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Há uns anos atrás, chegado de um debate sobre profissões na escola, em que a professora pediu aos pequenos alunos de seis e sete anos para falarem sobre a ocupação dos pais, um de meus filhos me perguntou:
- Pai, o que é que você faz?
Estranhei a pergunta, uma vez que ele já assistira a dezenas de shows meus. Ficava lá na coxia, vibrando - principalmente com os aplausos finais - e sempre me recebendo com um abraço orgulhoso.
- Ora, filho... Como “o que eu faço”? Eu sou músico, ué... Você sabe disso!
- Nããão, pai! Eu estou perguntando o que é que você faz de verdade. Não é aquela coisa de show. É o de verdade!
Vendo a perplexidade estampada no meu rosto, ele insistiu:
- O pai do Tomé é advogado. O pai do Mateus é engenheiro, faz prédios.
E com aquela candura persistente dos seis anos, perguntou de novo:
- Você faz o quê?
Essa dúvida infantil fez com que eu recordasse vários episódios passados durante o meu caminho para a profissionalização musical. Por exemplo, nas apresentações a famílias de namoradas (isso rolava até nos anos 70, acreditem) as perguntas eram sempre as mesmas:
- O que é que você faz?
- Sou músico.
Desânimo geral na sala. Os machos fechavam a cara. As fêmeas abanavam-se, incomodadas. A pequena burguesia em seus corações urrava em protesto. Mas eu, esperteleco, retrucava:
- Mas também estudo Direito.
Um “ohh!” de alívio inundava o recinto. Salvos pelo gongo Legal, eu e a namorada corríamos para o motel mais próximo, fiéis à nossa ideologia de liberação sexual. E – notem – eu não estava mentindo. Sempre tive essa sensação de que precisava de um plano B caso a música não me desse o sustento necessário. Então fui bancário, funcionário público, advogado, jornalista, fotógrafo, produtor de TV, fiz o Diabo até que a música me aguentasse em suas costas não tão largas. Mas a peteca não caiu e, de colcheia em semifusa, pude criar meus cinco lindos pimpolhos sem grandes sustos, com plano de saúde, bons colégios, cursos de inglês e toda aquela parafernália exigida basicamente pelas mães, já que os pais são naturalmente relaxados nestes e noutros itens, salvo exceções que ofendem a regra.
Abrir conta em banco, comprar a prazo, alugar um apartamento, tudo isso virava problema quando eu preenchia a ficha declarando a execrada profissão musical. A certa altura dos acontecimentos, formado e pagando religiosamente a anuidade da Ordem dos Advogados do Brasil, desisti da verdade e passei a declarar a profissão “advogado” que já não exercia, dando como endereço profissional o escritório de ex-colegas de Faculdade. Só assim eu conseguia comprar eletrodomésticos e morar decentemente. Mas mesmo com as contas em dia, bastava o soar de um violão para que a vizinhança toda se erguesse em protesto, o que deu origem até a uma das músicas melhor sucedidas do primeiro disco de Sá, Rodrix & Guarabyra, “Ama Teu Vizinho Como a Ti Mesmo”, minha e do Rodrix.
A propósito dessa música: nos primórdios dos anos 70, estava eu no meu apartamento no Jardim de Alá tocando “calmamente” meu violão e compondo uma música para o primeiro disco do trio, quando bateram na minha porta. Abri e me deparei com um semicabeludo de olhos muito claros e quase sinceros:
- E aí, vizinho, tudo bem?
- Tudo bem – respondi.
- Escute... Não sei como dizer isso... Mas acontece que não estou conseguindo trabalhar. Sua música está muito alta.
- Sou só eu e o violão – respondi – meu som está desligado.
Ele arregalou os olhos:
- É você que está tocando?
- É.
- Posso entrar?
- Entra aí.
Ele entrou e ficou olhando minha sala com aqueles olhos arregalados, que se arregalaram mais ainda com a chegada da minha então mulher. Logo que conseguiu tirar os olhos dela, ele me perguntou:
- Você é profissional?
- Sou. E você, faz o quê?
- Cinema.
- Olha só... Tenho um monte de amigos no cinema.
Estendi a mão para ele:
- Bom, deixa eu me apresentar. Luiz Carlos.
Ele sorriu com a formalidade e apertou minha mão:
- Domingos.
Então o reconheci. Domingos de Oliveira, um jovem diretor de quem eu adorara o “Todas as Mulheres do Mundo”, um filme que - pelo menos para mim - marcava uma importante mudança no cinema brasileiro. Domingos causara polêmica, contrapondo a leveza vivencial e o relativo capricho técnico de “Todas as Mulheres...” ao peso ideológico e político do Cinema Novo.
- Você é o Domingos de Oliveira...
Tornamo-nos instantaneamente amigos, ele sem jeito de prejudicar meu trabalho e eu sem jeito de prejudicar o dele. A partir daquela noite toquei mais baixo e parei de tocar mais cedo. De vez em quando ele subia lá em casa para batermos um papo e tomarmos uma cerveja. Em uma dessas noites, ele entrou no escritório e viu em um canto meu projetor Bell & Howell de 16 milímetros, herança do meu pai:
- Cara, você tem um 16 mm aí parado? Vou te trazer meu filme!
Nessa mesma noite assistimos “Edu Coração de Ouro” projetado em um lençol, no meu pequeno escritório daquele apartamento de fundos do Jardim de Alá... Mas isso serve para mostrar como mesmo vizinhos-artistas podem se bicar em certas ocasiões!
Essa passagem curiosa me veio agora à cabeça, mas o que eu queria mesmo era falar sobre os preconceitos que, em determinadas ocasiões, rondam nossa profissão. Por não batermos ponto e não termos que eventualmente trabalhar uma certa quantidade de horas por dia (embora às vezes trabalhemos mais do que isso) somos muitas vezes vistos - em pleno século 21 - como parasitas sociais. Claro que entre nós existem picaretas. Mas eu posso garantir – e as últimas notícias confirmam – que nosso percentual de picaretas perde de longe para o Congresso Nacional...
A profissão musical exige, como qualquer outra e mesmo mais do que muitas, estudo, dedicação e investimento. Mas aos olhos inconformados de alguns retrógrados, nosso principal pecado é o prazer. Achar um prazer inenarrável em tocar é indesculpável para muitos dos que têm que seguir na vida com uma certa saia justa... E a nós resta aquela eterna divisão entre a razão e a delícia: a delícia de exercer nossa arte é contraposta à necessidade racional de fazermos dela um meio de vida, de ganharmos dinheiro, de sustentarmos nossas famílias. E o espantoso é descobrir que mesmo nesse estágio de civilização em que nos encontramos o prazer ainda pode ser ofensivo, fazendo com que a profissão que exercemos com amor seja às vezes menos considerada do que aquelas exercidas por obrigação.
Ah, e por falar nisso, Domingos, aquela cópia em 16 milímetros do “Edu Coração de Ouro” está comigo até hoje. Você nunca mais foi buscar!
luizcarlossa@uol.com.br
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