Por aí...
Gustavo Victorino
 

PERDIDO
Na última noite do Rio das Ostras Jazz e Blues, o impagável Randy Hayes, baterista de Coco Montoya, decidiu conhecer mais a fundo a cidade e literalmente partiu para a guerra. Preocupadas com o sumiço do músico, a produção do evento conseguiu localizá-lo no outro dia. A caipirinha com cerveja e o sorriso de algumas fluminenses foram devastadores para o rapaz que é a cara do ator Denis Quaid. Resgatado em seu ninho, o moço não mostrou muita vontade de voltar para os EUA.

DA ÁFRICA
O gaitista Jefferson Gonçalves voltou do Senegal com muitas histórias para contar, mas em todas elas um lugar comum – o amor dos africanos pela música. Presenteado com instrumentos que são verdadeiras preciosidades culturais, o músico apenas confirmou aquilo que prego há décadas. A África é bem mais do que o berço dos ritmos. Ela simboliza a própria música, e em sua essência lá reside o germinal da maior manifestação cultural do homem.

REENCONTRO
18 anos depois, reencontro o cubano Júlio Fernandes, guitarrista do Spyro Gira, que conheci nos corredores da Washburn Internacional, em Chicago. No passado, ao ser apresentado pelo então vice-presidente da empresa, Dee Tatum, Júlio foi logo mostrando sua curiosidade pelo Brasil. Depois de tantos anos, ele não me poupou de uma observação bem humorada sobre a minha “forma física”. Manifestação que foi imediatamente retribuída na mesma moeda e bom humor.

DIFERENÇA
O guitarrista Big Joe Manfra é um dos produtores executivos do evento e com profundo conhecimento de causa ele vaticina. “A diferença de profissionalismo entre os artistas nacionais e internacionais ainda é grande”. Rapidamente ele enumera algumas coisas que vão desde a manutenção de um completo rider técnico e mapa de palco, até a opção descritiva de equipamentos e alternativas de luz para o espetáculo. Manfra morou nos EUA e trouxe de lá também a experiência de bastidores. Segundo ele, o artista brasileiro precisa pensar um pouco mais profissionalmente na logística e acabamento do seu show. Concordo plenamente com ele. Nosso talento há muito precisa também de uma melhor embalagem.

SUCESSO
O pequeno Pipoquinha, um menino franzino de apenas 13 anos, foi uma das mais comoventes sensações do Festival 2009. O cearense Michael da Silva foi convidado pelo gaitista Jefferson Gonçalves para uma canja em seu show. O menino subiu ao palco e tocou contrabaixo de forma impressionante, causando surpresa não apenas na plateia, mas também entre os músicos presentes nos bastidores. Acabou sendo convidado para também participar do show da Big Time Orquestra e de Coco Montoya. O guitarrista americano não escondeu a sua surpresa com o talento do menino. ”Não existem palavras para definir esse garoto. Ele é inacreditável”.

UM GOVERNANTE ESPECIAL
O prefeito Carlos Augusto, de Rio das Ostras, faz parte de uma classe toda especial de políticos que infelizmente é cada vez mais raras em nosso país. Com um discurso apolítico e direto, o mandatário da cidade foi reeleito no ano passado exatamente por sua visão abrangente de administração pública voltada ao bem comum e sem o apelo do populismo barato. “Nossa cidade tem um crescimento sustentado e planejado, em que a educação, saneamento básico, saúde e segurança são prioridades no nosso governo. E cultura é também parte integrante disso. Construímos um festival que se tornou conhecido no mundo inteiro e isso precisa ser respeitado”. A afirmação é de um prefeito que teve o orçamento do município cortado em quase 40% por conta da queda de repasse dos royalties do petróleo. Carlos Augusto é a prova de que nas crises enquanto alguns choram, outros crescem vendendo lenços.

O PREFERIDO
O lendário John Hammond foi o campeão de entrevistas em 2009. Entre todos os artistas do festival, o bluseiro teve um assédio que justifica sua importância para a história do blues visceral do delta do Mississipi. O músico concedeu entrevistas para a imprensa nacional e internacional.

CORAGEM E GRANDEZA
Enquanto o mundo se assusta com a crise econômica amplificada pela covardia travestida de prudência, a cidade de Rio das Ostras, no litoral norte do estado do Rio e Janeiro, dá uma amostra de como lidar com a adversidade financeira com criatividade e talento. Sede do maior festival de jazz e blues da América Latina, Rio das Ostras realizou a sétima edição do evento que literalmente não tem mais para onde crescer. A festa já é referência mundial e artistas nacionais e internacionais recebem o convite para participar do evento como uma referência em suas carreiras.

PRESTÍGIO
O empresário Stênio Mattos, da Azul Produções, responsável pelo evento, tem na sinceridade a sua marca registrada. Perguntado como conseguiu manter o altíssimo nível de qualidade do festival com menos recursos, ele não se fez de rogado. “Os artistas querem vir tocar aqui. O Rio das Ostras Jazz & Blues hoje só fica atrás do Festival Mundial de New Orleans por motivos óbvios. De resto, sou sempre bem recebido por qualquer artista americano ou europeu que não esconde a alegria de ser lembrado para participar do nosso evento. Isso foi à custa de anos de trabalho em divulgação e investimentos. E essa conquista hoje nos dá seus frutos”. Coisas assim explicam porque Stênio Mattos é reconhecido como o número um do segmento jazz e blues no Brasil.

HISTÓRIA
Para os jazzistas mais antigos, a presença do grupo Spyro Gira em Rio das Ostras foi além do belo show da banda. Criadores do jazz fusion, tão badalado dos anos 90 para cá, o Spyro Gira foi o primeiro grupo a mesclar de forma definitiva os elementos do jazz, do rock e do pop em um mesmo caldeirão sonoro que vai da sutileza minimalista ao power groove de puro swing. Essa mistura, tão comum nos dias de hoje, foi criada pelo grupo que há 30 anos ousou e nem sempre foi suficientemente compreendido.

IMPRENSA
Discreta e, sobretudo, competente, a jornalista Andréa Loureiro não pode deixar de ser aplaudida por tudo que vem sendo realizado ao longo dos anos em Rio das Ostras. A profissional é a responsável pelo atendimento à imprensa que, cá entre nós, não é tarefa fácil. Educada, bem humorada e profissional, ela recebe com o mesmo carinho e atenção os veteranos e os novatos de um evento, que por sua variedade e logística, exige rotinas complexas de traslados e suporte operacional a dezenas de profissionais que cobrem os muitos shows pela cidade. Para eles, a jornalista é unanimidade.

O MELHOR
Unanimidade no festival sempre foi e continua sendo o público. As expressões utilizadas pelos músicos são as mais variadas possíveis. Educado, pacífico, vibrante, participativo, respeitoso são apenas alguns dos adjetivos que tentam definir uma plateia que, em todos os três palcos do evento, contagia de forma única e faz com que o artista inevitavelmente se emocione com o que vê à sua frente. No segundo dia do evento, a chuva insistia em conspirar e o público respondeu aos céus de uma forma inesquecível. As pessoas levantaram suas cadeiras sobre as cabeças e não moveram pé da cidade do jazz na praia da Costa Azul. Ao ver a cena, o guitarrista Coco Montoya marejou os olhos.

CRISE?
Mesmo admitindo um necessário corte de custos, ficou imperceptível qualquer tipo de limitação ou restrição imposta por verba menor. A isso chamamos talento e competência. Impossível não aplaudir a Prefeitura de Rio das Ostras e a Azul Produções.