EXTRA!
Michael Jackson
2009 - A morte do POP
Por Ticiano Paludo

Estava indo rumo à FACCAT (Faculdades Integradas de Taquara) e já passava das 18h quando o iPhone de um professor amigo informa que o Michael Jackson acabou de morrer!” Morrer? Como assim? Sem aviso? Imediatamente conectamos o iPhone dele à internet e saímos à cata de mais informações. Tudo permanecia nebuloso, as notícias ainda eram recentes e a confirmar. Foi assim que descobri que o Pop morreu!

Fiquei pensando se escreveria alguma coisa sobre isso ou se era melhor esperar um tempo para refletir. Devido a insistentes pedidos de várias pessoas, resolvi escrever este texto que você lê agora. Acho que nenhuma morte artística (e incluo aí Kurt Cobain, John Lennon e Elvis Presley) mexeu tanto comigo quando a de MJ. A pergunta que fica no ar é: o que essa morte realmente significa?

Tudo na vida de Michael Jackson foi over. Produzir um álbum da magnitude de “Thriller” parece mais uma maldição do que uma bênção. Quando conseguimos (e, sim, ele conseguiu!) produzir um álbum impecável que é reconhecido pela crítica e pelo público de forma praticamente unânime, o que se pode fazer depois? É um peso insustentável para qualquer mortal. Com o sucesso e a fama, vem muito dinheiro e dinheiro pode catalisar nossos demônios. Catalisaram os pesadelos dele. O que aconteceu com o Rei do Pop?

A morte de MJ sepulta definitivamente um padrão de construção e consumo mítico do mainstream musical. Possivelmente nunca voltaremos a ver um fenômeno desse tamanho. Li e vi várias coisas a respeito da morte dele e muita coisa impressiona. Por exemplo, o fato de no mesmo dia de sua morte, este episódio já figurar na Wikipedia (versão brasileira e americana). O Twitter travou. O mundo travou. Os noticiários não falavam de outra coisa. Acredito que essa perda sirva como ponto de reflexão para todos nós que trabalhamos na indústria musical.

Se você observar atentamente, MJ padeceu de um mal horrível: o foco de atenção se voltou cada vez mais para sua vida pessoal, bizarrices e comportamentos aparentemente incompreensíveis, do que para sua obra. Isso, amigo, é a pior coisa que pode acontecer a um artista. As gerações que virão a seguir terão disponível uma série de materiais sobre o artista e sua obra, mas, principalmente, sobre uma coisa que pouco interessa: o sensacionalismo em torno dele. Este sensacionalismo é alimentado por uma imprensa despreparada em tratar questões musicais e por um público extramusical sedento por fofocas. Não estou sendo moralista, apenas apontando um fato que é real. Coloque a mão na consciência e reflita.

Lidar com pressão excessiva não é fácil para ninguém. Alguns saem vitoriosos, outros não. Citando apenas um caso, Ike Turner costumava segurar a cabeça de Tina Turner e socá-la contra a parede exigindo que, acredite, ela cantasse melhor. Ela se libertou. Michael não conseguiu. O pai de MJ acompanhava os ensaios dos Jackson 5 com um cinto na mão. A dura infância de MJ foi o embrião para uma vida, a meu ver, de puro sofrimento e solidão. Claro que estou especulando um pouco, nunca bati um papo franco com ele, porém, não é difícil de imaginar como sua mente funcionava e aonde isso iria terminar.

Vários jovens hoje em dia podem considerar MJ muito mais um ser esquizoide, saído de uma história de terror ou ficção científica, do que um grande artista. No entanto, as revoluções que ele provocou no mercado musical deixarão marcas profundas para sempre. Ele inovou onde era possível e utilizou todos os recursos que o dinheiro pode pagar. Não vou ficar relatando cada caso, mas vale a pena comentar que quando algum artista vira “THE #1”, quando produz “O” álbum, quando cria, grava e lança “AS” canções, a cobrança por superação é imensa. Uma vez li uma entrevista com o Jack Endino na qual ele dizia que muitas bandas o procuravam para que ele produzisse e gerasse sucesso garantido, afinal, tinha trabalhado com o Nirvana. Talvez por uma questão de preservação, George Martin tenha se dado conta de que seu trabalho com os Beatles já era prova suficiente de competência, que sua missão como produtor musical já havia mais do que sido cumprida. Nesse momento de tristeza que a morte de MJ provocou em muita gente (e em mim, também) comecei a me lembrar do que senti quando ouvi o resultado de “Invinceble”. Como muita gente, comparei-o a “Thriller” e pensei: não ficou bom, ainda não é isso. Hoje, penso que ok, realmente não é um bom álbum, mas será que não estaríamos exigindo demais, não seria sobre-humano produzir um álbum melhor do que “Thriller”? Produzir hits (e já disse isso inúmeras vezes aqui na revista) não é nada fácil.

Acho que a vida de Michael Jackson foi uma vida marcada por uma busca que nunca chegou a lugar algum. Uma busca por paz, amor sincero e humanidade. Sua morte marca definitivamente o fim da década que o consagrou: os anos 80. Durante muito tempo, julguei que o som dessa década era cafona, assim como as calças “bag”, as pochetes, o reverb exagerado e mais uma tonelada de ícones desse tempo querido. Hoje, mais maduro e experiente, vejo que não era nada disso. Éramos muito felizes e foi uma década muito produtiva, com uma estética musical marcante, definida e influenciadora das gerações seguintes. Mais uma vez, o sonho acabou. Com essa perda, sentimos na pele quão frágeis são os seres humanos e como o mainstream seduz e destrói tal qual um furação impiedoso. A quantidade de piadinhas infames sobre a sexualidade ou tendências pedófilas relacionadas a ele que ouvi nos últimos dias é de impressionar. Esse assunto parece ser mais interessante ou render mais do que a rica obra desse grande artista que nos deixa. Acho que ele vivia em “Neverland” por ser o único refúgio aparentemente seguro que o acolhia pela eterna culpa imputada de ter produzido um dos maiores álbuns de todos os tempos. Para mim, a reflexão que vale nesse instante é a de que embora a maioria dos artistas sonhe com um estrelato do tamanho do dele, ninguém realmente está preparado para encarar o turbilhão de extras que vêm no pacote “fama mundial”. Realmente “Thriller” nunca foi superado. Por ele, e talvez por ninguém mais. Não é o bastante? Talvez o que ele mais desejasse fosse o amor simples e sincero de um único ser ao invés da cobrança e do amor fanático de todo um universo.

Pelo menos, em tempos de secondstream (em vez de mainstream), os novos artistas parecem seguir por um caminho mais saudável, menos fanático, mais pé no chão. E se você produziu uma obra genial e depois sentiu que a fonte secou, como diria o Rei: “you’re not alone”.