Um passeio antropológico pela música
POR CLAUDIA CAVALLO
E O CONSOLE Vi6 DA SOUNDCRAFT

No dia 08 de maio de 2009, aconteceu em Porto Alegre (RS) o Atlântida Festival que é promovido pela Atlântida FM, uma das principais rádios jovens afiliada da Rede Globo de Comunicação. O festival aconteceu no pavilhão de eventos da FIERGS (que é um lugar bem grande e de difícil sonorização) e reuniu os artistas Claus e Vanessa, Strike, NX Zero, Capital Inicial, Charlie Brown Jr., Reação em Cadeia, Fresno e Armandinho, em uma verdadeira maratona sonora.
Comecei esta matéria na passagem de som com o objetivo de conhecer o novo e fascinante console digital Soundcraft Vi6 que estava ligado em um sistema de caixas JBL Vertec. Conversei com o Conrado Rüther, especialista em produtos e suporte técnico da Royal Pro Audio, que mostrou a mesa e explicou alguns pontos bem importantes, “trata-se de uma mesa que pode ser usada tanto em PA ou como monitor. Possui 64 canais e 35 saídas, expansível até 96 canais (nada mal, lembrando que os Beatles dispunham de 4 canais). Para citar apenas uma credencial, foi a mesa utilizada na última edição das Olimpíadas”.

Voltando às especificações básicas, além dos tradicionais faders que toda mesa tem, diversos parâmetros são controlados por tecnologia touchscreen, o que além de muito interessante, facilita a vida. É possível criar “cenas musicais”, uma por música ou ainda várias dentro de uma mesma música. Uma cena pode ser entendida como um preset de todos os parâmetros da mesa (ou aqueles que você carrega ao rodar seus plug-ins preferidos). Ao mudarmos de cena, todos os parâmetros (incluindo os faders de volume) se ajustam automaticamente ao que foi preestabelecido. Esta automação ainda é estática (diferente de um Pro Tools em que os faders movem-se de forma gradual), mas confessemos que no frigir dos ovos não faz falta nenhuma se comparado a faders móveis. Funciona como se cada cena fosse uma fotografia da mesa. Rapidamente, passamos de uma foto a outra. Resumindo, a Vi6 permite criar, editar e modificar as cenas musicais de forma intuitiva, rápida e segura.
Este recurso é vital tanto para shows musicais como para broadcast ou peças teatrais, por exemplo.
O objetivo nessa visita (além de conhecer a mesa) era observar a relação entre o equipamento e as pessoas, uma espécie de viagem antropológica musical. Assim sendo, foi observada a reação dos técnicos ao primeiro contato com a Vi6 e a Royal Pro-Audio estava lá para dar todo o suporte necessário. O resultado é que em pouco tempo os técnicos perdiam o medo inicial e rapidamente conseguiam dominar o console. Um rápido treinamento foi mais do que suficiente: “O pessoal chega meio acuado, mas em cinco minutos já acha o caminho das pedras e vai”, disse Conrado.
A sonorização exige agilidade e velocidade. A Vi6 possui um software gratuito – Virtual Vi – que permite a edição das cenas de forma extremamente versátil, seja em casa ou dentro de um voo, utilizando um notebook com o Virtual Vi6 instalado. As seções (cenas) ficam armazenadas na mesa e podem ser transferidas via pen-drive para carregar os arquivos da mesa para o micro e vice-versa. Cada cena pode ser nomeada conforme a vontade do técnico ou ainda a seção (conjunto geral de cenas) afinal, organização potencializa a agilidade. Para quem viaja em tours, as cenas podem ser pré-criadas para depois serem alinhadas com pequenos ajustes de acordo com cada ambiente em que os shows ocorrerem. Outro ponto interessante é que se no meio da tour mudar o técnico, o trabalho não é perdido. O sucessor pode aproveitar as cenas já montadas e seguir a partir delas.
Um dos diferenciais apontados refere-se à qualidade dos prés (e isso faz toda a diferença, seja ao vivo ou em estúdio) e dos efeitos da Lexicon (reverbs, delays, modulação), dentre outros. Ou seja, o profissional tem uma mesa e mais oito tipos de processadores de sinais de grande poder e eficácia em um único produto. Dentre alguns clientes que já adquiriram a Vi6 encontram-se a empresa de som e luz Lugphil (SC), a Rede Globo de Olinda (sendo utilizada como broadcast) e a Central de Eventos (SP).
O mais novo proprietário de uma Vi6, Luis Gonzaga, diretor da Lugphil, também conversou a respeito. A empresa, com sede em Santa Catarina, está no mercado há 14 anos e atende Paraná, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, área em que mais atua. Segundo Gonzaga existem dois tipos de clientes: o primeiro é o cliente técnico (constituído por técnicos, engenheiros de som e músicos); o segundo é o cliente comercial (quem paga, como empresas promotoras de eventos e espetáculos, por exemplo). Agradar aos dois públicos é uma tarefa complexa. Investimentos em bons equipamentos e em recursos humanos devem ser as premissas básicas para quem deseja prosperar no negócio. Um outro ponto importante é que, embora o cliente comercial seja vital (pois é ele que nos paga), o cliente técnico tem que ser tratado com o mesmo respeito, pois “quem deve ficar satisfeito é o nosso cliente, isto é, os técnicos e músicos e não necessariamente quem nos contratou para fazer o show”, explica Gonzaga.
Antigamente existia uma nítida separação entre o ao vivo e o estúdio; atualmente, embora ainda existam particularidades para cada caso, a lógica operacional e de pensamento começa a se aproximar. Isso ocorre, inclusive, com alguns softwares, como o Ableton Live, para citar um único exemplo. O processo todo segue um padrão dos dias atuais que não é exclusivo da música: tudo deve ser divertido, responsável e confiável. E a equipe técnica que estava ali com certeza se divertiu com a Vi6.
Shows ao vivo sempre geram ansiedade, e nessa hora o ideal é que as pessoas sintam-se confortáveis. E conforme Gonzaga aponta, “investimos bastante em recursos humanos. A relação humana é mais importante do que o equipamento”. E quando o equipamento catalisa essa relação, o resultado só pode ser bom. A Vi6 permite que o técnico não fique preocupado e tenha liberdade mental para pensar. Luizão, técnico de PA do Capital Inicial há três anos, ficou satisfeito com a Vi6. “A mesa é intuitiva e tem um layout bem claro. Os parâmetros são bem fáceis de serem acessados”, afirmou.
“No caso de festivais com muitos artistas, você praticamente não passa o som. Faz um check rápido e na hora ‘seja o que Deus quiser’. Então você precisa ter uma mesa prática, pois o profissional vai fazer trinta coisas ao mesmo tempo no início da apresentação. O ideal é acertar tudo já na primeira música, como se tivesse calmamente passado o som com a banda. E essa mesa é bem prática nesse sentido”, disse Luizão.
Outra questão que sempre gera problemas é a pressão sonora versus qualidade de áudio (principalmente no que se refere à voz). Conrado ressalta que a Vi6 “permite escutar, sentir e não ser agredido”. Traduzindo, temos graves de impacto, definição de médios e agudos que emocionam sem irritar o ouvinte comum. O Rappa, Capital Inicial e Leonardo já experimentaram esta característica da mesa. Este é outro ponto bacana: ela se mostra versátil para qualquer estilo, seja o popular do Leonardo ou o rock do NX Zero.
Aproveitamos a oportunidade para reencontrar Luizinho Mazzei, que reunido com os demais técnicos, conversaram sobre aquelas perguntas “desagradáveis” que o pessoal que opera a mesa de áudio nos shows escuta, como “você realmente sabe mexer nesses botões todos?”; “você me leva no camarim?”; “eles vão tocar aquela música?”; “a que horas começa o show?”.
Outra conversa foi sobre a falta de união do pessoal que trabalha com música. É preciso que haja mais união desses profissionais, para que todos aprendam uns com os outros, para o fortalecimento da profissão do setor do áudio, entre técnicos, operadores, engenheiros de som e produtores musicais.
No Atlântida Festival existiam pessoas humildes, competentes e que acreditam nessa ideia. Por fim, uma mensagem sobre a qual também falamos: a maioria do pessoal que estava ali trabalhando estudou muito para chegar no lugar em que está.
Ao final, uma massa de jovens invadiu a FIERGS e os shows foram bem executados por artistas, técnicos, público e a Soundcraft Vi6, o sistem Vertec.
E assim, perdi o medo de fazer matéria técnica.

