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David Bosboom
É diretor de produção, diretor técnico, diretor de iluminação, designer e consultor de projetos. Possui 23 anos de experiência em espetáculos de teatro na Broadway, além de programas de canais de televisão aberto e a cabo. Especialista em turnês de circuito nacional e internacional.
www.davidhbosboom.com
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A indústria do entretenimento é cheia de novas e exóticas tecnologias que mudam mais rápido do que os artigos que escrevo. Existem centenas de fabricantes de equipamentos para iluminação convencionais extremamente eficientes, LEDs, moving lights, dimmers, máquinas de haise, gobos, sistemas wireless DMX e sofisticadas mesas de controle, mas são mesmo úteis o tempo todo?
No mês passado escrevi sobre um programa de computador Lightwright 5 que a meu ver é essencial para qualquer lighting designer, pois todo instrumento que ajuda a organizar um trabalho tem propósito. Na minha opinião, só porque algo se movimenta no tocar de um botão não é razão suficiente para sua utilização. E acredite, toda essa fácil mobilidade vem com um custo que a maior parte dos orçamentos não pode bancar. É claro que gosto de tecnologia e novidades, mas apenas quando existe um propósito. Tecnologia sem propósito é apenas um brinquedo nas mãos de quem usa.
Em grandes shows e bandas de rock existe algo dinâmico em se usar a tecnologia de Moving Lights, mais opções de cores e gobos, agilidade no movimento sincronizado com a música, já em peças teatrais essa utilização pode vir a ser uma distração. O controle da luz afeta a emoção da plateia do abrir das cortinas até o momento final. Assim o lighting designer deve fazer um esforço consciente ao criar a sua iluminação, correspondendo à dinâmica da apresentação como um todo.
Tenho discutido essas mesmas ideias com muitos designers através dos anos. Essa é a forma como fui ensinado a pensar enquanto aprendiz e assistente de um grande lighting designer em Nova Yorque, Tom Skelton. E escrevo esses artigos mensais com a intenção de passar para os leitores essa experiência, mas com opinião. Claro que já perceberam que não me falta opinião. Mas o que seria de um design com excelente tecnologia sem POV- ponto de vista? Como vender para um diretor ou produtor uma tecnologia cara? Para mim o mais importante é sabermos o porquê de uma escolha. A escolha dos instrumentos se baseia na técnica, o porquê é a Arte!
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| Figua 1 |
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Moving lights é a grande novidade do momento, mas a Vari*Lite começou em 1980 com o investimento inicial de Phil Collins, o líder da banda de rock Genesis. Não importa se a tecnologia é moderna ou antiga, mas sim que esta possa expandir as possibilidades de design. Veja aqui, por exemplo, uma alternativa com luzes convencionais. O refletor PAR é de forma geral bastante usado pelos lighting designers. (ver figura 1)
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Figura 2 |
Penso que parte pela economia e obviamente por fazerem um bom trabalho de iluminação. Pessoalmente esta não é minha primeira escolha simplesmente por não poder controlar suficientemente o foco de luz. Minha preferência em geral é o ETC Source4, pois além do foco ter uma intensidade constante, emitindo uma incrível quantidade de luz, temos a opção das facas para um maior controle e a habilidade de movimentar as lentes suavizando o contorno da luz. Vejam quantas possibilidades contidas no uso de um só instrumento básico. (ver figura 2)
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| Figura 3 |
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Agora adicione um “Color Changer” ao seu refletor PAR ou Source4, a sua luz fica com mais opções de cores expandindo suas alternativas, multiplicando as possibilidades do seu design, dando, por exemplo, mais opções de cores a sua luz de fundo com propósito e economia. (ver figura 3)
Claro que escolhendo usar o Color Changers você também adiciona alguns metros de cabos de DMX ao seu custo, mas se o design não ultrapassa 155 color changers e 100 dimmers tudo caberá simplesmente em um universo DMX. Assim qualquer mesa com a tecnologia DMX, como por exemplo, a Grand MA ou ETC Eos, pode facilmente dar conta do recado. (ver figura 4)
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Figura 4 |
Essa tecnologia é tão funcional que a mesa controla não somente moving light e color changers, mas simultaneamente efeitos de fumaça, haze (bruma) e tudo mais que se comunique com o sistema. Essa é a principal razão e o propósito da tecnologia DMX.
Mas já que falei em fumaça e bruma quero fazer um comentário sobre este tipo de efeito especial. Em ambiente ao ar livre a máquina de haze pode ficar ligada o tempo todo, especialmente em shows de rock, ou o efeito desejado não é visto. Mas em ambiente fechado deve ser usado de forma mais cautelosa. Os nossos olhos se cansam rapidamente e ignoram o efeito quando constante. Isso não é uma questão de opinião, mas um fato fisiológico. Os olhos se habituam aos efeitos repetidos, rápidos, constantes e prolongados como fumaça ou strobes. Conheço designers que gostam de “ver” constantemente o seu feixe de luz. Uma apresentação teatral, em minha opinião, não deveria ser sobre raios de luzes, mas sobre a cena, de momento a momento.(ver figura 5)
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| Figura 5 |
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Como designer sei que não existe uma fórmula padrão de design, pois cada criação é única àquele universo. Esse é o grande desafio em lighting design, pois cada cenário, figurino, história, tempo e lugar reflete uma realidade diferente. Mas devo dizer que quando se ilumina um palco existem sempre melhores ou piores escolhas usando a tecnologia.
