CARMINA BURANA
REPORTAGEM (ILUMINAÇÃO) - FOTOS: WWW.COBERTURAFOTOGRAFICA.COM
Iluminação Profissional
Cerca de 150 participantes entre dois corais, músicos, cantores de ópera, bailarinos, professores e alunos da UFRJ, e profissionais da área artística e técnica não mediram esforços para que o espetáculo Carmina Burana fosse um grande sucesso

A obra emblemática do compositor Alemão Carl Orff (1895 – 1982), Carmina Burana, foi idealizada com a corajosa proposta do diretor musical e regente Ueslei Damasio Banus de reunir profissionais, professores e alunos nas diversas áreas de formação da UFRJ. Para fazer o projeto de iluminação deste espetáculo, foi convidado o lighting designer David Bosboom, que tem mais de três décadas de experiência em iluminação para teatro, ballet e shows na Broadway, além de conhecer o espaço alternativo Salão Leopoldo Miguês que está sendo restaurado pela Petrobras. O salão tem capacidade de receber 1500 pessoas sentadas, mas como poucos sabem, os prédios da Escola de Música na Rua do Passeio integram, merecidamente, o Corredor Cultural e foram tombados pelo Patrimônio Histórico Municipal desde1994.

O PROJETO, O ENSINO E A UNIVERSIDADE
Por ser uma proposta universitária e com poucos recursos, o projeto teve que contar com o apoio dos profissionais participantes e de algumas empresas como a Novalite que disponibilizou o que fosse necessário. Apesar de o espaço não ter varas de palco e ter um quadro de luz em condições duvidosas, David (já quase carioca) utilizou a terceira galeria para a colocação de seis torres de luz e opções em PAR LED por consumir menos energia. “Claro que sem o apoio da empresa de iluminação nada disso teria sido possível”, comenta David. Acostumado a trabalhar com mais antecedência David recebeu a resposta confirmando a licitação entre a Universidade e a empresa duas semanas antes da estreia. Steven Way, gerente de projetos da Novalite, filho de americano radicado no Brasil, agilizou todo o processo e a empresa ofereceu ao designer tudo aquilo que fosse preciso para a execução do seu primeiro design de iluminação no Brasil.
A iluminação de Carmina Burana começou com um “pre-setting” de luz, de “extremo bom gosto”, comentário do Diretor de Cena Caique Botkay. O design de David tinha padrões de “breakup” gobos na plateia inteira juntamente com um esfumaçado logo na entrada, dando uma sensação singular, saindo do real, entrando no mundo do imaginário, de Carmina Burana. A ideia do “pré-setting” surgiu, segundo David, como uma solução técnica eficiente pela dificuldade de controlar as luzes de plateia de seu console de luz. Em um teatro tradicional o iluminador tem em geral o controle das luzes da casa ou como sistema alternativo interfones de comunicação e assistentes. No Salão Leopoldo Miguês não existia nenhum desses recursos técnicos. Assim a melhor solução foi ser criativo e com uma luz de entrada especial para toda a plateia (chamada “house lights”), as pessoas puderam entrar no clima mais rapidamente e ao mesmo tempo o iluminador tinha o controle da luz desejado.
Como o palco era estreito demais, não cabendo todos os integrantes, David sugeriu um segundo palco adiante do palco original com uma plataforma entre os espaços. As cores usadas no palco principal foram cores “quentes”, laranjas, ambers, amarelos, e os figurinos seguiram a mesma orientação. O projeto consistia em quatro áreas distintas para iluminar, o palco principal para o coral de 60 vozes e os três cantores de ópera, a área dos músicos, a área dos bailarinos e a área do coral infantil no segundo balcão próximo ao palco.
As seis torres verticais foram montadas no terceiro andar do salão com a distância máxima chegando a uns 12 metros do palco. Nas torres foram distribuídos um total de 100 instrumentos de luz como PAR LED, elipsoidal, PAR convencional e 24 gobos para dar textura. Foram usados 60 canais para controlar os 48 dimmers, os PAR LEDs além de uma máquina de fumaça de controle DMX. Isso foi o suficiente para isolar quase completamente o 3º balcão, por questões de segurança.
Projetos como estes são grandes oportunidades para que todos os professores possam treinar os alunos quanto ao aspecto do desempenho, diz David. Essa troca constante entre profissionais de diferentes setores enriquece ainda mais essa experiência. Nos Estados Unidos os teatros universitários têm a mesma estrutura de qualquer teatro onde concertos, balés, ópera e shows ocorrem regularmente. São espaços alternativos, contrário à obrigatoriedade de gratuidade do Salão Leopoldo Miguês, o custo é pequeno para estudantes, mas cobrado para o público em geral. Neste tipo de apresentação todos os departamentos de “performing arts” trabalham juntos, teatro, dança, música, cenário, figurino e iluminação e funcionam como na vida real de uma produção.
Espetáculos têm a preocupação com a qualidade artística e técnica valorizando todas as artes sem distinção. O trabalho do designer de iluminação é tão respeitado quanto o de qualquer outro profissional e tudo é planejado com muita antecedência. Depois de discutido e aprovado o projeto com os diferentes setores e departamentos, ninguém pode arbitrariamente interferir no trabalho do outro, nem mesmo a diretoria da escola.
Tudo é muito positivo, pois alunos têm autonomia e a oportunidade de experimentar em um ambiente semiprofissional. Com respeito mútuo, aprendendo a trabalhar uns com os outros, com direito de experimentar e de errar. David comentou que, em sua primeira produção quando na Universidade de Long Island, no primeiro dia de encontro com a produção chegou 15 minutos atrasado, Lee Watson conceituado professor e lighting designer o demitiu do projeto sem perdão.
Isso se tornou uma grande lição, pois no projeto seguinte da faculdade e para o resto da vida chega sempre 15 minutos adiantado. Assim acha importante o trabalho em Universidades, pois ensina ao aluno como funciona o universo profissional. O projeto Carmina Burana da UFRJ foi uma experiência semelhante reunindo profissionais, professores e talentosos alunos. E não faltaram talentos entre alunos percussionistas, bailarinos e no coral. A aprovação do público foi total, e na opinião de David, o público continuará voltando nos próximos espetáculos se derem a eles a mesma qualidade artística de produção.


