Em 1996, Roberto Frejat começou seu estúdio particular na zona sul do Rio de Janeiro. Batizado Du Brou’ e atualmente na sua segunda versão, o estúdio teve o projeto acústico assinado por Renato Cipriano (representante no Brasil da WSDG) e hoje abriga os projetos do cantor. Seu último álbum, “Intimidade Entre Estranhos”, foi integralmente produzido lá, sendo o primeiro da sua carreira solo que não foi finalizado em outros estúdios
Com uma aparência discreta e um ambiente aconchegante, o estúdio tem um clima caseiro e tranquilo, porém a qualidade nada tem de caseira – é considerado um dos mais bem equipados no Brasil.
A convite do cantor, estivemos no carismático estúdio Du Brou’ e conversamos com Frejat e dois dos três técnicos da equipe do estúdio, Rodrigo Duarte e Rodrigo Lopes – Renato Muñoz estava em São Paulo.
MOTIVAÇÕES DO PROJETO
Quando seu filho nasceu, Frejat se viu obrigado a levar o seu home studio para fora de casa, e com isso veio a possibilidade de fazer algo maior. “Sempre tive um home studio simples, quatro canais, oito canais, cassete e tal... Quando meu filho nasceu eu tive que fazer meu estúdio fora de casa porque aí já não cabia. O filho e o estúdio, não!”, brinca.
O que o levou a sair do primeiro Du Brou’, que ficava em outro imóvel que hoje abriga o escritório de sua esposa, foram basicamente três limitações: O estúdio não masterizava, não havia possibilidade de expandir a monitoração da técnica para 5.1 e não havia como gravar muita gente tocando ao mesmo tempo, devido ao tamanho reduzido.
O novo estúdio veio para, além de suprir essas necessidades, funcionar plenamente para a conclusão dos projetos do Frejat, que antes acabaram sendo concluídos fora. “Eu não tinha espaço físico para imaginar um salão enorme e ao mesmo tempo eu não vejo dentro na concepção das coisas que eu gravo um salão. Lógico que se eu fosse gravar uma banda de heavy metal ou uma orquestra sinfônica, que o cara quer pegar aquela ambiência, faria sentido que eu tivesse uma sala muito grande. O estúdio veio muito para essa necessidade do trabalho que eu tenho, principalmente de gravar música pop, que eu acho que funciona muito bem dentro das condições que a gente tem aqui.”
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O ESTÚDIO DU BROU'
Fugindo da artificialidade comum em estúdios, o projeto de tamanho modesto em momento nenhum isola quem está no interior do mundo lá fora. O estúdio conta com iluminação externa por toda a sala de gravação e parte da técnica, trazendo toda uma naturalidade para o ambiente.
“Realmente não tem essa sensação claustrofóbica de um estúdio apertado. Tem luz externa por toda parte, não tem essa coisa de estar dentro do estúdio e não saber se é dia ou se é noite, na década de 80 tinha muito isso. Você saía da gravação e tinha ocorido uma inundação, uma catástrofe!”, diz Frejat.
Perguntado sobre o quanto o estúdio influencia no processo de composição e arranjo, Frejat diz que “é mais para gravação mesmo. Eu componho ali na técnica, fico trancado por uns momentos trabalhando com loops de bateria, com o violão, ou mesmo em um quarto de hotel, eu viajo com um laptop que tem sempre um Pro Tools M-Powered. O barato do ambiente é que posso fechar a porta e desligar o telefone que ninguém me enche o saco. Nesse sentido flui, porque me dá uma tranquilidade que eu não tenho em casa. Há muitos anos que eu não componho uma música em casa, eu prefiro vir para cá”.
Frejat diz também que ao mesmo tempo em que pode trabalhar com calma, quando surge eventualmente uma urgência pode trabalhar com pressa sem perder o foco, e que isso influencia positivamente na qualidade do trabalho. “A gente dificilmente trabalha com prazos que sejam desesperadores, uma vez ou outra tem uma coisa que corre, mas geralmente a gente tem um timing de trabalho legal, bacana, dá tempo de fazer as coisas com calma”.
“A parte mais importante é a descon-tração do ambiente. Você abre aqui e dá um abraço no cachorro, leva uma lambida na cara! (risos) Tem essa coisa de poder dar uma relaxada, no andar de cima também tem a área aberta, que é bem legal”, diz Rodrigo Lopes.