Um aspecto de lighting design que tem sido desvalorizado é a beleza de se ver esculpida a forma humana. Isso significa iluminar o corpo por mais de uma direção adicionando dimensão. Ou seja, mesmo quando as linhas graciosas de uma bailarina são reveladas dramaticamente por uma luz de cochia, ou um ator faz um monólogo em um feixe de luz, o corpo humano é tridimensional, e apenas tem esta forma se iluminado no palco por vários ângulos. (ver figura 6)
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Figura 6 |
Uma outra ideia que adiciona textura e dimensão é, por exemplo, o uso de gobos. No teatro uma cena representando a hora do dia torna-se mais real se usarmos vários gobos imitando folhas. Em uma cena à noite, ajustando uma cor escura de hue a um padrão de “break-up” gobo, você quebra a luz em diferentes níveis de luminosidade, sem aumentar a intensidade da luz como um todo. Veja algumas fotos exemplos de utilização de gobos. (ver figura 7, 7A)
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Figura 7 |
Figura 7A |
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Eu já estou ouvindo produtores reclamando “O quê? Gastar mais dinheiro em iluminação? Ninguém vai ver a diferença.” É claro que não concordo com essa postura. Um lighting designer altamente articulado e esculpido vem só acrescentar a experiência teatral como um todo. E os produtores em Nova Yorque sabem disso. O resultado é que, apesar dos custos de produção, ninguém reclama dos preços dos ingressos e todos saem ganhando. Funciona na Broadway e em qualquer lugar do mundo. Esta é minha experiência nos Estados Unidos, Europa e até mesmo no Oriente Médio. No Brasil não é diferente, pois temos acesso à mesma tecnologia. O que precisamos são mais produtores visionários que acreditem na importância da iluminação em teatro. Gosto de dizer que sem iluminação de teatro a plateia estaria vendo o rádio!
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| Figura 8 |
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Nos últimos 20 anos o uso da tecnologia em teatro aumentou a cada ano de forma vertical. Produtores estão sempre buscando novas possibilidades para diferenciar o seu trabalho. Em 1984 o primeiro show com o exclusivo propósito de mostrar tecnologia no roteiro foi no teatro Apollo Victoria, em Londres, com a estreia do musical “Star Light Express”. O teatro se tornou algo tão complexo que como uma engrenagem, os elementos técnicos estavam escritos no roteiro junto com a fala dos atores, e eram importantíssimos para o sucesso da produção. (ver figura 8)
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Figura 9 |
Com o tamanho e a complexidade das produções veio a necessidade de se coordenar todas as atividades no palco de forma mais sistemática. O “Stage Manager” já dominava esta função desde os tempos de Vaudeville, mas o seu trabalho através dos anos se tornou fundamental naquilo que chamo “tecnologia” de gerenciamento. Eu não estou me referindo ao trabalho do Diretor de Palco que é uma posição estritamente técnica, e nos Estados Unidos conhecido como diretor técnico. O “Stage Manager” é o elemento no meio dessa hierarquia de gerenciamento, que afeta a comunicação central seja qual for o tamanho da produção. (gráfico na figura 9). Esta pessoa tem em essência a responsabilidade de manter artística e tecnicamente a integridade e a qualidade do produto do começo ao fim. Comparativamente o trabalho do “Stage Manager” seria o de organizar, coordenar e dirigir a produção como o “Maestro” dirige uma orquestra.
Talvez você esteja se perguntando, mas o que tudo isso tem a ver com tecnologia? Por que você não escreve sobre o uso dos LEDs, Moving Lights, dimmers, etc? Prometo que vou falar disso no futuro, mas não antes de falar no propósito da tecnologia. Para isso tenho que retornar ao conceito de criação. Tecnologia não são apenas “gadgets” ou parafernálias modernas, mas também a intenção de pessoas e suas técnicas. Tudo isso criado com propósito de agregar valores artísticos e técnicos. A valorização do trabalho do lighting designer surge a partir desse mesmo respeito à criação e através do aperfeiçoamento das técnicas de conhecimento.
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A tecnologia com propósito facilita movimentos complexos e simples no palco. Torna fluidos movimentos de luz e cenário, som e luz se complementam, efeitos especiais auxiliam entradas e saídas de atores, todos articulados a partir de um comando. Tudo intencionalmente orquestrado, minuto por minuto.
Conceitualmente toda a produção técnica e artística responde a um mesmo sinal “CUE” de “GO”. Nós temos muitos talentos na esfera de criação de design, mas precisamos da visão de produtores em investir nas técnicas de gerenciamento administrando maior propósito no uso da tecnologia.
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