Paulo Medeiros Iluminando Musicais
David Bosboom
 
David Bosboom
É diretor de produção, diretor técnico, diretor de iluminação, designer e consultor de projetos. Possui 23 anos de experiência em espetáculos de teatro na Broadway, além de programas de canais de televisão aberto e a cabo. Especialista em turnês de circuito nacional e internacional.
www.davidhbosboom.com

 

A iluminação no contexto de musicais é muito importante, pois abre ainda mais as oportunidades para a especialização e tecnicas em lighting design. Mas iluminar um musical é mais complexo do que se pensa

Os musicais americanos adaptados aos estilos brasileiros estão indo muito bem e com grande aceitação no Brasil! As produções estão estreando no Rio de Janeiro e em São Paulo e o público está adorando essa nova experiência. A iluminação no contexto de musicais é muito importante, pois abre ainda mais as oportunidades para a especialização e técnicas em lighting design. Mas iluminar um musical é mais complexo do que se pensa. O trabalho de um designer, além de precisar fluir através da história nos momentos musicais, tem que finalmente ser retomado de forma tranquila e imperceptível durante as transições. Musicais brincam com a questão da realidade através das cores, ritmos e movimentos. Uma boa iluminação pode transformar as emoções da plateia, adicionando aos momentos não musicais um senso de realidade.

 

Paulo Medeiros (foto1) é um dos poucos designers que tem estado ultimamente muito ocupado desenhando toda essa experiência do teatro musical nos palcos cariocas. Seu trabalho foi recentemente visto no musical “A Noviça Rebelde” no Oi Casa Grande no Rio de Janeiro, agora em São Paulo. E em uma produção chamada “Meu Caro Amigo”, ainda em cartaz, com música de Chico Buarque.

O último trabalho de Paulo Medeiros foi para a produção de “Avenida Q” , um musical politicamente incorreto usando, além de atores, bonecos para contar a história. Com uma bela tradução e adaptação os diretores fizeram com que um show de comédia Nova-iorquina fosse compreensível ao público carioca, mantendo o sabor original de um show na Broadway. Para dividir essa informação com todos recebi de Paulo Medeiros uma cópia de seu design e “paperwork” em Avenida Q (veja gráfico A e B).

Após ver alguns de seus trabalhos, aproveitando o tempo livre de uma manhã ensolarada de sábado, nos encontramos para filosofar sobre teatro e sobre conceitos de lighting design. Usando moving lights no musical “Avenida Q” apenas pela segunda vez, contou que a ideia surgiu após sua última viagem à cidade de Nova Iorque ao assistir vários shows e musicais. Achou então muito interessante a forma como os designers na Broadway usam moving lights e o canhão e resolveu incluir ao seu próprio design.

Paulo conta com satisfação como conseguiu ajudar a elevar a posição de lighting designers a ponto de agora, no mercado, quando se fala em orçamento da produção, consideram no total os gastos com a iluminação. Luz não é mais o dinheiro que sobra na produção, mas algo planejado, reconhecido e mencionado pelos críticos de teatro.

Com um currículo extenso e muitos trabalhos reconhecidos em teatro e musicais, Paulo Medeiros apenas em 2007 foi nomeado como melhor designer em sete diferentes produções, ganhando o prêmio Shell como melhor lighting designer na produção “7, o Musical” dirigido por Charles Moeller e Claudio Botelho.

Com formação em Direção pela Universidade de Artes Cênicas seu desejo secreto seria que diretores tivessem a habilidade de expressar suas vontades com um maior conhecimento sobre iluminação. Não sobre o aspecto mecânico de um refletor, mas sim técnico, ou seja, saber qual o efeito que a luz produz e quanto isto afeta a plateia. Paulo Medeiros acredita que o trabalho do designer é encontrar a luz própria já existente em cada produção. Concordo com Paulo que diretores que falam a língua de lighting designers facilitam o processo criativo. E que, em conceito, os Lighting Designers devem fazer de cada experiência única, não impondo fórmulas predefinidas.

Como nos artigos anteriores, fiz minhas dez perguntas padrão como método de entrevista, dando ao leitor a oportunidade de compreender o pensamento do artista e designer de musicais. Abaixo você encontra as perguntas seguidas pelas respostas de Paulo Medeiros.

Backstage: Qual sua principal área de especialização em Iluminação? Teatro-Dança-Concertos-Eventos?
Paulo Medeiros:
Teatro, Dança, Ópera e Shows. Minha formação é em Publicidade e Artes Cênicas. Cursei a Faculdade de Direção da Uni-Rio.

Backstage: Quais são os desafios mais comuns que você enfrenta como lighting designer?
Paulo Medeiros:
A falta de equipamento dos Teatros é sem dúvida o maior desafio, pois obriga o produtor a transferir grande parte de seu orçamento para locação e quando isso não é possível é preciso me adaptar ao equipamento existente. Com o tempo tentei aprender a fazer disso uma fonte de inspiração e criar em cima das adversidades. Com isso, ganhei muito conhecimento com experiências em materiais alternativos, como lâmpadas, velas, candeeiros, luminárias prontas ou fabricadas pela minha equipe.A organização da categoria e o processo de formação de novos profissionais são temas que me interessam muito e aos quais tenho tentado dedicar o máximo de tempo possível.

