Endorsement
REPORTAGEM - CESAR CONTI
ENDORSER
e Endorsee
A prática do endorsement (endosso, apoio ou patrocínio) no mercado de instrumentos musicais no Brasil vem se distorcendo, na maioria das vezes, por culpa da grande quantidade de “bicões” que infestam o ramo. Isso acontece tanto do lado dos artistas quanto do lado das empresas, pelo desconhecimento dos direitos e deveres que devem ser cumpridos, por ambas as partes, para o bem da marca
A partir do momento em que um fabricante ou importador (endorser) se dispõe a fornecer um equipamento de trabalho a um profissional de música, áudio ou produção musical sem cobrar o valor de custo, espera-se uma contrapartida por parte deste profissional (endorsee).
Este retorno acontece em trabalhos fonográficos, shows ao vivo, gravações de DVDs, workshops e aulas, através da exposição da marca em meios de comunicação de massa como jornais, revistas especializadas e programas de TV. Claro, dependendo dos recursos que cada um disponha. Infelizmente, o que se vê, em alguns casos, é que o “camarada” tenta se autopromover a partir da marca que o patrocina, ao invés de ser um divulgador e colaborador da mesma.
O diretor de marketing de um grande fabricante de instrumentos musicais do Brasil me relatou um fato impressionante: Um desses “camaradas” foi até o seu estande em uma feira de instrumentos e, depois de não conseguir o tão sonhado patrocínio, disparou a seguinte pérola: “Então eu compro o instrumento e produzo, com dinheiro do meu bolso, fotos posando junto ao equipamento. Mas vou precisar que você coloque a minha foto na revista dizendo que sou seu endorsee”. Evidentemente, a proposta não foi aceita.
E a música? Onde fica dentro dessa história toda? Mozart, Beethoven, Bach, Vivaldi e tantos outros marcaram suas passagens pela História da Humanidade através da sua música. E eles eram endorsee de que marca de equipamentos? Tem gente que ainda pensa que, pelo fato de ser todo patrocinado, tal e qual um piloto de corridas, alguém vai achar que se trata de um excelente músico. O tempo que este sujeito gasta pensando em estratégias para conseguir instrumentos de graça poderia ser usado de forma mais produtiva para ele mesmo. Estudando e praticando em seu próprio instrumento, por exemplo. É claro que todos nós temos o direito de sonhar e desejar um equipamento de qualidade, ou aquele igual ao de um profissional que admiramos. Mas não devemos nos esquecer de que, por melhor e mais bonito que seja o instrumento, sempre será preciso alguém para tirar um bom som dele.
Ao mesmo tempo, vemos pessoas trabalhando nas empresas sem entender absolutamente nada do que acontece no mundo da música, nem mesmo dos produtos que a própria empresa dispõe. Pessoas que têm o poder de decidir quem vai compor o time de artistas patrocinados. Muitas vezes, os amigos, vizinhos e colegas de sua banda de garagem são privilegiados pelos critérios adotados por eles. Por isso, vemos tantos nomes da música brasileira, músicos extraordinários com uma extensa discografia, renomados internacionalmente, sem apoio de nenhuma marca de instrumentos, enquanto um monte de “quem-é-esse-cara?” está sendo patrocinado por várias delas, tentando ficar famoso às custas de suas fotos nas revistas...
Todos os grandes fabricantes de instrumentos e acessórios mundialmente conhecidos lançam mão deste recurso. O profissional da música é um trabalhador que convive diariamente com seu instrumento, acompanha as evoluções tecnológicas, a fabricação e concepção de novos equipamentos e matérias-primas inovadoras na construção desses equipamentos. Ele, em seu trabalho, tem necessidades cada vez mais rigorosas e impulsiona a indústria a pesquisar e se desenvolver, ou seja, a evoluir. Ninguém melhor do que ele pode dizer que rumo esta evolução deve tomar. Essas empresas sabem disso e mantêm um time de profissionais formadores de opinião desenvolvendo, utilizando e divulgando seus produtos. Esta relação, que necessariamente tem que existir entre patrocinador e patrocinado, é extremamente saudável para o mercado.
Já existem empresas brasileiras com esta consciência e contendo em suas folhas de pagamento músicos e profissionais de áudio que trabalham em função de suas marcas, prestando consultoria técnica e desenvolvendo produtos. Felizmente, uma postura bem diferente daquela imaginada pelo “camarada” da feira de instrumentos.
A meu ver, existem dois fatores fundamentais para que esta relação profissional se estabeleça: o primeiro é a identificação do músico com o equipamento que ele pretende representar. Ele deve usar o instrumento porque gosta de sua sonoridade, confia em sua qualidade e sabe que, com ele, terá os melhores resultados na execução de seu trabalho. Por outro lado, a empresa tem que ver nesse profissional a seriedade com que ele deseja encarar o desafio de ser um divulgador, e as propostas e contribuições que ele pode oferecer em benefício da marca. Enfim, o endorsement tem que ser interessante tanto para o endorser quanto para o endorsee.