Tools.
Backstage – Analógico ou digital?
Daniel - Eu sempre preferi para o digital. Acredito ter sido um dos primeiros a comprar o gravador digital da Roland (VS-880) no Brasil. Sempre preferi o lado digital e sempre ouvi argumentos das pessoas que defendem as máquinas analógicas, dizendo, por exemplo, que gravador de rolo proporciona um som melhor. Eu tenho uma definição sobre isso: o gravador de rolo, na verdade é um ótimo processador de efeito, pois ele não pode ser considerado um ótimo gravador sendo que ele grava “A” e sai “B” além de ainda adicionar artifícios indesejáveis como ruído de fundo e se desgastar a cada vez que se toca ou se manuseia ou se armazena. Respeito muito quem usa gravador de rolo, mas o “gravador”, na minha concepção, é o digital, no qual o som “sai” muito mais próximo do que “entra”. A partir do momento em que eu comecei a entender a figura do gravador de rolo como um processador, passamos a “conviver” muito melhor, inclusive aceitando o que tem se tornado comum, gravar o baixo e bateria no rolo antes de passar para o Pro Tools. Essa definição tem feito sucesso nos meus workshops, ou quando converso com pessoas que compram mesas de mil novecentos e antigamente, acham que consegui finalmente resolver esse dilema (risos).
 |
|
| Music Solution |
|
Backstage – Como você começou a trabalhar em novela?
Daniel – Em termos de trilhas e temas eu já havia feito trabalhos para Rede Globo (“Gente Inocente”, “Planeta Xuxa”, “Kubanacan”, “Senhora do Destino”) até que no final de 2005 fui convidado pelo diretor musical da Record, Marcio Antonucci, para assinar a produção musical de “Prova de Amor”, primeira novela que seria produzida no RECNOV – núcleo de novelas da Record no Rio de Janeiro. Antonucci também me deu a oportunidade de fazer aberturas de programas como “Tudo é Possível”, “Jornal da Record”, “Balanço Geral”, “São Paulo no Ar” e “Esporte Record” entre dezenas de outros temas e trilhas que tocam durante a programação.
Backstage – “Os Mutantes” é uma produção diferente, não segue um padrão de novelas usuais exibidas até hoje. Como é fazer esta produção musical?
Daniel – Nas outras novelas já tinha vivido vários extremos interessantes como de manhã gravar um quarteto de cordas e à noite gravar um baile funk (risos), mas essa é realmente uma novela diferente. Além da temática, que envolve mutantes e outros seres. A novela “Caminhos do Coração”, que seguiu o mesmo modelo desta, chegou a ter mais de 60 personagens, e teve muito mais capítulos do que o comum, um total de 240. O Tiago Santiago, autor da novela, é realmente um gênio e sua capacidade de criação é infinita. O número de personagens muito grande torna o trabalho de produção musical mais complexo, pois cada personagem importante geralmente tem uma música-tema e cerca de três variações instrumentais para ele. E essa novela tem o agravante de ter mais cenas de ação do que diálogos e, neste caso, são obrigatoriamente preenchidas com música. Além disso, há climas específicos que eu nunca tinha usado em outra novela – como transformações de Lobisomem, discos voadores, terror, clima científico de laboratório – cenas que pedem uma música diferente, o que na verdade é o que mais gosto de fazer; como odeio “gabaritos”, “padrões” “limites”, meu negócio é sempre tentar inovar, então me sinto completamente realizado fazendo uma novela tão inovadora quanto essa.
| |
 |
Backstage – Pelo fato de a novela ter música quase o tempo inteiro, a trilha sonora exerce um papel mais importante?