Backstage: Qual o avanço mais útil em tecnologia que você presenciou que é aplicável para o lighting design?
Paulo Medeiros:
A tecnologia de leds está me fascinando. Esse já é nosso presente e nosso futuro. Lógico que poderão surgir outras tecnologias melhores que o conceito desenvolvido pelos leds. Mas, a durabilidade, a não emissão de calor, a possibilidade de combinação de cores já são ideias que vieram para ficar. É a oportunidade que a Iluminação Cênica tem de se fazer presente na discussão de um planeta menos poluente e ecologicamente viável.

Backstage: Que ferramentas você usa para criar seus designs?
Paulo Medeiros:
Soft Plot, Easy View, filmagem dos ensaios.

Backstage: Qual peça na produção você considera como seu principal objeto de trabalho ultimamente?
Paulo Medeiros:
Acho que serei sempre um iluminador de atores. Ao menos no sentido de que é sempre neles que está meu foco principal. Esse também é, de maneira geral, o foco do espectador. Não me iludo com a ideia de que uma boa luz ou um grande cenário salve uma peça. Acho que o ator e tudo que está ligado realmente nele são e serão sempre a principal questão da cena. Se o seu trabalho vier dele, do que os atores e a cena pedem, você estará mais próximo do melhor caminho.

Backstage: Qual projeto seu você mais achou desafiador?
Paulo Medeiros:
Os projetos feitos com muito pouco equipamento e poucos recursos financeiros sempre são um desafio, porque é preciso sempre que a ideia seja a de realizar a luz ideal para aquele espetáculo, com ou sem verba. Se esse for um compromisso constante, certamente acharemos meios de driblar (essa é a melhor palavra) as dificuldades e acharmos o material alternativo necessário para realizar uma ideia, seja ela qual for.

Backstage: Que ideia você já teve que parecia boa no papel, mas não na realidade?
Paulo Medeiros:
Muitas. Uma vez li uma matéria sobre uma fase da vida de Pablo Picasso, em que ele se dedicou aos “Papiers”. Eram experiências feitas com pedaços de papéis que ele rasgava, tacava fogo e interrompia a queima total do papel ou rabiscava algo e depois ficava observando e tentando aprender a lidar com o acaso. Aquilo mexeu demais comigo. No Teatro lidamos com o acaso e o imprevisto como formas de conduta, como uma linha suave e contínua onde caminhamos. Vivo tendo ideias que não posso realizar ou que não dão certo quando feitas. Busco não ter apego o nada, tento me livrar o mais rápido possível daquele pensamento e começo a trabalhar em cima do que existe de verdade e a partir daí, criar uma nova ideia.

Backstage: Como seus designs evoluíram independentemente das mudanças na tecnologia?
Paulo Medeiros:
Nada do que faço é independente das mudanças na tecnologia. Acho que são camadas que se sobrepõem. Gosto de misturar experiências que fazia quando jovem com as últimas tecnologias. Lâmpadas pintadas a mão ou candeeiros misturando-se com moving lights de última geração. Essa é a própria história da Iluminaçâo. Essa é minha própria história.

Backstage: O que te inspira?
Paulo Medeiros:
Tudo que está em cena me inspira. Tudo o que vejo e sinto me inspira. As pessoas de Teatro exercem grande fascínio desde que me lembro de mim. Meus pais eram e são “Público de Teatro”. Aprendi a gostar de teatro através do amor deles. Ficava em casa esperando que eles chegassem com os programas e me contassem sobre as peças que tinham visto. Imaginava como seria trabalhar em teatro desde sempre. Fazia Teatro em casa, ajeitava as cadeiras da sala e fazia um palco. Colocava minha luminária do quarto no chão e pronto, já tinha minha primeira luz de ribalta. Sou totalmente apaixonado pelo que faço. Esse amor é o que me inspira.

Backstage: Que conselho você daria para lighting designers iniciantes?
Paulo Medeiros:
Estudem Teatro. Formem-se em Teatro. Façam cursos livres técnicos como elétrica, eletrônica, fotografia, história da Arte. Mas, principalmente, busquem ter a mesma formação dos diretores e cenógrafos. É preciso que o diálogo artístico se dê por igual. O iluminador não é um acendedor de lâmpadas. Ele é alguém que recebe e percebe a luz que já há em tudo que está em cena. Para isso é preciso treinar o olhar e estudar tudo o que se refere ao palco e à arte de estar em cena.
Qualidade em lighting design revela atores, história, figurinos, cenários e dirige a atenção da plateia segundo o ritmo e a intenção do diretor. Um bom lighting designer está sempre trabalhando, experimentando e aprendendo. Paulo Medeiros é um desses talentosos designers que tive o privilégio de conhecer.

Eu estarei em Nova Iorque no próximo mês para falar com outros talentos em design e para assistir a “Lightfair International”, uma feira internacional de iluminação e tecnologia. Vou manter todos sempre bem informados sobre pessoas e trends em lightinf design. Aguardo seu e-mail e sugestões caso se interessem por tecnologia, arte e design em iluminação.

Trabalhos nomeados para premiação
7, O Musical” (Charles Moeller e Cláudio Botelho)

“Sassaricando” (Cláudio Botelho)

“Auto de Anjicos” (Amir Haddad)

“Eu Sou Minha Própria Mulher” (Herson Capri)

“Cheiro de Chuva” (Bosco Brasil)

“Mundo dos Esquecidos” (Flávio Graff)

“Farsa” (Luiz Arthur Nunes)

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david@backstage.com.br