Vou fazer uma pequena pausa na minha série sobre Música e Educação para expor uma conversa que tive com Gustavo Victorino, colunista da revista Backstage sobre o “fenômeno” da música universitária. Nesta conversa discutimos qual seria a origem desta nova moda, se seria uma jogada de marketing de gravadoras, algum furor jornalístico em busca de uma nova pauta no caderno cultural ou então se seria um movimento espontâneo do público. O Gustavo acabou sugerindo que esta reflexão se tornasse um artigo. Então aí vai a minha opinião sobre o “fenômeno musical universitário”:
O rótulo universitário não foi criado por jornalistas “muderninhos” ou executivos de gravadoras decadentes. O rótulo universitário é uma demanda do próprio público que consome este tipo de música.
O adjetivo universitário colocado ao lado de um gênero musical tem uma mensagem subliminar embutida, e quer dizer: aqui não entra pobre. Só que isso não pode ser dito.
O forró, durante décadas, no Rio de Janeiro, era a música dos imigrantes nordestinos, normalmente pertencentes a uma classe social mais baixa. Tanto que é muito comum se referir a eles de forma pejorativa como "Paraíba".
Eu amo meu país, amo a musica brasileira, mas sou contra qualquer tipo de xenofobia e acredito que a música é uma arte universal que cruza todas as fronteiras entre nações e se interinfluência constantemente. O próprio xote, um dos principais gêneros tocados no forró, tem influência direta da chula portuguesa. A bossa-nova tem influência do jazz americano que por sua vez tem influência de Debussy, francês e do Blues, cujas origens são africanas... O chorinho é resultado do cruzamento do samba africano com harmonias e melodias da música clássica europeia... Falar em nacionalismo a respeito de música é simplesmente não ter a menor noção do que é música e de como ela evoluiu durante os séculos.
Mas nossos pseudo-intelectuais, especialmente os das universidades públicas, decretaram há uns dez anos atrás que o forró agora seria a sua trilha sonora (como antes já foi a bossa-nova, clube da esquina, etc...). O forró, música genuinamente brasileira, seria agora uma resposta à música imperialista dos EUA... Não se podia nem tomar coca-cola porque era uma bebida imperialista... Colocar o forró como uma resposta ao imperialismo cultural americano chega a ser engraçado, se não fosse trágico constatar que nossos universitários “ antiEUA ” não sabem nem de história do Brasil. A origem do termo forró vem do inglês.
A palavra vem do inglês "For All"... Na verdade, a música forró não existe. Forró não é um estilo musical. Forró é um evento, uma festa. A origem de nome inglês vem de festas que os americanos realizavam na sua base na localidade de Pici, a oeste de Fortaleza no Ceará em 1942, durante a segunda guerra mundial.
Os americanos, para conquistar a simpatia da população local, promoviam festas abertas às comunidades vizinhas e comunicavam que estas festas eram “for all”. Os americanos contratavam músicos locais para que a música também fosse de agrado aos convidados brasileiros. E nestas festas se tocava xote, baião, coco, maxixe, e vários outros ritmos que compõem a música nordestina. Mas forró, bem este ritmo nunca existiu. Forró era o evento, não a música. O mais engraçado é que For All virou forró, quer dizer “para todos”, “aberto a todos”. Bem, se é "Para Todos", como é que pode ser universitário? O termo “forró-universitário” é uma antítese na sua essência.
Desconhecendo este detalhe da história do Brasil, estes mesmos "intelectuais" começaram a criar forrós exclusivos em ambientes semifechados , para seus semelhantes. Os imigrantes nordestinos, muitos deles trabalhando como porteiros nos prédios onde moravam os universitários que agora admiravam a música oriunda da sua terra, não faziam parte de seu ciclo de convívio social e com certeza não haveria uma mistura de castas em um mesmo ambiente.
O mais interessante é que a maior parte destes intelectuais são esquerdistas, e dizem defender as causas populares... Como em toda e boa ideologia revolucionária, prevalece o "faça-o-que-eu-digo-mas-não-faça-o-que-eu-faço". O próprio nome é autoexplicativo: forró universitário. Só entra universitário. Vamos brincar de povão sem se misturar de fato com o mesmo.
Quanto ao pagode e sertanejo universitário, vejo uma variante disso: a decadência do ensino neste país. Existe música sertaneja e samba de raiz de extrema qualidade por aqui. Mas também existe muito lixo nessa área.
Como hoje para se entrar em uma faculdade particular basta pagar a matrícula e a mensalidade, e a mesma faculdade forma pessoas que simplesmente não sabem escrever português, e, claro que o nível cultural destas pessoas também é baixíssimo. Isso reflete no seu gosto musical. Sertanejo e pagode de baixíssima qualidade.
O problema é que a música sertaneja e o pagode são estilos de grande penetração popular, associados ao povão. No entanto o mais novo universitário que agora paga uma mensalidade de R$ 300,00 para ser doutor não quer mais se sentir povão. Então é criado um rótulo de segregação acadêmico-censitária para separar o sertanejo que tem dinheiro para pagar uma faculdade do sertanejo que não tem. Afinal o universitário esnobe não quer ir a um show e encontrar a sua faxineira na plateia ... A maioria deles não passaria nem em uma prova de oitava série de uma escola mais séria. Já o universitário que não é esnobe, que estuda por vocação, não está nem aí se o forró é universitário ou não. Ele apenas quer se divertir e vai tratar a todos com a mesma dignidade e respeito.
Universitários se rebelarem contra o rótulo de música universitária? Doce ilusão. Se eles pudessem comprar o diploma à distância e nem chegar perto de um livro eles o fariam. Já os patropis esquerdistas, que normalmente tiram notas baixas e ficam dez anos na faculdade, pior ainda. Dizem que estão se rebelando contra o sistema burguês, mas na verdade vão acabar manipulando algum acordo político no DCE em troca de uma grade de cervejas como um simulado para ir depois para Brasília entrar em algum esquema de mensalão... E o topo que um patropi desses pode alcançar é um lugar perigoso. Pode se tornar um ditador sul-americano usando o povão, que ele diz tanto admirar, como massa de manobra.
Universitários medíocres de esquerda ou de direita, tanto faz, não gostam de povo. Por isso a sua música tem que vir com o apêndice "universitário" a tira colo. Provavelmente a próxima grande novidade vai ser o "Funk Universitário". E com certeza os funkeiros que realmente iniciaram o movimento do funk estarão fora dos bailes funk universitários.
Abraços