EQUIPE ARTÍSTICA
A equipe artística contou com a participação de Coro Polifonia Carioca, do próprio maestro Ueslei, do coro infantil da UFRJ, da maestrina Maria José Chevitarese e três profissionais de ópera vindos de fora do Estado, entre eles Licio Bruno, prêmio Carlos Gomes 2004.
Todos os movimentos em cena foram assinados pelo profissional Caíque Botkay e coreografados por quatro professores do Bacharelado de Dança da UFRJ, a orquestra era composta por dois pianos e instrumentos de percussão da qual participaram professores e um grupo de alunos da UFRJ.
Quem assistiu ao espetáculo viu o primeiro trabalho de design de David Bosboom e saiu encantado com a atmosfera criada.
Sempre envolvido e preocupado com a parte da educação, David recebeu na montagem a visita de alunos da ONG Espetáculo trazida pelo iluminador e designer Francisco Rocha.
A garotada saiu com uma cópia do design do espetáculo, uma vivência bacana, além de ter tido a oportunidade de conhecer melhor um profissional e o seu trabalho.

Em Carmina Burana, a montagem usa gobos para texturizar o primeiro palco com a dança. Na imagem, pode-se ver os três tablados utilizados no espetáculo
na universidade
Pre-setting: uma perspectiva geral do teatro a partir do palco
Iluminação da quarta área no balcão, onde ficou o coral infantil da UFRJ e, no palco, a solista Fernanda Ohara
Coral Polifonia Carioca, com 60 integrantes, o cantor lírico Licio Bruno, a cantora lírica Fernanda Ohara e cinco percussionistas, alunos da UFRJ