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A TÉCNICA
“Eu componho ali na técnica, fico trancado por uns momentos trabalhando com loops de bateria, com o violão” - Frejat
A técnica foi construída onde antes havia um pátio (que acabou passando para o andar superior), portanto não tem conexão física direta com o restante do imóvel. Esse espaço que inicialmente era bem grande acabou sendo reduzido, perdeu 1,5m de profundidade atrás dos monitores para ter, segundo Frejat, um bom isolamento e suporte para as caixas de monitoração.
Atrás do operador foi instalado um difusor fractal de forma abaulada (foto1), dispersando as ondas diretas da monitoração. Completando o tratamento acústico da técnica foram posicionados alguns absorvedores, também chamados de nuvens (foto 2), acima da mesa de trabalho. Esse conjunto mostrou resultados surpreendentes, tornando o ambiente acusticamente ideal.
A gravação é totalmente baseada no sistema Pro Tools HD 3, ‘o centro do estúdio’ segundo Frejat, que também explica que não há nada prioritário a ele. “Quando comecei o estúdio eu tinha o Logic e o Pro Tools, e com o tempo percebi que o Pro Tools era a plataforma que a gente usava o tempo todo”.
A CPU do Mac e o Hardware do Pro Tools ficam isolados em uma sala de máquinas para evitar consideráveis ruídos de HDs e de Coolers na técnica, comumente usada por Frejat para algumas gravações devido à praticidade e à acústica favorável.
O estúdio conta com 32 canais de preamp em excelentes racks como Avalon, Vintech e Universal Audio dentre outros, que é exatamente a quantidade de entradas no Pro Tools, dando uma gama de opções muito vasta e permitindo justamente o que foi almejado inicialmente, gravar todo mundo ao mesmo tempo tocando junto.
“Depois que entra no Pro Tools, a maioria das coisas é digital. Raramente a gente usa alguma coisa externa. Se alguém quer ligar um compressor valvulado durante a mix, pode fazer, mas pela quantidade de plug-ins de boa qualidade que tem e como já foi captado usando esses compressores valvulados e os prés analógicos não faz muito sentido a gente trazer de novo para fora.
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Duarte, Frejat e Lopes em frente à parede de difusores fractais
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Difusor Fractal da técnica (foto 1) |
Absorvedores (Nuvem) (foto 2) |
Acho boa parte do grilo com plug-in, é porque muita gente experimentou essas coisas todas quando o Pro Tools ainda era 16 bit, agora quando o Pro Tools virou 24 bit e quando veio o sistema HD a qualidade dos plug-ins e da conversão realmente ficou muito melhor”. Ele diz também que a concepção do estúdio é ter a melhor captação, a melhor qualidade de prés que você possa e uma variedade deles para que você tenha várias cores diferentes, várias texturas. “Nesse sentido acho que os prés, os compressores e os microfones cumprem bastante essa função”, completa. Do Pro Tools saem 16 canais, que normalmente são abertos na mesa Yamaha 02R durante a mixagem. “A gente pode mixar só aqui no L/R ou aberto. Preferimos mixar aberto porque percebemos que assim a gente descarrega o peso do computador e a qualidade do som realmente fica melhor.” Frejat tem uma relação com a Yamaha desde 1997. A primeira 02R que teve foi talvez a primeira que veio para o Brasil. “Na época um amigo meu conseguiu uma para mim, tinha uma fila de espera de dois meses nas lojas. Quando vieram uns executivos da Yamaha do Japão para aprovar a nossa relação de endorsement, a Yamaha ainda não tinha a 02R no Brasil e eu já tinha uma”.
A SALA DE GRAVAÇÃO
A sala de tem forma de ‘U’ com a base larga (a maior dimensão da sala), e pernas com tamanhos diferentes. A perna menor, onde fica a entrada, pode ser encarada como uma sala anexa à sala maior por ser revestida de pedra (bastante ‘viva’) e ter a possibilidade de ser isolada do resto da sala por uma porta de vidro. Essa sala viva, usada normalmente para gravação de percussão em geral, pode se transformar. “Essa sala que tem as paredes de pedra tem alguns ilhoses para pendurar umas capas, assim como elevadores de serviço, isso mata a sala. Eu trouxe de fora uma porção de capas de isolamento acústico, chegou aqui era um bando de cobertor. Gastei uma grana, então dessa vez eu mandei fazer essas capas”, explica Frejat, adicionando que também foram gravados ali violoncelos e dois amplificadores de guitarra com uma aparadeira entre eles.
