Crise Mundial abriu espaço para soluções criativas nas empresas de áudio

Fernando Magalhães

Existe uma máxima em marketing que diz: “é na crise que percebemos as melhores oportunidades e crescemos”. Pois é assim que o mercado de áudio vem reagindo nos últimos meses, desde que estourou a crise mundial. Cada um de seu jeito, locadoras, importadoras, lojas e fabricantes estão criando estratégias e saídas criativas para se manter com saúde no mercado

Para a maioria das empresas locadoras de áudio, os efeitos chegaram após o carnaval. Na João Américo Sonorização, o que estava programado para ser feito até fevereiro foi mantido, mas de março para cá, o mercado mudou e diminuíram os contratos para shows e eventos. Com a escassez de contratos, os preços pagos pelos contratantes também despencaram em até 20%, revela João Américo, proprietário da empresa com sede na Bahia. A solução, segundo o empresário, será diminuir as compras e focar na manutenção dos equipamentos.

 
João Américo  

CRISE E QUALIDADE

Outra empresa que percebeu a crise rondar o mercado nos últimos meses foi a Sigmatec, no Rio de Janeiro. Segundo Henrique Kopke, sócio-gerente, a redução de preço dos serviços de locação de áudio já é uma realidade e atinge não só a área de shows como também a de eventos corporativos, uma vez que as empresas contratantes também vêm reduzindo custos. Assim acaba acontecendo uma outra situação que pode ser perigosa: a queda de qualidade.

Henrique aponta a falta de mão de obra qualificada e a falta de fiscalização como fatores que podem contribuir para agravar a queda no valor de contratos. “Como falta mercado, as empresas acabam disputando o que sobra”, avalia, explicando que uma empresa grande acaba disputando mercado com a que tem duas caixas de som. Para contornar a situação, a ordem na Sigmatec é não cair na tentação de mandar funcionários embora, ter disciplina, coerência, planejamento e trabalhar com uma reserva do faturamento para investimento. “Crise é passageira. O ideal é adiar investimentos e manter um fluxo de caixa mais saudável”, destaca.

Uma saída parecida foi adotada pela Showay. Na empresa paranaense, a solução encontrada foi equacionar despesas e receitas, sem deixar de investir no principal: capital humano. Para os sócios proprietários Milton e Rodrigo Bordignon a “constante busca por novos mercados, clientes e parcerias pode ser a saída para qualquer empresa em qualquer ramo de atividade”. O que não significa prática de concorrência desleal e valores incoerentes. Embora a crise, mesmo a passos lentos, tenha chegado à empresa, em nenhum momento se deixou de pensar em investimento. “Não conseguimos atingir os investimentos previstos para este primeiro semestre, mas, ao invés de dispensar, contratamos novos colaboradores”, afirmam os sócios.

QUANTO VALE O SHOW

Quanto ao problema da qualidade técnica do serviço, Milton acredita que o maior obstáculo, principalmente nesses tempos de crise, seja o teto máximo orçamentário pago pelas prefeituras, quando utilizam as contratações diretas. Muitas vezes, esse valor máximo não atinge o mínimo possível para uma execução de qualidade e prestação de serviço profissional. “É nesta circunstância que se criam e proliferam os tradicionais “picaretas” do mercado”, alerta.

Rogrigo e Milton Bordignon - Showay Company

Salvo raras exceções, trabalhar para prefeituras parece ser uma espécie de contrato de risco. “Infelizmente no Brasil não há seriedade no meio político e acreditar na maioria dos prefeitos é um convite ao suicídio. No cotidiano já é assim, e com a crise piorou muito” fala Alberto Viana, da Arena Áudio Eventos, de Salvador. “O calote está sendo institu-cionalizado no Brasil com o exemplo que vem do poder público”, desabafa.

 
  Alberto - Arena

Quem compartilha da mesma opinião é João Américo. Para o empresário, a relação entre empresas que oferecem serviços de som e prefeituras é para lá de desonesta e, frequentemente, acontecem calotes. “Pagam quando querem. E não há correção monetária”. É por esse motivo que o empresário afirma trabalhar pouco para o governo. “Quem não tem escolha, muitas vezes se vê obrigado a aceitar”, justifica.