Daniel – Com certeza, aumentou a responsabilidade, aumentou a quantidade de trabalho, aumentou tudo, só não aumentou o meu salário (risos). É como se a gente fizesse um filme diariamente. Nesta novela é tudo pontuado com música. Quando o Alexandre Avancini, diretor da novela, imprimiu no primeiro capítulo este formato de música o tempo todo, todos gostaram. Hoje em dia, quando tem uma cena de 3 minutos sem música, a gente até acha estranho (risos). Quanto à criação das músicas, na hora de compor, apesar de gostar de fazer coisas diferentes, inovadoras, respeito muito o que foi escrito, o que foi filmado, o telespectador. Acredito que o compositor/produtor deve sempre estar a serviço da trama, pois, ele está ali para ajudar a contar aquela história e, como todos os outros elementos de uma novela: luz, cenário, edição, atuação, etc, a música tem que se moldar ao texto. Além disso, com a música você pode ter pistas importantes de um personagem e saber, por exemplo, se ele está falando mentira ou verdade. Se eu tiver uma música de suspense e ele estiver rindo, ele está sendo irônico. Muitas vezes você não assiste à novela, não acompanha, mas se você está ali, naquele momento, a música traduz o que está acontecendo, mesmo que inconscientemente. Um bom exemplo disso é um depoimento do Spielberg quando disse que quem fez o E.T. voar foi o John Williams (compositor da trilha sonora). Porém, no Brasil somos muito menos valorizados do que em outros países e para tentar corrigir estes e outros grandes problemas da nossa área, é que foi fundada recentemente a Musimagem Brasil (Associação Brasileira de Compositores de Áudio-Visual) da qual, com imenso orgulho, sou sócio-fundador.
 |
|
Backstage – Quais combinações utiliza e qual o processo de composição das suas músicas para “Os Mutantes”?
Daniel – Eu uso todos os tipos de sons até efeitos sonoros para compor. A maioria das minhas músicas dessa novela, por exemplo, você vai escutar timbres que são praticamente inutilizáveis em músicas “normais”. Muitas vezes utilizo algum sintetizador que vi na Internet, grátis, e que tem um timbre ótimo apesar dos outros mil restantes serem horríveis (risos). Eu fico garimpando na Internet atrás de timbres exóticos, isso me inspira. Teve uma música que eu fiz inspirado em um som de bumbo, quando eu o escutei me veio uma ideia de uma música inteira. Outras inspirações vêm quando toco meus outros instrumentos como violão, guitarra, baixo, teclado ou bateria, mas o que tem mais me inspirado ultimamente são esses timbres loucos de instrumentos virtuais. Uma recente aquisição que tem me ajudado bastante também na hora de compor é a guitarra Variax (Line 6) que simula praticamente todos os timbres de guitarra além de banjo, violões, entre outros... É um instrumento impressionante. Quando eu vi a propaganda do produto pensei que era muito bom para ser verdade, então nem dei muito crédito. Mas quando eu peguei para testar, vi que eles não estavam de brincadeira e comprei uma na hora. Ao contrário da maioria, não sou muito ligado em instrumentos vintage. Outro dia assisti a um vídeo do Hans Zimmerman, que é um dos compositores de trilha sonora mais respeitados da atualidade, em que ele apresentava a música-tema do “Piratas do Caribe” na Disney com um modelo idêntico ao meu. Fiquei ainda mais feliz com a minha aquisição (risos).
| |
 |
| |
Daniel Figueiredo e Toni Garrido |
Backstage – Como é a edição da música na cena?
Daniel – Eu envio a música e as considerações sobre adequação de temas e personagens, então o sonoplasta, Sergio Rocha, as adiciona na imagem juntamente com os outros elementos como o FX, criado pelo Ciro Albuquerque (efeitos especiais de áudio), foley feito pelo Carlinhos (ruídos que fazem parte da cena mas que não foram captados pelo microfone ou que precisam ser “amplificados”) e o som direto, feito pelo Junior (vozes dos atores já “tratadas”). Todos eles utilizam o sistema Pro Tools HD 3 com uma mesa control 24 rodando em um Mac G5 e monitores Genelec. O Antonucci pede para que todo produtor musical supervisione a sonoplastia por isso acabamos sendo também corresponsáveis pela sonorização e temos que assistir a todos os capítulos antes de eles irem ao ar.
Backstage – E como é o seu trabalho com as músicas em uma novela que possui tantos efeitos especiais?
Daniel – Eu evito ao máximo utilizar alguns efeitos que possam chocar com os efeitos especiais (FX) que são normalmente colocados em explosões, movimento de câmera, voos, saltos, lutas etc... Nessa novela o profissional responsável pelo FX chega a passar mais que o triplo de horas de uma novela comum para colocar todos os efeitos! Ele usa e abusa do banco de dados que contém zilhões de efeitos reais e “não reais” para, assim como a música, ajudar a imagem a gerar mais impacto no espectador.
