Leblon, primavera de 71. Tiro os quadros da parede, junto meus discos, guardo meus livros. Meu primeiro casamento estava acabado, eu estava sendo despejado e ainda por cima passava por uma dolorosíssima crise de cálculos renais. Tinha pensado em ir para casa de Torquato Neto e Ana, mas minha ex-mulher se adiantara e já estava lá. Eu ficara sem ter para onde ir a não ser a casa de papai e mamãe, o que me parecia o último fracasso. Mary, a empregada, sempre descolava um almoço, que mais tarde descobri que saía das mãos da empregada do vizinho. Isso explicava também os “milagres” que andavam acontecendo lá em casa: eram semanas, misteriosamente, com um mesmo e duradouro quilo de arroz e feijão até que eu conseguisse algum trocado, que nas mágicas mãos de Mary, conseguia a mesma longevidade misteriosa dos anteriores!
Na véspera, Torquato me emprestara uma graninha para gasolina da mudança. Eu tinha como último patrimônio um jipinho Gurgel, que me recusava a vender, e toda minha mudança cabia nele.
Naqueles tempos em que eu andava meio pirado - e duro - minha única diversão era caminhar pela praia, do Leblon ao Arpoador, pensando na vida e tentando manter minha sanidade em dia. Mas naquela exata manhã resolvi pegar o Gurgel e sair dando uma bola por Ipanema. Quando passava ali pela Praça da Paz, ouvi me chamarem. Olhei para a calçada e dei de cara com o Guarabyra. O Guarabyra!
— Você está indo para onde? – perguntou ele, como se percebesse a confusão dos meus pensamentos.
Falei das minhas desgraças e ele, como sempre, riu muito delas. A gente se conhecia desde 66, mas já havia algum tempo que não nos encontrávamos. Fomos andando pela praça e bastou um chopinho rápido para a velha amizade se colocar em dia.
— Escuta, Sá: você se lembra do Zé Trajano, jornalista, irmão da Maria, cantora?
— Claro.
— Pois é. Eu estou dividindo um apartamento com ele, a mulher dele e um outro jornalista, o Toninho Neves. Tem um quarto para o casal, outro para o Toninho e outro para mim. Leva uma cama para o meu quarto e vai se virando por lá até as coisas mudarem.
Não tive dúvidas em aceitar a oferta. A voltar para casa dos pais, na Tijuca, distante do meio musical, era evidente que eu preferia ficar no meio das coisas mais interessantes que com certeza rolariam nesse apartamento.
No dia seguinte, bem cedo, despedi-me de Mary, desolado, mas ao mesmo tempo animado pela perspectiva de um recomeço. Para dizer a verdade, parti meio que com medo: depois de alguns meses saindo de casa apenas para trabalhar - eu era programador da rádio JB e editava um caderno semanal de música no Correio da Manhã - não me achava muito capaz de ser boa companhia para ninguém. Eu dissera isso para o Guarabyra, mas ele insistira no convite, dizendo que todo mundo acharia ótima minha mudança para lá... Minha “mudança”! Caixotes de livros e discos, malas de roupas e uma cama incrivelmente estreita, emprestada por minha ex-cunhada. Uma cama à prova de sexo, em cima da qual era impossível rolar alguma coisa além de um sono precário e meio de lado. E lá me fui, Gurgel lotado e sem capota, rumo à Rua Alberto de Campos 111, apto. 1, um térreo antigo e espaçoso no miolo de uma Ipanema que naquela época ainda era um paraíso de malas-belas-artes.
Guarabyra e Toninho estavam na janela quando cheguei e tiveram ataques de risos com a finura da cama e a minha dificuldade em carregar a tralha mal arrumada:
— Cara, o que é que você faz com essa cama?
— Trouxe os pregos?
— Se você precisar dormir de bruços, pode usar a minha!
Tive que começar sozinho a colocar as coisas na casa, já que eles não conseguiam ficar em pé de tanto rir... Afinal, a cama foi entronizada no quarto do Guarabyra como uma imagem sagrada.
A vida no nosso esconderijo corria mais ou menos macia. Festas sempre que possível e tudo sempre que impossível. Guarabyra tinha um fusca e trabalhava na Globo, o que queria dizer que transporte e alimentação não eram problema. Eu passara a depender exclusivamente dele e do Toninho, já que resolvera perseguir a ilusória carreira musical e largara tanto a rádio quanto o jornal, começando um trabalho musical com meu amigo Zé Rodrix, que acabara de estourar com “Casa no Campo”. Para mim e para o Zé, o apê da Alberto de Campos revelou-se um lugar ideal para ensaiar e compor. Com o tempo, a frequência dos amigos aumentou, acho que graças a três coisas: a localização estratégica, entre a Farme de Amoedo e a então Montenegro, hoje Vinícius de Moraes, no coração do bochincho e ao mesmo tempo fora dele; nossa perene boa vontade em receber todos os tipos de intelectuais, aproveitadores, grandes papos, tietes, cineastas de van- e reta-guarda, artistas plásticos e metálicos, jovens atrizes e loucos de todo o gênero que grassavam no bairro por essa época; e finalmente pelo simples fato de que estávamos invariavelmente ou tocando e cantando nossas músicas ou ouvindo Leon Russel a toda altura que duas fantásticas caixas de concreto Wharfdale com falantes de 18 polegadas podiam aguentar. E - me acredite - elas aguentavam tudo! Aliás, nem mesmo o Trajano sabia como aquelas caixas tinham ido parar ali. Elas simplesmente faziam parte da locação.