 
Jefferson Pinto - Jefferson Equipamentos de Som  

“Infelizmente, a grande massa dos governantes gasta mais do que arrecada. Gastam indevidamente nosso dinheiro e, consequentemente, alimentam a crise”, avalia Jefferson Pinto Silva, diretor da Jefferson Equipamentos de Som, de Santos. Para ele, com a crise acontece a famosa lei da oferta e da procura e aí cabe a cada um analisar se vale a pena reduzir lucro e custos. “O que eu acho que não vale a pena é você se expor, expor seus equipamentos e serviços sem fazer contas. A matemática ainda tem que ser sua melhor amiga”. É essa ciência, aliada ao bom senso, investimentos em qualidade, serviços e eficiência, que tem sido a arma usada pela Jefferson para passar pela crise econômica sem maiores atribulações.

Há quem veja vantagem em trabalhar para as prefeituras. Grako Luis Ferreira, da mineira Grako Som, mesmo vendo os preços bem abaixo do mercado, diz que participar de licitações é uma certeza de que vai haver recebimento. A empresa atua em diversas atividades e viu o número de eventos corporativos encolher no final de 2008. “No caso dos eventos bancados pelos municípios, ainda continuam de pé, porque muitos são baseados em datas festivas, como São João, aniversário da cidade. A diferença é que os cachês estão mais baratos”, explica Grako.

MAIS POR MENOS

A crise econômica mundial acabou potencializando uma outra crise que já vinha acontecendo no mercado de áudio há algum tempo. A crise da falta de mão de obra qualificada, daí a importância que algumas empresas estão dando à formação e treinamento de pessoal, e à queda dos valores dos contratos de prestação de serviço. É cada vez mais comum as empresas terem que oferecer mais serviços pelo mesmo valor de um para conseguir fechar os contratos. Empresas que ofereciam apenas locação de equipamento sonoro, agora se veem obrigadas a fornecer palco e iluminação, por exemplo.
Paulo Petzold, proprietário da Vento Norte, no Rio Grande do Sul, conta que antes mesmo da crise chegar, já vinha oferecendo serviços agregados à locação de som, como iluminação. O problema é que em vez de cobrar mais por isso, acaba cobrando o mesmo valor de um serviço só. A saída encontrada pela Vento Norte foi aumentar o número de parcerias com fabricantes de equipamentos e com produtores, além de explorar mais a marca dos locais onde executam o trabalho, como acontece com o recém inaugurado teatro Bourbon, em Porto Alegre.
O mercado tem também aqueles que viram a crise passar longe. A Tukasom, de São Paulo, já tem alguns projetos fechados para o mês de junho e a perspectiva é de crescimento no segundo semestre do ano. Tuka, diretor da empresa, afirma que os negócios só cambalearam um pouco no início de abril, mas a empresa retomou o faturamento no final do mesmo mês. “A crise passou no periférico”, comemora. A empresa que trabalha com manutenção e locação de equipamentos não sentiu os mesmos efeitos de outras empresas. “Acredito na diversidade do mercado, na estabilidade da companhia que tem 30 anos de mercado”.

EMPRESAS FABRICANTES ESTÃO PREPARADA

 
Marcio Gonçalves - Spott  

Na Meteoro, fabricante de equipamentos, um lema está escrito por todas as partes da empresa: “Tire o S da Crise e CRIE”. Essa foi a ideia bem humorada de dizer que é com muito trabalho que se dá um chega para lá na turbulência econômica. Na opinião de Kika Orlandi, gerente de marketing da empresa, é importante aliar trabalho e planejamento. Antes de se fazer qualquer tipo de investimento, é imprescindível analisar o mercado. “É preciso estudar o perfil do consumidor e seus novos hábitos. Quais regiões serão mais afetadas”, exemplifica. Uma outra dica é olhar melhor as linhas de crédito, que estão mais flexíveis. Para ela, a crise talvez tenha acordado o mercado para a necessidade de estar mais focado, mais dirigido, mais preocupado e mais atencioso.