Backstage – Você já criou alguma música que fez sucesso com os telespectadores?
Daniel – Já houve um caso interessante. Uma música que compus para a novela “Caminhos do Coração” teve 36 mil acessos no YouTube. A minha página lá chegou a ser a segunda música mais acessada do Brasil. Acho importante os profissionais da área, principalmente aqui no país, fazerem o que for possível para divulgar nossa arte, pois muita gente pensa que as trilhas são compradas de outros países e, em outros casos, ela se torna “invisível”. A música-tema do filme “Abracadabra”, que foi recorde de bilheteria, tem uma história muito interessante também, pois foi uma encomenda feita às pressas. Começamos eu, Abdullah e o DJ Robson Vidal a fazer a música às 22 horas e tinha que estar pronta às 11 horas do dia seguinte. Compomos, arranjamos, gravamos e mixamos, e, no fim, a música foi um enorme sucesso, fiquei muito realizado ao ver os comerciais que mostravam somente as pessoas cantando o tema, nada mais.
 |
|
| |
|
Backstage – Há outros projetos em mente?
Daniel – Zilhões, mas sei que infelizmente não terei, nessa vida, tempo para realizar nem um décimo deles (risos), então tento me concentrar em solidificar cada vez mais cada área da minha empresa MusicSolution (um centro de serviços musicais) no mercado e no meu tempo livre concretizar esse meu sonho que é o Musical Nation Project, um projeto em parceria com o músico americano Frank Colón. Já gravamos as participações de vários artistas do mundo a fora e esse projeto está sendo muito bem recebido pelo público e pela crítica.
Backstage – Você utiliza alguma referência para o seu trabalho?
Daniel – Raramente utilizo referências, só quando sou “obrigado” pois odeio copiar, e fico até indignado comigo mesmo quando faço alguma coisa parecida com outra sem querer, mas também não sou radical e sempre levo em conta o que “funciona” e o que “não funciona” para não quererem me mandar para um sanatório (risos).
Backstage – Existe alguma nova tendência na área de trilhas sonoras?
Daniel – Algo que tenho percebido ultimamente influenciar a quase todos os outros estilos são as músicas árabe e indiana, cada vez mais, até no rap americano você escuta frases desses estilos hoje em dia. A diferença básica desses estilos para a nossa é que eles têm muito mais notas, então ela já abre mais o leque de possibilidades e, eles acabam sendo muito utilizados em trilhas sonoras, pois já trazem em si um clima de mistério. Componho músicas com clima indiano, por exemplo, para cenas “calientes” de casais vampiros que fica muito melhor do que uma música romântica ou uma música de suspense. Na música “Sabe Você” abertura da novela “Caminhos do Coração” eu pedi ao Frank Colón que, além de todas as outras percussões, também adicionasse uma tabla (instrumento musical de percussão, muito usado na Índia, normalmente em músicas devocionais ou meditativas); o arranjo ficou então com uma mistura de bossa nova, música latina, drum’n’bass e música indiana.
Um incentivo para futuros produtores musicais |
Para quem está começando na profissão e enfrentando inúmeros obstáculos, a seguir, o depoimento de Daniel Figueiredo, relatando como ele começou sua carreira.
“Desde muito pequeno sempre fui fissurado por música. Na adolescência, eu deixava de comprar merenda para comprar discos. Mas quando a coisa ficou mais séria e eu quis me profissionalizar, o meu pai não gostou nada da ideia e no momento em que eu comprei a minha primeira guitarra ele me proibiu de deixá-la em casa, pois, na verdade, ele queria mesmo é que eu fosse engenheiro, então eu tive que guardar a guitarra na casa da minha avó... e até o resto da família intervir e convencê-lo que essa proibição era ridícula, eu tinha que ir para a casa da minha avó quando eu queria tocar. Ele continuou me “perseguindo” até que eu não aguentei mais e tive que sair de casa e alugar uma quitinete, que na verdade era o estúdio Performance de manhã e minha casa à noite.
