
A coluna desse mês fecha uma tríade que venho seguindo desde as duas edições anteriores. Portanto, se você não as leu, seria interessante que lesse para entender o sentido do todo
De fato, nesta coluna, proponho uma costura entre as colunas de junho/09 – edição nº175 (Digital Releases e Um olhar sobre Sgt. Peppers) e ainda sobre as colunas que publiquei em maio/07 (Ai que saudades do meu vinil) – edição nº150 e junho/07 (Álbum ou demo?) – edição nº151. A união dessas leituras vai ajudá-lo a compreender o que escreverei a seguir. No fundo, no fundo, estou falando sobre o fazer dos álbuns hoje.
A primeira inquietação que me move é a seguinte: ainda existem álbuns musicais? Talvez você, querido leitor, de pronto e imediato, pense internamente: mas claro que sim. E eu, de pronto e imediato colocarei uma pulga atrás de sua orelha: será? É o que veremos a seguir.
Vamos começar nossa análise pensando em álbuns primitivos. Como as coisas eram feitas lá na década de 50? Será que o artista já saía gravando um álbum full de cara? Se você conhece a história do mercado fonográfico, sabe que a resposta é “não!”. Naquele tempo, normalmente ao assinar um contrato com uma gravadora, o artista lançava um test-single, contendo entre duas e quatro faixas (como estamos falando de vinil, no primeiro caso, uma no lado A e outra no lado B, e no segundo caso, duas em cada lado). O critério de escolha era determinado por aquelas canções dentro do repertório do artista que tinham um maior potencial comercial. Entenda-se por isso aquelas que possuíam atributos pop característicos, ou seja: uma duração razoavelmente curta (digamos até 3 minutos de duração), um arranjo crescente e empolgante, uma forte identificação projetiva (o ouvinte se enxerga na canção, se identifica com os sentimentos passados pelo artista) e um refrão e riff grudentos de fácil assimilação. Após Sgt, Peppers (dos Beatles – comentado por mim anteriormente aqui na BS), o conceito de álbum mudou. Os álbuns passaram a ser verdadeiros tubos de ensaio, tendo como guide line estética e temática recorrente. O ordenamento das faixas, capa e tudo mais davam sustentação ao todo.
Pois bem. Nos anos 2000, surgiram inúmeros caminhos para que os adeptos da Internet trocassem diversos tipos de arquivos (e com a massificação e aceitação da compressão em formato MP3, diversos álbuns e discografias completas). A indústria fonográfica cometeu (e continua cometendo) um erro de foco terrível: tratar os consumidores de música como criminosos. Os conceitos passaram a se confundir e a entrar em uma nuvem nebulosa e caótica. Começando pelo termo “consumir”. Consumir, hoje, não significa necessariamente “pagar por”. Atualmente, simplesmente “ouvir” significa consumir. Outro equívoco é a pirataria. Pirata é aquele que produz cópias ilegais de material artístico e obtém lucro mediante venda ilegal (não pagando impostos e direitos autorais, além de comercialização clandestina). Se olharmos para comunidades em redes sociais (como a recentemente assassinada “Discografias” no Orkut, ou ainda nos diversos blogs que deixaram de ser diários virtuais para se converterem em provedores de conteúdo ilegal), veremos que ninguém ali está obtendo lucro com a venda de nada. Estão simplesmente distribuindo conteúdo, ou seja, em última análise, compartilhando e fazendo com que o material musical circule. Isto é prejudicial para nós que trabalhamos no mercado musical? Lógico que sim. Porém, aí começa o problema. A lógica de consumo mudou. Não adianta mais tapar o sol com a peneira e utilizar o caduco modelo de negócios que perdurou por décadas para a nova onda de consumidores digitais (em sua maioria, pessoas bem jovens e antenadas). Para eles, compartilhar é a palavra de ordem. Quem é artista sabe o esforço emocional e econômico que se empreende na elaboração de um álbum musical. Meses de pesquisa, custos de produção, planejamento e expectativa. Não estou aqui infantilmente bradando um “viva à pirataria”. Isso seria um tiro no próprio pé. O que ocorre é que não adianta mais querer ignorar a percepção do novo consumidor de música. Para ele, tudo que nos horroriza é banal e normal.