Na Selenium, que só agora começa a sentir alguns efeitos da crise, a ideia é lançar novas linhas de produtos para reposição e se aproximar do processo de locação para reverter a situação e espantar de vez a crise. Outra estratégia importante é o financiamento dos equipamentos em até 48 vezes, a juros de cerca de 1% ao mês, através do cartão BNDES, inclusive nos equipamentos de maior valor agregado. Segundo Frederico Schuch, gerente comercial, a Selenium vem buscando alternativas junto ao governo federal para apoiar as pequenas e médias empresas.

 
  Samuel Monteiro - Studio R

Aprimorar os produtos também parece ser a alternativa da Studio R. Samuel Monteiro, gerente da empresa, explica que a empresa deve criar linhas alternativas, mas não há nada definido ainda. O empresário afirma que ainda não tem a medida exata do tamanho da crise na Studio R, porque ainda está no mesmo momento cíclico dos outros anos. Ou seja, vende muito até o carnaval (em 2009 não foi diferente) e dá uma parada nos meses seguintes até maio. O que o empresário constatou de diferente em relação ao mesmo período do ano passado foi que as lojas ainda continuam com equipamentos em estoque. Mesmo assim, os planos são continuar aprimorando os produtos com maior valor agregado.

LOJISTAS

 
José Eduardo - Musical Carioca
 

Trabalhar com estoque baixo pode ser uma solução boa para donos de lojas. Pelo menos para Marcio Gonçalves, diretor comercial da Spott, loja de Belo Horizonte. Para ele, a administração do estoque e a venda casada ajudam a alavancar as vendas, já que acaba dispondo de menos capital parado. Além de diminuir as compras, a Spott, que registrou aumento nas vendas do produtos nacionais, resolveu aumentar o prazo para pagamento de produtos e trabalhar com taxas de juros mais reduzidas.

Já cortar gastos e ficar atento às receitas e despesas são estratégias da Musical Carioca, do Rio de Janeiro. Segundo o diretor José Eduardo Peixoto, a empresa sofreu redução nas vendas por causa da subida do dólar e do valor dos produtos fabricados na China. No entanto, ele diz que a situação está controlada e estável, e acrescenta que, mesmo com a crise, os produtos nacionais não tiveram aumento nas vendas da loja.

IMPORTADORES

 
  Guillermo Di Stefano - Decomac

Ao contrário do presidente Lula que chamou a crise de “marolinha”, Guillermo Di Stefano, diretor da paulistana Decomac afirma que a crise foi profunda dentro do setor de importação, especialmente devido à alta dólar. “Foi profunda e pode aumentar. Vai durar até o fim do ano, pelo menos. Não foi nada de marolinha”, avalia.

Sobre as alternativas encontradas para enfrentar o problema, o empresário afirma que está vendendo produtos mais baratos e passou a vender menos produtos caros. “Isto porque não se pode dar tanto crédito”, explica.

 
Nilton Corazza - Roland  

Quem também sentiu os efeitos da crise foram as importadoras. É o que garante o coordenador de comunicação e marketing da Roland, Nilton Corazza. Segundo ele, o aumento do dólar refletiu na queda das vendas e na necessidade de elevação de preços ao consumidor. “A Roland Brasil conseguiu manter as vendas estáveis ado

tando uma política que evitou onerar demais o lojista e o comprador. Nossos preços ficaram congelados até dezembro”, explica, acrescentando que no mercado corporativo a redução das vendas foi muito grande. “A diminuição dos eventos colaborou decisivamente para isso”.
De acordo com Nilton, a medida adotada para passar pela turbulência foi, basicamente, a diminuição de despesas. “Não houve aumento no prazo de pagamentos, nem redução de estoque. A redução do quadro de funcionários não atingiu 10% do total de colaboradores”, finaliza.