Um olhar sobre Sgt. Peppers
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Ticiano Paludo |
Diversas vezes, quando me entrevistam, sempre perguntam sobre referências que escuto, bandas, produtores e artistas que admiro. Nesses casos, constantemente respondo que meu álbum de
cabeceira é Sgt. Peppers dos Beatles
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No ano passado, dediquei aqui na Backstage cinco colunas (da edição nº160 até a nº164) em que explorei, em forma de fascículo, 50 fonogramas interessantes de se ouvir e aprender, independente de estilo musical. Tenho consciência do papel que ocupo aqui na Backstage, de ser um formador de opinião em um veículo respeitável de ampla circulação e prestígio. Portanto, mais uma vez (e continuarei fazendo isso), volto meu olhar para uma obra artística importante em forma de análise e consequente aprendizado. Por que isso? Como vocês sabem, leciono áudio em uma das mais respeitadas faculdades de comunicação social do país. Tenho contato com uma diversidade de jovens e uma coisa tem me preocupado bastante: falta de repertório cultural. O que é repertório cultural? Bagagem, conhecimento. No caso da música, quanto mais coisas interessantes e relevantes a gente ouvir, maior será o nosso conhecimento sobre o todo. Concordo que é impossível ouvir tudo (eu não consigo e ninguém consegue). Deste modo, se a gente pelo menos ouvir e analisar criteriosamente alguns trabalhos que têm muito a dizer, nosso repertório se nutre. Como consequência, produzimos trabalhos mais inventivos e interessantes. Portanto, o que exponho a seguir é uma parcela de um paper (artigo acadêmico-científico) que apresentei recentemente em um congresso internacional no qual analiso a importância deste disco dos Beatles e de como ele mudou a maneira de se pensar um álbum desde então. Isso faz parte do trabalho que venho desenvolvendo em minha dissertação de mestrado (que concluirei ao final desse ano). O que você lerá a seguir é um resumo desse recorte proposto por mim. Ao final dessa coluna, indicarei onde o paper pode ser baixado e lido na íntegra para os que se interessarem em aprofundar a análise. Todos prontos? Então vamos lá.
Em 2007 comemorou-se os 40 anos de lançamento de uma das obras musicais mais emblemáticas do rock: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band. Muito se comentou a respeito, tributos foram lançados, mas pouca gente parou para refletir sobre os reais reflexos deste álbum na cybermusic. Em minha pesquisa de mestrado, estou dissecando esta obra e procurando compreender o que ela tem de tão especial, fora belas canções. A conclusão é que não é pouca coisa.
Em primeiro lugar, a forma de se pensar um álbum musical mudou a partir dele. Antes, os álbuns eram mais um amontoado de canções, muitas vezes sem conexão entre as faixas. Fora isso, as gravações funcionavam como retratos fiéis da realidade, ou seja, se a banda era formada por baixo, guitarra, bateria e voz, era isso, e apenas isso o que se ouvia na gravação. Os recursos de camadas sonoras adicionais (os chamados overdubs, ainda sofríveis na época, principalmente devido às limitações técnicas) eram quase inexistentes. A primeira lição de Peppers é a de que álbum é álbum e show é show. Ou seja, os Beatles não estavam preocupados em reproduzir o que seria gravado em uma apresentação. O álbum já era o próprio show. A sua comercialização assumia o lugar da tour. Excluindo-se a motivação de explorar novos horizontes, sonoridades e técnicas de gravação, um dos principais catalisadores desta obra foi o fato de os Fab 4 estarem cansados de apresentações ao vivo, cada vez maiores, e nas quais não conseguiam ouvir o que estavam tocando. Isso ocorria, pois os gritos histéricos das fãs superavam a potência dos amplificadores da época.
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A Pop Art de Andy Warhol e seus seguidores já carregavam os genes da contracultura dos anos 60 que nos anos 70 explodiriam com o movimento punk através da bandeira do it yourself (faça você mesmo). O que os Beatles fizeram foi redirecionar esse sentimento para a cultura pop, para o rock e, consequentemente, para a indústria do disco. Em resumo, liberdade criativa, sexo, drogas e rock’n’roll. Mas poderiam os Beatles se dar a esse luxo? Para evitar problemas, resolvem criar a “virtual” Banda dos Corações Solitários. Se eles não poderiam ousar tal caminho (confinados na maldição de serem os Beatles), a dita Banda estava apta para tal empreitada. Através destes pré-avatares, o quarteto se libertava para experimentar uma outra proposta, uma outra vida, uma nova e provocante sonoridade. Esta mudança de identidade (musical e pessoal) não se restringiu apenas a eles. Quando gravaram a faixa A day in the life, recrutaram músicos de orquestra sinfônica que apareceram para a sessão vestidos a caráter (entenda-se traje de gala como se costuma ver em apresentações eruditas). O que fizeram os Beatles? Distribuíram adereços de carnaval aos integrantes da orquestra para que eles também assumissem uma nova identidade. O convite (aceito) era o de que, naquele momento mágico, todos fossem um personagem, se permitissem viver uma vida paralela e livre.
