Baixo Elétrico - evolução técnica e seus dispositivos Harmônicos
Jorge Pescara
Jorge Pescara é artista-solo exclusivo da Jazz Station Records e contrabaixista com Ithamara Koorax. É autor do livro Dicionário Brasileiro de Contrabaixo Elétrico.

Harmônicos naturais, artificiais, falsos, superiores, parciais, nodos, tons puros, sobretons, flautato, flajolé, supertons, overtons, frequências harmônicas, múltiplos da fundamental, sons de sinos, cor do som, cor das notas, alma das notas... muitas são as expressões usadas para definir as frequências super agudas que (pasmem!) podem, e devem, ser obtidas em baixos elétricos e até mesmo nos contrabaixos acústicos e suas cordas graves e grossas

No estudo da acústica um harmônico de uma onda sonora é uma frequência componente do sinal sendo múltiplo da frequência fundamental. Por exemplo: 2xf, 3xf, 4xf, 5xf, 6xf, etc. Se a fundamental está em 440Hz (Hz = hertz, ou seja, 440 vibrações por segundo), o segundo harmônico estará a uma oitava de distância da fundamental (2xf = 880Hz), enquanto o terceiro harmônico estará uma quinta justa acima do segundo (1320Hz) e o quarto harmônico multiplica a fundamental em 4 vezes para produzir a frequência de uma quarta justa acima do terceiro harmônico, e duas oitavas acima da fundamental (1760Hz).

É perfeitamente possível executar melodias, escalas, arpejos e acordes totalmente com os harmônicos naturais disponíveis no instrumento, porém o baixista pode também utilizar o dispositivo técnico dos harmônicos artificiais.

No quadro abaixo estão dispostos os 20 primeiros harmônicos superiores da série harmônica e suas frequências de equivalência na escala temperada de 12 tons iguais. Os campos em destaque demonstram diferenças maiores do que 5%, que são diferenças notáveis para o ouvido humano. Por causa das características físicas dos instrumentos existem significativas variações destes valores teóricos, portanto eles não devem ser usados como base para afinação sem os devidos ajustes para estas variações.

TIPOLOGIA DOS HARMÔNICOS

Temperamento. É o processo de afinar as notas dos 12 semitons da escala ocidental para ajustar os harmônicos comuns dos intervalos levemente fora do tom, em certas direções permitindo assim que as notas sejam tocadas simultaneamente em quaisquer combinações.

HARMÔNICOS NATURAIS

Harmônicos formam uma importante parte de cada nota tocada nos instrumentos musicais. Cada vez que uma corda é acionada além de sua frequência principal, chamada fundamental, estão presentes diversas outras frequências agudas, que são em verdade, frações múltiplas parciais desta fundamental. O que marca a diferença de timbre entre os instrumentos é localização e a amplitude destes harmônicos, sendo que a trajetória dos harmônicos em separado de dois instrumentos tocados em uníssono é que permitem diferenciá-los. No caso dos instrumentos de cordas, e especificamente, o contrabaixo elétrico, as cordas postas em vibração criam áreas determinadas em que a oscilação é nula, ou seja, cria-se um nodo (ou ponto zero) de apoio para a vibração da onda sonora. Nestes pontos exatos dos nodos é que se encontram os harmônicos. Para isso basta encostar levemente a ponta de um dedo sobre um nodo na corda e tocá-la. Quando se retira o dedo a nota que continua soando é um harmônico. Ao extrair um harmônico a corda é induzida a produzir uma fração da onda sonora de sua extensão total. Em uma descrição figurativa, a corda desloca-se do ponto central de repouso para um morro ou cume superior, descendo em seguida para um vale. Os nodos estão nas extremidades da corda. Porém, quando se encosta o dedo em uma fração da corda (em sua metade, por exemplo) extrai-se um harmônico e a vibração se anula neste exato ponto causando a formação de um terceiro nodo no ½ da corda. Este processo todo faz com que haja uma mudança de direção no movimento, formando uma curva sinuosa. Em verdade o que acontece é que a corda encurta-se neste nodo, da mesma maneira que ao digitar a nota do 12º traste (ou mesmo se cortar a corda em sua metade), e a nova frequência obtida passa a ser sua fundamental, eliminando todas as frequências abaixo dela. Deduz-se também, que influindo a massa diretamente na sonoridade da corda, quanto mais fina e flexível for a corda, mais homogêneos e afinados serão os harmônicos. Por isso cordas piccolo (cordas extremamente finas, soando uma oitava justa acima das cordas padrão do contrabaixo) encaixam-se tão bem nesta técnica. Por causa da inflexibilidade das cordas no capotraste e na ponte, os harmônicos mais agudos são afetados causando sua desarmonia.

DICA:
1. Apague as luzes da sala e ligue a televisão.
2. Segure o contrabaixo na altura dos olhos, de modo que o instrumento fique de perfil.
3. Toque a corda MI (primeira corda mais grave) e observe seu movimento. A emissão de raios da TV atua como uma luz estroboscópica, congelando as imagens em cenas separadas de determinadas vibrações. Diferentes frequências apresentam diferentes padrões de oscilação.
4. Toque o harmônico do 12º traste e observe novamente. Com isso percebe-se claramente a corda vibrando e oscilando em duas partes iguais, sendo que em sua metade exata existirá um ponto nulo. O Nodo!