Comecei bem pequeno, com um gravador de 4 canais, que custou US$ 700,00 na época, um teclado quase de brinquedo da Casio e uma guitarra, todos me diziam que eu estava ficando louco por querer montar um estúdio de gravação em uma cidade tão pequena, o que eu respondia: “Se não der certo, pelo menos eu gravo meu disco”. Deu tão certo que até hoje eu não tive tempo de gravar meu CD (risos).
Para viabilizar este sonho maluco eu tive que enfrentar toda a minha gigantesca timidez e inexperiência para conseguir vender, compor, tocar, cantar mixar e cobrar os jingles que eram a única coisa que dava para fazer com o equipamento (risos). Quando a coisa começou a engrenar, um amigo de infância, Warney Romanhol, se ofereceu para ser meu sócio, e como ele tinha a parte comercial mais desenvolvida ajudou o estúdio a crescer mais rápido ainda. Fomos, inclusive, o primeiro estúdio |
|
da região a gravar digital e também o primeiro a ter um gravador de CD, que na época custou US$ 2.500,00. E cada mídia (CD-R) custava US$ 16,00. Nós éramos muito mais exigentes do que nossos clientes e para você ter uma ideia nosso slogan era “Se você não se importa com qualidade não nos procure”. Quando o estúdio já estava bem conhecido um grandíssimo amigo meu, Júnior Laxe, me apresentou aos seus amigos Álvaro Socci e Claudio Matta que eram compositores de sucessos gravados por artistas famosos (Xuxa, Zezé Di Camargo, Sandy e Jr) e, após eu ter feito alguns arranjos para eles, surgiu a ideia de me mudar para o Rio para fazermos um estúdio em sociedade. Depois fiz uma parceria em um estúdio com o grande e genial compositor Carlos Colla, porém, por questões operacionais, acabou se inviabilizando, mas ainda somos grandes amigos e componho com ele sempre que posso.
O único contato que tive com um grande artista, antes de vir para o Rio, foi o grande mestre Feghali (Roupa Nova). Na ocasião, liguei para ele, na cara e coragem, para pedir que ele escrevesse um depoimento para a coletânea que estávamos lançando na época, e ele, com toda a sua humildade, nos brindou com um belo texto. Outro detalhe interessante sobre esta coletânea é que ela foi lançada com uma faixa interativa, na época só alguns poucos artistas de grandes gravadoras tinham CDs com este recurso.
Uma das passagens que mais me marcou no início da carreira foi quando eu conheci de perto os músicos do Roupa Nova, principalmente o Feghali, Kiko, Nando e o Cléberson, que se mostraram pessoas muito mais humildes do que eu poderia imaginar. Para mim, além de eles serem os maiores e mais completos profissionais da música brasileira são simplesmente as pessoas mais humildes e fáceis de lidar que eu já conheci”. |
A minha tendência particular tem sido fazer melodias simples, com poucas notas. Porque na verdade o que todo compositor deseja é que a música se transponha da tela e entre na cabeça das pessoas, que elas assimilem e que fiquem assobiando-as nas ruas. Nada melhor do que poucas e belas notas para conseguir isso. Já no resto do arranjo eu não economizo, coloco milhares de notas se precisar, mas na melodia, que é o âmago da música, eu tendo ao minimalismo.
Backstage – Em sua opinião, como está o mercado para produção musical?
Daniel – Complexo, pois a facilidade de acesso à tecnologia de hoje em dia democratizou tudo. O que vai acontecer é que vão aparecer milhões de produtores musicais, fato que, obviamente, o mercado não vai conseguir absorver. Para se destacar é necessário respeitar cada estilo musical, estudar o que está vindo por aí, ficar antenado às novidades do meio, se preparar para o novo, não ficar apenas reclamando da situação difícil, mas sim entender o que está acontecendo para se adaptar às tendências e realidades. Apesar de eu tratar a música quase como uma religião, tenho ciência de que vivo em um país capitalista e sei que não devo nunca me esquecer do lado monetário apesar de esse lado não ser, com certeza, o meu forte (risos). Também sugiro respeitar todos os tipos de público. Eu respeito tanto cada estilo e, apesar de eu sempre pesquisar todos eles o mais fundo possível, sempre tento chamar uma pessoa para trabalhar comigo que seja um grande conhecedor daquele estilo que estou produzindo, assim eu fico menos suscetível a cometer algum “sacrilégio” musical. Por mais simples que uma música possa parecer, cada grupo tem toda uma vida, uma história, um jeito próprio de ser e um motivo de ter feito sucesso que não convém a mim julgar se é certo ou errado. No máximo posso dizer eu não gosto, mas mesmo assim precisarei ouvir, pois amanhã poderei ter que fazer uma novela inteira daquele estilo, por exemplo.
