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Na vida de artista, continuar e manter uma carreira de sucesso costuma ser mais difícil que começá-la. Todos sabemos que o único trabalho mais complicado que o primeiro é o segundo, e assim por diante. Lá vamos nós, então, de susto em susto, lutando contra a maré que parece querer nos afundar a qualquer momento, por um vacilo mínimo que seja. Estarei eu exagerando um pouco em prol de prender o interesse do leitor? Não! Existem poucas profissões - falo aqui de instrumentistas, cantores, compositores e afins - mais competitivas que a nossa. Parece que vivemos submissos ao velho grito popular do “sai da frente que atrás vem gente!”. Mas é preciso ter sempre na cabeça que a História demonstra que sobreviver à passagem do tempo exige, além de talento e carisma, dignidade e senso do ridículo. Se você não acredita naquilo que está compondo, tocando ou cantando, quem vai acreditar? Lembra daquele velho chavão que diz “você pode enganar muitos por pouco tempo, poucos por muito tempo, mas nunca todos o tempo todo”? É vero!
A cada dia que passa vemos que os artistas de maior sucesso são aqueles que permanecem fiéis às suas origens. Imaginem Zezé di Camargo e Luciano cantando bossa-nova. Seria crível? Você pode gostar ou não do que eles fazem, mas você tem que concordar comigo que eles são absolutamente legítimos diante de suas raízes. Existe alguma música do Zeca Pagodinho que não se pareça com o universo dele? Não conheço. Há exceções? Claro. São tão poucas que só confirmam a regra. Por exemplo, o Roberto Carlos cantando Tom Jobim, neste último DVD com Caetano. Mas como nem todo mundo tem o coração na boca...
O fato é que muitas e muitas vezes somos testemunhas de enganos siderais que acabam precocemente com a carreira de artistas promissores. Entrando por trilhas tortas estranhas à sua verdade, eles não conseguem enganar o público por muito tempo. Viram uma triste mentira, ou seduzidos por empresários e produtores tão egoístas quanto gananciosos que pensam em curtíssimo prazo no próprio bolso, ou iludidos por uma falsa ideia do alcance de seu talento. O resultado é um só: perda de credibilidade – doença artística terminal, que quando não tratada a tempo leva ao fracasso total, completo e irreversível.
Para os cantores mais talentosos que não têm um trabalho próprio de composição, a vida é um pouco mais simples: eles gozam de uma espécie de licença de crítica e público para “passear” por vários gêneros sem que isso os afete de maneira significativa, mesmo diante de um ou dois vacilos. Exemplo? Ney Matogrosso. O multifacetado Ney leva seu timbre exótico de Cartola a Cazuza, com idêntico desembaraço e exemplar elegância, esteja ele fantasiado de ET ou de yuppie. Mas para os “cantautores” (delícia de palavra hispânica altamente descritiva!) a costura é mais justa. O público vê em suas músicas a expressão de suas individualidades. É preciso então estar atento para perceber a hora de dar um basta a certas situações que podem expor você a um juízo negativo por parte de crítica e público, mesmo quando todo o resto – leia-se “grana” - parece estar indo às mil maravilhas.
Em uma certa época da nossa carreira – falo de Sá & Guarabyra – depois do apogeu que foi o sucesso de três músicas nossas na trilha da novela “Roque Santeiro”, ficamos em uma situação bastante cômoda. O dinheiro entrava, os shows fluíam e nós dois, morando em cidades diferentes, deitamos em uma cama de fama fácil e descuidamos do cerne de nosso trabalho. Compúnhamos pouco, pouco nos falávamos e fazíamos qualquer show que nos aparecesse pela frente, contanto que o cachê fosse bom. Em um desses shows fomos parar – meio que inadvertidamente – em uma enorme churrascaria do interior de São Paulo, diante de centenas de pessoas já para lá de Bagdá, que conversavam aos berros e pareciam - ou queriam mesmo - estar ali mais pela carne que pelo som. Depois de meia hora de um espetáculo que deveria durar hora e meia, desistimos e saímos do palco, chocados e deprimidos. Foi esse o nosso sinal de alerta, a sacudida que precisávamos levar naquela altura dos acontecimentos. Até hoje, quando sentimos que estamos perdendo o controle da situação, nos olhamos e falamos: ”Olha a churrascaria!”... Com todo o respeito por quem precisa passar por isso para sobreviver, tocar em churrascaria – para certo tipo de artista - pode ser um perigoso sinal de que as coisas não vão bem...
É preciso também que prestemos grande atenção à distinção entre modismo e ousadia. O dramático desvio de rota de uma carreira pode ser consequência de qualquer um dos dois, só que com resultados bem diferentes. Se o artista atende a um simples modismo visando apenas o mercado, será certamente mal sucedido e terá credibilidade zero em curto prazo; se embasado em uma ousadia sincera, em uma vontade de transformação, tem grandes chances de sucesso.
No final da década de 60, no Rio de Janeiro, fui convidado para assistir a um show de Caetano, o primeiro de sua então incipiente fase tropicalista. Era o dia da estreia e estava presente a fina flor da música brasileira, que passava por uma fase de transição extrema, da tranquila bossa nova marítima de Menescal-Bôscoli ao neo-realismo de Nara Leão, Sérgio Ricardo e Edu Lobo. A certa altura do show, diante dos rebolados e da pose já francamente agressivo-tropical do baiano, a cantora e compositora Wanda Sá, bossanovista de primeira hora, levantou-se indignada da mesa:
- Caetano, você não é nada disso! Você é doce! Você é outra coisa!
Caetano, que já sentia o quanto de proveito poderia tirar de polêmicas desse tipo, seguiu imperturbável:
“Eu, você, nós dois
Já temos um passado meu amor
A bossa, a fossa...”
Ao contrário do que Wanda pensara a princípio (acredito que ela ache outra coisa hoje em dia) aquilo era uma ousadia, não um modismo. Uns tempos antes, quando Caetano me confidenciara na redação do jornal “O Sol” que usaria um grupo argentino de rock (os Beat Boys) na sua música “Alegria, Alegria” classificada no festival da TV Record de 1967, eu quase caíra de costas. Usar guitarras elétricas naqueles tempos de efervescência nacionalista era uma heresia... Ou uma ousadia? Admirei a coragem dele, que – como vimos – deu certo.
Já o modismo, esse é pobre por natureza e enterrou milhares de carreiras pelo mundo afora. Quantos artistas não vemos tentando vender uma falsa imagem na qual nem mesmo eles acreditam? E como o público é bem mais inteligente do que eles pensam, mais tarde ou mais cedo a comédia acaba e o feiticeiro tem que encarar o próprio feitiço...
Pelo que observei em todos estes anos de vida musical, capitalizar credibilidade, na nossa profissão, costuma ser mais rentável em longo prazo do que aquela grana fácil, rápida e ilusória que chega com o primeiro hit. Pouca coisa pode ser pior do que um súbito e inesperado final de carreira, fazendo mal ao bolso e à cabeça.
Então, pense direitinho em qual vai ser o preço do seu sucesso. Às vezes o barato sai caro...
luizcarlossa@uol.com.br
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