O quarto álbum de estúdio da banda capitaneada pelo renomado baterista Aquiles Priester está saindo do forno. Conversamos com Aquiles e alguns integrantes da banda, com o engenheiro de som do grupo, Adair Daufembach, e com o dono do estúdio Magic Place, de Florianópolis-SC, Renato Pimentel, para saber um pouco mais sobre o processo de gravação e produção, além dos equipamentos utilizados.
Buscando um ambiente confortável em que todos possam dar o melhor de si, a banda optou por fazer uma gravação um pouco diferente da usual. Após gravarem a bateria, seguiram para um sítio, acompanhados de todo o equipamento da unidade móvel do estúdio Daufembach, onde puderam ficar 24 horas por dia concentrados no trabalho.
A gravação da bateria de Aquiles foi feita no supracitado Magic Place, de Florianópolis. Segundo Renato Pimentel, a Interface utilizada foi a firewire Konnekt48, da TC Electronicos, e os microfones foram praticamente todos Audio Technica. Nos tons, foram os mini-condensers AT PRO 35; nos surdos 16” e 18”, os dinâmicos AT MB 6k (por responderem mais pesados que os condensers nessas peças); e dois dinâmicos AT 35K na caixa (em cima e embaixo). Nos bumbos foram utilizados dois AE 2500, um microfone Dual Element que possui dois microfones em um mesmo corpo, um dinâmico e outro condensador. Nos dois hi-hats (14” e 15”) foram usados dois condensers de diafragma pequeno AT4021, enquanto nos rides foram utilizados microfones de diafragma pequeno AKG C371. Cerca de 1 metro acima do enorme kit da bateria estava um par de condensers AE3000 e, na frente da bateria, a uma distância aproximada de 5,5 m, posicionados na altura dos bumbos, dois microfones valvulados AT3060, que garantiram a captação da resposta sonora da bateria na sala de 165 m3 do estúdio The Magic Place.
Segundo exigência do próprio Aquiles, todas as peças “dobradas” (ex: grupos de toms, bumbos, pratos) seguiram a mesma corrente de equipamentos, ou seja, os mesmos prés para cada grupo. Os tons foram gravados com os prés ingleses e valvulados da TL Audio, com exceção do tom de 8”, que passou por um Solo 610 da Universal Audio. O surdo de 18” foi gravado em um Focusrite, os (dois) rides e os overs foram gravados através dos quatro prés Impact TC Electronic, e os hi-hats em um Joemeek.
Já os dois bumbos foram gravados em dois prés DIY (Do It Yourself) feitos por Renato Pimentel com peças e orientação de Fabio Bauman, da Canil Pro-Audio, um projeto baseado no clássico “pré- roqueiro” API 312. Para a caixa, utilizou-se outro DIY, o Papaya Strip, da Stella Custom Electronics CA, feito exclusivamente para o estúdio pelo californiano Charles Stella, que além de fazer equipamentos por encomenda para os grandes estúdios americanos, gravou, produziu e trabalhou com artistas como Norah Jones e Cindy Lauper.
No estúdio The Magic Place a interface é ligada em um Apple G5 rodando Logic Audio. Mas para a gravação da bateria, todo o sistema foi plugado no PC do engenheiro de som Adair Daufembach rodando o Sony Vegas.
Na segunda fase de gravação, o engenheiro Adair Daufembach levou para o “retiro” parte do equipamento de seu estúdio, a interface firewire Motu 896 HD ligada a um PC Intel Core 2 Quad, rodando o software Cubase, da Steinberg. Foi nesta fase da gravação que foi gravado todo o restante dos instrumentos. O baixista Nando Mello utilizou seu baixo Signature Power Bass Ledur NM, equipado com captadores Seymor Duncan ASB5, em duas vias, uma em linha ligado no pré Universal Audio Solo/610 Classic Tube e indo direto para a interface, outra passando pelo Meteoro B52 Tube Amp com caixa 410BS, microfonada por um Audio Technica AE3000. Um baixolão Takamine EG512C foi utilizado nas mesmas vias, segundo o próprio Nando.
