Digital Releases
Produção Musical - Ticiano Paludo
Ticiano Paludo é produtor musical, publicitário, músico, compositor e sound designer. Leciona Áudio Publicitário e Atendimento na FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social (PUC/RS) - e Arranjo e Produção Musical Nível III no IGAP - Instituto Gaúcho de Áudio Profissional.
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Já escrevi aqui na Backstage sobre o saudosismo provocado pela reedição do vinil (ainda que caro e para colecionadores). A polêmica não se restringe a questões sentimentais e vai além. Tem gente que não gosta de ter milhares de arquivos MP3 armazenados no computador. Logo, tem muita gente que não gosta de Digital Releases

Recentemente, meu amado e querido mestre #1 Sir George Martin declarou ao jornal Washington Post que realmente não simpatiza com arquivos de MP3, que não quer ter 10.000 faixas armazenadas em seu computador e, consequentemente, não curte Digital Releases.

Se por um lado o mercado musical amarga, por outro a cadeia produtiva nunca teve tantos recursos acessíveis para criar, gravar e lançar o seu material. O problema todo é que essa democratização é boa para o povo (qualquer um hoje, bem ou mal, grava e lança qualquer coisa), mas tem um traço negativo que não pode ser deixado de lado, e esse reflexo negro ofusca justamente os músicos profissionais (aqueles que vivem de música) e que realmente têm algo de bom a dizer. Falo isso, pois esses dias em conversa de corredor com o amigo, mestre, professor e jornalista Juremir Machado da Silva, me queixava dessa avalanche assustadora de conteúdo, (des)informação que é disponibilizada e atirada sobre nós diariamente ao que ele, calmamente, disse: falar todo mundo fala, agora, são poucos os que têm algo realmente interessante a dizer. Esse pensamento ficou rondando a minha cabeça por meses e me dei conta de que é isso mesmo que ocorre. Mas, no nosso caso musical, a dificuldade é justamente fazer com que o ouvinte perceba o que é e o que não é bacana de se escutar, isto é, quem realmente tem algo interessante para comunicar musicalmente. Achar essa gente bacana e pensante nem sempre é fácil.

Não faz muito tempo (e me refiro ao início dos anos 90), só gravava um álbum quem era contratado por gravadora ou quem era rico e podia se dar ao luxo de bancar não só a gravação, mas a prensagem de um vinil. E olha que não era barato, não. Hoje em dia, prensar mil cópias de um álbum em CD industrial com um bom projeto gráfico, bons estúdios, boa masterização, um produtor musical sério e competente e distribuição adequada não sai por menos de 40 mil reais. Um álbum de mainstream brasileiro nos anos 90, dependendo do caso, poderia chegar a casa de 1 milhão de reais. Então, 40 contra 1 milhão é logicamente um sinal dos tempos e um sinal saudável desta inclusão na cadeia produtiva. Ainda nos anos 90, era comum ver pessoas se aglomerando em lojas americanas (essa histeria não era comum no Brasil) para comprar um lançamento (como ocorre atualmente nessas liquidações relâmpago que os grandes magazines costumam promover, essa sim, histeria de brasileiro).

Embora saibamos que a gravação (e tudo mais que foi dito antes) significava um investimento considerável, o problema maior acabava sendo sempre a distribuição. Como, por exemplo, gravar e lançar um álbum em Belo Horizonte e fazer com que o mesmo fosse vendido em Salvador e Manaus? Na metade dos anos 90, as distribuidoras independentes começaram a aparecer. Talvez, duas das mais conhecidas sejam a da Trama e, a mais famosa entre o povo indie, a Tratore. Porém, ainda estamos falando de distribuição física. Com a entrada das distribuidoras independentes, o problema de distribuição parecia resolvido. Na prática, notou-se que não era bem isso o que acontecia. As lojas que comercializavam música gravada nos anos 90 eram famosas (e isso em grande parte do Brasil, salvo lojas especializadas como as da Galeria do Rock – em São Paulo – ou da Galeria Lusa – em Porto Alegre) pela absoluta falta de conhecimento musical de seus vendedores. Então, receber o CD via distribuidora independente eles recebiam. O que acontecia era que o CD recebido acabava atirado em um canto, muitas vezes em um canto que não correspondia em nada com o foco do produto: daí era comum ver CD de metal largado na seção de reggae, CD de rock na de regional e assim por diante. Isso quando você não perguntava ao vendedor se tinha tal lançamento e ele (incompetente e míope pelo mainstream) dizia piamente que não, mas que na semana que vem iria chegar (mentira, pois o álbum já estava perdido em algum canto da dita loja). Como o único papel da distribuidora era o de distribuir o álbum (e isso, não se pode negar, era feito), o posicionamento dentro da loja acabava sendo de responsabilidade do próprio lojista. Ou seja, ainda que o álbum estivesse lá, era quase como se não estivesse.

