

O Teatro Municipal está recebendo de aniversário uma merecida reforma dos seus 100 anos de existência. Os melhoramentos e “up-grades” são necessários por razões artísticas e técnicas. Nenhum prédio dessa magnitude deveria ter se permitido tais maltratos, pois além de ícone cultural, é um dos símbolos da cidade do Rio de Janeiro. Qualquer prédio desse porte, com tanta história, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, demanda ser mantido sempre na sua melhor forma.
Na verdade todos os espaços de performance deveriam ser preservados e mantidos impecáveis. Todavia no mundo real nem sempre isso é possível. Não estou querendo aqui especular os motivos do abandono. Na verdade estou feliz de ver o Teatro Municipal restaurado a sua antiga glória, do chão de mámore às estátuas e pinturas românticas, do hall principal com candelabros de cristal aos lustres foliados a ouro, tudo sendo restaurado a sua beleza original. (fig 1) Mostrarei em duas partes, neste tour jornalístico, a mais alta tecnologia no mercado em controles de palco, sistemas automatizados de varas, e uma das melhores mesas de luz para teatro.



Se você nunca viu uma produção no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, aqui vão alguns fatos dimensionais para se considerar. A plateia tem uma ocupação de 2.361 poltronas (fig.2). O palco tem 22 metros de profundidade e 28 metros de largura incluindo a área de trabalho, backstage. (fig.3) A abertura do proscênio é de 16 metros de largura por 12 metros de altura, sendo que a altura do palco até a grelha, barras de suspensão no teto é de 42 metros.(fig4) Este é um imenso teatro criado para óperas, ballets, concertos e grande produções modernas de teatro musical.
Esse teatro tem grande importância para mim, faz parte da minha história, mudou minha vida como nenhum teatro no mundo. Em 1984 de férias no Rio, fui prestigiar um show beneficente em prol da companhia de Ópera que perdera todos os figurinos em um incêndio. Sentou-se do meu lado uma linda bailarina que, quatro anos depois, veio a tornar-se minha esposa. Ela é quem está traduzindo estas palavras me fazendo soar inteligente em Português.
Assim sou grato pela sua ajuda, como a de três pessoas que colaboraram com informações, o consultor da parte de acústica e cenotécnia, José Augusto Nepomuceno, o responsável pelo gerenciamento da obra, Eduardo Jaeger e Sandra Menezes da Assessoria de Comunicação do Teatro Municipal. Sem a assistência dessas pessoas eu teria apenas algumas lindas fotografias e poucos pensamentos para dividir com o leitor este mês. Vejam aqui uma resumida versão, quase que um “preview” da reforma tão merecida, que vai restaurar por muitos anos esse majestoso espaço de performance.
ACIMA E ABAIXO DO PALCO
Acima e abaixo do palco todos os motores serão controlados por um sistema novo da Waagner’Biro chamado CAT – Computer Aided Theater. Esse sistema é programado em uma mesa podendo ser operado de um controle central, um painel móvel ou “wireless” , por controle remoto. A mesa é equipada com uma tela, um programa de fácil utilização e um controle manual ou controle remoto, que permite a sincronização de movimentos ilimitados. Ou seja, pode-se mover simultaneamente qualquer coisa em qualquer combinação possível como motores de palco, varas, cenários, luzes, cortinas etc. O movimento de várias unidades ao mesmo tempo é de grande utilidade não só nos espetáculos, mas durante instalações, ensaios sendo muito eficiente para qualquer tamanho de show.
Cada um dos 41 motores instalados acima do palco pode mover em velocidades variadas de 0 a 1.2 metros por segundos com a total capacidade de 750 Kg por vara. Esse sistema extremamente silencioso opera com um nível de barulho abaixo de 40 dB a uma distância de 1.0 metro. E serão instalados a mais de 23 metros acima do palco garantindo que nunca serão ouvidos durante os espetáculos.
Existem abaixo do palco um total de 7 elevadores, “stage lifts”, que compõem o próprio palco. Os motores originais que elevam e abaixam esses segmentos de plataformas serão mantidos. Novos sistemas de sensores serão instalados aos elevadores ajudando o sistema CAT saber a exata posição de cada segmento em todos os momentos. Essa é uma tecnologia de ponta, de muita confiança (ambas mecânica e eletrônica) transformando o palco em um espaço ainda mais seguro para trabalho.
Uma reforma já agendada será em um dos dois elevadores na cochia do palco, é o “monta carga”, conhecido como elevador de animais. Não estou falando que o teatro pretende trazer animais de volta às produções. Mas durante anos foi usado para trazer cavalos e até elefantes em cena em produções como da Ópera Aída.
Após uma grande mudança que foi feita em 1934 o fosso da orquestra foi reduzido consideravelmente de tamanho. Essa reforma foi para trazer ar condicionado e mais 500 poltronas ao teatro, acomodando a passagem de tubos do sistema de ventilação para o auditório. O balaústre de mármore também foi substituído por um chão de madeira separando a orquestra da plateia. Na presente reforma a intenção é de restaurar o fosso da orquestra à sua profundidade original, já o balaústre de mármore ficará apenas em fotos como parte da história.
A cortina principal está sendo modificada saindo completamente dos olhos do público quando aberta, revelando todo o palco, mas também para melhorar questões acústicas. Isso era impossível com a cortina anterior que possuía uma abertura “Imperial”, ou seja, a parte central subia deixando as elegantes laterais penduradas, tocando o chão.
A instalação dessa nova cortina inflamável e com mais segurança para o público vai servir de moldura para um belíssimo mural, chamado pano de boca. Esse painel de Eliseu Visconti será montado na reconstruída “porta fogo” e terá uma iluminação toda especial. Este ficará iluminado até o começo da apresentação, sendo removido e ao mesmo tempo testado antes de cada espetáculo. (fig.5 e 5A)