Eduardo Martinez usou nas gravações sua guitarra Martinvader Ledur Signature EMF, equipada com captadores Seymor Duncan Blackhawks AHB-1(Ativos) plugada em um amp Meteoro MAK3000, microfonada pelo mesmo Audio Technica AE3000, e também passando pelo pré Universal Audio Solo/610 Classic Tube. O violão Takamine foi captado pelo mesmo microfone.
Durante as gravações também foram usadas uma pedaleira de baixo Zoom B2.1u, uma de guitarra Zoom G2.1u, cabos circuit breaker da Planet Waves e cordas D’addario.
Os teclados foram feitos pelo Fábio em seu home estúdio com um Korg Triton Extreme Valveforce e um Tokai TX-5. As vozes do novo vocalista da banda, o experiente Humberto Sobrinho, foram gravadas com um microfone Audio Technica AT 3060 Tube direto na interface.
A mixagem foi feita pelo respeitado Tommy Newton, na Alemanha, que já trabalhou com Helloween, Gamma Ray, Conception e outros artistas de grande porte do estilo.
ENTREVISTA
BACKSTAGE: É muito interessante essa questão de a banda se isolar em um sítio com o equipamento de gravação para se dedicar integralmente ao álbum. Gostaria que vocês comentassem como este processo ajudou na qualidade do trabalho e falassem sobre as peculiaridades e curiosidades do período que passaram lá.
Eduardo Martinez: O envolvimento 24 horas com o processo de gravação foi um reflexo do que tem sido o envolvimento da gente com o Hangar e com este CD. Estas músicas são a nossa vida, aconteceram, surgiram e foram produzidas em uma situação que envolvia toda a nossa rotina como pessoas também. As vidas privadas e o profissionalismo se misturavam e eram postos à prova diariamente. Isso, em minha opinião, é o que faz a composição ter profundidade e sentido. A pressão em termos de prazo e expectativas só foi suportável porque, a cada dia, ininterruptamente, uma etapa de gravação era vencida. Enquanto uma parte era gravada, um arranjo, uma ideia, uma letra ou uma nova música inteira estava sendo trabalhada no mesmo ambiente, sem falar da manutenção da casa, alimentação, limpeza, suprimentos. A concentração e o foco no resultado tornaram-se totais. O “laboratório de convivência” foi também uma boa preparação para a tour que, com certeza, será a mais longa até hoje. Pudemos nos atualizar e (re)conhecer bem as loucuras de cada um nessa fase.
Aquiles Priester: A ideia inicial foi do Fábio Laguna. Ele sempre quis compor um disco em um lugar reservado, onde só tivéssemos que nos preocupar com a música. Posso garantir que agora, mais do que nunca, realmente somos uma banda. A banda existe há quase 12 anos e, desta vez, fomos surpreendidos por atitudes e situações completamente diferentes de tudo o que já havíamos vivido.
Quando se está compondo um disco e passando pelo processo de gravação, todo mundo fica muito mais exposto e sensível, e isso pode se transformar em um grande problema se as pessoas não tiverem maturidade para saber a hora certa de ir além ou recuar quando está buscando alguma coisa. Estive envolvido durante 100% do processo de composição e gravação desse disco e quando estava produzindo meus companheiros, eu precisava separar o Aquiles baterista e integrante do Hangar do Aquiles produtor. Todos na banda entenderam isso e nós nos respeitamos, dentro da forma que criamos para trabalhar. Esta superação pode ser facilmente percebida nesse disco.