Cercada de amplificadores de guitarra clássicos e com as paredes de um dos lados quase totalmente forradas de difusores fractais, a parte maior da sala foi bastante usada para gravações de bateria.
“A gente gravou a bateria em algumas posições no meio mais colado no canto da perna maior do ‘U’ que teoricamente tem o trap dos graves, mas na minha opinião você perdia alguma coisa de ambiente. Eu conseguia colocar mais ambiente colocando a batera no meio e os microfones dentro da sala de pedra, com a porta aberta, compensando o atraso posteriormente. Eu achei bem interessante, você tem talvez uma resposta diferente de grave, por não estar em um canto”, diz Rodrigo Lopes.
“Houve poucas experimentações na gravação da bateria, algumas microfonações e o uso do Subkick apenas. Temos um ponto de partida que a gente sabe que não vai errar, o AKG D112 no bumbo, Shure SM57 na caixa, até pode colocar o AKG 451 no contratempo. De repente um Shure Beta 91 no bumbo. Nos tons a gente usa os AKG 3500 ou os Audix. Para a caixa tem um Electro Voice de que eu gosto muito, não me lembro do modelo, ele tem posições diferentes de coloração, de corte, que eu adoro!”, diz lopes, enquanto Frejat finaliza “de resto não teve muita novidade, usamos um par de Neumann U87 nos overheads, que não tem nem o que comentar. Experimentamos um PZM no chão, no teto, para captar uma ambiência e funcionou muito bem”.
Devido à impossibilidade física de comunicação visual com todas as áreas da sala, foi instalado um eficaz sistema de câmeras e monitores nas duas pontas da sala, respondendo diretamente a um grande monitor de vídeo na técnica. Comunicando a técnica com o comprimento maior da sala, foi instalado um aquário. Segundo Frejat “A pior coisa que tem é você estar gravando e ficar aquele silêncio, você não saber se a pessoa ouviu. Enquanto o pessoal na técnica conversa, lá dentro está o músico se suicidando achando que todo mundo odiou! Então isso é para tirar essa ansiedade de achar que ninguém prestou atenção. É um incômodo que acontece quando não tem comunicação visual entre a sala de gravação e a técnica”.
NO ESTÚDIO E NA ESTRADA
Frejat diz que ter a mesma equipe no estúdio e na estrada tem toda uma oportunidade de desenvolver a relação de trabalho. “Não é tempo todo dentro do estúdio, na estrada é tudo muito mais aprofundado do que no estúdio, a gente está muito mais tempo junto na estrada do que aqui, uma coisa reflete na outra, facilita”.
Quando perguntados se buscam no estúdio uma sonoridade parecida com o show ou vice-versa, os técnicos Rodrigo Duarte e Rodrigo Lopes afirmam que buscam ao vivo o que se assemelha ao estúdio. “Já foi perdido um tempo construindo um conceito para o disco e as pessoas estão ali querendo ouvir alguma coisa semelhante, aquele conceito, a unidade daquele trabalho que está viajando. Faz o disco e esquece que um dia vai viajar. Cada um com seus problemas”, diz Lopes.
“Tivemos uma experiência viajando com a mesa da Digidesign, e a gente levava os plug-ins do disco, puxava para um pendrive todos os presets e seções e levava isso para a estrada!
Mixar ao vivo uma música que você participou da criação do conceito é fantástico, é muito mais fácil, você sabe tudo o que acontece”, completa Duarte.
Eles completam comentando que na estrada têm usado os mics da Audio-Technica “A gente usa em tudo! Tivemos a liberdade de escolher exatamente o que a gente precisava. Usamos Audio-Technica no estúdio também. Têm vários outros, tem um PZM estéreo sensacional, a parte de condensadores é muito boa e os dinâmicos também são muito bons. Temos obtido um resultado muito bom com eles”.
