Neste ano de 2009 voltaremos a publicar nesta coluna entrevistas com profissionais que se destacam na área musical. Diferente das edições de 2004 e 2005, também serão inclusos os profissionais da área de áudio
Para essa reinauguração, tenho o prazer de receber o especialista de produtos Sérgio Terranova, talvez o único brasileiro a fazer parte neste momento dos projetos internacionais da empresa Roland, ajudando principalmente na elaboração de produtos destinados ao nosso público.
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| Quartel General Roland US - Los Angeles / EUA |
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Backstage: Infelizmente vivemos em um país onde quem aprende três acordes já se intitula músico. Qual sua formação na área musical? Em quais situações esse conhecimento foi primordial para alcançar os resultados desejados?
Sérgio Terranova: Iniciei meus estudos aos sete anos, no curso de órgão da Minami, que tinha uma escola bem perto da minha casa. Fiquei estudando por lá até os 14 anos. Sempre tive muita facilidade para tirar músicas de ouvido, fui um aluno bem pentelho em certas situações. Lembro-me de que uma das primeiras lições do livro 1 era uma música folclórica, “Peixe Vivo”. Eu conhecia a melodia, então pensei: “essa vai ser moleza”. E quando chegou a aula em que todos aprenderiam a tocar esta música, quis me exibir e toquei antes mesmo da professora. Claro que toquei várias notas e acordes errados e passei vergonha, levei uma bela bronca.
Mas só usando a facilidade do ouvido, meu ingresso neste universo teria sido muito mais difícil. A teoria me ensinou a ler e escrever música, e principalmente, a me comunicar com outros músicos. Sem essa teoria, teria sido muito difícil lidar com certas situações, como gravações em estúdios, shows ou mesmo os trabalhos na Roland. Lógico que você também tem que ingressar em um bom curso, pois temos muitos picaretas nessa área. Aliás, como vivemos na terra dos picaretas, todo mundo de uma hora para outra virou professor, músico, produtor, é só você fazer o seu cartão comercial e pronto, virou profissional do dia para noite.
Backstage: Um grande sonho da maioria dos músicos é poder viver dos proventos que essa profissão pode dar. Quais foram seus primeiros trabalhos na área de Computer Music?
Sérgio Terranova: Iniciei minha carreira musical na Jolisom, onde eu estudava na época. A unidade da Minami foi vendida para a Jolisom, que já era uma loja de instrumentos musicais. Eles compraram o ponto na Avenida dos Bandeirantes e continuaram com os cursos, além de inaugurarem uma loja no local. E em um daqueles Festivais de Órgãos que a Minami promovia no país todo, ganhei a etapa na minha escola. Eu tinha uns 13 anos e toquei uma música de minha autoria emendando Strangers In Paradise, uma música que eu conheci ouvindo Ray Coniffe, que minha avó adorava.
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Museu da Roland Japão |
Veja só, minha formação musical foi uma salada, eu ouvia um monte de coisa diferente: Ray Coniff, Roberto Carlos, Bossa-Nova, Rock Nacional, Música Clássica. Mas tudo mudou quando ganhei meu primeiro vinil aos 12 anos. Minha avó me levou ao supermercado e me deixou escolher um disco de presente. Peguei os dois álbuns duplos dos Beatles, um de capa vermelha e outro de capa azul, um tipo de coletânea extraoficial dos caras. Aquilo me deixou alucinado, eu ouvia os discos a toda hora e ficava analisando os arranjos de todos os instrumentos. Posso afirmar que nesse momento eu tive um salto na minha música, muita coisa mudou ali depois de ouvir os Beatles.
Mas voltando à questão, ganhei o Festival e a Jolisom gostou de mim, acharam que eu servia para alguma coisa na escola. Então, no final daquele ano (1989), me convidaram para “passar as férias” na escola. Eu poderia ir lá todos os dias, ficar mexendo nos equipamentos, aprender sobre eles com um vendedor/pianista que trabalhava lá, o Geraldo Bispo, que hoje é meu amigo e mora em Blumenau. Depois dessas férias, passei a ser funcionário da Jolisom, demonstrando teclados, pianos e órgãos e dando aulas de programação para quem comprava um destes equipamentos e quisesse aprender a programá-los. Ganhava um salário e estava feliz da vida, isso com 14 anos de idade. Durante meus anos de Jolisom, fiquei um mês na Alemanha, perto de Klobenz, na fábrica da Wersi. A Jolisom era a representante exclusiva da marca alemã no Brasil. Eles fabricavam órgãos e pianos digitais, e fui aprender a mexer em tudo para poder fazer as demonstrações e divulgar os produtos.
