Sem portas nem coxias

Reportagem - Claudia Cavallo

O tradicional Teatro Royal Court, em Londres, abriu uma temporada de novas peças sobre o tema “Alemanha – 20 anos após a queda do muro de Berlim”. “Over There” (Do lado de lá), dirigida por Ramin Gray, destacou-se pelo cenário não convencional, projeto do cenógrafo e figurinista Johannes Schutz. A cenografia e iluminação fazem do palco uma “caixa cênica”, literalmente, sem portas nem entradas nas laterais ou ao fundo, sem contraluz e quase sem sombras

O sinal toca, avisando ao público que o espetáculo vai comecar, as luzes de serviço se apagam, o palco “acende”, os atores entram em cena – pela frente, subindo os degraus – e permanecem em cena até o final. A peça tem duração de 1 hora e cinco minutos, sem intervalos.

O texto conta a história – fictícia – de dois irmãos gêmeos que se reencontram com a reunificação da Alemanha, depois de viverem separados pelo muro de Berlim durante anos. Passado o momento inicial de euforia pelo reencontro, tem início uma série de conflitos que revelam desconforto e crises de identidade – tensões que caracterizam o mundo pós-guerra fria. Embora o tema em si seja um “clichê” – o capitalismo ocidental que devora o comunismo oriental e vira refém dos “pesadelos” de seu próprio triunfo –, é interessante a ideia do autor Mark Ravenhill de lançar mão da figura de dois irmãos, gêmeos, como personagens paradoxais desta história.

CENOGRAFIA

O cenário é composto apenas por três mesas de bar, uma cadeira e várias caixas de produtos como cerveja, pizza, molho de tomate, etc. As caixas são utilizadas para representar um apartamento, um bar e até mesmo o muro de Berlin, que “desmorona”. Vale destacar a criatividade do diretor Ramin Gray ao usar uma esponja para representar um bebê “absorvendo” padrões e ideais, tornando-se motivo de disputa entre os irmãos.

 

ILUMINAÇÃO

Dentro do palco original do teatro foi montada uma caixa cênica com 6,5m de largura x 3,5 de altura e 7m de profundidade. As paredes, laterais e fundos foram confeccionados em madeira, e uma tela de projeção bem esticada fecha a parte superior. As paredes são revestidas com tinta azulada e a tela é branca. A iluminação consiste, basicamente, em um grid de lâmpadas fluorescentes dimerizáveis por trás da tela de projeção. O efeito é uma caixa branca “acesa” uniformemente, sem que se possa perceber de onde a luz vem.

Na iluminação de frente foram utilizados elipsoidais e fresneis, com filtros Half e Full CT Blue (que convertem tungstenio – 3200K – em daylight – 4300 e 5700K) para dar uma cobertura geral. O filtro Half CT Blue tinha o propósito de “aquecer” e “corrigir” um pouco mais o tom da pele dos atores, distorcida pela coloracao azul do cenário. O filtro Full CT Blue atuou diretamente na coloracao azul do cenário, tornando-a mais parecida com o tom branco do teto. Os projetores foram colocados a uma altura tal, de forma a projetar a sombra dos atores no chão. Outro par de refletores foi posicionado frontalmente, em um nível um pouco mais baixo e com recorte quadrado, criando sombras em tamanho real nas paredes lateriais, duas por ator, criando um visual bem interessante.

Dois conjuntos lineares de lâmpadas dicroicas (50W, 12v, 20 lâmpadas por conjunto) complementavam a luz frontal. A opção pelo conjunto de pequenas lâmpadas de baixa voltagem em vez de uma fonte grande e “brilhante” foi “dispersar” as sombras. “Havia 40 suaves sombras na parede de fundo, mas elas não eram perceptíveis aos olhos da plateia” – explica o Diretor de Iluminacao do Royal Court, Matt Drury.

 

FIGURINO

Há troca de figurino, mas tudo acontece ali mesmo, diante do público, sob a luz branca e uniforme.

PROJETO ORIGINAL

O projeto original deste cenário foi criado em 2007, para a peça God of Carnage, de Yasmina Reza, dirigida por Jurgen Gosch, encenada em Zurich.

O renomado cenógrafo Johannes Schutz defende que “grandes palcos são, normalmente, palcos vazios”. Para ele, qualquer peça deveria poder ser encenada ao ar livre, sem a necessidade de recursos de iluminação artificial. Ele acredita que, se já sabemos o que é e como é o mar, por exemplo, nao há porque se tentar criar uma imagem de mar no palco, mas sim, uma ilusão – seja através de linguagem, uma canção ou música instrumental. “Os palcos são para permanecer realísticos e frios; eles nao deveriam retratar ou, ainda pior, interpretar” – ele diz.

Vendo fotos de montagens do cenógrafo em um livro homônimo – Editora Verlag fur moderne Kunst Nurnberg – e identificado com as opiniões do artista, cujos trabalhos já conhecia, o diretor inglês Ramin Gray entrou em contato com Schutz, que autorizou o uso do projeto e visitou o Royal Court para orientar a equipe do teatro sobre os detalhes práticos de confecção e montagem.

HARD WORK

Embora a peça “Over There” exalte o contraste entre dois mundos, o cenário e a iluminação caracterizam-se justamente pelo oposto, o que, a princípio, parece contraditório. O diretor Ramin Gray, entretanto, mostra plena convicção em sua escolha pelo que ele chama de “hard work”.
“Em um palco aberto, sem iluminação direcionada, o público tem que ter um pouco mais de trabalho em decidir para onde olhar, no que prestar atenção, e essa era justamente a minha intenção” - declara. Ele acrescenta que toda peça deveria poder ser encenada à luz do dia. “Shakespeare era assim” – exemplifica.

Ramin comenta que é adepto também de manter os atores no palco, diante da plateia, do começo ao fim do espetáculo, sentando em um canto entre uma cena e outra, esperando sua próxima deixa ou mesmo trocando de figurino. O tradicional conceito de arte como “hard work” – feita para pensar – contrasta com a indústria moderna do entretenimento, que oferece justamente o oposto, enfatizando o imediatismo, “pura diversão para esfriar a cabeca”... Este é um longo debate e, embora estejamos acostumados aos jogos de luz e sombra nos palcos da maioria dos teatros, vale a pena abrir os olhos para o que o Royal Court mostrou over there.

Ficha Técnica
Texto: Mark Ravenhill
Direção: Ramin Gray e Mark Ravenhill
Cenografia: Johannes Schütz
Iluminação: Matt Drury
Figurino: Iona Kenrick
Fotos: Simon Annand
Atores: Harry Treadaway e Luke Treadaway