Elaborar e finalizar um álbum de sucesso não é tarefa fácil. O que significa um álbum de sucesso? Significa aquele que reuniu boas canções, teve uma boa produção, foi inventivo e gerou identificação com o público. As vendas são uma consequência lógica disso. Para não retroceder tanto e se dar conta de que a mudança foi rápida demais, há menos de duas décadas o lançamento de um álbum envolvia toda uma aura mágica que hoje, quer você goste ou não, desapareceu. O processo de produção e lançamento era mítico. Lembro-me de que no final dos anos 80 meu querido pai Antonio viajava constantemente para o exterior a trabalho. Na volta, ele me trazia revistas importadas, como a Guitar Player americana, por exemplo. Lá, pela primeira vez, li a respeito de um guitarrista chamado Joe Satriani. Não havia ainda a MTV, muito menos Internet, e menos ainda conexão de banda larga. Então, eu ficava lendo e relendo aquelas páginas, olhando para a foto dele que ilustrava a matéria e imaginando como deveria ser o som do Joe Satriani, como seria sua performance de palco, que timbres ele usaria. Muito tempo depois, alguém conseguia uma gravação do vinil. Uma gravação em fita K7. Então, finalmente, meses depois, eu podia matar a minha curiosidade. Eventualmente, com muita sorte, um vídeo poderia ser visto, cópias ruins de VHS, mas que já saciavam a nossa sede. Lembro quando assisti ao Rock’n’Roll Circus dos Stones em uma cópia da cópia da cópia cheia de falhas em VHS. Era incrível, mágico, sedutor.
Hoje os tempos são outros. O artista mal entrou em estúdio e o disco já vaza na web. A efemeridade crescente que marca a geração atual aniquilou todo esse processo que descrevi acima. De modo geral, não existem mais capas, não existe mais vinil, não existe sequer um CD. Falamos agora de zeros e uns, de áudio convertido em linguagem binária, que navega rápido pelas conexões de banda larga espalhadas pelo mundo todo e chega assim, frenético ao seu modem e ao seu HD. Sequer vemos os bits ou os MP3s. Milhares destes novos ouvintes baixam toneladas de material, muito do qual sequer será ouvido algum dia. E não pense que dentre esse material esquecido pelos cantos dos HDs não se encontram figuras carimbadas como Hendrix ou Mutantes. E nós, que vivemos de música, sobreviveremos a isso? A resposta é uma só: SIM!
Desde 2008, escrevo minha dissertação de mestrado justamente buscando a resposta (ou pelo menos vestígios) de como esse SIM pode ocorrer. Uma coisa é certa: criar mecanismos duros e punitivos e processar os ouvintes não resolverá em nada o problema, pelo contrário. Em muitos casos, o ouvinte simplesmente quer baixar o álbum para ver se gosta ou não. Depois, se realmente for seduzido, a consequente compra ocorre. Vários títulos estão sendo relançados em formato vinil ou ainda box sets comemorativos recheados de extras, outtakes e encartes luxuosos. Mas isso não é para todos. É para colecionadores que têm dinheiro (eles custam caro se pensarmos no poder aquisitivo geral da população). E essa não é a realidade do novo ouvinte. Muitos artistas (inclusive brasileiros) do mainstream estão abandonando as majors e vivenciando uma nova maneira de produzir e distribuir música. Faixas avulsas são lançadas, inclusive de forma gratuita e exclusivamente digital, isto é, em MP3. Isso não lhe diz nada? Para mim diz muito. Estamos, sem nos darmos conta, voltando aos singles dos anos 50. Uma das razões é a de que é mais fácil se concentrar na produção de poucas faixas isoladas do que em 10 ou 12 para compor um álbum full (do qual, muitas vezes, só se destacam essas duas ou três faixas, afinal, produzir 12 faixas perfeitas é bem complicado). O desenquadramento proporcionado pela conversão de tudo que existe (texto, imagem, som e vídeo) em mágicos zeros e uns digitais realmente mata o processo de sedução artista-ouvinte. Pensando assim, parece que o tradicional álbum que conhecíamos não existe mais. O que nós todos que lidamos com música devemos fazer é procurar novas formas de seduzir o consumidor de música. Uma delas é bem simples e ainda não foi feita por quase ninguém: conversar com esse novo ouvinte e entender o seu modo de perceber o mundo e a música. Ele vai nos dar as pistas para solucionarmos esta complicada equação que parece insolúvel e impossível de ser equilibrada.