Guarabyra era produtor artístico do Festival Internacional, mas apoiou o protesto dos compositores classificados da parte nacional contra a maligna censura que regia manu militari a MPB da época. Ficou em situação crítica e demitiu-se, o que deixou nossa renda doméstica seriamente enfraquecida e sem o principal sustentáculo da esbórnia diária. Toninho Neves assumiu solidária e imediatamente a condição de chefe da casa, uma vez que Trajano e sua mulher tinham tido o bom senso de mudar-se para longe dali. Toninho saía cedo para o jornal e deixava o “das compras” com a Marlene, nossa fiel funcionária. Apesar da dureza, tínhamos dois carros parados na porta: o fusca do Guarabyra, que dias mais tarde eu destruiria em uma esquina tijucana, e o meu bugue Gurgel, única paixão e orgulho material que me havia sobrado além de uma velha craviola de 12 cordas e da esbagaçada guitarra Sonic Giannini. O Gurgel! Branco, conversível, com uma frente de meter medo e um styling especial, ele tinha suspensão rebaixada, pneus largos e motor 1500. Era um monstrinho simpático que sempre atraía polícia para cima da gente. Com a nossa cara, em 71, isso já eram três quartos de fria.
Nossa casa tinha muito de happy hour. Todo fim de tarde pintava algum desgarrado por lá. Por exemplo, Júlio Hungria, crítico (ele recusava essa qualificação) do JB. Volta e meia lá chegava o Júlio, depois de um dia de redação, com cara de redação, roupa de redação e fisionomia redacional. Sentávamos eu, o Rodrix e o Guarabyra com ele e Mariozinho Rocha, outro habituê do nosso muquifo–chic, e nos enleávamos em música. Eles nos ouviam cantar nossas primeiras parcerias e falavam, entusiasmados, que éramos um trio e assim devíamos seguir. No começo da noite, Toninho trazia as últimas do dia e logo depois chegavam nossas meninas-candidatas-a-atriz: Leila Cravo, Bebel, Olguinha e Denise Dumont, falando dos últimos shows, de peças infantis que faziam e dos problemas com os diretores, começando suas carreiras com aquele brilho de I wanna be a star nos olhos. Era gostoso vê-las falar com incessante interesse nas mais abandonadas minúcias do meio teatral. A conversa subia, a temperatura também. Não demorava muito até que estivéssemos tocando e cantando a mil ou que as Wharfdale de 18 polegadas começassem a se arrepender de terem sido fabricadas e obrigadas a segurar o Delta Lady de Leon Russel no último volume.
Mas no meio dessa felicidade toda, em um belo dia, Ricardo Mattos - flautista e saxofonista do Grupo Faia - que namorava nossa inocente vizinha e usava nosso apê para suas ocultas tertúlias amorosas - chegou esbaforido:
- A mãe dela descobriu nosso namoro! E chamou o Nelson Duarte!
Nelson Duarte era um meganha televisivo idolatrado pela classe média “redentora” que se dedicava a invadir os lares alheios atrás de nós, jovens metidos com drogas, bebidas e som alto, e cortar nossas vastas cabeleiras, em troca de “pequenas doações” para o fundo sem fundo que segundo as más línguas ele teria criado em prol de si mesmo. Aparecia em programas de TV como um defensor de Deus, Pátria, Família e o que quer que fosse feito em nome disso naqueles áridos tempos de Ferrocracia.
Em pânico, compramos imediatamente umas três dúzias de cervejas e instalamos um Comitê de Resistência para decidir quão pouco tempo teríamos para sumir dali. Chegamos à sábia conclusão de que deveríamos voltar à casa de meus pais na Tijuca, onde gozaríamos de um duplo álibi: casa dos pais e Tijuca... O único problema é que teríamos os três de coabitar no meu quarto de solteiro. Mas isso ainda era melhor que ir em cana. E lá fomos, eu, Toninho e Guarabyra, morar na Tijuca, onde à noite dávamos boas gargalhadas olhando para a esquina onde eu tinha acabado com o Fusquinha. Quando, quarenta e oito horas depois, Nelson Duarte finalmente chegou à Alberto de Campos, só restavam as caixas Wharfdale e aquela minha cama fininha. As caixas - que nem o proprietário do apê sabia de quem eram - só não foram levadas por nós porque eram pesadas demais para uma fuga rápida. Mas minha cama fininha ficou lá e os canas devem ter boas risadas olhando para ela.
Diz o ditado: Depois da bonança sempre vem a tempestade. Só que a gente não estava nem aí para a tempestade. Vivíamos os maravilhosos, atordoantes, imprevisíveis e deliciosos anos 70.