Essa facilidade de se montar um estúdio até em casa está aumentando também um outro problema sério: a autoprodução musical. Na minha opinião, a autoprodução musical é uma incoerência. Em uma analogia, o produtor musical pode ser comparado à figura do técnico de futebol. Ele vê o time de fora, sabe onde está dando errado, as falhas da defesa, se o jogador está correndo demais ou está atacando errado, e o técnico vai saber o momento certo para a correção. Como um sujeito poderia jogar e ser técnico ao mesmo tempo? Além de incoerente acredito não ser a coisa mais inteligente a se fazer. Um bom produtor é a pessoa que vai chegar e dizer para um artista qual música é melhor para ele cantar. Como o crédito de produtor musical é muito almejado, acabam os artistas prejudicando suas carreiras por um simples orgulho, temos casos célebres no Brasil. Outro dia um pessoal de gravadora me disse que um artista exigia, em contrato, que ele mesmo assinasse a produção de seus discos, então eu aconselhei a gravadora a descontar dele o valor que seria pago a um produtor musical porque na verdade, o disco seria feito sem produtor. Uma coisa aceitável, por exemplo, é uma dupla assinar uma produção de seus discos, pois um pode produzir o outro.
Backstage – Então, o que o produtor musical que está iniciando deve fazer para não ser mais um em um milhão?
Daniel – Aconselho-o a estudar música o máximo possível. Encarar todos os estilos musicais sem preconceito, principalmente porque hoje em dia existem muitas misturas de estilos, estar sempre “de ouvido em pé”. Atualmente temos a Internet que, além de tudo, é uma biblioteca de músicas e sons gigantesca à disposição, há muitos cursos on-line e infinitas possibilidades de aprendizado. Outra coisa que acho interessante é ter a consciência de que você aprende com qualquer pessoa, tanto com seus ídolos, quanto com um cara que começou a tocar ontem. Se você realmente quiser aprender com música, você vai aprender de todos os lados. Eu tenho a tradição de sempre fazer pesquisas, de pôr à prova aquilo que eu sei. Sempre procure e aceite a opinião de pessoas sinceras e não daquelas que vão falar somente aquilo que você quer ouvir. Eu criei uma frase que sempre digo para os artistas: “Sempre duvide de quem sempre concorda com você, principalmente se ele for o seu produtor musical” (risos).
Backstage – Quais foram as situações difíceis que passou como produtor musical?
Daniel – Quando trabalhei no CD da Aline Barros, vi que o meu nome aparecia como backing vocal, na hora eu não me preocupei muito porque erro em ficha técnica é quase um pleonasmo. Entretanto, quando eu vi na Internet a notícia de que o CD havia ganhado o Grammy latino e que por esse erro eu não o receberia, fiquei em pânico. Eu já até havia deixado de ganhar outros pela falta do meu nome na ficha técnica, mas por serem discos que eu não achava que iriam dar muita credibilidade, apesar do peso do prêmio, eu não me preocupei em correr atrás. Entretanto, nesse caso da Aline Barros fiz muita questão, pois ela é uma referência em termos de artista e não somente no meio gospel. Graças à grande ajuda do Feghali (Roupa Nova) e do Ronaldo, pai da Aline, consegui resolver o problema. Por essas e outras, recomendo aos amigos e alunos que sempre fiscalizem a ficha técnica antes do CD ser prensado, pois a perda pode ser fatal.
Backstage – Tem expectativas de ganhar mais algum Grammy?