Backstage: A grande consolidação de um trabalho ao ser contratado pela poderosa Roland. Quando e como surgiu o convite para fazer parte desse grande time? Qual sua função atualmente dentro da instituição?
Sérgio Terranova: Depois da Jolisom, entrei na Technics em 1994 e fiquei lá até 2001. Trabalhei como especialista de produtos com eles e contribuí para o crescimento da marca no Brasil. Meu chefe da época, Celso Bento, me ensinou muita coisa e comecei a ter desafios maiores em minha vida. A Matsushita, dona da Technics, me contratou para programar cinco ritmos latinos para o novo lançamento, KN-6000. Aquilo foi um orgulho muito grande, fazer os ritmos da memória interna de um teclado top de linha, uau! E com todo esse trabalho de sete anos na Technics, criei um bom nome no mercado. A Technics encerrou suas atividades no Brasil em junho de 2001. Foi muito triste, lembro que saí chorando, praticamente fechando a porta do prédio junto com o Celso no último dia. E naquela época, eu não queria trabalhar em nenhuma empresa, queria atuar mais como músico, fazendo gravações em estúdios e divulgando o CD da minha banda da época, a Munjaua. Mas no final de julho, o Pakito me ligou perguntando se eu teria interesse em fazer uma entrevista na Roland, o Lucas Shiharata estava interessado em meu trabalho.
Aquilo foi um choque, a Roland querendo me contratar? A Roland sempre foi, e ainda é, a maior empresa de instrumentos musicais no Brasil. Para mim, era como ir para uma Mercedes Benz, Apple, ou seja, as melhores em seus segmentos. Mas eu não queria abandonar minha ideia de atuar mais, tocando. Resolvi aceitar a entrevista para ver como estava o meu nível no mercado, como um desafio. E a entrevista, que era para ser com o Lucas, acabou sendo com o Takao, irmão dele. Conversamos um pouco, ele me viu tocando, fiz uma proposta salarial, ele uma contraproposta. Dois dias depois, liguei para ele e aceitei o convite. Iniciei meu trabalho na Roland Brasil em 01 de Setembro de 2001. Entrei como Especialista de Produtos e hoje sou Gerente de Produtos nas divisões de sintetizadores, teclados arranjadores, pianos digitais de palco, v-accordion, nosso acordeon digital e produtos para DJ´s. São mais de sete anos trabalhando em uma empresa que era minha rival e que aprendi a amar. Agradeço aos céus todos os dias por poder trabalhar com música, algo que engloba arte, emoção, sentimento, mesmo em um ambiente de negócios e competição.
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| Musik Messe Frankfurt Alemanha / 2007 |
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Backstage: Um dos grandes diferenciais da Roland perante alguns fabricantes é o intercâmbio de informações com especialistas de todos os países para criação de novos produtos. Quais foram os projetos em que você se envolveu sendo o único brasileiro a fazer parte desse time?
Sérgio Terranova: Quando entrei na Roland, acabei participando da conclusão do teclado arranjador ALPHA-1, com ritmos brasileiros na memória interna. O projeto já estava todo pronto, ritmos, tudo, eu fiz mais a revisão das coisas. Foi muito bom, porque pude aliar minha experiência da Technics com essa, me dando bagagem para os projetos futuros. Em 2002, coordenei o projeto do teclado ALPHA-JR, o caçula da linha. E um ano depois, do ALPHA-07.
Nesses três projetos, tive contato com a engenharia da Itália, já que os teclados arranjadores da empresa vinham da fábrica que ainda temos em San Benedetto, perto de Ancona. Falava até por telefone com o engenheiro-chefe, Marco Cinaglia. Lembro-me da primeira ligação que recebi dele, “Boun Giorno Sérgio”, e pensei : “por isso que a Roland é a Roland”. Foram esses e outros detalhes que me fizeram ter a percepção do lugar onde eu estava trabalhando, da dimensão de uma empresa multinacional de verdade.