O estúdio é cedido, raramente, para amigos muito próximos de Frejat. “O quesito amizade é fundamental. Eu abro o estúdio às vezes porque equipamento não gosta de ficar parado, gosta é de funcionar.” O disco de estreia do estúdio foi o do grupo Gungala
“O Rodrigo Lopes mixou o disco dele aqui, O Cheiro de Vida foi mixado aqui. O Renato Muñoz mixou o CD e o DVD da Elba Ramalho, e também está mixando a Ismália. Um disco do Maurício também teve muita coisa mixada aqui”, diz Rodrigo Duarte.
"INTIMIDADE ENTRE ESTRANHOS
Backstage: Você resgatou bastantes parcerias nesse álbum, certo?
Frejat: É uma mistura bem bacana de parcerias antigas e parcerias novas.
Backstage: Você disse anteriormente que foi o “homogêneo” da coisa e eles foram o “heterogêneo”. As parcerias participaram da composição e do arranjo? O estúdio influenciou nessas participações de alguma maneira?
Frejat: De alguma maneira tem uma facilidade, mas no caso desse disco eu não compus com nenhum deles aqui diretamente. Normalmente eles me dão uma letra, eu faço o trabalho aqui e depois mando para eles. O que facilita no estúdio é a comunicação. Por exemplo, no caso do Alvin, que eu fiz um fragmento, ele tinha me dado uma letra e eu fiz a música. Entreguei e falei para ele: “Isso aqui é só a metade da música, eu preciso que você faça outra metade de letra para essa música virar uma música inteira”. Então eu gravei aquilo e mandei um mp3 para ele de uma demo, já com uma bateria, guitarra, eu cantando. Ele ouviu, escreveu outra metade da letra e me mandou. Eu gravei a outra metade da música, ela ficou pronta e a gente nem se encontrou. Isso é uma coisa que aconteceu muito nesse disco. O Zeca Baleiro me mandou a letra dele, eu fiz a música e mandei para ele. Ele gostou, nós discutimos alguns detalhes sobre o refrão, frase de letra, mas em princípio a parte musical mesmo não. É mais na parte da letra, normalmente na parte musical raramente alguém dá uma opinião. Não que eu não esteja aberto a isso, pelo contrário. Uma sugestão ou outra sempre é possível, mas no caso desse disco não rolou.
Duarte: Se bem que durante a gravação o Maurício (Barros) mudou algumas coisas na hora.
Frejat: Isso faz parte da produção do disco, de você estar ali experimentando e ver que de repente a parte que seguia não era ideal para dar um prosseguimento na música. Mas o processo de composição é mais solitário mesmo.
Backstage: Você tem muito domínio sobre o estúdio e é um artista que tem uma identidade musical definida há muito tempo, já sabe que direcionamento tomar. Como é essa coisa de trabalhar com outro produtor e por que você nunca procurou produzir seu próprio trabalho?
Frejat: É curiosa essa pergunta, pelo seguinte: Eu sou realmente uma pessoa que conheço o estúdio e domino o suficiente também para saber delegar e também saber que eu preciso de um produtor, pois não dá para você bater o corner e tentar fazer o gol de cabeça. Mesma coisa com os técnicos. Primeiro pela qualidade deles de trabalho e também porque é muito chato você ficar gravando, mixando, tocando, arranjando, produzindo. Chega uma hora que você fica louco! É lógico que tem gente que tem tempo para isso ou não tem a quem delegar e precisa fazer tudo sozinho. Mas no meu caso eu acho que é importante, eu gosto de trabalhar com outras opiniões. No caso do meu trabalho individual, eu não acho que eu estava com a sonoridade tão pronta assim.
Quando eu fui gravar meu primeiro disco em 2001, uma das prioridades do projeto era descobrir que sonoridade era essa. Não era a sonoridade do Barão, pois assim não faria sentido eu fazer um trabalho fora se fosse a mesma. O Tom Capone, o Maurício Barros e o Max de Castro foram muito importantes, por mais que eu tivesse todo o tempo de estrada e conhecimento técnico e minha personalidade musical de uma certa maneira consolidada, quando fui para o trabalho individual era um passo novo.
Renata Decnop e Luiz Freitag
são produtores fonográficos e fundadores da Musark Produções, no Rio de Janeiro. |
