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No ano em que lança o segundo volume de “Brasilianos”, o bandolinista Hamilton de Holanda conta à revista Backstage como usou o bandolim para construir um trabalho absolutamente original
Desde os dezoito anos Hamilton é um profissional da música. Aos 32 anos é um músico premiado e, mais do que isso, com uma personalidade musical única. A começar pela forma como toca o bandolim. Ele não só faz as linhas melódicas como também harmoniza no instrumento. Tudo com uma fluência de dar inveja a muitos músicos que tocam instrumentos tradicionalmente mais ligados à harmonia. Para isto, ele tinha que ter um instrumento especial. O bandolim costuma ter oito cordas (quatro pares de cordas com notas dobradas). O de Hamilton tem dez. As cordas a mais são um par de dó graves. Os outros pares são de sol, ré, lá e mi.
Hamilton tem muita diversidade em seu trabalho. Gravou discos-solo em grupo e com outros músicos, como o pianista André Mehmari e o violonista Yamandu Costa. Em 2008, lançou o “Brasilianos 2”, segundo volume de uma trilogia iniciada em 2006, com o CD “Brasilianos”. No segundo volume, além do violão de Daniel Santiago, do baixo de André Vasconcellos e da bateria de Marcio Bahia, há a gaita de Gabriel Grossi em um diálogo inspirado com o bandolim de Hamilton.
O músico conversou com a Revista Backstage sobre música, gravação de discos, direitos autorais e tudo o que se relaciona à música.
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Revista Backstage – Como foi a sua formação musical? É autodidata? Fez faculdade? Toca outros instrumentos?
Hamilton de Holanda – Eu nasci em uma família musical. Meu avô era trompetista, meu pai é violonista e meu irmão toca violão de 7 cordas. Sendo assim, meu primeiro professor foi meu pai. Ele me ajudava a tirar as músicas de ouvido. Justamente por ver a facilidade que eu e meu irmão tínhamos em tirar as coisas de ouvido, meu pai foi atrás de aulas formais de música para que pudéssemos melhorar. Aí entrou o violino na minha vida. Como eu já tocava bandolim, e em Brasília não tinha professor de bandolim naquela época, fui matriculado na Escola de Música de Brasília para estudar violino, porque é um instrumento que tem a mesma afinação do bandolim. Estudei cinco anos de violino depois mais uns quatro ou cinco de violão. Isso me deu uma base técnica e harmônica fantástica. Mas, enquanto rolavam os estudos formais, eu continuava tocando meu bandolim em rodas de choro, que acho que foi meu grande aprendizado. Aos 19 anos entrei para a UNB e em 2001 me formei no curso de Composição, mas sempre estive nas rodas e jams da vida.
Backstage – A sua música tem muito de chorinho, mas também dá para perceber bem as outras influências comentadas por você no disco “Brasilianos 2”. Em alguns momentos o seu fraseado soa quase jazzístico. Você escutou jazz também? Até que ponto você tem o choro como base? Que outras músicas (e músicos) te influenciam?
Hamilton – O choro é realmente a música que me deu asas. Comecei tocando choro, acho que isso é determinante para minha música. Mas hoje o que faço não é mais choro. Não sei ainda o que é. Acho que esse não saber me deixa livre para encontrar uma linguagem muito brasileira que contenha tudo de que gosto e acho bonito. Daí a liberdade de improvisação do jazz, o lirismo da música erudita, as melodias e ritmos bem brasileiros. Minha música reflete o que somos, um povo que nasceu da mistura de vários povos.
Backstage – Existe diferença entre os chorinhos tocados em Brasília, Rio, São Paulo, etc? Quais são elas?
Hamilton – Acho que existe diferença sim. É igual ao sotaque, cada lugar tem o seu.
Backstage – Como foi sua experiência como professor na Escola de Choro Raphael Rabello, em Brasília? Você ainda dá aulas?
Hamilton – A época em que mais aprendi em minha vida foi quando dava aulas. A experiência de ter sido um dos professores fundadores da Escola Brasileira de Choro Raphael Rabello foi incrível. Era necessário criar uma didática de uma coisa que não existia e isso dobrou o meu conhecimento. Tinha que explicar o que já tocava para quem não tocava, verbalizar o que eu só sabia fazer com o instrumento na mão. Achei uma das coisas mais enriquecedoras do ponto de vista intelectual e cultural. Hoje, pela quantidade de shows, não tenho tempo para dar aulas. Mas, está nos meus planos a criação de um Centro Cultural em que a pessoa possa estudar o Brasil e o mundo a partir do ponto de vista de um músico.