Se antes era complexo porque a maioria dos artistas não dispunha de capital suficiente para sequer pensar em locar um bom estúdio e custear a produção de um bom álbum, agora, com a democratização dos meios de produção (entenda-se home studios que apresentam uma qualidade muito boa a um custo bem acessível), continua sendo difícil. A dificuldade não é a mesma, é outra. Ou seja, se era difícil no passado, continua difícil hoje. Vida de músico, embora muitos pensem o oposto, é uma batalha constante. Lutamos para sermos reconhecidos, para sermos amados e para não sermos esquecidos. Dia desses, assisti a um programa de TV em rede aberta que debochava, sem dó nem piedade, de Paulo Ricardo. Bateu em mim uma tristeza enorme ao ver um artista competente como ele ser ridicularizado em cadeia nacional. A mídia sempre foi cruel com os artistas. O artista só pode contar com duas coisas: consigo mesmo e com o seu público. O resto é o resto. Em momentos de prosperidade, mãos se estendem para acariciar. Em seguida, as mesmas mãos se transmutam, os punhos se fecham e batem sem dó nem piedade. Não assumo aqui a função de carpideira. Precisamos ser ainda mais fortes, mais corajosos e ousados para que possamos seguir em frente. Embora enfrentemos todas as dificuldades que mencionei na coluna desse mês, o público continua querendo (cada vez mais) ouvir música. A música nunca foi tão amada. O seu consumo comercial é que está sendo posto em xeque. Você se enganou se acreditou que eu teria a solução mágica para isso. Todos nós queimamos diariamente as pestanas procurando as respostas que continuam ainda obscuras. De um modo geral, a cultura nunca deixou de ser um bem de consumo de luxo. Colecionar discografias físicas não é para qualquer um. Talvez voltemos a vender milhões de cópias. Para que isso ocorra, um novo modelo de negócio deve ser cuidadosamente pensado. Uma coisa é certa: trate seu ouvinte com todo o carinho do mundo. Precisamos urgentemente voltar a seduzi-lo. Comercialmente falando (entenda-se venda), não estamos sendo felizes nesse quesito. Talvez, dando-lhe a liberdade de ouvir primeiro e pagar depois, parando de tratá-lo como culpado pelos nossos problemas e encarando-o como um aliado essencial à nossa existência, possamos encontrar a luz que tanto almejamos no fim do túnel musical. Este túnel é longo e espinhoso. Aqueles que acreditarem na sua arte, que não desistirem de sua carreira, que se empenharem em produzir trabalhos realmente relevantes e bem acabados, esses com certeza poderão contar aos netos como desenvolveram um poder de sedução capaz de reconquistar o público e fazê-lo voltar a ter real interesse por possuir suas obras musicais. O álbum não está morto. Está se reconfigurando e talvez em breve volte ao seu estado natural de conjunto de fonogramas enquadrados por uma guide line conceitual sólida. Por fim, eu amo a minha profissão de produtor musical, amo os artistas, técnicos e o público. Sei que não estou sozinho. O que precisamos é de mais união na cadeia produtiva e distribuidora de arte, mais diálogo entre todos os atores sociais envolvidos (e o público nesse caso é o “artista” principal) e menos queixas e pânicos. Pânicos, sacaram a sutileza?
Abraços e até a próxima coluna.
| e-mail para esta coluna: ticiano.paludo@gmail.com |
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