Opinião - Tá na telinha...
Ricardo Mendes
 

Nos meses passados, falei sobre a “crise” cultural e educacional. Como já disse, os culpados são absolutamente todos os envolvidos com a produção cultural. Eu incluído... Vamos continuar a dissecar a culpa de cada uma das partes, sem rancores ou partidarismos

Vou pedir praticamente o impossível: ao invés de se defender, ficar chateada ou ofendida, cada parte deveria analisar a sua parcela de culpa e ver se realmente está dando a sua contribuição para o desenvolvimento da cultura ou apenas vê a cultura como mais um mercado a ser explorado. O que tento fazer não é acusação e sim uma proposição à reflexão.

Como foi dito nos artigos anteriores, os culpados, sem ordem de importância e em ordem alfabética: os comerciantes de música, os contratantes, o estado, a imprensa escrita, os músicos, o público, as rádios e a televisão. Se não esqueci ninguém, absolutamente todo mundo envolvido de alguma maneira com a música, incluindo eu. Hoje é a vez da:

TELEVISÃO:
Chegamos ao último artigo da série! E para fechar com chave de ouro, a maior ambição de todos os aspirantes ao sucesso: a televisão.
Vamos partir de uma premissa consumada neste país: é impossível ser reconhecido em escala nacional sem passar pela televisão. Nunca ninguém conseguiu e provavelmente não conseguirá. Não nos próximos anos. Sei lá o que vai acontecer de revolução tecnológica.

O fato é que a teledifusão detém real e total poder sobre quem pode vir a fazer sucesso em larga escala. Até aí, nenhuma novidade. Eu realmente sou peixe pequeno para tentar alguma ação contra este sistema. A minha intenção é levantar pontos em que esse poder influencia no cotidiano profissional do músico.

Primeiro, vamos a uma constatação em relação à novela das oito (que começa às 20:45h). Este é o horário mais nobre (e mais caro) da televisão brasileira. O intervalo comercial é o mais caro de todos neste período.

O que mudou nas novelas das oito nos últimos anos? Alguém se arrisca a dizer? Bem, a mudança sutil, mas significativa para o mercado musical, foi a da trilha de abertura das novelas. Até uns dez anos atrás, a música tema da novela era uma música de lançamento, ou seja, de um artista em atividade e cuja música estava sendo lançada com o disco concomitantemente com a novela. Ou seja, aquela música tocaria durante todo o período da novela (uns oito meses) de segunda a sábado no horário mais cobiçado de toda a mídia brasileira e em posição de destaque. Era simplesmente impossível um artista ter a sua música como trilha da novela das oito e não estourar naquele ano. Era garantia de venda de milhares de discos (tanto o álbum do artista quanto a coletânea da novela) e a reboque centenas de shows naquele ano.

Eu mesmo vivi isso de certa maneira. Para quem lembra, um grupo de mulheres criado por Nelson Motta chamado “As Frenéticas” fez um estrondoso sucesso em 1978 quando a música “Dancing Days” foi tema da novela de mesmo nome. Para se ter noção do tamanho deste sucesso, as Frenéticas tocavam em estádios lotados e eram presença constante no “Cassino do Chacrinha”, faziam shows em estádios e esta música é tocada até hoje em festas, e mesmo gerações que não viveram aquela época conhecem a música. Lulu Santos também a regravou recentemente. O sucesso passou e elas caíram em relativo esquecimento. Nesta época eu tinha apenas 10 anos de idade.

As Frenéticas sempre tiveram um ótimo relacionamento com pessoas influentes no show bussines. Uma delas era irmã da Marília Pêra, outra esposa de Chico Anísio, e todas elas amigas de Nelson Motta. Uma segunda chance foi dada a elas dez anos depois da primeira onda de sucesso. Qual foi o veículo? Trilha sonora da novela Feijão Maravilha.

Em 1991 eu tive o meu primeiro trabalho como profissional. Fui indicado por Robertinho de Recife. (Fica aqui um parêntese para uma homenagem: eu já era fã dele antes de ele me indicar para este trabalho. Na minha opinião, Robertinho é um dos maiores músicos e produtores musicais que este país já teve).

Reinaldo Arias, que era o arranjador contratado para aprontar o novo show das Frenéticas, pediu a Robertinho uma indicação de um guitarrista e eu, jovem cheio de sonhos e dúvidas, fui indicado. Imagine um cara com 23 anos indo tocar com uma galera que na época tinha por volta de 40 anos e todos profissionais de renome...

Fizemos shows durante um pouco mais de um ano, sendo que a estreia foi no teatro Rival, no centro do Rio, com uma temporada lotada todos os dias. As Frenéticas viviam a sua terceira onda de sucesso. Qual foi o caminho? Trilha de abertura da novela Perigosas Peruas. Esta pequena história que eu vivi dá para medir o poder que a televisão tem sobre uma carreira artística. Qual a pergunta que fica?

Quanto vale uma exposição em uma trilha de novela? Esta exposição faz vender milhares (talvez milhões) de discos, faz os contratantes comprarem o seu show e faz o artista ser reconhecido em todo o país. E isso gera muito dinheiro. A televisão sabe disso e vai cobrar uma boa quantia da gravadora para que determinado artista (e sua música) seja o tema da novela. É claro que existe um critério artístico para a escolha da música pelo diretor musical da emissora, mas mesmo assim é feita uma negociação.

Voltando então a pergunta inicial do texto: qual foi a mudança sutil na trilha de abertura das novelas, especialmente a das oito?

O espaço de abertura de novela das oito estava tão valioso, e ao mesmo tempo a crise fonográfica se apro-fundava, que se tornou inviável, mesmo para as gravadoras, arcar com os custos de colocar uma música como tema de uma novela das oito. A mudança sutil foi que as músicas-tema passaram a ser instrumentais, músicas antigas fora de catálogo, ou seja, algo que não tivesse impacto de vendas nos produtos atuais.

Com pulverização do poder das gravadoras, também se pulverizou a veiculação de programação musical nas emissoras. Existem programas destinados à música e eles normalmente apresentam várias atrações, o que é muito bom. Há mais espaço sim, mas não se iluda que é só chegar lá e entrar. E mais recentemente estão surgindo espaços na mídia para artistas desconhecidos nos moldes de “Reality Show”.

Este sim é o caminho que eu vejo que gera uma mudança interativa significativa entre mídia e artista. A emissora repassa ao artista uma parcela da responsabilidade pelo seu sucesso, pois em muitos programas é selecionada ou vence a banda que obtiver mais votação pela internet.

É claro que tanto o acesso quanto a votação podem ser forjados, e começaria a se cobrar uma quantia para a banda “ser selecionada pelos internautas”, mas nesse caso estaria se perdendo uma ótima ideia e retornaríamos ao ponto da trilha da novela das oito em que ninguém mais tem o dinheiro para pagar.

To be continued...