 

HARMÔNICOS ARTIFICIAIS

Harmônicos artificiais (também chamados de falsos harmônicos) são overtones que não fazem parte da série harmônica de uma corda solta, e são obtidos com técnicas adicionais. Não se consegue extrair um harmônico artificial apenas encostando um dedo sobre um nodo, pois assim se conseguem apenas os harmônicos naturais. Para tanto temos que subdividir a corda em frações ainda menores. Lembrando que, quando estamos tocando um harmônico a corda está “presa” entre o capotraste e a ponte, sendo que estes dois pontos de apoio determinam a extensão total da corda, gerando a frequência base (fundamental) e, a partir dela, toda a série harmônica correspondente. O que se obtém na técnica dos harmônicos artificiais é uma diminuição “virtual” da extensão desta mesma corda, produzindo então, uma nova fundamental e uma nova série harmônica correspondente. A mesma coisa acontece quando se instala o dispositivo de capotraste auxiliar nas guitarras para tocar músicas em tonalidades que exigiriam digitações com o indicador sobre todas as cordas. Neste caso o nosso capotraste auxiliar passa a ser a nota que digitamos. Após digitar a nota subdivide-se a corda em sua metade (contando o espaço entre a nota digitada e a ponte) e encostamos um dedo neste exato ponto para obter um harmônico “artificial”. Porém como uma das mãos já está sendo usada para digitar uma nota, sobra apenas a outra mão para encostar o dedo no nodo da corda e, ao mesmo tempo, extrair o harmônico. A função natural da mão que digita as notas permanece inalterada, mudando apenas as funções da mão que toca (tange) as cordas, existindo, então, quatro formas básicas para a extração dos harmônicos artificiais:

• A primeira consiste em posicionarmos o polegar levemente sobre o nodo da corda tangendo-a com o dedo indicador ou o médio.
• A segunda técnica, que evoluiu da técnica de violão erudito, consiste em encostar a primeira falange do dedo indicador (estendido) levemente na metade da extensão por sobre a corda entre a nota digitada e a ponte, tocando-a com os dedos médio e/ou anular.
• A terceira maneira, após digitar uma nota determinada, posiciona-se a mão direita no sentido das cordas do instrumento estendendo o dedo indicador encostando-o na corda e tocando-a com o polegar por trás deste dedo.
• A quarta forma, ao digitar uma nota qualquer simplesmente bate-se rapidamente na metade da extensão da corda, entre a nota digitada e a ponte com a falange do dedo indicador.

COMO EXTRAIR MELHOR A SONORIDADE DOS HARMÔNICOS

Para obter uma sonoridade clara e cristalina dos harmônicos é necessário seguir alguns passos importantes.
• A primeira dica é tocar as cordas com o pizzicato sempre bem próximo à ponte. Desta forma obtêm-se maior quantidade e melhor qualidade sonora da série harmônica das cordas. No meio da corda temos uma sonoridade mais encorpada e apagada, porém tocando próximo à ponte o timbre é mais brilhante e cheio de harmônicos, que são enfatizados nesta região. De fato muda-se o conteúdo de harmônicos através da seleção de onde se toca a corda. Se tocarmos o pizzicato exatamente sobre um nodo, evitamos seu harmônico correspondente, mudando sutilmente o timbre final.
• A localização dos captadores faz muita diferença, pois eles criam um sinal elétrico baseado no molde em que a corda vibra naquele ponto. Assim, eles criam diferentes sinais de saída em diferentes pontos da corda, porque ela reage de modo diverso em cada ponto. Por isso a sonoridade do pickup da ponte é diferente do som do captador do braço
• Encordoamentos mais leves e finos são mais propícios na obtenção de harmônicos mais destacados.
• Em relação ao pizzicato, o uso das pontas dos dedos ajuda muito na articulação e na agilidade, porém tocar com o pomo dos dedos aumenta a relação da sustentação das notas. O mesmo vale para os dedos da mão que digita as cordas.
• O uso de cordas novas melhora o timbre dos harmônicos, pois encordoamentos velhos (impregnados com ferrugem, suor ou gordura) não reproduzem fielmente a série harmônica.
• O ajuste dos controles de tonalidade do instrumento favorece as frequências médias. Se o contrabaixo for passivo coloque todos os controles de tonalidade no máximo. Se, ao contrário, o instrumento possuir um preamp ativo, adicione os médios, cortando um pouco os graves e um pouco dos agudos. Se o contrabaixo tiver uma configuração com dois captadores modelo jazz bass, corte um pouco o sinal do captador do braço, colocando o da ponte no máximo volume. As dicas de tonalidade também servem para os controles de equalização do amplificador, pré, ou pedal EQ.
• O uso de um compressor (pedal, pedaleira, rack ou embutido no amplificar) pode auxiliar a acentuar as frequências mais tênues, como são os harmônicos.
• O uso de efeitos (chorus, distortion, delay, phaser, flanger, envelope filter e reverb) destaca as frequências médias dos harmônicos.
• Por último, mas não menos importante, lembre-se de evitar que cordas soem de maneira não desejada. Mantenha a clareza e a definição rítmico-melódicas, apoiando os dedos que não estejam sendo usados naquele momento, para abafar as cordas adjacentes àquela que for tocada. Harmônicos são indomáveis e gostam de aparecer!

Na próxima edição trataremos dos dispositivos técnicos usados na obtenção dos harmônicos, além de uma discografia selecionada...

Paz Profunda!

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