Luciano Freitas é profissional de áudio, fez curso de piano erudito, Full Mastering no Füller Studios (Miami). É técnico em áudio na Pro Studio Americana e foi professor de teclado no Conservatório Musical Joelson Vieira.
FACE A FACE
com a interface
Graças à democratização da gravação e produção musical nos últimos anos, juntamente com os tópicos abordados nos e-mails que recebo dos leitores da Backstage, é inegável afirmar que temas que para alguns profissionais do áudio com anos de carreira parecem ser tolos, para a maioria dos iniciantes nesta área tornam-se vitais como suporte para a futura aquisição de um equipamento

Esse fator torna-se totalmente relevante aos comerciantes de equipamento de áudio que cada vez mais sentem a procura por esses produtos. Ter uma vitrine repleta de pré-amplificadores e microfones lendários sustenta o ego de qualquer vendedor, porém, com as mudanças cada vez mais sentidas no comportamento do público-consumidor em busca de produtos com atrativa relação custo x benefício e tendo certeza do estreitamento da diferença de qualidade existente entre equipamentos baratos e de alto valor agregado, sendo difícil afirmar que tal produto é ruim, é necessário aos comerciantes que querem sobreviver nesta área abrir seus olhos para essa tendência natural.
Um dos produtos que proporcionam maior número de dúvidas no momento da sua aquisição são as interfaces de áudio. Já no primeiro momento surge o questionamento entre adquirir uma placa ou uma interface de áudio. Para que possamos seguir em nossa abordagem entendamos como placas de áudios os dispositivos que são instalados dentro do gabinete do computador, seja através de conexões PCI, PCIe ou PCMCIA (nos laptops), sendo fixos ou removíveis, que possuem apenas entradas de áudio com sinal de linha ou digitais e muitas vezes conexões midi. Classifiquemos então como interfaces de áudio os equipamentos que são montados externamente do gabinete do computador, comunicando-se com estes através de cabos com conectores USB (1.0 ou 2.0), Firewire (400 ou 800) e em raras exceções placas PCI (caso da DIGI 001 da empresa Digidesign), sendo a maioria desses equipamentos dotados de canais com pré-amplificadores embutidos, sendo necessário apenas conectar os microfones diretamente em suas entradas para iniciar uma gravação.
Outro questionamento que muitas vezes torna-se certo é sobre a possibilidade de utilizar a placa on-board do computador (aquelas presentes na placa-mãe) para gravação de áudio. Serve? Se eu disser que não, estaria em parte mentindo. Porém, se você é uma pessoa que busca realizar um trabalho sério, ficará rapidamente descontente com os resultados obtidos. A grande maioria das placas on-board possui conversores analógicos e digitais de baixa qualidade, suficiente para ouvir o som dos jogos ou de arquivos MP3, porém, ineficiente quando se necessita manter a integridade do áudio, gerando uma sonoridade “áspera” aos nossos ouvidos. As limitações continuam na quantidade de canais de entradas simultâneas (apenas duas, impossibilitando a gravação de uma bateria acústica ou outro instrumento de captação mais complexa), na grande latência (atraso no processamento do áudio) e nos constantes erros de sincronismo.
Então, se será inevitável o investimento, qual interface devo comprar?
Existem várias perguntas que devem ser feitas nesse momento na tentativa de escolher o modelo que mais se aproxima das necessidades.
Um item primordial é a quantidade de entradas e saídas simultâneas necessárias. Se a necessidade é gravar uma bateria acústica, no mínimo serão necessários 4 canais simultâneos de entrada (bumbo, caixa, over heads direito e esquerdo). Se a necessidade é gravar uma banda simultaneamente, pense no mínimo em 16 canais simultâneos de entrada. O importante é não chegar a ponto de dizer: “Se tivesse mais canais, teria captado aquele instrumento também”. Existem casos em que aparece a dúvida da necessidade atual perante o futuro próximo. Neste caso, opte por uma interface que te proporcione expansão. Alguns modelos simples como a interface Inspire da empresa Presonus, que permite a gravação de 4 canais simultaneamente, sendo dois com pré-amplificadores, permitem um encadeamento de unidades em um mesmo computador. Ainda nesse exemplo, através do multidrive é possível a utilização simultânea de 4 unidades, ou seja, 16 canais simultâneos. Para quem pensa em gravar uma banda, a Presonus permite o encadeamento de 3 unidades para seus modelos Fire Studio Project (proporcionando 24 canais pré-amplificados) e Fire Studio Tube (proporcionando 30 canais pré-amplificados mais 18 canais de linha simultaneamente). Outros fabricantes oferecem entradas digitais, principalmente no formato Adat Lightpipe, o qual recebe e envia 8 canais simultâneos (com amostragens de até 48 kHz/24 bits) através de um único cabo (neste caso é necessária a aquisição de pré-amplificadores que possuam saídas de áudio nesse protocolo). Este também é o momento para pensar nas conexões de saída de áudio. A maioria das interfaces possui saídas dedicadas para monitoração, com fácil acesso ao seu volume, porém, se você pensa em mixar em sorround serão necessários no mínimo 6 canais para monitorar em 5.1. Pense também na hipótese de diferentes mandadas de monitoração para diferentes músicos (principalmente em aplicações ao vivo) e a disponibilidade de um software gerenciador de conexões (patch bay virtual) para evitar aquele “conecta-desconecta” que acaba com os conectores.