Adair Daufembach: Acredito que essa dedicação exclusiva foi o grande diferencial do trabalho, resultando em um excelente álbum em termos técnicos e musicais, com certeza. Em relação à parte técnica, permitiu-me experimentar muito e tomar todos os cuidados com a timbragem e gravação de cada instrumento sem restrições de tempo. Como todos estavam ali em tempo integral, podíamos estender as sessões, fazer e refazer tudo até que o resultado fosse o desejado. Isso é algo que nem sempre é possível no mundo das gravações, em que o tempo vale ouro. E no caso do Hangar é uma situação mais difícil ainda, pois são músicos renomados e envolvidos com diversas atividades. Pode-se dizer que foi realmente uma situação muito específica, e por isso resultou neste excelente álbum. O outro grande benefício dessa “gravação-retiro” foi a intimidade que eu adquiri com a banda. Quem trabalha com gravações sabe o quanto ajuda você poder falar abertamente com o músico que está sendo gravado. Os músicos do Hangar são grandes pessoas e de qualquer forma seria fácil trabalhar com eles, mas, com a intimidade, o trabalho se tornou mais fácil e fez todos nós ultrapassarmos nossos limites.
BACKSTAGE: Ainda sobre essa incursão da unidade móvel do estúdio, Adair, gostaria de saber se o local tinha alguma acústica preparada. Se não, gostaria que você comentasse os impasses técnicos para gravar e como você contornou essas eventuais dificuldades de se gravar fora de um estúdio.
Adair Daufembach: O local onde fizemos a gravação era uma casa na qual já havia uma sala de ensaio com tratamento acústico e um quarto. Eu optei por fazer a sala de monitoração nessa sala de ensaio e a sala de gravação no quarto, que não tinha qualquer tratamento acústico. Antes de começar as gravações, eu estava realmente preocupado, pois ia gravar um CD muito importante e a técnica estaria em um ambiente cujo som eu não estava acostumado, e isso poderia me levar a tomar decisões erradas. Então, optei por fazer a técnica nessa “sala de ensaio”, porque ali era o ambiente da casa com a acústica mais próxima da ideal, e seria mais fácil “afinar” o ambiente caso fosse necessário. As placas de tratamento acústico nas paredes ajudaram muito a evitar ressonâncias indesejáveis, bem como o pé direito elevado da sala, mas ainda assim tive que fazer algumas correções com materiais simples como cobertores e colchões. Por exemplo, na gravação do baixo eu tinha que colocar um cobertor a mais ou menos 1 m de altura e a uns 2 m de distância dos monitores, pois algumas notas do baixo entravam em ressonância com o ambiente e dificultavam a análise da afinação do baixo. No quarto sem tratamento não houve problemas quanto à microfonação das guitarras e dos baixos, pois ambos foram gravados com microfones bem próximos aos falantes e eu não costumo usar microfones ambientes para gravar esses instrumentos mesmo no meu estúdio (em bandas de metal). Então, o único tratamento necessário foi a colocação de espumas ao redor de ambos os gabinetes para evitar sobras indesejáveis em pausas e notas curtas. O maior problema foi na captação das vozes, pois era necessário matar todas as reflexões dentro da sala e isolar ao máximo o vazamento de sons externos. Para isso, em todas as sessões de voz eu deixava o máximo de objetos dentro da sala para evitar reflexões paralelas e fazer com que o som refletisse em superfícies de diferentes materiais. Até as malas do pessoal eu fazia questão de deixar dentro do quarto. Na frente e dos lados do Humberto eu utilizava colchões, formando uma espécie de cabine. Essa foi a maior dificuldade, acusticamente falando, mas no final não houve nenhum vazamento indesejável nos vocais. Com certeza, este trabalho foi uma grande experiência, pois apesar de já ter feito algumas gravações ao vivo e ter me deslocado para fazer “gravações externas”, você sempre se depara com problemas novos e é necessário improvisar. Mas como se sabe, gravar é a arte de improvisar constantemente.



BACKSTAGE: Aquiles, como está sendo para a banda o trabalho do novo vocalista, Humberto Sobrinho, e o que ele trouxe à sonoridade da banda? E o que mudou do disco anterior, TROYC (The Reason Of Your Conviction), para o novo álbum em termos de sonoridade da banda e de gravação?