Depois desses projetos, no ano passado tive a melhor experiência profissional de minha vida. Fui para o Japão concluir o projeto do teclado GW-8. A versão latina desse teclado tem 50 ritmos brasileiros, todos desenvolvidos por nós em conjunto com a Roland Japão, usando músicos daqui e de lá. Em abril, estive na fábrica em Hamamatsu para revisar todo o projeto. Passei uma semana inesquecível, conhecendo o lugar de onde saem todos esses instrumentos mágicos. Conheci a linha de montagem, os estúdios onde fazem as sessões de gravação para samplers, o museu da Roland. Isso me deu mais orgulho de trabalhar para esta empresa. O engenheiro-chefe do Departamento de Sintetizadores, Ace Yukawa, gostou muito do meu trabalho e em maio, já no Brasil, recebi um convite da Roland Japão para preparar um material mundial de como demonstrar o GW-8 para vendedores e consumidores. Também fui convidado a integrar o time de especialistas da Roland, participando do desenvolvimento de novos projetos da empresa.
Backstage: Muitos especialistas musicais sacrificam em prol dessa atividade sua vida como músico. Como foi e como está seu contato com os “palcos da vida”? Sabemos que você teve um duo com outro grande especialista do nosso mercado, o tecladista Thiago Pinheiro. Quais os frutos dessa união de talentos?
Sérgio Terranova: Nem tudo é perfeito na vida. Infelizmente eu não posso tocar hoje em dia o tanto que eu tocava há três anos atrás. Tocar mesmo hoje, na Roland, só quando temos algum evento tipo Expomusic ou Dealers Meeting. Fora isso, é mais planilha, Power Point, reuniões, e ver os outros tocando e passando vontade. Mas isso é uma das nossas responsabilidades, você precisa crescer profissionalmente e tem que se aperfeiçoar em outras áreas.
Esse duo que tive com o Thiago foi uma pena não ter dado certo. Nós nos conhecemos em alguma Expomusic e trocamos contatos. Eu adorava tocar bateria no teclado e o Thiago é um dos que melhor faz isso, criou uma técnica impressionante, parece um baterista de verdade. Fizemos alguns ensaios na casa dele, mas foi justamente nessa época que eu estava entrando na Roland, o projeto não foi para frente por minha causa. Nossa ideia era ter uma banda de tecladistas, um fazendo bateria, outro baixo, outros harmonia, etc.
Mas mesmo eu não tocando o quanto gostaria, faço um som em casa, às vezes com alguns amigos, e também estou ligado em tudo que acontece no mundo musical. Você não pode ficar desatualizado. Muito do meu trabalho é julgar pessoas que possam fazer trabalhos ou se transformarem em parceiros da empresa. Não posso pegar qualquer um, tenho que escolher pessoas qualificadas, bons músicos, e para isso, preciso continuar tocando para não “perder a mão” nem a musicalidade.
Backstage: Outro grande diferencial da Roland: os Workshops realizados pelo Brasil. Como você vê a importância desse projeto? Quais as principais dificuldades de informações que você encontra nesse público?
Sérgio Terranova: A Roland sempre foi uma das pioneiras em Workshops pelo país. Nesses sete anos de empresa, já rodei o Brasil divulgando nossos produtos. É muito importante para nós esse contato com o consumidor e com o lojista. Nós fazemos as duas coisas nestas viagens: treinamos os vendedores e demonstramos os produtos para os consumidores. É diferente um consumidor ver uma demonstração de um vendedor e de uma pessoa da Roland, não desmerecendo o vendedor. E também é uma valorização da loja, mostrar para os clientes que a Roland tem uma parceria forte com aquela revenda. Só fico um pouco chateado que algumas lojas não divulguem esses eventos com a importância que eles merecem.
Também temos receio de certos eventos em São Paulo, pois o paulista acha que sabe tudo e que não precisa ir a evento nenhum, basta ver o produto na internet e ouvir as demos MP3. Aqui em São Paulo, temos que ter uma divulgação mais agressiva de nossos eventos para ter a presença do público. Já fora daqui, é mais fácil termos lotação máxima. O pessoal de outros estados tem carência desse tipo de coisa e adora conversar, trocar ideias e ouvir as demonstrações.