Outro detalhe a ser verificado no momento da aquisição é conectividade da interface. A maioria dos computadores atuais é equipada com portas que acomodam grande quantidade de opções. No início do ano 2000, o protocolo Firewire (IEEE 1394), utilizado atualmente pela interface DIGI 003, da empresa Digidesign, emergiu como um poderoso formato de comunicação entre dois ou mais dispositivos. Igualmente rápido, o protocolo USB 2.0 suporta comunicação multicanal e atualmente é encontrado em diversas interfaces (caso da interface Fast Track Ultra 8R, da empresa M-Audio). Talvez a grande vantagem das interfaces 2.0 seja a popularização desse protocolo, já que praticamente todos os computadores fabricados nos últimos anos possuem essa conexão (Firewire é padrão nos computadores da Apple, e nos PC´s pode ser adicionada com placas PCI, nos desktops, e cartões PCMCIA, nos Laptops, ambas encontradas pelo preço médio de R$100,00 cada). Não esquecendo que o protocolo USB 1.0 também é utilizado em interfaces de áudio, porém, em interfaces com 2 canais de entrada e saída. Sabendo que a tecnologia não para de evoluir, devemos estar cientes que novos protocolos aparecerão, aumentando a velocidade de transferência de dados entre dois ou mais dispositivos (exemplo é o prometido USB Super Speed 3.0, com velocidades de até 4,8 GB por segundo). Outros protocolos que devemos destacar são os utilizados pelas placas de áudio (PCI e PCIe). As especificações do protocolo PCI demonstram capacidade de transferência de dados de até 133 MB por segundo em um barramento de 33 mHz, com fluxo de dados independente entre a CPU e periféricos de alta velocidade. Já as placas PCIe (ou PCI express) utilizam os mesmos conceitos de programação utilizados em dispositivos PCI, porém, baseiam-se em um protocolo de comunicações completamente diferente e muito mais rápido (este protocolo permite comunicação de 250 MB até 4.000 MB por segundo). Alguns fabricantes de placas de áudio com conexões PCI estão lançando versões das mesmas com protocolo PCIe (caso da popular Delta 1010, da empresa M-Audio). Outro protocolo, porém pouco explorado, são as placas de áudio com protocolo PCMCIA (aquele slot dos notebooks que muitos nem sabem para que serve). A principal fabricante de placas nesse protocolo é a RME, porém há poucos meses a Apogee (empresa respeitada pela construção de conversores considerados padrão do mercado de áudio) resolveu criar uma versão do sistema “Symphony” nesse formato, o qual permite comunicação de 32 canais simultâneos de entrada e saída quando utilizados com conversores das linhas Rosetta ou X, oferecendo baixíssima latência de 1,6 ms em 96 kHz/24 Bits (sistema apenas disponível para operar com laptops da Apple).
Pensando também no conjunto, é importante levar em consideração o programa de gravação (software) que se pretende usar. Embora a maioria dos softwares atuais ofereça versões que trabalham tanto em computadores Mac quanto em PC, é necessário ter certeza para proceder na escolha correta. Um exemplo pode ser dado quanto às interfaces “Duet” e “Ensemble” da empresa Apogee. Essas interfaces foram projetadas com a colaboração da Apple, apenas funcionando na plataforma dessa empresa, sendo otimizadas para funcionar com o software Logic (segundo o fabricante para assegurar a estabilidade do sistema). Ou seja, não é possível utilizar o software Sonar (da empresa Cakewalk, o qual possui apenas versão para PC) ou Sound Forge (da Sony) com uma dessas duas interfaces. A outra face da moeda é mostrada nas interfaces da E-Mu (estas não funcionam com computadores da Apple).
Outro quesito que também não pode ser esquecido, e certamente faz diferença é a presença de conexões midi (para comunicação com teclados, módulos de sons, baterias eletrônicas e até sincronismo com outros equipamentos) e da amostragem máxima suportada pela unidade. Se você pretende gravar um disco demo, como chamam por aí, uma placa que opera em 44 kHz/24 Bits é mais do que suficiente. Já se você pretende produzir áudio para as mídias que estão se firmando como atuais (DVD Audio e principalmente o Blu-Ray) você precisa de uma interface que opere em 96 ou 192 kHz. Talvez essa diferença seja pouco notada em um disco de rock, com diversas guitarras distorcidas, porém, na gravação de uma orquestra a diferença é totalmente aparente.


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INSTRUMENTOS - LUCIANO FREITAS