Atualmente, todos nós carregamos um certo traço de integrantes desta orquestra quando navegamos na web: seja no MSN, Second Life, Orkut, Flicker, Blogspot, Myspace, Facebook, Twitter e mais uma infinidade de exemplos, muitas vezes adotamos um avatar, colocamos nossos adereços e brilhamos no ciberespaço. Uma das principais mudanças na comunicação atual é a transição do paradigma um-todos (entenda-se meios de comunicação de massa dirigindo-se verticalmente para o público) para o todos-todos (todo mundo pode criar e distribuir conteúdo de forma horizontal e livre). A era hippie agora se metamorfoseia na era hype. Qualquer pessoa pode ter acesso aos meios de produção e circulação da música (basta ver a proliferação dos home-studios com preços cada vez mais acessíveis e interfaces amigáveis).
O álbum também marca a inclusão das letras como parte vital da obra (até então este recurso não havia sido explorado), e da ideia de conjunto de faixas que formam uma narrativa. A arte atual se nutre principalmente de recombinações, recortes e colagens. A bola da vez é o mashup (que pode ser entendido como triturar, vide coluna que publiquei na edição nº159 aqui na Backstage) que consiste na combinação de recortes antagônicos de obras existentes para se produzir uma nova obra (lembrando que a Pop Art já fazia isso). Daí vale, por exemplo, recombinar Ivete Sangalo e Metallica. Os remixes (nova roupagem para velhas canções para conferir-lhes caráter de sofisticação ou simplesmente para se apreciar e dançar, vide edição nº158) foram amplamente difundidos pelos DJs (os artistas modernos de hoje), principalmente no final dos anos 80. Seria a customização da música? A resposta é sim. Customização é um termo amplamente utilizado pela moda atual, que prega a valorização da diferença e da personificação contra a massificação. Após uma análise criteriosa, podemos perceber tudo isso dentro de Peppers. Colagens (sonoras e visuais – basta olharmos para a capa), customização, avatares, liberdade criativa, o novo pedindo passagem ao velho. Como o próprio George Martin disse, os Beatles queriam pôr o mundo inteiro dentro do álbum. Não seria este, também, o sonho da Wikipedia? O mundo inteiro, construído With a little help from my friends?
Existe um livro fora de catálogo traduzido para o português que já li e releio sempre. Este livro, escrito por George Martin, explica claramente como o álbum foi concebido, produzido, lançado e comercializado. A primeira cópia que consegui foi através de um xerox providenciado por um amigo. Neste ano, após buscas constantes, adquiri um exemplar no Mercado Livre. Não é tarefa fácil achar esta pérola (e realmente não sei porque não a reeditam), mas de qualquer modo, recomendo sua leitura. A dificuldade de encontrar um exemplar disponível é diretamente proporcional ao prazer e enriquecimento que a leitura proporciona.
Enfim: os tempos mudam, mudam os públicos e as sonoridades. Ser moderno é mais fácil do que ser eterno. Ser contemporaneamente atual é para poucos. A utilização de ruídos como instrumentos musicais, embora já explorados pela música concreta no início do século, também foi conduzida ao Pop graças a este disco. Os Beatles (aliados à sabedoria e talento do produtor George Martin) parece que conseguiram tal feito. Afinal de contas, é impossível negar que praticamente todos os traços que permeiam a cibercultura, a música eletrônica e a vanguarda atual merecem reverenciar esta obra como gênese de suas criações atuais. E não se preocupe, Paul: você já passou dos 64 e continua influenciando as novas gerações.
Livro citado nesta coluna:
MARTIN, George. (1995). Paz, Amor e Sgt. Peppers. Rio de Janeiro: Relume-Dumará.
Blog Ticiano Paludo:
A partir de agora estou também com um blog chamado Mixtape 2 The People (http://mixtapetothe people.blogspot.com) no qual escrevo sobre diversos assuntos bacanas relacionados à cultura e música. Neste blog, é possível fazer o download do paper a qual me referi nesta coluna.
Abração e até o mês que vem.

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