Daniel – Recebi uma indicação pelo meu trabalho no DVD da minha querida madrinha Beth Carvalho “40 anos de carreira”, que é histórico, o primeiro show totalmente de samba no teatro municipal. Acredito que o novo DVD “Beth Carvalho Canta o Samba da Bahia”, que conta com a participação de praticamente todos os mais representativos artistas baianos, tinha muita chance de ser indicado e até de ganhar.
Backstage – Como começou a sua atual empresa a Music Solution?
Daniel – Desde quando eu comecei a produzir, eu levo o trabalho muito a sério, cada disco é um filho meu que quero ter orgulho e, obviamente, quero que também que ele seja um dos motivos para que eu consiga mais clientes. No começo, para você ter uma ideia, eu gravava em oito canais em fita-cassete e queria comparar a minha produção com a o Pink Floyd (risos). Até aí tudo bem, perfeccionismo básico. Entretanto, em um certo CD que trabalhei logo no começo da minha carreira, depois de todo o trabalho, quando me mostraram o álbum prensado em mil cópias com uma das piores capas de todos os tempos, percebi, da pior maneira, que a música é apenas uma parte do processo, por isso é necessário acompanhar o trabalho como um todo, para não “morrer na praia”. Baseado nessa preocupação e pesquisando as tendências do mercado, criei a Music Solution, que dirijo junto com o meu sócio, Raphael Dias, em que oferecemos tudo do que uma artista precisa para que seu trabalho seja colocado nas ruas com a maior coerência e qualidade possível dentro do orçamento disponível. Cuidamos da divulgação, fotos, sites, figurino, masterização, logotipo, até aulas de canto para o artista quando necessário. Quer dizer, dezenas de itens agregados que, se não forem bem trabalhados, fazem com que um artista se transforme em mais um dos milhares de Frankensteins da música, aqueles que o tio tira a foto, o pai ajuda a mixar, o baterista faz a capa e por aí vai. Não é à toa que a empresa se chama Music Solution; Costumamos brincar dizendo que, para a empresa, poderíamos até usar aquele famoso slogan: “Seus problemas acabaram”.
Reality Show Musical |
Daniel também inovou ao criar um reality show na Internet com um grupo musical em 2006. Uma banda do interior de Minas com quem ele já havia produzido um CD anteriormente estava de mudança para o Rio com pouco investimento e muita expectativa e iriam todos morar juntos em uma casa. “Como meu antigo sócio, o Diogo Boni, tem uma empresa especializada em Internet, fui juntando as peças e surgiu a ideia”, afirma Daniel.
“A ideia do programa era ser um reality show de uma banda de rock que se comunica em tempo real em áudio, vídeo e texto com pessoas do mundo inteiro, mas, infelizmente, após três meses apenas, quando o projeto estava
|
|
começando a ter notoriedade na mídia, a banda teve problemas internos que impediram que o projeto continuasse. Além do dia-a-dia dos cinco integrantes, consegui para que eles entrevistassem artistas como Lazão do Cidade Negra, My Boy da Rede Globo, Téo Lim, entre outros, e, como tudo era ao vivo e sem cortes, os internautas podiam interagir fazendo perguntas aos entrevistados e serem respondidos na hora”, conta.
“Até agora só fiz esta edição. Para promover outra edição basta aparecerem outras bandas/artistas que queiram investir nesse tipo de divulgação e que tenham coragem o suficiente para aguentar a superexposição diária”. |
Musical Nation Project |
O Musical Nation Project é um projeto idealizado por Daniel Figueiredo e Frank Colón (EUA) que produz músicas que misturam composições, sons, instrumentos e músicos do mundo inteiro, com ritmos e vibrações modernas e ousadas. A troca de informações, especialmente sobre novas tecnologias, também é outro ponto forte desse grande encontro, que reúne novos talentos da música instrumental, eletrônica e pop com os veteranos destes e de outros segmentos. O repertório é
|
|
pré-selecionado por Daniel e Frank que logo depois convidam outros músicos para adicionarem suas participações. Parte da renda do projeto será destinada à UNICEF. Já gravaram suas participações artistas como o russo Roman Miroshnicheko, o americano Jamie Glaser, o argentino Diego Souto, o brasileiro João Correia, o espanhol Michael Grossman e o inglês Clive Stevens. O projeto só não anda mais rápido pelo pouco tempo que os dois possuem.
|
