Opinião
Ricardo Mendes

Acabou-se
o que era doce...
Nos últimos 18 meses, escrevi, de acordo com a minha visão, sobre vários aspectos do que é viver de música. Especialmente focando no projeto de bandas

Na profissão da música temos vários campos. Podemos dar aula, tocar em barzinho, tocar em casamentos e formaturas, podemos ser músicos de estúdio, ou então proprietários do estúdio, fazer jingles, trilhas sonoras, ser arranjadores, críticos, produtores fonográficos, compositores, engenheiros de som, tocar em uma banda famosa, outra mais ou menos famosa ou outra nem um pouco famosa... Ou então ser um pouco de cada uma das opções acima.

Mas a conclusão a que eu cheguei após 20 anos vivendo de música e um ano de reflexão é esta:
Acabou-se o que era doce !!!

A visão glamourizada e romantizada da banda que é descoberta por um empresário e de repente está no topo das paradas de sucesso realmente não existe mais. Ou talvez ela nunca tenha existido na realidade. Todo reconhecimento profissional, seja em qual for o campo da música, só vem após muito esforço e ralação. Sorte existe? Acredito que sim. Pode ser mais fácil para uns do que para outros. Mas o fato é que a sorte só acontece de vez em quando e não dura para sempre. Se a sorte, que eu prefiro chamar de oportunidade, não for respaldada por um trabalho sólido, se vai e até esperar a próxima chance pode demorar um tempo considerável. Frequentemente um tempo de que não dispomos.

As bandas e artistas que se destacam hoje, quando despontam na mídia, dão a impressão de que apareceram da noite para o dia. Para quem não os conhecia sim, mas na verdade estes artistas já estão “correndo atrás” há anos.

Um exemplo real disso vivido por mim ontem: fui fazer o som para uma banda do ES – Silence Means Death em uma final nacional entre as melhores bandas de metal do Brasil para concorrer à final na Alemanha no maior festival de Metal do mundo, o W.O.A. É óbvio que o Silence Means Death será visto como a mais nova revelação do metal brasileiro, mas o fato é que eles já estão na estrada há 11 anos. A oportunidade só veio agora. O Silence vem construindo seu público neste tempo no ES, o que também garantiu a sua aprovação na seletiva regional, em que havia o voto popular junto com o do júri. Na seletiva nacional que não havia o voto popular (o que foi justo, por se tratarem de bandas de diferentes estados tocando no RJ. Se houvesse voto popular, as bandas de fora do RJ estariam em desvantagem), o Silence fez um show perfeito e cativou o público que ainda não o conhecia. E também os jurados. Levou a passagem para a Alemanha. Ou seja, abocanhou a oportunidade com a dentadura da competência.

É claro que existem outros caminhos além de um festival. No entanto não existe nenhum sem a ralação. O que determina o sucesso de uma banda é o número de pessoas que a conhece e gosta dela. Para gostar tem que conhecer. Neste caso a prioridade número um é fazer a banda ser conhecida. Em dez anos trabalhando como produtor fonográfico eu cheguei à conclusão que as duas etapas mais difíceis do processo de um disco são a primeira e a última. A primeira é compor. Sem isso não há nada que se possa fazer para um trabalho dar certo. E para compor bem tem que ter talento e muita ralação. Faz uma vez, não ficou bom, faz de novo, e refaz a letra, troca o refrão, e por aí vai. Tom Jobim já dizia que composição é 10% inspiração e 90% transpiração. Nada é mais importante do que ter boas músicas. Neste raciocínio não cabe a discussão de o que é música boa ou não. Isso é um outro assunto. Pode ser metal, funk, pagode ou sertanejo. Não importa o estilo. Tem que ser boa. Boa letra, boa melodia, boa ideia artística.

Já a outra parte difícil é justamente quando o disco fica pronto. E agora? O disco está pronto. O que vamos fazer? A divulgação também é uma parte extremamente complexa. As tecnologias mudam, os sistemas mudam, a cultura muda, a conjuntura social muda. Uma estratégia que deu certo cinco anos atrás pode não dar hoje... O fato é que o artista tem que fazer sua música chegar ao maior número de pessoas possível. O problema é que chegar ao maior número de pessoas possível demanda tempo e recursos financeiros e/ou humanos. Como nenhum recurso é ilimitado, temos que direcioná-los. Logo, refaz-se a frase acima: O artista tem que fazer a sua música chegar ao maior número de pessoas CERTAS possível. Obviamente não adianta despender esforço divulgando uma banda de metal em um nicho de pagode. O número de “balas” é limitado, então tem que mirar para acertar.

A divulgação de massa ainda é muito cara e nem todas as bandas dispõem de recursos para isso. Graças a certas evoluções tecnológicas temos a possibilidade de divulgar a um custo financeiro baixo, mas não se iluda: o custo financeiro pode ser baixo, mas o custo humano na ralação continua sendo alto.

Sempre que a banda for fazer um show, especialmente se for em uma condição melhor de som e luz, deve filmar para acumular material. Material este que será usado posteriormente para fazer um clip, um vídeo-release, postar no You Tube, My Space, mandar para programas, seletivas, concursos, contatos, etc. Ou seja, tem que ralar na logística de conseguir uma ou mais câmeras para filmar.

A banda tem que ter um material gravado com qualidade, pois o nível hoje é muito alto e uma gravaçãozinha tipo demo de fundo de quintal pode fechar uma porta que a princípio estaria aberta. Mas este material só terá uma boa qualidade se começar da maneira certa: com os músicos preparados para gravar. Pode ser o melhor engenheiro de som do mundo, que se a banda não tocar bem, nada vai acontecer.

A banda tem que se preocupar também com o show que vai fazer. As pessoas que não conhecem a banda irão formar sua opinião, e repassá-la ouvindo o CD, mas também vendo o show. É comum o comentário: aquela banda arrasa no show !!! Você tem que ver. E mais pessoas vão aos shows, mais pessoas compram o CD ou baixam as músicas na Internet e por aí vai.

Hoje as gravadoras não investem mais. Elas só pegam quem já está fazendo sucesso. E alguns deles, como Calypso, por exemplo, já ignora solenemente qualquer gravadora, pois descobriu que uma banda independente de sucesso ganha mais dinheiro do que uma banda de sucesso de gravadora.

O Glamour do artista que dá piti, quebra quarto de hotel e fica esperando o telefone tocar para que o manager avise quando será a próxima tournée em Nova Iorque só existe no passado ou em nosso imaginário. Carreiras artísticas bem sucedidas sempre foram administradas como se administra uma empresa, mas no passado o setor artístico e o comercial eram geridos por pessoas diferentes. Hoje, especialmente no início, na fase pré-sucesso, o artista tem que ser os dois. Tem que ser o “doidão” e o “pé no chão” ao mesmo tempo. Um novo dilema que se instaura é como o artista se envolve com a parte comercial e estratégia sem prejudicar a parte artística. Para compor bem, normalmente é preciso estar um pouco desprendido dos problemas cotidianos. No entanto, o total desprendimento que pode gerar obras maravilhosas dificulta a condução no processo estratégico de como canalizar esta produção. A figura do empresário sempre será necessária para a condução de uma carreira artística, mesmo que o empresário seja o próprio artista.

Tem que ralar para compor, tem que ralar para gravar, tem que ralar para distribuir, tem que ralar para divulgar, tem que ralar para conseguir agenda e tem que ralar para chegar ao ponto em que alguém rale para você. E mesmo assim tem que ficar de olho para que você não fique ralado.

Abraços!

e-mail para esta coluna:
jorgepescara@backstage.com.br