Em minha primeira matéria técnica para a Revista Backstage, um verdadeiro desafio, vamos abordar na prática como funciona o console digital Vi6, da Soundcraft, no Atlântida Festival, no Sul do país, com uma visão mais sensível e não eminentemente técnica, além de falar sobre a postura dos profissionais do áudio em grandes festivais como este
Lista de Equipamentos
P.A.
· 01 console digital Soundcraft - Vi6
· 01 console digital Digico D-1
· 24 caixas line array JBL vertec modelo vt4888
· 24 subgraves EAW – modelo sb1000
· 08 amplificadores digitais Lab. Gruppen – modelo FP 7000
· 08 amplificadores digitais Lab. Gruppen – modelo FP10000.
· 08 amplificadores para subgrave Crown - modelo VZ-5000
· 01 processador digital Dolby Lake - modelo LP4D12
· 04 pré-valvulados Avalon (vt 737 e vt 747)
· 03 graficos equalizadores Klark Teknik DN 360
· 03 quadras compressores Klark Teknik DN 504
· 02 quadra gates Klark Teknik DN 5114
· 01 compressor valvulado dbx 566
· 02 multiefeitos Yamaha spx990
· 01 multiefeito tc eletrônic M2000
· 01 multiefeito Lexicon PCM 80
· 01 sistema de comunicação f.o.h - monitor RCF – modelo d1).
· 04 caixas de som KF 650 (front fil)

Monitor
· 01 console digital PM5D
· 01 console digital M7CL Yamaha
· 02 side fill, contendo: 04 caixas de som 3 vias EAW – KF850)  e 04 caixas de som subgrave EAW - sb850).
· 20 monitores 2 x 12’e driver EAW - SM400).
· 10 amplificadores Crown - modelo 3600/2400)
· 02 caixas de som para sub de bateria EAW - modelo sb850).
· 40 direct box Klark Teknic - modelo DN 414).
· 50 plataformas pantográficas com rodas

Back line:
· 02 baterias completas
· 02 sistemas de contrabaixo (Hartke System 01 cx 4x10”,
01 cx 1x18”), 02 amp. Contrabaixo GK 800 rb,04 ampl. de guitarra Marshall, modelo jcm900, 01 ampl. de guitarra (jazz chorus), 02 ampl. de guitarra (Fen der twin reverb)

José Luís Carrato, da banda NX Zero