Backstage – Fora o baixo, a sua banda tem uma sonoridade acústica, além de não ter teclado (ou piano). Também há uma gaita que é o instrumento que dialoga nos solos com você. Como foi feita a escolha da formação? Você gostava dos músicos e fez a formação baseada neles ou tinha esta formação na cabeça e escolheu os músicos de acordo com isto?
Hamilton – É claro que existe um gosto pelo acústico – o baixo também é acústico em algumas faixas – e acho que isso acaba aproximando os que têm um gosto parecido. Acredito que essa formação é única no mundo todo e muito brasileira. Aconteceu um pouco por acaso e um pouco pensada. Com exceção do Márcio Bahia, o baterista, somos todos de Brasília. Isso dá uma unidade na forma de tocar e pensar. Já conheço Daniel, Gabriel e André há mais de 10 anos. Na hora de montar o grupo foi fácil. Já estávamos todos morando no Rio e eu queria um grupo. Primeiro foi um quarteto. Gravamos o disco “Música das Nuvens e do Chão”, que tinha a participação do Gabriel na gaita. Ouvindo algumas faixas, eu sentia que aquela combinação do bandolim com a gaita era única e que aquilo poderia dar uma outra dimensão para a música. Daí foi só oficializar o grupo como quinteto no disco “Brasilianos” e curtir.
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Backstage – Há quanto tempo está com esta banda?
Hamilton – O quinteto, com este nome, foi criado em 2005. Mas já tocamos juntos há muito mais tempo. Acho que quando Dom Bosco sonhou com Brasília, nós já tocávamos juntos...
Backstage – Tem outros trabalhos com formações diferentes? Quais?
Hamilton – Tenho o Dois de Ouro, meu primeiro grupo em parceria com meu irmão, e ainda fazemos alguns shows por aí. Tenho um duo com o pianista André Mehmari, um com o violonista Yamandu Costa e tenho um show solo, que, apesar da solidão, gosto muito também.
Backstage – Qual é a diferença do “Brasilianos” em relação aos outros discos? Qual a proposta dele?
Hamilton – A principal diferença é a formação do grupo e este é um trabalho totalmente autoral. Na verdade, não penso muito em proposta, deixo rolar a música pela música. Depois que está pronto, percebo as características e passo a acreditar nelas como proposta. Além de fazer um disco autoral sem uma classificação específica, se é samba, rock, choro, jazz, aproveito para falar que o Brasil vive um ótimo momento, com jovens fazendo uma nova música, baseada em tudo que já foi feito, com uma beleza incrível! “Brasilianos” é uma trilogia. Ainda estamos no volume dois.
Backstage – Vocês ensaiaram as músicas antes de entrar em estúdio ou já tocavam ao vivo? Como foi a construção deste álbum?
Hamilton – Este álbum, assim como o “Brasilianos 1”, foi feito da seguinte forma: durante a turnê, as viagens, ou em casa, componho. Escolho as músicas que mais se adaptam ao quinteto. Depois gravo uma versão simples, tocando violão, baixo e bandolim – algumas já nascem com o arranjo pronto, outras não. Dou um CD com essas gravações para que eles escutem e digam o que acham. Depois disso, escrevo os arranjos – no “Brasilianos” escrevi exatamente o que sei que gostam de tocar e que se saem melhor, com alguns desafios também – e partimos para ensaiar, que acho o momento crucial no processo. É a hora de cada um entender a história em seu instrumento, dar opiniões, sugerir outras coisas, fazer exatamente como pensei. Depois de uma semana de ensaio, entramos no estúdio prontos para gravar, todos tocando juntos, como um show dentro do estúdio.
Backstage – Você produziu o disco com Marcos Portinari. Como é a divisão de tarefas entre vocês? Costuma trabalhar sempre com ele?
Hamilton – O Portinari é uma espécie de sexto Beatle: não toca, mas é como se estivesse tocando com a gente o tempo todo. Ele é o cara com quem converso todos os dias, sobre tudo. Meu produtor e empresário com quem compartilho as ideias e ideais.
Backstage – Por que escolheu os estúdios Fibra para gravação, Mixdown para mixagem e Tambor para a masterização? Foi alguma característica específica deles? Foi por escolha do técnico de som de cada estágio da produção?