Backstage: O mercado musical também está buscando soluções para a crise bancária com o lançamento de produtos com qualidade profissional por preços mais acessíveis ao público. O que podemos esperar da dupla Terranova e Roland nesse ano que se inicia?
Sérgio Terranova: Essa crise veio em um momento em que nosso mercado estava super aquecido e indo muito bem. Ano passado foi o melhor da história para Roland Brasil, mas esse final de ano atrapalhou todo o mercado. A Roland foi a única empresa que não subiu preços quando estourou a crise, nossa lista de preços foi mantida até dezembro, em Reais. Enquanto todas as importadoras reajustaram seus preços, preferimos segurar a bronca e não estragar o final de ano do consumidor e dos lojistas.
Em 2009, iremos manter nosso direcionamento, com foco nas lojas e consumidores. Talvez não possamos fazer tantos Workshops, pois as viagens pelo Brasil são caras. Mas temos ferramentas interessantes para driblar isso. Nosso site estará repleto de vídeos com demonstrações de produtos, parceiros tocando, entrevistas, aproveitaremos ao máximo isso, já que o custo é bem menor que uma viagem e podemos atingir muito mais gente também. Temos um pós-venda muito forte, nosso suporte técnico é muito eficiente, nossos especialistas são muito capacitados, visitam periodicamente as lojas de São Paulo, temos contato por telefone e e-mail com o resto do país, e temos uma linha de produtos muito forte. A Roland hoje tem alguns produtos-chave, com o perfil do consumidor brasileiro, que é um dos mais exigentes em termos de custo-benefício. A linha JUNO tem sintetizadores com qualidade dos top mas por um custo bem mais baixo, temos a bateria digital HD-1, as pedaleiras BOSS ME, hoje todos podem ter acesso a um instrumento importado para iniciar seus passos musicais.
Espero contribuir com a empresa nesse ano que deve ser mais difícil que 2008. Mas é nesta hora de crise que vemos quem é bom. Você tem que ter ideias, tem que ser criativo, esperto, e eu gosto de trabalhar sob pressão, acho que vai ser um ano muito bom para nós.
Backstage: Gostaríamos que você deixasse uma mensagem às pessoas que buscam um lugar nesse mercado de especialistas em produtos, quais os caminhos e atalhos que você recomenda seguir.
Sérgio Terranova: Quando estava estudando música, eu nem sabia que existia um cargo de especialista de produto. Os caminhos da vida me levaram para esse lado e sou muito feliz por tudo que tive até agora. Antigamente, não dava para se preparar para este cargo, nem internet tínhamos direito. O que me serviu de base foi a música, foi onde me apoiei. O resto, fui aprendendo com o tempo, com meus chefes, meus colegas de trabalho. Procurei absorver tudo que pude de todas as pessoas com quem trabalhei. Adoro observar os outros, pegar o que cada um tem de bom, aprendo mais todos os dias.
Além de ser um bom músico, você precisa ser eclético, não dá para ser especialista e não tocar forró ou rock porque não gosta, tem que tocar de tudo. Estamos trabalhando com clientes que vão de jovens a idosos, podem gostar de qualquer estilo, é nossa obrigação agradá-los. E com a internet, hoje é muita moleza pesquisar equipamentos, ver vídeos de grandes tecladistas, baixar partituras, MP3. Parece que quanto maior a facilidade, maior a preguiça. O pessoal gosta mesmo é de ficar falando besteira em Orkuts e fóruns, discutindo gostos e tentando ser o sabe-tudo. Quer ver coisa ridícula é entrar em um fórum desses em que os caras tentam impor suas preferências por equipamentos ou gênero musical perante os demais.
Tendo essa base de informações, você precisa estar no meio musical, visitar a Expomusic, ter um My Space, um site, hoje temos muitos meios para divulgar a carreira. Ter contatos é muito importante, eu contrato muita gente através de terceiros, pessoas que me apresentam pessoas. Tem que saber balancear as coisas, se você ficar só na tela do computador, vai viver em um mundo virtual e irreal.