Com o nível de tecnologia e complexidade do equipamento de controle, aumenta potencialmente o perigo quando usado por pessoa não qualificada. Um comando errado pode instantaneamente destruir um cenário ou matar alguém.
O gasto em treinamento técnico é obrigatório e se faz econômico quando pensamos não só na optimização do uso do equipamento e na agilidade em montagens, mas na questão do profissional ter conhecimento para alertar e previnir problemas de funcionamento. Segurança tem que ser prioridade máxima, especialmente quando se lidam com vidas e com produções internacionais!
ILUMINAÇÃO GERAL DE ARQUITETURA
O nosso tour particular começou nos motores e máquinas junto com os engenheiros no subsolo do teatro. (fig.6) Visitamos posteriormente diversas áreas e setores, finalizamos no teto perto do auditório e testemunhamos a restauração a mão livre dos belíssimos murais com detalhes em ouro. Cada centímetro da parede estava sendo restaurado e pintado, e em todos os cantos que visitamos havia pessoas trabalhando nesta incomensurável restauração. (fig.7)


Tudo nos foi mostrado em detalhes por Eduardo Jaeger, do chão de madeira que será refeito até as antigas cadeiras de couro substituídas por estofados em veludo para que sejam mais confortáveis e silenciosos durante apresentações. (fig.8)
No hall principal 20 luminárias irmãs de cristal já foram restauradas retornando a sua beleza original. Arandelas e luminárias foliadas a ouro estavam sendo polidas e retocadas. (fig.9 e 10) Luzes adicionais estão sendo projetadas cautelosamente para dar mais visibilidade a restauração de pinturas, vitrais e detalhes de modo geral no teatro. (fig.11 e 11A)

A iluminação de arquitetura é de Mônica Lobos, experiente em projetos do gênero, com a responsabilidade de encontrar soluções para o exterior e interior do prédio. Como por exemplo, a de aumentar a luminescência no interior do prédio usando os mesmos candelabros e luminárias existentes. Mônica usou a combinação de luz halógena, florescente compacta e a alta tecnologia em LED, inteligente escolha quanto ao consumo de energia. A iluminação de arquitetura não muda, mas sim o resultado de luminosidade. A reforma nas luminárias será de substituir toda a fiação para receber esse novo tratamento de lâmpadas. No total a restauração é um gigantesco trabalho requerendo dezenas de especialistas e técnicos em diversas áreas, além claro de trabalhadores e artesãos em geral. (fig.12)

Como qualquer construção centenária, o Teatro Municipal é uma surpresa a cada dia quando se conserta um chão, parede ou teto. Conrrige-se um problema para se descobrir um outro tão importante quanto o anterior. Como nos foi explicado, quase sempre o trabalho anda dois passos para frente e um para tras, e tudo acaba levando mais tempo do que foi originalmente planejado. Uma outra realidade dessa renovação é a parte que cabe ao patrimônio histórico e cultural no delicado equilíbrio entre preservar e modificar inserindo tecnologias de ponta.
Um exemplo mais objetivo é a sala de controle, muito pequena para acomodar as tecnologias de luz e som. Situada embaixo do balcão nobre, o pior lugar do teatro para se operar som, precisa objetivamente mudar de local. Com o projeto ainda parado para ser aprovado pelo órgão responsável, a questão da sala de controle acaba adiando outros trabalhos.

Detalhes são importantes para que o IPHAN, órgão responsável pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, responda e aprove as mudanças necessárias, tudo leva tempo até que se chegue a um consenso em que o principal ganhador será o público. Parece simples, mas nunca é tão simples quanto parece.
Tomei conhecimento de três projetos ainda na gaveta para a sala de controle. Tenho certeza de que os responsáveis vão encontrar uma solução mediadora entre forma e funcionalidade para que o teatro possa ter a sala de controle que merece.
ILUMINAÇÃO E SISTEMAS DE CONTROLE
O sistema de controle da mesa ETC Eos foi incorporado ao sistema existente de dimming e de distribuição do teatro. Essa mesa oferece ao designer a possibilidade de usar qualquer tipo de equipamento de luz existente no mercado. Ou seja, da iluminação convencional , a LED, moving light, color scrollers, máquinas de efeitos especiais e tudo que for inventado para o sistema DMX. Esta é a mesa da qual fiz um “preview” em Maio/Junho de 2008 no artigo sobre o Lincoln Center, uma das melhores para teatro, em que duas mesas ETC Eos foram usadas como “beta-tester” na produção do musical South Pacific.
A renovação dos equipamentos de iluminação cênica do Teatro Municipal foi feita com a consultoria de Peter Gasper pela Telem há quatro anos atrás, melhorando de forma geral a qualidade e quantidade dos instrumentos de iluminação. No mês de setembro traremos os detalhes continuando o assunto Teatro Municipal – Templo da Cultura - Parte II.