Hamilton – O Fibra foi o estúdio no qual gravamos “Brasilianos 1” e que deu certo. O que mais gosto é a vibe do lugar, a música flui lindamente, além de ter uma sala muito boa, com o som muito bonito. O Mixdown acho referência no Brasil no quesito mixagem, acho top. O Tambor foi uma surpresa muito boa. Esse disco, inicialmente, sairia pela Deckdisc. Então o João Augusto sugeriu que eu fizesse a máster no estúdio deles. Gostei muito. Mudamos de ideia em relação ao lançamento, o disco saiu pelo meu selo, o “Brasilianos”, com distribuição da Microservice e a Deck nos deu a masterização. Agora, o mais importante disso tudo, o piloto da gravação e da mix. Daniel Musy, meu sound designer.
Backstage – Além da música, você também se envolve com as questões técnicas?
Hamilton – Talvez esse seja meu maior defeito, ou maior qualidade; quero saber tudo o que está acontecendo, me envolvo em praticamente todas as etapas da elaboração do disco.
Backstage – De que forma a Internet ajuda ou atrapalha no seu trabalho?
Hamilton – Hoje é impossível pensar no meu trabalho sem a Internet. Além de sites de música, de vídeo, jornalísticos, o meu www.hamiltondeholanda.com está cada vez mais importante no processo de divulgação do meu trabalho. O blog é o meu canal direto com os fãs. E o mais bacana: criamos um canal de TV independente, a HHTV dentro do site, em que mostro praticamente tudo o que rola nas turnês, desde a chegada no lugar, passando por lugares turísticos, backstages, o show, de uma maneira leve e divertida. A Internet se tornou um caminho sem volta, no bom sentido.
Backstage – Como você vê a questão dos direitos autorais na época Internet?
Hamilton – Acho uma questão delicada e muito importante. Deve ser discutida de uma maneira mais constante, para acompanhar todas as evoluções tecnológicas, e o principal, para que os compositores tenham seus direitos preservados, mas também para que a obra tenha um alcance cada vez mais planetário. Por exemplo, eu não dou minhas músicas de graça, para mim é demais. Mas acho legítimo e até importante do ponto de vista da divulgação a existência de sites sem fins lucrativos para troca de discos, em que já vi inclusive alguns dos meus discos disponíveis para download. Desde que não lucrem com a música alheia, acho legítimo.
Backstage – A música instrumental vive, em sua opinião, um bom momento? Há um bom mercado para um instrumentista compositor viver de sua obra ou isto ainda é para poucos?
Hamilton – O Brasil é um país muito musical e isso significa uma dicotomia para a profissão. Você pode encontrar em qualquer esquina um compositor, um músico. Mas, para esse cara ter uma carreira, é um caminho longo. Eu não tenho do que reclamar, tenho a agenda sempre cheia e cada vez isso aumenta. Porém, não posso fechar meus olhos para realidade do país. Se compararmos com EUA e Europa, acho que ainda temos muito o que aprender. Entretanto, eu sinto que, com o fortalecimento da economia, a tendência é que todos os setores se fortaleçam também. Os músicos têm que perceber isso e aproveitar. Há várias maneiras de ganhar dinheiro como músico com shows, aulas, direitos autorais, gravações, projetos com apoio de leis de incentivo à cultura, etc. É uma questão de enfrentar as dificuldades como algo natural.
Backstage – Tenho a impressão de que o som do seu bandolim é um pouco mais grave do que o dos tradicionais. Isto é verdade? Se isto acontece, este timbre diferente é uma escolha sua?
Hamilton – Realmente, meu bandolim é um pouco mais grave. É um instrumento com um par de cordas a mais, tem 10 – normalmente são 8. Isso foi um desejo que eu tinha de ter um bandolim um pouquinho mais “gordo” e que eu pudesse fazer mais acordes, tocar harmonia, melodia e ritmo, tudo junto. Um amigo luthier de Minas, chamado Vergílio Lima, fez meu primeiro 10 cordas em 2000. Hoje uso um Tércio Ribeiro 2003.
Backstage – Está com algum outro projeto de disco em andamento? Quais são os planos daqui para frente?
Hamilton – Meu objetivo agora é divulgar o “Brasilianos 2”. Mas já tenho um disco ao vivo gravado com o Yamandu Costa, que deve sair ainda este ano. Finalizei um disco com um dos meus mestres, Joel Nascimento. O principal, o plano é deixar a beleza me guiar sempre.
