Dando nome aos bois
Ticiano Paludo
Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário, músico, compositor e sound designer. Leciona Áudio Publicitário e Atendimento na FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social (PUC/RS) - e Arranjo e Produção Musical Nível III no IGAP - Instituto Gaúcho de Áudio Profissional.
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Quando leciono para meus alunos da disciplina de Produção em Áudio Publicitário (da FAMECOS), uma das aulas mais divertidas, vejo que a nomenclatura das coisas é o que mais desperta interesse e curiosidade na gurizada

Não sou “O” dicionário definitivo musical do mundo, muito menos um glossário humano de termos musicais, mas acho que a mídia utiliza sempre de forma caduca e equivocada diversos termos sobre os quais não entende nada. Por isso, antes de começarmos, aviso que você certamente lerá em sua vida definições diferentes das que proponho a seguir. Para mim, o que segue é mais adequado e é resultado de mais de 20 anos de trabalho no meio musical.

Todo mundo já ouviu os seguintes termos: cover, releitura, versão e remix. Mas, quando se pergunta – principalmente para pessoas leigas – o que se entende por cada uma dessas classificações, as respostas começam a mostrar o grau de caduquice gerado pela mídia. Vamos, definir, então, o que é cada coisa, isto é, vamos dar nome correto aos bois.

COVER

Este é o aparentemente mais fácil. Mas só aparentemente. O cover foi difundido em larga escala nas duas últimas décadas (começando na metade dos anos 80 e indo até hoje) pelas chamadas Bandas Cover. Estas bandas, normalmente se apresentam em locais e dias fixos (por exemplo, no bar X toda sexta-feira) e tocam um repertório basicamente formado por canções pop (de preferência que toquem na novela das 8 da Globo, em rádio jovem FM ou ainda aqueles sucessos que insistentemente não largam do nosso pé (como Hurts So Good do John Mellencamp ou Show Me The Way do Petter Frampton). Só que tem um porém e é aqui que começa a confusão: uma genuína banda cover deve procurar executar o seu repertório “bem em cima” como se diz na gíria popular, isto é, as execuções e timbres devem procurar reproduzir fielmente às gravações. Portanto, nada de floreios, mudar de estilo musical ou descaracterizar a letra ou arranjo. Senão não será mais um cover, será uma releitura. Nunca fui muito favorável a essa modalidade. Parece que uma vez o João Gordo fez uma definição que traduzindo em uma linguagem menos agressiva dizia que “tocar cover é como ter prazer com o órgão sexual dos outros”. Confesso que comungo dessa opinião. Quem opta por essa carreira deve saber que ser “covereiro” lembra coveiro, ou seja, é uma carreira de vida curta e nada glamorosa. Mas, para adquirir experiência de palco e experiência técnica é um caminho válido (se não for permanente).

VERSÃO

Aqui sim a confusão começa para valer. Mais uma vez a confusão é com a releitura. E lá vem a mídia e cada vez que um artista lança um acústico segue a frase medonha: “seus maiores sucessos em versão acústica”. Não! Tá tudo errado! Para o mundo que eu quero descer! A versão, na verdade, é similar ao cover e totalmente diferente da releitura. A diferença básica entre cover e versão é que, no caso da versão, mantêm-se fiéis o arranjo e timbragem originais, mantém-se fiel a melodia vocal e a única coisa que é alterada é a letra (que muda de idioma – lembra do “versão brasileira: Herbet Richards – aqui sim utilizado de forma correta).

Como traduzir uma letra e manter a métrica nem sempre é uma equação possível de ser bem resolvida, em alguns casos opta-se por adaptar-se à letra, ou seja, a melodia vocal é mantida, o sentido da letra é mantido, mas não ocorre uma tradução literal de toda a letra. Quem deseja imprimir seu nome na história da música também não deve se iludir que a versão é o melhor caminho. Ainda assim, existem bons versionistas que realizam um trabalho competente. Quer um exemplo? Escute Is This Love da banda de hard-rock Whitesnake e depois vá ouvir a versão produzida pelo pessoal da banda brasileira Yahoo! (no caso, a canção passou a se chamar “Por Amor”). Cabe lembrar que embora eu torça um pouco meu nariz para essa modalidade, é inegável o talento, competência e extremo bom gosto do pessoal do Yahoo!, músicos que admiro e respeito muito (aliás, produtores musicais pop dos quais gosto muito – quando não estão ‘versionando’ por aí).