Aquiles Priester: Como tínhamos prazo estipulado pela gravadora da Europa, iniciamos o processo de composição ainda sem ter o novo vocalista. Mais de 150 candidatos enviaram material e fizemos audição em um estúdio em São Paulo com 15 deles. O Humberto foi o único a ir para o estúdio/sítio na segunda etapa das composições. Na primeira etapa criamos nove músicas e, depois do intervalo de 15 dias, retornamos ao sítio para finalizar as músicas e refizemos boa parte da estrutura e dos arranjos de seis das nove músicas iniciais. O Humberto chegou nessa parte do processo e nós precisávamos ter certeza de que ele era a pessoa certa para trabalhar com a banda, pois, como vocalista, a gente já sabia que ele era capaz. Na verdade, não precisávamos de um vocalista, precisávamos de um integrante que entendesse a filosofia do Hangar, que consiste em fazer tudo o que for necessário para suprir as necessidades da banda. Esse disco é completamente extremo, pois temos músicas muito mais acessíveis que tivemos no TROYC, assim como músicas muito mais rápidas e técnicas também. Sobre o Humberto, posso dizer que foi uma grande surpresa vê-lo interpretar e criar algumas ideias para esse disco de forma tão peculiar. Tenho certeza de que as pessoas vão se perguntar quantos vocalistas há nessa banda, tamanha a diferença de suas interpretações. Sobre as músicas antigas, o Humberto também consegue com excelência passear por todos os estilos e ainda acrescentar sua personalidade. Posso dizer sem receios que ele é o cantor mais versátil que já conheci.
BACKSTAGE: Tommy Newton, como é trabalhar com uma banda brasileira de metal que traz tanta musicalidade sem soar menos pesada?
Tommy Newton: Eu já trabalhei com muitas bandas diferentes e diversos estilos musicais, mas trabalhar com o Hangar, especialmente com o Aquiles, que eu posso chamar de “orquestra de um homem só”, é um desafio inacreditável. Eu sou perfeccionista e sempre quero tudo soando limpo e dinâmico, e o Aquiles toca com tantos pequenos detalhes que mixá-lo é um processo um tanto complexo, especialmente porque ele se lembra de cada pequeno detalhe do que ele tocou e quer ouvir. Ele fala, por exemplo, “no compasso 212 eu toquei duas notas no hi-hat que eu não estou conseguindo ouvir perfeitamente como eu quero, então precisamos trazer isso para frente”. O que estou tentando dizer é que não é simples ter todos esses detalhes sem perder a energia inicial, e trabalhando nesses detalhes precisamos nos lembrar de não perder a sonoridade do todo e que essa é uma banda de metal.
BACKSTAGE: Como é mixar e masterizar um álbum em que há tanta pressão em cima das baterias?
Tommy Newton: Quando começo a levantar uma mixagem é basicamente o mesmo procedimento. Eu penso que é como construir uma casa. Você começa com o chão, que nesse caso é a bateria, sendo que no caso do Aquiles é mais para construir um castelo. Você tem coisas acontecendo na bateria do Aquiles suficientes para duas bandas! Isso significa que cada instrumento no kit de bateria, como o bumbo, a caixa, os tons etc, precisam estar exatamente no espaço delas. De outra maneira, as frequências vão se atropelar de tal forma que você vai acabar no meio de um caos lamacento. Não há espaço para erros, senão não vai soar limpo e forte.
O baixo, nesse caso, é relativamente fácil. Trabalhar com guitarras distorcidas não é tão fácil porque quando começa o processo de masterização elas tendem a sair do seu lugar. Então você tem que ser muito cuidadoso com a equalização, especialmente se o objetivo é uma masterização com muito volume. Eu costumava realizar essa “loucura de volume” fazendo as masterizações com o máximo de volume possível, mas hoje em dia eu prefiro não ir por esse caminho. Soa mais dinâmico e musical, e no final é uma audição muito melhor, não cansa os ouvidos. Se você quiser que soe alto, aumente o volume! Sobre equipamentos, uso workstation de masterização Sadie 5, conversor Apogee Rosetta 200, plug-ins da Oxford e um pouco de talento. (Risos).
Fica a expectativa do lançamento do álbum, um dos poucos trabalhos do estilo ousadamente produzidos no Brasil.
