"Nóis na Fita"
Luciano Freitas
Luciano Freitas é profissional de áudio, fez curso de piano erudito, Full Mastering no Füller Studios (Miami). É técnico em áudio na Pro Studio Americana e foi professor de teclado no Conservatório Musical Joelson Vieira.

Uma das grandes diferenças entre os estúdios comerciais e os home studios é a diversidade de equipamentos disponíveis para utilização. Já vi muitas pessoas perguntando “para que tantos pré-amplificadores se vão utilizar apenas um para captar minha voz?”

Não podemos nos esquecer de que cada equipamento tem sua sonoridade própria, e mesmo engajado em uma determinada faixa de preço, um equipamento não pode ser considerado melhor que o outro, e sim determinado equipamento é mais adequado para determinada situação, dependendo sempre do gosto do cliente.

O mesmo acontece com os microfones. Nos estúdios comerciais também existe uma grande variedade de modelos disponível, cada qual para sua aplicação. Já me deparei com casos que um microfone que custava 1/10 do preço de outro, em determinada situação, me proporcionava um timbre mais próximo do qual eu desejava. É certo que, cada qual com seu modo de transdução, oferecendo características distintas, com um microfone mais caro geralmente chega-se mais rápido ao timbre desejado (com alguns modelos nunca a sonoridade seria obtida).

Porém, mesmo com uma grande coleção de microfones, muitos dos grandes estúdios no Brasil não investem em microfones de fita (diferentemente do que vemos no mercado externo).

Esses microfones são a escolha certa de muitos engenheiros de áudio que necessitam de uma sonoridade encorpada, mantendo a suavidade original da fonte sonora, gravando desde amplificadores de guitarras totalmente saturados a pianos clássicos com timbres delicados.

Os microfones de fita, como os microfones dinâmicos, são dotados do mesmo princípio de funcionamento. Entretanto, em vez de possuírem um diafragma em formato de disco têm uma delicada fita de alumínio suspensa entre dois pólos de um campo magnético.

Seu funcionamento é muito simples. As variações de pressão sonora movimentam a fita de alumínio através do fluxo do campo magnético, desse modo, induzem uma voltagem na fita proporcional em amplitude e frequência ao sinal acústico. O movimento da fita é o resultado da diferença de pressão entre sua parte frontal e traseira.

Visto que os microfones de fita têm ambos os lados igualmente sensíveis, gerando um sinal em sua parte traseira 180º (meio ciclo) fora de fase se comparado à sua parte frontal, podemos concluir que estes são microfones bidirecionais, ou de padrão polar Figura 8, como são popularmente conhecidos ao menos que estes sejam montados em algum encaixe especial, ou seja, tenham sido concebidos para ser um cardioide, um ominidirecional ou mesmo um comutável (em raros casos). As ondas sonoras que chegam deslocadas 90º da parte frontal ou traseira, em ambos os lados, produzem pressão sonora oposta às partes frontal e traseira, resultando na ausência de sinal na sua saída.

Geralmente os microfones de fita, principalmente os mais antigos, são muito frágeis e facilmente podem ser danificados. Este problema está diretamente ligado ao fato da fita ser ondulada, podendo ser literalmente arremessada para fora do corpo dependendo da pancada sofrida ou mesmo através de um forte golpe de ar. Este provavelmente é o motivo de alguns desses modelos mais antigos possuírem uma larga proteção para controlar a passagem do fluxo de ar, a fim de conservá-lo do desgaste diário.

É de extrema importância determinar se um microfone de fita pode ou não ser usado em um sistema com phantom power, sempre utilizado nos microfones condensadores. Aplicar phantom power em muitos dos microfones de fita, principalmente nos mais antigos, pode transformar a fita em um grande fusível, correndo o risco dela explodir. A maioria dos microfones de fita atuais pode ser usada com phantom power, entretanto, confira nas especificações do fabricante a possibilidade de ligá-lo em um canal dotado desse recurso para não provocar danos irreversíveis (na dúvida, sempre teste em um canal em que o phantom power possa ser desligado).

Como qualquer tipo de microfone, os modelos de fita possuem uma sonoridade única. Alguns dos modelos vintages da empresa RCA (um dos mais clássicos fabricantes) geralmente são vistos em cenas de filmes antigos, com timbres extremamente suaves, com corte nas altas frequências que resultam em um desejado som aveludado, porém não abafado.

Muitos dos microfones de fita contemporâneos têm uma ótima resposta de frequências (praticamente a mesma oferecida por muitos microfones condensadores), porém, mesmo com a suavidade clássica mantida, já possuem embalagens resistentes o suficiente para serem levados aos palcos (alguns fabricantes como a Royer possuem modelos distintos para aplicações em estúdios ou palcos).

Devido ao fato da maioria dos microfones de fita necessitarem de alto ganho de pré-amplificação, é muito importante a escolha de um pré-amplificador com baixo ruído de fundo, atendendo melhor, na maioria dos casos, os modelos de topologia solid state.

Vejamos agora alguns dos modelos que se destacam nessa categoria de microfone, mantendo sempre um único modelo de cada fabricante, não o mais caro ou o mais barato, mas sim o que possui melhor relação custo/benefício, destacando-se dos demais:

Royer - R121: microfone mais acessível da linha construída pelo guru do áudio David Royer (construtor também dos microfones condensadores Mojave). Esse modelo especificamente tornou-se o padrão dos microfones de fita contemporâneos. Construído com matérias primas selecionadas, empregando avançadas técnicas de construção, esse microfone possui resposta plana, bem como moderada, seu grave é profundo, porém não é mudo, seus médios são bem definidos e realísticos e seus agudos são suaves e naturais, sem ser irritantes ou sibilantes. Possui resposta de frequências entre 30Hz e 15kHz (+/- 3 dBs) e seu nível máximo de pressão sonora tolerável é 135 dBs.
  Beyerdynamic - M160: esse microfone conquistou durante seus 50 anos de existência a excelência na captação de diversos instrumentos, sendo considerado por muitos profissionais da área como “Canivete Suíço” da gravação de áudio. Opera monstruosamente em fontes com alto nível de pressão sonora como amplificadores de guitarra, porém, em delicadas nuances, apresenta precisão sonora dificilmente encontrada em outros microfones.
Blue - Woodpecker: a Blue é mundialmente conhecida pela construção de microfones de alto padrão por preços convidativos. Neste projeto o pedigree da empresa foi mantido, entregando ao público um microfone ativo capaz de capturar a essência de qualquer instrumento ou voz. Possui resposta de frequências entre 20Hz e 20kHz e tolerância de pressão sonora de até 136 Dbs praticamente sem distorções.
  AEA - R44C: cópia do lendário R44 construído pela RCA na qual esse fabricante promete utilizar os mesmos materiais do modelo original, oferecendo a mesma sonoridade. Alguns componentes foram substituídos por modelos atuais, bem como a tecnologia de construção também foi otimizada, utilizando novas tecnologias mais robustas que não estavam disponíveis na época do lançamento do modelo original.
Samson VR88: de todos os modelos disponíveis no mercado este é o mais acessível, porém, o fabricante promete desempenho similar aos que custam várias vezes mais. Proporciona bom nível de saída graças ao seu sistema ativo, gerando um timbre encorpado, porém, mantendo a transparência sonora, permitindo a captação de vocais, instrumentos elétricos e acústicos.

 

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