Estamos em 2009 e muitos artistas hoje podem contar com uma coisa que, embora não resolva de todo o problema, é fantástica: Digital Release + Aggregator. O Digital Release (e é muito comum hoje vermos o Digital Release Only), é nada mais do que o lançamento digital/virtual de um álbum. Assim, não existe suporte físico (vinil ou CD) e compram-se apenas os arquivos digitais. Os formatos oferecidos para venda variam, mas o mais comum é que o álbum seja oferecido nas modalidades Ultra Hi WAV (44.1Khz, 16Bits, Estéreo), Hi MP3 (44.1Khz, 16Bits, Estéreo, 320Kbps), Mid MP3 (44.1Khz, 16Bits, Estéreo, 192Kbps) e Low Mp3 (44.1Khz, 16Bits, Estéreo, 128Kbps). Em todos os casos citados anteriormente, não existe trava de segurança. Uma vez que o arquivo foi comprado e baixado, ele pode ser copiado livremente. Alguns portais ainda oferecem única e exclusivamente a opção de se comprar arquivos no formato WMA (Windows Media Audio), pois ele permite a acoplagem do DRM (Digital Rights Management), sistema que limita e/ou impossibilita cópias ilegais. O problema é que o formato WMA não colou como o MP3. O iPod, por exemplo, não lê esse formato. Então, vamos ao MP3. Daí você pergunta: qual o argumento de venda que se utiliza para vender MP3 já que o mesmo pode ser copiado “livremente”? O único argumento de venda plausível (e é esse que se utiliza) é o de que, em primeiro lugar, você terá a certeza de estar fazendo o download de um arquivo perfeito, que foi fornecido pela própria gravadora ou diretamente pelo artista. Assim, fica-se livre de possíveis vírus ou áudio clipado (aquele arquivo que tem o som “estourado” e distorcido, possivelmente devido a problemas durante o processo de ripagem de CD para MP3). Em segundo lugar, o dinheiro realmente vai parar na mão do artista independente. E por fim, você está sendo honesto e pagando por um produto artístico que demandou tempo, esforço emocional e investimento monetário.

Os distribuidores digitais são chamados de Aggregators (o que traduzindo, seria algo como agregador de conteúdo). Normalmente, oferecem diversas modalidades de distribuição, combinando, inclusive, a distribuição física (CD e vinil) com a distribuição digital (WAV, MP3, WMA). Alguns oferecem também estratégias de marketing digital e lançamento. Muitos geram, automaticamente, os chamados Audio Clips (aquele famoso preview de trechos da faixa que está à venda). O envio do material é feito via correio convencional, através de ferramentas próprias de upload ou ainda por FTP. O valor de venda é fixado segundo padrões de mercado (em média cerca de US$ 1,50) e em certos casos pode ser determinado pelo próprio artista. É possível oferecer descontos no pacote (na compra do álbum completo), assim como a venda de faixas individuais. O Digital Release Only ainda não foi bem assimilado pelos brasileiros. Neste caso, não existe álbum físico, apenas e exclusivamente virtual. Contudo, é sim um álbum, que inclui material gráfico (normalmente em formato JPG ou TIFF). É interessante notar a falta de visão de algumas pessoas. Aqui em Porto Alegre, existe um prêmio chamado Açorianos, que, dentre muitas categorias, premia os melhores álbuns lançados a cada ano. Já tentei, mais de uma vez, inscrever trabalhos meus que foram lançados internacionalmente como Digital Release Only e não obtive sucesso, pois os mesmos não foram considerados álbuns, pois “não existiam” no mundo real!!! Acredito que seja apenas uma questão de tempo e maturidade para que equívocos como esse parem de ocorrer.

E onde se vende esse material todo? Existem diversos vendedores digitais espalhados pelo mundo todo (sendo do iTunes da Apple o mais famoso deles, infelizmente indisponível para nós brasileiros, seja para compra ou venda de áudio). A maioria não aceita negociar diretamente com pequenos selos, porém, utilizando um Aggregator, é possível colocar a sua música à venda simultaneamente em diversas plataformas, incluindo até a Amazon e o já citado iTunes. Logicamente, a simples disponibilização desse material não garante nada, exceto que ele estará lá para ser adquirido. Estratégias de marketing digital se fazem necessárias, pois, ter áudios disponíveis é similar a estar na loja física, atirado em um canto. Uma das diferenças dos vendedores digitais é que o indexamento (tags) por estilo é eficiente, evitando que seu cd de metal seja vendido como sertanejo. Claro que como em qualquer negociação que envolva distribuição, existe um custo a ser pago (valor de start inicial e mais uma comissão percentual sobre cada venda efetiva). Porém é um custo bem convidativo e vale a pena. É possível acompanhar as vendas em tempo real, saber o que vendeu e quantas cópias foram vendidas.

Finalizando, embora romanticamente eu concorde com meu ídolo Sir Martin, vou ter que discordar, realisticamente falando. O grande problema da indústria do disco é que ela não tem querido conversar com essa garotada que já nasce com um pen-drive acoplado ao cordão umbilical. Essa moçada não está assim tão preocupada com a qualidade e pureza de uma gravação (tanto é que para grande maioria, um arquivo de WAV em 24Bits e um MP3 em 128Kbps tem o mesmo som). Ter 10.000 ou 20.000 arquivos no computador faz parte dessa geração. A nossa tarefa é fazer com que nosso artista esteja no Top 40 desses 20.000. Vivemos em um período de reconfiguração e transição. O modelo de negócio mudou e mudaram os hábitos do consumidor. Mudaram as estações, tudo mudou, está tudo assim tão diferente. Talvez por não entender isso é que as majors estejam fadadas ao desaparecimento. Será? Só o tempo vai mostrar.

Uma observação é que, embora discorde de suas posições que negam a realidade atual, ainda acho George Martin o produtor mais fantástico do mundo!

Abraços e até!

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