RELEITURA

A releitura, coitada, é sempre confundida com a versão e com o cover. Como se procede na realização de uma releitura? O que deve ser mantido é, ao menos, a melodia vocal e a letra. O arranjo é modificado (muitas vezes indo de um estilo extremo ao outro), as progressões de acordes podem sofrer alterações (simplificar um acorde com nona por um power chord ou ainda converter um power chord em acorde com sétima e nona vale se o estilo adotado para a releitura pede isso), assim como o andamento e a sonoridade em geral. Podemos fazer releituras de outros artistas e até de nós mesmos (aqui sim entra o caso dos acústicos, quando o artista não toca seus grandes sucessos em versão acústica, mas sim promove uma releitura acústica de seu material). Os frequentes álbuns tributo são um excelente exemplo (já que trocar de estilo vale): é como se você interpretasse determinada canção com a sua visão sobre aquela canção. Já pensou que interessante seria um álbum tributo ao rei Roberto Carlos tocado por bandas de punk rock? Os remixes, que veremos a seguir, também podem ser encarados como releituras (desde que respeitem as normas de execução que o caracterizem como tal). Uma dica cuidadosa: a releitura deve ser caprichada e cuidado com quem vai bulir, senão pode cair no fiasco de produzir um trabalho medonho e afrontante como o que ouvi recentemente no qual artistas brasileiros resolveram promover uma releitura do álbum branco dos Fab4 e o resultado foi lastimável (que nem uma certa cantora de rock que eu admiro muito, mas que infelizmente resolveu produzir um álbum de releituras dos Beatles que deve ter feito John Lennon chorar – de raiva – no céu).

REMIX – RELEITURA ELETRÔNICA (CONCEITO AMPLIADO)

Eu já abordei uma coluna inteira sobre esse bicho aqui na Backstage, mas não custa nada relembrar. Puxando lá da coluna da edição de janeiro/08, o remix é uma técnica que foi amplamente desenvolvida e promovida pelos DJs. O remix pode ser encarado como uma roupa nova para uma faixa, sendo esta roupa desenvolvida através da utilização de recortes sonoros. No entanto, ao utilizarmos tais recortes, devemos ter a preocupação de que nossa criação não se distanciará demais daquela que lhe deu origem. Ou seja, o público deve ouvir o remix e estabelecer uma relação direta com a faixa original utilizada como fonte geradora (fonte sonora), por isso mesmo trata-se de uma releitura eletrônica. Não estamos criando uma música nova a partir de uma já existente e sim fazendo-a nascer de novo sob um novo olhar. A fonte sonora, inclusive, deve sempre ser a mesma. Caso utilizemos mais de uma fonte sonora base, o resultado deixa de ser um remix e passa a ser um mashup (como pudemos observar na coluna de fevereiro/08 na qual falei sobre os mashups). Na prática, significa dizer que se desejamos remixar She Loves You dos Beatles, todos os recortes se darão em cima desse fonograma e não desse acrescido de outras fontes (como outras faixas dos Beatles ou de qualquer artista que seja). E para que remixar? Produz-se um remix basicamente com três objetivos gerais: dar vida nova (e roupa nova, também) para faixas (principalmente antigas, com o objetivo de revitalizá-las); tornar dançante determinada faixa (daí a relação com pista e danceteria); ou conferir um caráter sofisticado à faixa remixada (sem relação nenhuma com danceterias e afins). Como a música atual moderna vive principalmente através da recombinação e da releitura (de escolas musicais, estilos, faixas, ...), o remix é, indiscutivelmente, uma técnica muito importante e relevante.

HÍBRIDOS E MISTOS

Uma vez que meus alunos da PUCRS assimilam esses conceitos, começam a brincar comigo propondo coisas malucas. Por exemplo: e se eu pegar a citada “Por Amor” do Yahoo! e tocar com a minha banda, estarei fazendo o quê? Bem, se tocar fielmente, estará fazendo um cover do Yahoo! que fez uma versão do Whitesnake. Se alterar o arranjo e estilo musical, estará fazendo uma releitura do Yahoo! em cima de uma versão do Whitesnake. Se mantiver o arranjo e cantar em chinês, estará fazendo uma versão em cima de uma versão. Se utilizar o fonograma original do Yahoo! e remixá-lo, estará fazendo um remix do Yahoo! sobre uma versão realizada pelo Yahoo! do Whitesnake. Hein? Deu para entender? É só reler os conceitos acima expostos que tudo se clarifica. E não me venha mais com “versões acústicas” para os unpluggeds da vida!

PS- Nos casos de álbuns americanos e ingleses, é comum ler-se acoustic version, pois o termo remake (que seria a releitura) não é muito utilizado. No entanto, quando ler acoustic version leia e assimile como “releitura acústica”.
Abraços e até!

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